Estratégias para ensinar categorização em crianças com TEA

natalia aggio

Fonte;: https://www.inspiradospeloautismo.com.br/a-abordagem/atividades-interativas-para-pessoas-com-autismo/

Ultimamente tem crescido muito no Brasil a quantidade de intervenções voltadas para crianças autistas. Esse aumento se deve, em parte, ao grande corpo de investigações experimentais que embasam essas intervenções. E é sobre uma dessas que vamos falar neste post.

Daniela M. Ribeiro, Rayssa S. T. Cavalcante, Maria T. S. Bandeira, Ana Carolina Sella e Caio F. Miguel testaram um procedimento para identificar se o ensino de tato[1] seria suficiente para observar a emergência de dois outros repertórios: categorização e comportamentos de ouvinte. Participaram quatro crianças com TEA. Foram utilizados nove cartões em que estavam impressos a figura de três cães de caça, três de trabalho e três de estimação (um cão em cada cartão).

O pesquisadores começaram testando os comportamentos de categorização, de ouvinte e de tato das crianças em relação às categorias definidas pelo experimentador (cães de caça, de trabalho e de estimação). Em todos os pré-teste o experimentador mostrava uma figuras de cada vez enquanto as outras oito estavam sobre a mesa. No pré-teste de categorização dizia “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?”. No pré-teste de nomeação e categorização dizia “O que é isso? Você pode me dar os outros?”  Por fim, nos testes de ouvinte dizia “Você pode me dar o (cão de caça/cão de trabalho/cão de estimação)?” Nesses pré-testes ele verificaram que nenhuma das crianças conseguiu responder corretamente. Ou seja, elas não sabiam nomear, escolher ou juntar os cartões de acordo com as três categorias propostas. Então as crianças eram ensinadas a nomear cada uma das figuras, de acordo com a categoria à que pertenciam. Esse era o treino de tato. Quando os pré-testes foram refeitos (agora com nome de pós-teste) observou-se que todas as crianças passaram a ser capazes de responder corretamente. Ou seja,  os repertórios de categorização e de ouvinte emergiram, sem treino explícito.

Você pode pensar, se eu aprendi a nomear os cães 1, 2 e 3 como cães de caça e depois alguém me mostrar um deles e disse “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?” ou me perguntar “O que é isso? Você pode me dar os outros?”, é óbvio que eu vou saber responder. Acontece que quando vamos pensar no desenvolvimento de intervenções, não podemos deduzir que nada é óbvio. Essas são habilidades diferentes. Então não é possível assumir que elas vão emergir naturalmente. É preciso pesquisar e investigar! Os autores discutem que esse pode ser um procedimento promissor para ensinar novos repertórios para pessoas com TEA, uma vez que é econômico (o ensino de um repertório proporcionou a emergência de outros dois) e também que mais pesquisas ainda são necessárias sobre esse assunto.

Ficou curioso? Não deixe de ler o artigo na íntegra: Ribeiro, D. M., Cavalcante, R. S. T., Bandeira, M. T. S., Sella, A. C., & Miguel, C. F. (2018). Efeitos do ensino do tato na emergência da categorização em crianças com Transtorno do Espectro Autista.  Acta Comportamentalia, 26 (1), 71-91.

Postado por Natalia M. Aggio, pos-doutoranda do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista Capes.
[1] Ver o post https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2016/12/02/ga-ga-ooh-la-la-lady-gaga-musica-e-o-ensino-dos-operantes-verbais/ para definição de operantes verbais

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É apenas uma piada?

julio 28.09

 

Pesquisadores investigam como o humor racial é capaz de disseminar o preconceito contra negros

No dia 30 de junho, durante o jogo de quartas de final da Copa do Mundo entre França e Argentina, o youtuber e influenciador digital Júlio Cocielo se tornou alvo de críticas ao postar um comentário considerado racista no Twitter: “Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein”, comentou Cocielo após um dos gols do jovem atacante francês, que é negro. Não tardou para que o comentário se tornasse uma polêmica de grande proporção, alavancada por inúmeras pessoas que se sentiram ofendidas pelo youtuber. Cocielo tentou se defender dizendo que se referiu somente à velocidade do jogador, mas a desculpa não colou diante da divulgação de diversos outros comentários e piadas racistas postadas por ele ao longo dos últimos 8 anos. Além da retaliação pública, o comentário pôs em xeque as parcerias comerciais do youtuber, tornando incerto o futuro de sua carreira. O assunto dividiu opiniões, com diversas pessoas apontando que os comentários de Cocielo ajudavam a propagar o preconceito contra pessoas negras e, outras tantas, ponderando a situação com o argumento de que as críticas se tratavam de uma vigilância extrema sobre o “politicamente correto”.

De que forma piadas racistas, como as postadas por Cocielo, podem afetar seu público e ajudar a disseminar expressões subsequentes de preconceito racial? Tal questão é de extrema relevância, principalmente se considerarmos que a maior parte da audiência do youtuber (que possui mais de 16 milhões de inscritos em seu canal, o CanalCanalha) é formada por crianças e adolescentes. Em um artigo publicado no início de 2018 no periódico científico Humor (International Journal of Humor Research), o grupo de pesquisa liderado pelo professor Donald Saucier, da Kansas State University, traz resultados bastante interessantes para pensarmos sobre essa questão.

Em uma série de três estudos realizados tanto presencialmente (n = 273), quanto via formulários online (n = 158), os pesquisadores observaram que, após ouvirem ou lerem piadas consideradas de humor racial, os participantes tenderam a avaliar pessoas negras de forma predominantemente negativa, viés que não foi observado quando os participantes ouviam ou liam piadas consideradas neutras em termos raciais. Tal avaliação era feita por meio de escalas de 1 (“discordo totalmente”) a 7 (“concordo totalmente”) nas quais os participantes deviam selecionar quão acuradamente certos estereótipos descreviam pessoas negras. Ao todo, o instrumento continha dez estereótipos, sendo parte hostis/negativos (e.g., preguiçosas, agressivas) e parte benevolentes/positivos (e.g., atléticas, divertidas).

Para surpresa dos pesquisadores, os resultados foram semelhantes tanto quando a piada era claramente depreciativa (“Qual é o melhor lugar para se proteger o dinheiro de um assaltante negro? Dentro dos livros!”), quanto nas situações em que o intuito inicial da piada era confrontar o pensamento preconceituoso (“Do que é chamado o cara negro que leva um avião de um aeroporto? De piloto, seu racista desgraçado!”). A hipótese inicial era de que o humor racial confrontativo pudesse reduzir a expressão do preconceito contra negros, ao deixar claro a inadequação social de tais atitudes. Segundo os autores, o resultado inesperado se deveu ao fato de que mais do que a metade de todos os participantes que ouviram ou leram a piada confrontativa a avaliaram, ao final do estudo, como dirigida, de forma depreciativa, aos negros e não ao interlocutor/pensamento racista como era previsto inicialmente. Interpretada de tal forma, a piada confrontativa teve o mesmo efeito que a piada depreciativa, enviesando negativamente a avaliação feita pelos participantes. A conclusão foi corroborada pela redução do viés racial negativo observada na (menor) parte dos participantes que demonstraram ter interpretado de forma adequada a piada confrontativa.

Saucier e seus colaboradores discutem que a literatura sobre humor tem considerado o uso de piadas depreciativas como uma espécie de “espada” utilizada para atacar indivíduos e grupos sociais com base em sua aparência, vinculação política, raça, religião e gênero. No caso do humor racial, piadas depreciativas podem ser um veículo para disseminação de ideias preconceituosas, valores e julgamentos sobre as pessoas negras, com o intuito de estigmatizá-las e marginalizá-las. E justamente por ter como defesa o argumento de se tratarem de “apenas piadas”, sátiras depreciativas podem ser uma forma de expressar o preconceito racial sem incitar reações negativas da audiência. Com isso, cria-se um contexto no qual outras formas de expressão de preconceito sejam feitas mais livremente. A esperança dos autores era de que o humor confrontativo pudesse ser utilizado como uma forma de “escudo” para combater o preconceito racial. Os resultados os levam a recomendar cautela na utilização de piadas confrontativas, uma vez que, a depender da interpretação feita pelo público, o tiro pode sair pela culatra e ajudar a perpetuar o preconceito racial e o estigma contra pessoas negras em vigor na sociedade.

No dia 4 de julho, o youtuber Júlio Cocielo fez um vídeo pedindo desculpas pelo ocorrido e voltou a dizer que sua intenção não foi ofender ninguém e que só estava se referindo à velocidade do jogador francês. O estudo de Saucier e colaboradores demonstra que o youtuber ou qualquer outro influenciador digital deve ter muito cuidado com suas palavras e com o impacto que suas declarações e piadas podem ter sobre o público, mesmo que a intenção original seja a melhor possível.

Quer saber mais?

Saucier, D. A., Strain, M. L., Miller, S. S., O’Dea, C. J., & Fill, D. F. (2018). “What do you call a Black guy who flies a plane?”: The effects and understanding of disparagement and confrontational racial humor. Humor: International Journal of Humor Research, 31(1), online.

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

TEMOS LIBERDADE PARA ESCOLHER?

gulherme

Assim como o personagem Neo no filme Matrix, o determinismo ou a ideia de que não temos controle ou escolha sobre o que acontece na nossa vida causa incômodo em muita gente. Mas afinal, há espaço para liberdade de escolhas dentro das ciências do comportamento? Para alguns autores, sim. Mas para responder isso, primeiro precisamos definir o que entendemos por liberdade.

No behaviorismo radical, apenas alguns significados de liberdade são rejeitados. Por exemplo, há um relativo consenso em relação a não haver espaço para a liberdade no sentido de uma ausência total de controle. Alguns analistas do comportamento se dedicaram a esse tema em uma tentativa de articular significados da palavra liberdade que são consistentes com a teoria

Talvez um dos analistas do comportamento mais influentes tenha sido Skinner, que por meio da observação das condições em que o termo é utilizado, chegou a conclusão de que ele é mais comumente utilizado em condições onde não há controle aversivo imediato do comportamento ou quando se relaciona a ausência de controle comportamental por reforço positivo em situações com consequências aversivas no médio ou longo prazo. Uma de suas principais críticas ao que ele chama de “literatura da liberdade” é que ela dá ênfase a liberdade no sentido de ausência de controle aversivo imediato, enquanto ignoram o controle aversivo presente nas situações reforçadoras mas com consequências aversivas a médio ou longo prazo. A consequência disso é a produção de “sentimentos de liberdade” que reduzem a probabilidade de contra-controle, criando indivíduos que não identificam as fontes do controle aversivo. Portanto, de maneira geral para Skinner, as condições que caracterizam liberdade são aquelas nas quais não há contingências de controle aversivo, sejam elas reforço negativo ou punição, imediatas ou tardias.

Apesar da grande influência de Skinner, existem concepções alternativas a sua teoria, especificamente de Baum (2017), Catania (1980) e Goldiamond (1965, 1974/2002, 1975a, 1975b, 1976) que não são necessariamente contrárias a ela, mas complementares. Essas concepções são igualmente críticas dos conceitos de liberdade como ausência total de controle e tem um aspecto em comum: Relacionam liberdade com a possibilidade de escolha.

Em poucas palavras, para Baum (2017), além da concepção de ausência imediata de consequências aversivas como em Skinner, existem dois outros significados para liberdade. A liberdade espiritual, que se refere à libertação de uma prisão espiritual e a uma necessidade de desconexão com prazeres mundanos. Para pessoas com um grande repertório de autocontrole e que seguem a prática de uma vida mais simples e altruísta, esse estilo de vida acaba por proporcionar reforçadores positivos atrasados, pois, as consequências advindas dele acabam sendo reforçadoras em algum momento. E finalmente, uma liberdade social ou política, na qual liberdade seria poder ter escolhas sem ser punido por fazê-las.

Para Catania (1980, 1997), escolha implica na disponibilidade de alternativas. Entretanto, após identificar essas conexões, ele enfatiza a possibilidade de investigar experimentalmente o quanto os organismos em geral preferem condições com alternativas ao invés de condições com uma só possibilidade. Colocando esses experimentos em prática, ele descobriu que quando parâmetros reforçadores nas duas condições são os mesmos ou quando há um reforço maior (em tempo ou magnitude) na alternativa de livre escolha, os sujeitos demonstram uma preferência por condições de livre escolha. Por outro lado, quando as condições de livre escolha fornecem reforçadores menores que nas condições de escolha forçada, os sujeitos abrem mão da escolha livre.

Já Goldiamond apresenta uma conceituação de liberdade ampla e bem detalhada que infelizmente é pouco conhecida. Além da possibilidade de escolha, o autor considera que liberdade também deve envolver escolhas genuínas. Essas escolhas seriam aquelas em que as contingências alternativas sejam igualmente possíveis. Por exemplo, não adiantaria se ter muitos trabalhos disponíveis se o sujeito não tem acesso a adquirir as habilidades necessárias para realizar esses trabalhos. Além disso, em 1965, ele conceituou coerção (termo que está muito ligado com liberdade) de uma maneira mais específica, como sendo caracterizada tanto pela criticidade das consequências que controlam a escolha do comportamento (por exemplo, consequências muito críticas seriam não passar fome ou ter liberdade condicional, caso preso), quanto pelos tipos de condições que fazem dessas consequências críticas (como torturas ou mesmo se comportar de acordo com as prescrições para se curar de alguma doença).

Além disso, considerava que liberdade e coerção não são estados absolutos e, em outras palavras, uma pessoa pode ser mais livre ou mais sujeita a coerção que outra.
Conforme sua teoria foi amadurecendo, os aspectos citados anteriormente foram revisados resultando em definições mais sintéticas como “Quanto maior o número de alternativas comportamentais, maior o grau de liberdade e, consequentemente, menor o grau de coerção”. O autor também afirmava que para se analisar o comportamento de escolha, é necessário que se realize uma análise não linear do comportamento, que seria uma análise funcional não somente da ocasião e consequência (e a história) da resposta sob investigação, mas também dos padrões alternativos de resposta presentes no repertório do indivíduo.
Assim, a teoria de Goldiamond, por meio de sua análise não linear do comportamento, ajuda o analista do comportamento a discriminar a disponibilidade ou não de contingências alternativas no contexto imediato do sujeito, coisa que não se via nas construções de Skinner. Contudo, os conceitos de Skinner também podem ser interpretados sob a ótica de Goldiamond, o que os torna complementares, expandindo os significados de liberdade dentro da análise do comportamento.
Baum e Catania apresentam conceitos de liberdade similares ao de Goldiamond, entretanto, os conceitos de Goldiamond não se restringem a análise da disponibilidade de comportamentos alternativos sem consequência aversiva, como enfatizado por Baum  (2017). Para ele, a coerção pode existir mesmo em situações onde há essas alternativas. Os experimentos realizados por Catania (1980, 1997) complementam as considerações de Goldiamond sobre a importância da avaliação não só do grau de liberdade de escolha comportamental mas também do quão críticas as consequências são para o organismo.
Portanto, essas expansões permitem na prática novos diálogos com outras áreas do conhecimento que lidam com o tema da liberdade e permitem ao analista do comportamento atuar em diferentes contextos (como na psicoterapia ou até na elaboração de políticas públicas) na tentativa de promover uma expansão dos graus de liberdade comportamental e da possibilidade de escolhas genuínas.

Quer saber mais? Acesse o artigo completo:
Fernandes, R., & Dittrich, A. (2018). Expanding the behavior-analytic meanings of “freedom”: the contributions of Israel Goldiamond. Behavior and Social Issues, 27, 4-19. doi:https://doi.org/10.5210/bsi.v27i0.8248

Crédito da imagem: https://www.deviantart.com/shanagourmet/art/Red-pill-and-blue-pill-Morpheus-in-Matrix-440981729

Escrito por Guilherme Sbrocco, graduando em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

Equivalência de estímulos é coisa só de humano?

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Você já parou para pensar que, boa parte das nossas interações não se dá por contato direto com os eventos e, sim, por meio de símbolos que os representam? Esses representantes, embora sejam fisicamente distintos dos seus referentes, podem, sob certas condições, ter as mesmas funções que eles, ocasionado comportamos que emitiríamos se estivéssemos em contato direto com determinados estímulos. Por exemplo, ao ver uma placa em que esteja escrita a frase: Rua sem saída, um motorista pode, antecipadamente, mudar o seu trajeto.

O paradigma da equivalência de estímulos é uma proposta comportamental para o estudo de relações simbólicas. Segundo esse modelo, a partir do ensino de no mínimo duas relações arbitrárias (relações entre estímulos que são fisicamente distintos e não compartilham funções comportamentais, previamente estabelecidas) podem emergir novas relações. Os estímulos envolvidos, nessas relações formam redes simbólicas ou classes de equivalência definidas a partir das seguintes propriedades: reflexividade, simetria e transitividade (Sidman, M., & Tailby, W., 1982).

Para compreender essas propriedades, imagine que nós estamos tentando ensinar o significado de algumas palavras em inglês a uma criança. Para isso, vamos usar um procedimento conhecido como discriminação condicional, por meio do qual são ensinadas relações entre pares de estímulos, denominados modelo e comparação. Então, pedimos para a criança apontar, entre os objetos que estão em cima de uma mesa, aqueles que correspondem às palavras que vamos ditar. Ao falarmos: “pencil” (estímulo modelo) a criança observa os objetos sobre a mesa (estímulos de comparação) e aponta para um deles. A depender do objeto apontado, podemos dizer: “Muito bem!” ou “Esse não é o pencil”. Posteriormente, solicitamos que ela indique entre duas ou mais palavras que escrevemos (como: pencil, pen e eraser), qual corresponde à palavra falada “pencil” e, mais uma vez, elogiamos ou corrigimos, a depender do estímulo escolhido.

Após a ocorrência de algumas tentativas e, um número consistente de acertos, podemos supor que a criança aprendeu as relações: palavra falada – objeto e palavra falada – palavra escrita. Essa aprendizagem foi determinada pelas consequências geradas pelo comportamento de selecionar estímulos, ou seja, as frases de elogio ou correção. Por isso, dizemos que as referidas relações foram diretamente ensinadas.

No entanto, é possível que a criança também passe a estabelecer relações arbitrárias sem uma história prévia de ensino, são as chamadas relações emergentes. Por exemplo, se, ao apontarmos para o objeto lápis, e perguntamos, oralmente, “Isso é um: a) pencil; b) pen ou c) eraser” a criança falar algo como: “Letra A!” de forma consistente, sem a apresentação prévia de elogios ou correções, podemos dizer que há uma relação bidirecional ou simétrica. Além disso, a criança também pode passar a relacionar os estímulos que não foram emparelhados antes, estabelecendo a relação transitiva entre objetos e palavras escritas, ao selecionar a palavra escrita pencil (e não pen ou eraser) diante da imagem de um lápis apresentada com a função de estímulo modelo. Essa última relação também pode ocorrer de forma simétrica (palavra escrita – objeto). Além das relações arbitrárias estabelecidas (treinadas e emergentes), os estímulos das classes de equivalência podem também ser relacionados segundo critérios de reflexibilidade ou identidade (e.g., relação objeto – objeto). Ao fim desse processo, poderíamos identificar a formação de uma rede simbólica, na qual, estímulos fisicamente discrepantes (sons, conjuntos de letras e objetos) passam a ser equivalentes. Isto é, passam a ter um significado em comum.

As relações de equivalência são consideradas aspectos-chave para a construção e a compreensão das redes de significado – componentes da nossa linguagem e, são amplamente manipuladas em pesquisas que investigam fenômenos relacionados à cognição, em humanos.  No que se refere às pesquisas com animais não humanos, observa-se que o corpo de dados ainda não é muito robusto, de forma que essa parece ser uma questão que permanece aberta à discussão. Recentemente, foi publicado um estudo que pode fortalecer a tese de que outras espécies podem ser capazes de apresentar desempenhos compatíveis ao estabelecimento de relações de equivalência. Trata-se do estudo de uma equipe de pesquisadores japoneses que trabalhou com uma beluga (espécie também conhecida como baleia-branca), chamado Nack.

Nack vive em um aquário no Japão e já participou de vários experimentos. Nesses estudos, o animal teve experiências com parte dos estímulos empregados na presente pesquisa, realizou tarefas de emparelhamento com o modelo e aprendeu a emitir padrões sonoros específicos diante de determinados objetos.  

O objetivo da pesquisa sobre a qual vamos discutir foi: observar a formação de relações de equivalência entre estímulos de diferentes modalidades sensoriais (visual e auditiva). Para tanto, foi realizado um procedimento de discriminação condicional, dividido em várias fases. Inicialmente, Nack ganhava um pedaço de peixe sempre que, diante de um dado estímulo modelo (um objeto específico, como um balde), tocasse o estímulo de comparação correto (uma determinada figura, como “>”). Parte das relações objeto-figura treinadas eram previamente conhecidas (aprendidas em outro estudo). Nessa fase, a simetria das relações inéditas, ensinadas no presente experimento, também foi testada.

A segunda fase do estudo iniciou como a realização de uma tarefa na qual Nack também já tinha experiência – o treino de relações entre padrões sonoros (apresentados por meio de alto-falantes) e objetos.  Posteriormente, além da tarefa descrita na fase anterior, também foi realizado o teste de transitividade entre os estímulos sonoros e as figuras. Nas tentativas de teste de transitividade, Nack deveria selecionar uma imagem específica após ouvir um dado padrão sonoro.

Na última fase do estudo, além dos desempenhos anteriormente descritos, Nack também tinha que emitir um som específico após ser apresentado a cada uma das figuras anteriormente empregadas. Embora Nack tivesse sido previamente treinado (em outra pesquisa) a emitir sons diante dos objetos, a ocorrência desse comportamento diante das figuras (relacionadas aos objetos) se deu de forma inédita.

No que se refere aos resultados, de forma geral, o desempenho de Nack foi considerado satisfatório, indicando a formação de relações de equivalência. A presente pesquisa é um dos raros estudos que apresentam indícios das referidas relações, com animais não humanos. Destaca-se ainda que, Nack apresentou um repertório comportamental complexo que incluiu a emissão de sons em função da rede simbólica estabelecida!

Segundos os pesquisadores, as belugas vivem em grupos nos quais apresentam comportamentos de comunicação. Diante disso, foi possível questionar: Essas e outras características ecológicas podem ter contribuído para o desempenho de Nack? O insucesso de alguns estudos em demonstrar a formação de relações de equivalência, por animais não humanos, poderia ser atribuído a questões metodológicas ou existem pré-requisitos filogenéticos para que esse tipo de comportamento ocorra? As adaptações metodológicas presentes em estudos com animais não humanos podem gerar ponderações para a interpretação dos resultados das pesquisas? Ou, é possível afirmar categoricamente que, animais não humanos podem apresentar desempenhos compatíveis com o paradigma da equivalência de estímulos? As respostas dessas perguntas ainda demandam reflexão e novas investigações, mas sem dúvidas, esse estudo nos fornece informações importantes para o avanço das pesquisas relacionadas à cognição e à psicologia comparativa.

Achou esse estudo interessante? Quer conhecer mais detalhes? Confira o trabalho na íntegra!

Murayama, T., Suzuki, R., Kondo, Y., Koshikawa, M., Katsumata, H., & Ara, K. (2017). Spontaneous establishing of cross-modal stimulus equivalence in a beluga whale. Scientific Reports,7, 1-9. doi:10.1038/s41598-017-09925-4

Fonte da imagem de capa:

Murayama, T., Fujii, Y., Hashimoto, T., Shimoda, A., Iijima, S., Hayasaka, K., …Arai, K. (2012). Preliminary study of object labeling using sound production in a beluga. International Journal of Comparative Psychology25, 195-207.

Outras referências:

Critchfield, T. S., Barnes-Holmes, D., & Dougher, M. J. (2018). What Sidman Did–Historical and Contemporary Significance of Research on Derived Stimulus Relations. Perspectives on Behavior Science. doi: https://doi.org/10.1007/s40614-018-0154-9

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination vs. matching-to- sample: An expansion of the testing paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(1), 261-273.

Schusterman, J. R., & KASTAK, D. (1993).  A California Sea Lion (Zalophus Californianus) is Capable of Forming Equivalence Relations. The Psychological Record, 43, 823- 839.

Texto escrito por Sabrina Campos Dias Pedrosa, mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos-SP.

Eu roubo. Tu roubas. Eles roubam: Explicações comportamentais sobre o jeitinho brasileiro e a corrupção.

O exame de contingências e metacontingências pode auxiliar no combate às corrupções do cotidiano e aos escândalos bilionários veiculados pela mídia.

 

eliseu

LATUFF, C. 2011

Escândalos de corrupção pipocam nos noticiários nacionais e internacionais todos os dias e essa problemática vem sendo tratada como um dos grandes problemas do século XXI. No Brasil, os jornais já não possuem mais espaço suficiente para cobrir os escândalos diários envolvendo servidores públicos e políticos. Multidões de pessoas vão às ruas, congestionam as redes sociais com mensagens de insatisfação e desesperança com a política nacional e as instituições. Alguns chegam até mesmo a recorrer a soluções inadequadas e resgatar alguns velhos inimigos da democracia.

Alguns números aparecem em pesquisas sobre perdas de dinheiro com a corrupção e pode-se obter uma idéia geral da proporção deste problema: estima-se que se perca entre 10,5 e 32,9 bilhões de euros por ano no Brasil,  (Fiesp, 2010). Dinheiro este que poderia ser revertido em melhores condições de vida aos cidadãos contribuintes dos altos impostos do país. O dinheiro existe, ele só não chega onde deveria chegar. A maioria desse valor é advindo de estratégias de grandes empresas em burlar taxas ou transferir montantes de dinheiros para paraísos fiscais sem muitos encargos e desvios de verba por pessoas envolvidas em obras públicas.

Aos montes, as idéias para acabar com a corrupção aparecem, medidas são tomadas, leis são outorgadas, mas os problemas continuam. Como resolver essa problemática? Será que a natureza humana é ignóbil e Hobbes estava certo? Será que devemos entregar nosso país nas mãos de figuras públicas que buscam soluções rápidas para problemas complexos? Um estudo realizado por Agbota, Sandaker, Carvalho e Couto (2017) na Noruega partiu dessa demanda e propôs uma explicação comportamental e objetiva sem recorrer a rótulos e expressões adjetivas de personalidade para o fenômeno.

Pode-se definir, de início, corrupção como o ato de dar, receber ou solicitar, direta ou indiretamente, algo de valor para indevidamente influenciar as ações de outra parte (World Bank, 2017). Duas categorias, ainda, podem ajudar a organizar o comportamento de corrupção: grande corrupção e pequena corrupção.

A grande corrupção é caracterizada como o abuso do ofício perpetrado por políticos ou burocratas de alto escalão envolvendo grandes montantes de dinheiro. Pode-se exemplificar pelos escândalos da Petrobrás e do Mensalão. A corrupção pequena poderia ser caracterizada como o suborno ou a aquisição de vantagem entre uma pessoa e um servidor público das áreas da saúde, educação, segurança; quando houver decisões administrativas em benefício de outrem. Há pesquisas que indicam que países com altos índices de corrupção pequena também apresentam altos índices de corrupção grande.

A análise do comportamento pode aplicar uma ótica interessante sobre esse fenômeno e ajudar a definir melhor quais os antecedentes e consequentes responsáveis pela manutenção das práticas de corrupção. Partindo-se do princípio de análise da tríplice contingência e da seleção por consequências, entende-se que um comportamento é a relação entre os eventos antecedentes dispostos no ambiente e eventos consequentes a ele que podem modular outras respostas, aumentando ou diminuindo a probabilidade da emissão de um comportamento semelhante em situação futura semelhante. Isso tira do escopo do exame características da “personalidade” do ser humano e direciona o olhar para o ambiente e para as combinações de eventos antecedentes e sucessores, implicando causalidade. Enxergar um fenômeno real constituído por suas partes modificáveis implica que a mudança também é real e possível.

Deste modo, Agbota, Sandaker, Carvalho e Couto (2017) definem a corrupção por comportamento operante, verbal ou não-verbal, ilegal, de uma pessoa ao desconsiderar regras administrativas e usar seu controle de reforçadores ou punidores para ganho pessoal ou organizacional em conexão com o fornecimento ou recebimento de bens e serviços.

O chamado “Jeitinho brasileiro” é uma prática cultural que prevalece ao longo do tempo e se manifesta em suas mais diversas facetas para a consecução dos objetivos em detrimento das falhas regulações das instituições brasileiras. Diversos comportamentos do cotidiano apresentam topografias diferentes para as mesmas funções: a de burlar. Então, atos corruptos são reforçados por alguém/algo e são selecionados para continuar existindo em todas as esferas, mesmo fora da política e da servidoria pública? Sim. Não só analisando o comportamento de X ou Y individualmente notamos atos corruptos. Prender somente X ou Y não significará que a corrupção está findada.

Cultura, por definição, é um sistema social adaptativo complexo que possui várias características observadas e acordadas que são reconhecíveis ao longo do tempo mesmo que os membros do sistema sejam substituídos por novos. Sendo assim, a corrupção no Brasil apresenta características de prática cultural. Deste modo, ao aprofundar a análise comportamental do fenômeno é necessário chegar às relações entre diversos comportamentos agregados que culminam no produto agregado de corrupção.

A chamada metacontingência pode ser utilizada para elucidar isso. Definida por ser a relação contingente entre comportamentos complexos que resultam em um produto agregado que é selecionado a nível cultural. Diante de um caso de suborno entre um cliente e um funcionário público para a agilização de um processo, como exemplo, podemos ver que se o suborno for aceito, então o cliente obterá o seu benefício concedido, o funcionário público receberá dinheiro extra, mas o produto agregado da relação cliente-funcionário é uma autorização de negócios concedida pelo não cumprimento das regras.

O efeito cumulativo de comportamentos individuais de corrupção exerce impacto sobre o Estado e suas instituições. Os notórios escândalos de corrupção noticiados pela mídia levam à perda de confiança não apenas nos políticos e em seus respectivos partidos, mas também na corporação Brasil. Não há como trocar as peças e esperar resultados diferentes, sendo que as condições antecedentes apresentam discriminativos para atos corruptos. Burocracia exagerada, monopólio de funções públicas, falta de fiscalização e observância das leis, impostos altos,  serviços de péssima qualidade e educação pobre aliados ao descrédito das instituições do Estado são um ambiente fértil para classes de comportamentos selecionados culturalmente de corrupção. O jeitinho brasileiro, velho conhecido, é um traço aparente de um todo um sistema social permeado por relações corruptas.

Tudo está perdido? Não. O estudo de Agbota et al (2017) demonstra que reconhecer as contingências envolvidas em um comportamento pode auxiliar em atitudes que atuem direto na raíz do problema. Sugere a atuação em todos os níveis de seleção comportamentais relacionados à corrupção, principalmente cultural, com a criação de contingências agregadas que sejam impactantes tanto nos comportamentos individuais do organismo quanto nos produtos agregados das instituições.

Referências:

Agbota, T. K., Sandaker, I., de Carvalho, L. C., & Couto, K. (2017). Behavioral and Cultural Accounts of Corruption in the Interface Between Public Officer and Client. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 13(1).

World Bank. (2017). What is fraud and corruption? Retrieved April 24, 2017, from World Bank http://www.worldbank.org/en/about/unit/integrity-vicepresidency/what-is-fraud-and-corruption

Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), (2010). custos econômicos e propostas de combate. Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec). São Paulo.

Texto escrito por Eliseu Zanesco. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico

Como podemos combater a disseminação das chamadas “fake news”

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O texto do Boletim Behaviorista de hoje se baseia no artigo escrito por Tsipursky e Morford (2018) e publicado pela Behavior and Social Issues, que aponta algumas interpretações analítico-comportamentais sobre os comportamentos de disseminação de notícias falsas – as chamadas fake news – e de combate a esta disseminação. Quando eu comecei a escrever esse boletim, achei que seria interessante incluir dados, por exemplo, sobre a quantidade de fake news disseminadas ou da velocidade da disseminação. Então achei uma matéria da Folha de São Paulo que citava um artigo da Science escrito a partir de uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Pensei que, especialmente porque eu estava escrevendo sobre fake news, seria interessante checar a existência do artigo e os dados contidos nele. Levei cerca de 10 minutos apenas para conseguir localizar e abrir o artigo na íntegra, além de algum tempo para checar as informações contidas nele. Ficou claro para mim porque é tão tentador disseminar notícias falsas: o custo de resposta para a checagem dos fatos parece ser sempre significativamente maior do que simplesmente compartilhar a notícia sem verificá-la. E como isso é válido para todos que receberão a notícia (no caso, vocês que estão lendo o Boletim), então dificilmente haveria consequências negativas para o meu comportamento disponibilizar uma informação falsa nessa postagem, isto é, cada um que recebe a notícia também não verifica e raramente questiona quem a compartilhou sobre a veracidade dos fatos.

A análise de Tsipursky e Morford (2018) aponta outros fatores que parecem manter o comportamento de compartilhar notícias falsas. Por exemplo, ao conviver com pessoas que compartilham ideias e valores semelhantes aos seus, o indivíduo tende a concordar essas pessoas com – ou ao menos não discordar delas -, mesmo quando elas disseminam algo que não é verdade.

Essa análise parece estar de acordo com os dados apontados no artigo publicado pela Science (Vosoughi, Roy & Aral, 2018). Segundo estes autores, as notícias falsas se espalham significativamente mais rápido e tem maior alcance do que as verdadeiras, sendo as notícias sobre política as que mais sofrem esse efeito. Isso se dá devida a uma disseminação feita por pessoas, e não por robôs. Além disso, a pesquisa demonstrou que fake news causam significativamente mais surpresa e nojo nas pessoas, quando comparadas com notícias verdadeiras. Essas informações foram obtidas a partir de uma análise feita no MIT sobre cerca de 126 mil publicações no Twitter entre 2006 e 2017.

Os efeitos de tal disseminação podem ser desastrosos, de forma a influenciar a opinião de uma grande parcela da população, a ponto de mudar o resultado de uma eleição presidencial. Essa parece ser uma preocupação Justiça Eleitoral brasileira atualmente, embora o presidente do Tribunal Superior Eleitoral tenha se manifestado recentemente baseado no artigo 222 do Código Eleitoral para apontar que o resultado das eleições pode ser anulado se comprovado que este foi afetado por fake news.

Mas como podemos evitar que cheguemos a esse ponto?

Tsipursky e Morford (2018) apontam uma proposta de intervenção, a Pro-Truth Pledge (PTP), que pode ser traduzida como Juramento de Compromisso com a Verdade. Baseada na ciência comportamental, essa proposta foi lançada publicamente no início de 2017 e consiste em promover um contexto propício para que pessoas se comprometam com a verdade. Para tanto, seus proponentes elencaram doze comportamentos a serem seguidos por quem faz o juramento e criaram uma comunidade onde as pessoas reforçam esses comportamentos. Dentre os comportamentos, estão incluídos: verificar a veracidade da informação e compartilhá-la como um todo (e não apenas as partes que condizem com a opinião do compartilhador); citar a fonte; defender outras pessoas que estão compartilhando informações verdadeiras (mesmo quando estas pessoas tem opiniões distintas do defensor); alinhar sua opinião e ações às informações verdadeiras; educar pessoas ao seu redor parar não compartilhar conteúdo de fontes questionáveis (mesmo que essas fontes apoiem a opinião do educador), dentre outros. As informações devem ser preferencialmente obtidas ou checadas a partir de organizações de checagem de fatos e literatura científicas.

O juramento deve ser informado publicamente e de maneira recorrente, o que previne que o compromissado apresente respostas impulsivas e contrárias ao juramento. Os autores citam pesquisas anteriores que mostraram que “pré-comprometimento” influencia o comportamento daquele que se compromete, que passa a ter mais autocontrole. Havendo o juramento público, é provável que haja reforçamento social (por exemplo, curtidas e comentários em redes sociais) por comportamentos de acordo com o comprometimento e punição social dos comportamentos opostos. A participação em comunidades (online e face-a-face) de pessoas que também fizeram o juramento aumenta a probabilidade dos comportamentos elencados no PTP serem reforçados.

Tsipursky e Morford realizaram 25 entrevistas informais com pessoas que fizeram o juramento e estas afirmaram tê-lo feito por um desejo por se comprometer no combater às notícias falsas e demonstrar um comprometimento pessoal com a honestidade. Algumas apontaram que queriam criar uma imagem de disseminador da verdade para impactar o comportamento de outras pessoas, o que foi descrito pelos autores com “estabelecer a si mesmos como um estímulo discriminativo” para o comportamento das outras pessoas de disseminar informações verdadeiras.

A partir das entrevistas, os autores afirmaram que o juramento teve efeito de controle de estímulo (função de estímulo) para o comportamento dos que juraram. Além disso, o artigo cita casos de pessoas da comunidade PTP que se retrataram após ter compartilhado uma informação que não tinha sido verificada, por conta de terem sido chamadas à atenção por outras pessoas da comunidade que fizeram o juramento.

Em suma, o PTP parece ser uma boa forma de combate a disseminação de notícias falsas, porém ainda não foi feito um estudo controlado a respeito da sua eficácia. Para tanto, Tsipursky e Morford sugerem estudos longitudinais e pesquisas que tenham controle experimental. Quem se anima para fazer um?! E enquanto esses estudos não chegam, que tal tentar contribuir fazendo o juramento?

Verifique as informações desse texto! Acesse:

Tsipursky, G., & Morford, Z. (2018). Addressing Behaviors That Lead to Sharing Fake News. Behavior and Social Issues, 27, 6-10.

Vosoughi, S., Roy, D., & Aral, S. (2018). The spread of true and false news online. Science, 359(6380), 1146-1151.

www.ProTruthPledge.org

www1.folha.uol.com.br/poder/2018/03/fake-news-apelam-e-viralizam-mais-do-que-noticias-reais-mostra-estudo.shtml

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/fux-diz-que-justica-pode-anular-eleicao-se-resultado-for-fruto-de-fake-news-em-massa.ghtml

Créditos da imagem: http://www.criativa.com.br/blog/brand-news/fake-news-deixam-publico-com-o-pe-atras/

 

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

 

 

 

Como crianças lidam com a recursos comuns?

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Você já parou para pensar sobre capacidade de renovação dos recursos naturais do planeta? Bom, de modo geral, sabemos que eles estão fadados a acabar, quando nosso consumo supera sua capacidade de renovação. Ora, nossas florestas, pescados e água potável podem se esgotar, caso grupos ou comunidades consumam esses recursos em excesso. Todavia, nosso erro talvez seja pensar que tal realidade está distante. Afinal, tudo parece fartamente disponível! Por que deveríamos nos preocupar? Olha, sinto informar, mas o cenário atual não é nada otimista. Especialistas na área de sustentabilidade afirmam que o consumo no planeta excede em 70% sua biocapacidade [1]. Essas condições predizem a “Tragédia dos Comuns” [2] descrita por Garrett Hardin, biólogo norte-americano que em 1968 publicou um artigo alertando a comunidade científica sobre o colapso dos recursos naturais. Hardin afirma que por compartilharmos tais recursos e cada pessoa procurar maximizar seu consumo individual, fatidicamente, as reservas de um determinado local irão colapsar, sendo necessário procurar outras fontes de recursos, em diferentes lugares. Neste caso, o efeito danoso desse comportamento é que pode perdurar por muitas gerações da sociedade e, como agravante, o crescimento da população mundial torna esta prática insustentável.

Embora a má gestão do consumo de elementos naturais (como peixes em um lago, nossas florestas e o consumo de água potável) nos permita verificar com maior clareza o comprometimento da sua renovação, podemos verificar diversas condições que simulam o uso dos recursos comuns. Por exemplo, imagine uma internet de seu lar, quando a maioria da família usa a internet para baixar arquivos com grande quantidade de dados, ocorre sobrecarga na transmissão de dados. Neste exemplo, às vezes, a internet fica lenta e pode até a cair! Impossibilitando o acesso do recurso a todos.

Inspirados pela questão da manutenção do recurso comum (natural ou não), muitos estudos experimentais com participantes adultos procuram investigar como este problema pode ser evitada, ou pelo menos amenizada, ao intervir sobre comportamentos que produzam a possibilidade de renovação dos recursos naturais. Os maiores achados nos informam que limitações por meio de regras, sanções, limitações sobre os recursos disponíveis têm sido eficazes em produzir comportamentos sustentáveis. Outro apontamento diz respeito à visualização das consequências negativas das ações individuais nas coletivas, pois os indivíduos podem se comunicar sobre como estão gerindo ou como irão gerir seus consumos, isso levará ao aumento da confiança entre membros do grupo, os quais formularam estratégias colaborativas e fiscalizam as ações coletivas em relação ao uso sustentável do recurso comum. Comunicar-se sobre a manutenção do recurso comum pode diminuir a frequência de comportamentos egoístas, uma vez que esses comportamentos produzem dilemas sociais sobre a distribuição dos recursos.

Até então, nenhum estudo havia investigado como estratégias de crianças poderiam ser úteis para evitar a tragédia dos comuns. Indagados com tal questão, Rebecca Koomem e Esthr Herrmann realizaram um estudo com crianças de seis anos de idade e concluíram que, sim, crianças são capazes de se comunicar para apresentarem estratégias de ações coletivas (regras, distribuição igualitária, e colaboração) para impedir o esgotamento de recursos comuns, semelhantes às ações dos adultos. Legal, não é? Uma esperança e salvação na tragédia anunciada! Pois bem, o leitor deve estar interessado em saber alguns detalhes sobre este estudo? Então, vamos contá-lo!

Participaram do experimento 108 crianças, elas operaram um aparato que simulava a manutenção de recurso comum (este aparato era operado inicialmente individualmente e, posteriormente, a criança dividia-o com um colega). Tal equipamento foi chamado de reservatório da “água mágica”, pois ele despejava uma água de cor azul por um cano até um coletor, quando o coletor se enchia, a mesma água era retornada ao reservatório. Nas laterais deste aparelho se encontravam duas válvulas, elas podiam ser abertas ou fechadas pelas crianças, caso isso acontecesse nos recipientes das laterais eram preenchidos com água mágica e no momento que um dos tubos se enchia, um ovo de brinquedo era liberado para a criança coletar. Os ovos coletados davam acesso a guloseimas, mas coletar muitos ovos levava a esgotamento da água do reservatório, pois uma vez completo um tubo, a água utilizada ficava retida. Nenhuma regra sobre como o equipamento funcionava foi fornecida para as crianças e elas podiam se comunicar livremente. A capacidade de renovação e a quantidade da “água mágica” eram visualizadas por uma rolha vermelha e uma linha divisória.

Duas condições experimentais foram realizadas: paralela e coletiva. Na condição paralela, as duplas tinham aparelhos individuais com “água mágica” para cada uma delas, o objetivo dessa fase foi verificar como o recurso era gerido em uma situação individual. Já na condição coletiva, os pares tinham que dividir o mesmo aparelho, esta condição simulava um reservatório de recurso comum, ou seja, retirar muitos ovos sem coordenação ou contribuição igualitária levaria ao esgotamento dos recursos (água mágica).

Os principais resultados mostram que duplas de crianças com seis anos de idade colaboraram coletivamente para evitar a tragédia dos comuns, embora nem sempre isso ocorresse. Os resultados se mostraram mais positivos quando as duplas mantinham os recursos na condição paralela, em outras palavras, um recurso mais farto e partilhado individualmente, aumenta a probabilidade das crianças manterem seus recursos renováveis. Porém, na condição coletiva, 40% das duplas mantiveram seus reservatórios de recursos comuns com possibilidade de renovação até o final da sessão. Então, é possível que crianças evitem a tragédia dos comuns, até mesmo na situação coletiva quando as duplas que dividiram o mesmo recurso.

Sobre os resultados relacionados comunicação entre as duplas, as crianças produziram suas próprias regras sobre o uso dos recursos, por exemplo, “Agora nós podemos pegar só umas gotinhas!”, “Não, pegue tanto se não nos perdemos”. Esses resultados mostram o aumento da colaboração entre as duplas para evitar a perda do recurso. Assim como nos estudos conduzido com adultos, a possibilidade de comunicar-se levou ao estabelecimento de comportamentos colaborativos. Outro resultado interessante foi que para evitar o consumo contínuo dos recursos, nas condições paralelas e coletivas, 34 duplas se envolveram em conversas auto-distratoras, ou seja, irrelevantes para a tarefa, mas que conseguiam produzir atraso na obtenção dos reforçadores (ovos). Por exemplo, as crianças contavam de maneira sincronizada, cantavam juntas, conversavam entre si, jogavam pedra-papel-tesoura e faziam piadas. Isso, provavelmente, diminuiu a dificuldade para esperar pela obtenção dos reforçadores.

No geral, os autores discutem que a comunicação entre os pares promove uma identidade de grupo, na qual, cria-se oportunidades para promessas e regras serem feitas sobre o uso do recurso comum, de forma a torná-lo sustentável (possibilitar renovação do recurso e satisfazer necessidades pessoais). Estratégias verbais e colaboração puderam produzir aprendizagem sobre maneiras de sustentar recursos comuns, quando crianças interagem com colegas. Diante desses resultados, podemos aumentar nosso conhecimento sobre o impacto do comportamento humano nos recursos do planeta.

[1] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2017/08/02/dia-da-sobrecarga-da-terra-chega-mais-cedo-em-2017.htm

[2] http://science.sciencemag.org/content/162/3859/1243.full

Quer saber mais?

Koomen, R., & Herrmann, E. (2018). An investigation of children’s strategies for overcoming the tragedy of the commons. Nature Human Behaviour, 2, 348–355

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

 

 

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A análise do comportamento pode estudar a aprendizagem de um instrumento musical?

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As práticas da análise do comportamento são utilizadas no ensino de diversos comportamentos como leitura, habilidades financeiras e organização de agendas, mas será que é possível utilizar os princípios comportamentais para ensinar as pessoas a tocar instrumentos? Foi isso que Griffith, Ramos, Hill e Miguel (2018) buscaram investigar em um experimento publicado recentemente no Journal of Applied Behavioral Analysis.

Quando aprendemos a ler e escrever, aprendemos que estímulos aparentemente diferentes podem ter uma mesma função. Por exemplo, quando lemos a palavra “BONECA” temos a possibilidade de pensar no brinquedo mais ou menos da mesma forma que ocorre quando alguém nos diz esta palavra. Na escrita musical, o processo acontece de modo bastante parecido, ou seja, diversos elementos aparentemente diferentes representam uma mesma coisa.

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Os pesquisadores basearam-se no fato de que após aprendermos algumas relações entre estímulos, somos capazes de deduzir novas relações a partir das que já foram aprendidas, algo que já foi demonstrado por Sidman (1971). Por exemplo, alguém que aprendeu que “escrever GM é mais ou menos a mesma coisa que dizer Sol Maior” e “Sol Maior é igual a três pontinhos pretos numa determinada posição da partitura”, também pode ser capaz de inferir que “GM  significa esses três pontinhos pretos numa partitura” sem que isso tinha sido ensinado explicitamente.

É claro que se a educação musical para pessoas sem nenhuma instrução prévia se restringir a estabelecer classes de estímulos entre símbolos, nomes e bolinhas numa partitura sem nenhuma música, corre-se o risco do aprendizado musical ficar bastante chato. Todo este processo pode se tornar mais amigável se tentarmos ensinar a correspondência entre estes estímulos e os sons aos quais eles se referem, bem como ensinar a reproduzir os sons em um instrumento. Foi neste ponto que os pesquisadores buscaram investigar como a análise do comportamento poderia contribuir para aprender novos instrumentos.

Para cumprir este desafio, seis mulheres sem nenhum conhecimento prévio de teoria musical [1] participaram da pesquisa, que continha: um pré-teste de conhecimentos prévios, um treino onde seriam ensinadas as relações de cifras e partituras com comportamentos de ouvir ou falar os nomes dos acordes, uma etapa de treino onde as participantes deveriam tocar no piano as cifras ou partituras aprendidas da etapa anterior, bem como um pós teste após cada treino para garantir a aprendizagem anterior e uma etapa final de teste onde as participantes tentariam tocar uma música

Os pesquisadores verificaram o quanto as participantes conheciam as cifras e partituras que apresentariam no treino a partir de testes para verificar conhecimentos prévios das participantes em diversas combinações entre os estímulos apresentados e as respostas avaliadas. Os testes  combinavam representações de acordes apresentados de diversas formas (cifras, partituras, pedir para a participante dizer o nome do acorde). Nesta etapa, todas as participantes do estudo acertaram entre 0 a 56%, com exceção dos testes em que  os nomes dos acordes eram apresentados na forma de cifras (CM, FM e GM) para as participantes nomearem ou aqueles testes em que o experimentador dizia o nome do acorde e a participante  deveria selecionar uma dentre as três cifras (CM, FM e GM) [2]. Este resultado indica demonstrando um baixo conhecimento de teoria musical entre as participantes.

Em seguida, realizaram  um treino com reforço para cada tentativa, onde foram ensinadas as seguintes relações:

– Nomes dos acordes ditados (Fá maior, Sol maior e Dó maior) -> Cifras: FM, GM e CM (Relação AB)

– Nomes dos acordes ditados (Fá Maior, Sol Maior e Dó maior) -> Notação musical na partitura (Relação AC)

As participantes seguiram para a etapa seguinte somente quando acertaram, no mínimo, 8 das 9 tentativas presentes em dois blocos sucessivos de ensino. Todas as participantes aprenderam após 6 a 10 sessões de 9 tentativas com exceção de uma que precisou de 4 sessões de treinos extras AB/AC.

Os pesquisadores esperavam que o ensino direto das duas relações mencionadas acima, propiciasse o surgimento espontâneo das seguintes relações que nunca foram treinadas de modo direto:

– Nomear oralmente de forma correta acordes correspondentes às cifras “FM”, “GM”, e “CM”  (relação BD);

– Nomear corretamente os acordes diante de suas notações musicais em partituras  (relação CD)

– Selecionar corretamente as cifras “FM”, “GM” e “CM” diante da notação musical na partitura e vice-versa (relação BC e CB);

Os acertos obtidos nos testes destas relações emergentes foram medidos em um teste onde as participantes deveriam acertar 8 de 9 tentativas. Caso conseguissem, seguiriam para a etapa de treino no piano. Caso não atingissem 8, retornariam para a condição anterior de treino se a pontuação estivesse entre 0% e 75%, assim como realizariam novamente apenas o teste caso no caso da pontuação estar entre 75% e 89%.

Após as participantes terem aprendido as relações entre os nomes dos acordes, a cifra e a partitura, foi realizado um treino no piano para estabelecer relação entre o nome ditado do acorde (Fá maior, Sol maior ou Dó maior) com a posição dos dedos no teclado. O experimentador ditava o nome do acorde e posicionava os dedos das participantes de modo a executar as opções de acordes disponíveis. Caso as participantes acertassem 89% ou mais, avançavam para a etapa seguinte. Todas as participantes levaram entre 3 a 6 blocos para atingir o critério e então foram encaminhadas para a etapa de teste. Este teste era composto pela apresentação de folha de uma papel com as notações dos acordes ensinados em partitura ou na forma de cifras como C, F e G.

Na sequência, caso a participante demonstrasse domínio ao tocar os três acordes, inciava-se uma etapa de pós-teste de generalização, onde a participante deveria tocar a música Amazing Grace a partir dos acordes e letras disponibilizados para as participantes. 5 das 6 participantes atingiram o critério de proficiência na primeira tentativa. Uma delas acertou um número considerável de tentativas (78%), por isso recebeu uma chance extra, onde acertou 100%.

Em suma, as seis estudantes universitárias conseguiram aprender a selecionar as cifras e as notações musicais de três acordes, bem como tocar os acordes no teclado diante do nome ditado de cada um deles,  o que demonstra que as funções dos nomes e representações dos acordes foram aprendidas pelos participantes.

Infelizmente, o estudo teve limitações como usar um número pequeno de participantes e de acordes ensinados, bem como o fato de não buscar ensinar quais notas compõem cada acorde ou não ensinar ritmos (como no caso das partituras). Sendo assim, é preciso mais pesquisas na áreas enfocando o ensino de acordes e seus componentes para possibilitar o ensino de recombinação de notas musicais em acordes e melodias, mas já podemos ter uma ideia de que muito pode ser feito nesta área.

[1] A verificação de conhecimento prévio sobre teoria musical foi realizada a partir de um questionário onde as participantes deveriam identificar acordes, notas de um piano, definições básicas sobre termos musicais, combinar figuras de teclas em um piano a representações textuais dos acordes. As participantes avançaram  para as etapas seguintes apenas se não conseguissem responder nenhuma das perguntas.

[2] Diferentemente do português, em inglês as cifras dos acordes correspondem aos nomes das sete primeiras letras dos alfabeto. Por exemplo, CM é nomeado como “C major”, enquanto no Brasil, CM é denominado “Dó Maior”. Por esta razão, é significativamente mais fácil para um nativo em inglês aprender a relação entre a cifra e seu correspondente sonoro, como no caso da pesquisa descrita.

Quer saber mais?

Griffith, K. R., Ramos, A. L., Hill K. E., Miguel, C. F. (2018) Using Equivalence-Based Instruction to Teach Piano Skills To College Students. Journal of Applied Behavior Analysis 2018, 51, 207–219. DOI: 10.1002/jaba.438 .

Outras referências:

Sidman, M. (1971) Reading and Auditory-Visual Equivalences. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 14, 5-13. doi:10.1044/jshr.1401.05

Fonte da imagem: http://bestdigitalpiano.net/learning-to-play-the-piano/9-high-impact-benefits-of-playing-the-piano/

Escrito por Murilo Cesar Moreira, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

Nossa linguagem pode afetar o quanto comemos?

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Quando pensamos em psicologia como ciência do comportamento, percebemos que ela tem muito a contribuir com uma diversidade de questões que permeiam o dia a dia das pessoas. Uma dessas questões é o comportamento alimentar e distúrbios associados, por exemplo o Transtorno de Compulsão Alimentar, com o qual indivíduos sofrem episódios recorrentes de perda de controle ao se alimentar, e ingerem quantidades excessivas de comida. A abordagem da psicologia que vem mostrando os mais fortes resultados no tratamento da compulsão alimentar é a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), ainda que uma grande parcela dos clientes tratados com essa abordagem continue a comer compulsivamente e continue apresentando dificuldades em modificar esse padrão comportamental após o tratamento.

A dificuldade em alterar comportamentos e a reincidência de comportamentos que são alvos de mudança em terapias é bastante comum, infelizmente. Mas por que isso ocorre? Em parte, porque, no que diz respeito à compulsão alimentar, as mudanças comportamentais provavelmente provocam um desconforto emocional a princípio. Esse desconforto pode ser entendido como pensamentos e sentimentos que, como estímulos encobertos, podem evocar os comportamentos alimentares indesejados. Ao tentar modificar o comportamento de ingerir alimentos compulsivamente, o cliente passa a não poder descontar sentimentos (como tristeza, culpa ou raiva) na alimentação, por exemplo. Dessa forma, ensinar os clientes a lidarem com emoções pode melhorar o empenho dos mesmos em se comprometerem com as modificações comportamentais propostas, aumentando a eficácia dos tratamentos existentes.

Este tipo de intervenção tem sido muito abordado em terapias de terceira onda (para saber mais veja Hayes, 2004) nas últimas décadas. Segundo a base científica que fundamenta algumas destas terapias, pensamentos/sentimentos consistem de respostas relacionais arbitrariamente aplicadas (RRAA), estabelecidas indiretamente e que podem evocar ou eliciar diversas funções diferentes. Assim, é importante que estes pensamentos/sentimentos também sofram algum tipo de intervenção para que o tratamento da compulsão seja mais eficaz. Uma das intervenções que tem maior sucesso em modificar este controle verbal é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), cujo objetivo principal  é promover a  flexibilidade psicológica do cliente, que significa a habilidade de ter contato com o momento presente e os comportamentos encobertos acontecendo, e, a depender do contexto, persistir ou mudar em busca de objetivos ou valores pessoais. Na prática, ser flexível psicologicamente, é diminuir o controle verbal que estes pensamentos e sentimentos exercem pela alteração do controle contextual. Ou seja, quando as respostas relacionais (RRAA) ocorrem atuam como estímulos que eliciam ou evocam funções. Modificando o contexto em que elas ocorrem, estas funções se perdem – isto é, os pensamentos não irão mais produzir estimulação que controle o comportamento. Alguns processos são utilizados para alcançar essa flexibilidade psicológica, entre eles a aceitação, que é assumir uma postura de consciência não crítica e abraçar as experiências físicas e emocionais como elas ocorrem; e a ação comprometida, que envolve a definição de objetivos e o desenvolvimento de padrões de comportamento consistentes com os valores do indivíduo.

Pensando nisso, um grupo de pesquisadores da Universidade de Drexel, na Filadélfia – EUA, resolveu tentar integrar elementos comportamentais da TCC com princípios e estratégias de terapias de terceira onda, no intuito de aprimorar o tratamento do Transtorno de Compulsão Alimentar. O tratamento desenvolvido pelo grupo liderado por Adrienne Jurascio é denominado Terapia Comportamental Baseada em Aceitação (ABBT, do inglês Acceptance-Based Behavioral Therapy). O objetivo principal foi avaliar a eficácia desse tratamento em reduzir a frequência de episódios de compulsão alimentar e produzir melhora do transtorno alimentar, dos sintomas depressivos apresentados pelos clientes e da sua qualidade de vida. Os pesquisadores também visavam observar se a intervenção utilizando componentes de terapias de terceira onda para a compulsão alimentar realmente funcionaria pelo mecanismo de ação hipotetizado por eles, ou seja, se de fato haveria relação entre a flexibilidade psicológica e o comer compulsivo.

No estudo, foram realizadas dez sessões semanais em grupos de 5 a 7 participantes acompanhados por duas terapeutas. Nas sessões, diversas estratégias foram empregadas, entre elas estratégias de aceitação e mudança, defusão cognitiva, tolerância ao stress, ação direcionada a valores, consciência emocional e, além disso, os clientes aprendiam conceitos da ABBT. Exercícios comportamentais, como pesagens semanais e auto monitoramento diário de alimentos consumidos e emoções sentidas, também foram realizados ao longo do tratamento. No total, 19 mulheres entre 18 e 65 anos foram atendidas, todas elas com pelo menos 12 episódios de compulsão alimentar nos 3 meses anteriores ao tratamento, o que é consistente com critérios do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais para o Transtorno de Compulsão Alimentar. Ao longo do tratamento, as participantes responderam alguns instrumentos de entrevistas e questionários que avaliavam, entre outras coisas, a existência de transtornos alimentares (EDE: Entrevista de Exame de Transtornos Alimentares), sintomas depressivos (BDI-II: Inventário de Depressão de Beck), a qualidade de vida (QOLI: Inventário de Qualidade de Vida) e a flexibilidade psicológica (AAQ-II: Questionário de Aceitação e Ação e FAAQ: Questionário de Aceitação e Ação de Desejo por Alimentos).

Os resultados obtidos pelos pesquisadores foram a melhora dos sintomas de compulsão alimentar, sintomas depressivos e qualidade de vida das clientes ao longo do tempo. Segundo os escores obtidos na EDE, mais de 50% das clientes não comia mais compulsivamente desde a 5ª sessão em grupo até o teste de follow-up, realizado 3 meses após o término do tratamento. Diminuições nos escores globais da EDE foram correlacionadas a melhoras na subescala de Aceitação do FAAQ e nos escores do AAQ-II. Ou seja, com essa comparação os pesquisadores puderam mostrar que melhorias na flexibilidade psicológica das participantes estavam relacionadas a melhorias dos sintomas de compulsão alimentar.

Esses resultados mostram uma preliminar eficácia da ABBT para o Transtorno de Compulsão Alimentar. Apesar de o estudo não comparar a ABBT com uma abordagem existente de tratamento, a magnitude das melhoras observadas são similares às da Terapia Cognitivo Comportamental. Podemos inferir que a promoção da flexibilidade psicológica potencialmente foi um elemento importante na intervenção realizada. De acordo com os proponentes do modelo da ACT, nós seres humanos, quando verbais, somos grandemente afetados por qualquer tipo de controle verbal (seguimento de instruções, pensamentos recorrentes, lembranças desagradáveis, etc.) e esses estímulos verbais concorrem fortemente pelo controle comportamental. A investigação neste artigo não foi direcionada para avaliar um protocolo único baseado em flexibilidade psicológica. No geral, o tratamento integrando técnicas da TCC e de terapias de terceira onda demonstrou resultados bastante promissores que deverão ser melhor investigados em estudos futuros.

Quer ler a pesquisa na íntegra?

Acesse o artigo:

Juarascio,A. S., Manasse, S. M.,  Espel, H. M.,  Schumacher, L. M., Kerrigan, S. & Forman, E. M. (2017). A pilot study of an acceptance-based behavioral treatment for binge eating disorder. Journal of Contextual Behavioral Science, 6, 1-7.

Fonte da figura: http://lightchef.com.br/blog/compulsao-alimentar-como-controlar

Outras referências:

Hayes, S. C. & Strosahl, K. D. (2004). A pratical guide to Acceptance and Commitment Therapy. Editora Springer.

Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and Commitment Therapy: an experiential approach to behavior change. The Guilford Press.

Hayes, S. C. (2004). Acceptance and Commitment Therapy, Relational Frame Theory, and the third wave of behavior therapy. Behavior Therapy, 35, 639-665.

American Psychiatric Associaton (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5ª edição. DSM-5. Editora Artmed.

Heloísa Ribeiro Zapparoli, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, professor voluntário no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

 

Pesquisadores ensinam autocontrole para jovens infratores

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O número de adolescentes e jovens detidos por crimes em instituições é grande. Nos Estados Unidos, foram detidos e julgados 124 mil jovens por comportamentos ilegais no ano de 2013. No Brasil, 24.628 adolescentes estavam cumprindo medidas socioeducativas em 2014 (Fórum de Segurança Pública, 2017), e jovens entre 18 e 29 anos são aproximadamente 60% da população carcerária (Lima, 2010).

Dentro das instituições para jovens infratores verifica-se que eles se engajam em diversos comportamentos problemas, como violência e agressão, tanto em direção aos colegas quanto aos funcionários. Esse tipo de comportamento gera mais estresse dentro da instituição, o que compromete o trabalho da equipe profissional.

Diante dessa problemática, Kristen M. Brogan e colaboradores, da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, realizaram uma intervenção com o objetivo de reduzir comportamentos problemas dentro de uma instituição para jovens detidos. De acordo com os autores, pesquisas que buscam soluções para esses problemas são limitadas, o que impede o acesso desses jovens a um tratamento mais adequado.

A intervenção buscou ensinar os adolescentes a apresentarem comportamento de conformidade com as demandas solicitadas pelos funcionários (os autores utilizam o termo compliant ou compliance) sem a apresentação de comportamentos inadequados enquanto completavam a tarefa solicitada, como rir, xingar, revirar os olhos, realizar agressões verbais, fazer gestos inadequados, entre outros (os autores utilizam o termo compliant with behavior excess).

Geralmente, quando os jovens apresentam esses comportamentos inadequados, os funcionários realizam reprimendas verbais e/ou retiram privilégios, o que pode evocar mais problemas de comportamento e estresse. Portanto, ensinar esses jovens a responderem às demandas de forma diferente pode evitar ciclos de comportamentos problemas e possibilitar o contato com eventos mais reforçadores.

A intervenção foi realizada com sete jovens de 15 a 18 anos de idade, que foram julgados por comportamento sexual ilegal, e que apresentavam histórico de comportamentos inadequados enquanto seguiam instruções dos funcionários. O objetivo foi ensiná-los a aumentar o autocontrole para que pudessem mostrar conformidade durante as demandas dos funcionários. Ou seja, abandonar o reforçador a curto prazo gerado pelo comportamento inadequado durante as demandas em favor de reforçadores a longo prazo: ter melhor relacionamento com os funcionários, acessar novos ambientes e atividades preferidas.

Foram realizadas de uma a duas sessões por semana de intervenção. Elas foram conduzidas em dois contextos com demandas diferentes: acadêmico e vocacional. No contexto acadêmico, o pesquisador ficava sentado em uma mesa de frente para o participante (a sessão era individual), e emitia instruções como “abra o livro na p. 80”, “escreva a definição…”, etc. No contexto vocacional o terapeuta ficava em pé de um lado da sala e instruía o participante a realizar atividades como dobrar roupa, abrir caixas, etc.

Primeiro, os pesquisadores realizaram um teste de preferência com os jovens, para saber quais atividades e alimentos eles gostavam mais. Os quatro itens mais preferidos eram os utilizados durante a intervenção como reforçadores.

Posteriormente, eram realizadas as sessões de Linha de base, em que o pesquisador emitia demandas, mas não dava feedback sobre o desempenho do jovem. O comportamento alvo foi definido quando o participante seguia a demanda dentro de 5 segundos após ela ser emitida. Caso ele não a seguisse, o pesquisador apenas apresentava uma nova demanda e ignorava o comportamento problema. Depois da sessão finalizar, o participante podia escolher uma das atividades preferidas para se engajar por aproximadamente 10 minutos (como ouvir música, ler um livro, jogar cartas, comer um pacote de salgadinhos, etc.).

Depois da Linha de Base eram realizaram as sessões de Tratamento. O Tratamento era conduzido em apenas um contexto (ou acadêmico ou vocacional), pois os pesquisadores queriam avaliar a generalização para o contexto em que não foi conduzido o Tratamento.

As sessões de Tratamento foram similares às de Linha de base, mas havia instruções antecedentes e feedback para os jovens. Anteriormente à primeira sessão dessa fase, o pesquisador mostrava ao participante um gráfico com os seus comportamentos problemas e a frequência de cada um.  O pesquisador o instruía de que se ele fosse capaz de reduzir 80% dos comportamentos problemas em relação à frequência da Linha de base, a ele seria permitido escolher um item preferido. Se ele não apresentasse nenhum dos comportamentos problemas, poderia escolher dois itens preferidos. As sessões de generalização foram idênticas às de Linha de base.

Os resultados foram muito positivos. O fornecimento de instruções acompanhado com reforço diferencial diminuiu os comportamentos problemas de todos os sete jovens! Esses comportamentos chegaram a zero ou muito próximos a zero. Houve também a generalização para cinco dos seis participantes que realizaram essas sessões (um participante não realizou a sessão de generalização por apresentar 0% de comportamento problema em um dos contextos).

Os autores discutem que o reforço atrasado utilizado (o participante primeiro tinha que se comportar para apenas ter o acesso ao reforço quando a sessão terminasse) funcionou para desenvolver o autocontrole na forma de seguimento de regra.

Os pesquisadores indicam algumas limitações do estudo e sugerem diversas novas pesquisas, já que nessa área elas são limitadas. Eles sugerem a realização da avaliação funcional de cada comportamento problema, e deixar o contexto de generalização mais distinto do que foi realizado no presente estudo. O contexto de tratamento foi bastante similar ao da generalização, e os participantes podem não ter discriminado a diferença dos contextos.

Como podemos perceber, essa área carece de pesquisas e é de extrema importância na nossa sociedade que haja mais pessoas trabalhando com o assunto. As instituições prisionais e de menores infratores, principalmente no Brasil, são contextos bastante difíceis tanto para os infratores quanto para os funcionários. Para você que está procurando um desafio e se interessa pela mudança de comportamento dentro desse tipo de instituição, essa linha de pesquisa pode ser muito interessante!

Quer saber mais?

Consulte o texto:

Brogan, K. M., Rapp, J. T., Niedfeld, A. M., Coon, J. C., Newman, J. L. E., & Burkhart, B. R. (2017). Increasing quiet compliance by detained male adolescents. Behavior Modification, 41(6), 788-807.

Outras referências:

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2017). Anuário brasileiro de segurança pública. Acesso em: http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2017/12/ANUARIO_11_2017.pdf

Lima, R. S. (2010). Diretrizes para projetos de prevenção à violência entre jovens. Acesso em: http://www.forumseguranca.org.br/storage/publicacoes/lote_02_2016_12_12/FBSP_Diretrizes_projetos_prevencao_violencia_entre_jovens_2014.pdf

Fonte da imagem: http://thegreenestpost.com/penitenciaria-de-sp-recupera-presos-por-meio-de-oficinas-de-croche/

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.