A análise do comportamento pode se beneficiar da psicologia cognitiva? E o inverso, é verdadeiro?

tahcita dez

Quando eu estava na graduação, e já “sabia” que queria ser analista do comportamento, eu costumava “criticar” muito a psicanálise, outra abordagem que o curso trazia. Depois de algum tempo, fui percebendo que, para poder criticar construtivamente uma área, era preciso conhecê-la profundamente. Assim, compreendi que não poderia criticar a psicanálise ou qualquer área que fosse, a menos que eu me debruçasse em seus textos por um período considerável de tempo, e, ainda assim, atualmente me policio e advogo pela sinceridade (“Eu não conheço bem essa área, prefiro não opinar sobre”) sempre que me perguntam sobre algo fora da minha área de estudo e pesquisa (mesmo que seja dentro da análise do comportamento).

Mas porque estou falando sobre isso? Eu queria saber de vocês, analistas do comportamento que estão lendo esse texto, o que vocês sabem sobre psicologia cognitiva? Por que vocês não seguiram essa área? Algumas respostas que podem surgir dizem respeito às instâncias internas, os tais “modelos mentais” (esse é o termo correto?) como causadores de comportamento. Skinner mesmo escreveu um texto, em 1977, intitulado “Por que não sou um psicólogo cognitivo?”, enumerando suas razões. Mas será que a psicologia cognitiva não tem nada a oferecer a nossa ciência comportamental?

Recentemente, saiu um comentário de Jan de Houwer, professor da Universidade de Ghent, e psicólogo com formação e atuação na abordagem cognitiva, na revista The Behavior Analyst. O objetivo do trabalho foi justamente discutir as possíveis contribuições das chamadas abordagens funcionais na psicologia cognitiva, e desta, nas abordagens funcionais (a AC incluída aqui). É importante destacar que este não é o primeiro trabalho do tipo a ser publicado, mas a interlocução da AC com a psicologia cognitiva é algo que tem sido pouco discutido em periódicos das duas áreas.

Partindo da tese de que as duas áreas são fundamentalmente diferentes, mas que se apoiam mutuamente, de Houwer começa falando que a psicologia cognitiva e a AC atuam em diferentes níveis de explicação, ou seja, que o que cada área busca explicar, assim como o que é utilizado para explicar são coisas diferentes: a AC buscaria explicar comportamento em termos de variáveis ambientais e a psicologia cognitiva buscaria explicar efeitos comportamentais em termos de mecanismos mentais. Assim, quando pensamos no condicionamento clássico (pareamento de som e choque, por exemplo), enquanto os analistas do comportamento buscariam explicar o comportamento (ou melhor, as respostas) de condutância da pele a partir da verificação do pareamento entre o som e o choque, os psicólogos cognitivos buscariam explicar o próprio condicionamento clássico (efeito comportamental) a partir de mecanismos mentais, como a formação de associações da representação do som e do choque na memória. de Houwer escreve que nossas análises funcionais são, para os psicólogos cognitivos, apenas descrições dos fenômenos comportamentais (ao invés de explicações). Por outro lado, para nós, analistas do comportamento, não nos importaria explicar como o ambiente influencia o comportamento (e.g., o que acontece com um indivíduo que o possibilita reorganizar classes de estímulos equivalentes?), porque nossas análises funcionais servem ao propósito da AC que é predizer e influenciar (controlar) o comportamento (e.g., sabemos que a mudança nas contingências de uma ou mais relações previamente aprendidas pode levar ao rearranjo de tais classes).

Reconhecer que essas duas áreas se voltam para diferentes questões, ou seja, buscam resolver diferentes problemas nos auxilia a não vê-las mais como áreas que competem entre si, eliminando, portanto, uma das críticas que os defensores de cada uma dessas áreas costumam fazer (e.g., o comportamento é melhor explicado em termos de respostas abertas e encobertas vs. o comportamento é melhor explicado em termos de processos mentais).

Vimos, até o momento, algumas das diferenças nas duas áreas. Mas como áreas que se baseiam em filosofias distintas podem se apoiar mutuamente? De acordo com de Houwer, o conhecimento das relações entre ambiente e comportamento que nós, analistas do comportamento, possuímos é justamente o que a psicologia cognitiva busca explicar. Assim, a AC pode auxiliar provendo os modelos mentais que a psicologia cognitiva utiliza em seus estudos. A psicologia cognitiva, por outro lado, pode auxiliar no desenvolvimento da AC porque busca lidar não somente com o conhecimento funcional já existente, mas também na predição de novos conhecimentos funcionais que a AC poderia incluir em seus princípios comportamentais.

Enquanto a AC estuda relações comportamento-ambiente em termos de princípios funcionais gerais que sejam precisos, mas também amplos em termos de escopo, psicólogos cognitivos geralmente descrevem relações comportamento-ambiente em termos topográficos, e tratam os efeitos comportamentais como substitutos (proxy) de processos mentais. Assim, em vez de criar vários modelos mentais para cada instância de determinado fenômeno, os psicólogos cognitivos poderiam se beneficiar do conhecimento da AC e desenvolver explicações mentais mais amplas, que possam explicar várias instâncias de um mesmo princípio. Outra forma da AC se beneficiar com a psicologia cognitiva é buscar sua literatura[1], uma vez que há muitos estudos demonstrando efeitos comportamentais que podem ser relacionados a princípios comportamentais. Ao fazer tal link, é possível utilizar o conhecimento obtido sobre determinado efeito para aprender mais sobre o princípio comportamental. Por exemplo, ao relacionar o efeito Stroop[2] com o conceito de controle de estímulos da AC, pesquisadores podem explorar a literatura deste efeito comportamental para aprender mais sobre essa temática.

de Houwer comenta que a AC e a psicologia cognitiva parecem, em muitos contextos, duas tribos vivendo em ilhas diferentes e remotas de um arquipélago. Cada tribo possui uma linguagem própria e formas diferentes de fazer atividades (pesquisa). A busca de uma interlocução entre as duas áreas, portanto, pode ser vista como a dificuldade de um antropólogo que busca entender as atividades desenvolvidas em uma ilha pela tribo, à distância. Assim, isso demandará esforços que ambos os “lados” (as tribos) deverão se comprometer em fazer, mesmo sem saber ao certo quais podem ser os benefícios à curto, médio ou longo prazo.

de Houwer conclui: “Baseado na crença fundamental de que, a longo prazo, a ciência só pode se beneficiar de trocas de dados, visões e ideias, estou convencido que a psicologia como um todo irá se beneficiar de melhores relações entre analistas do comportamento e pesquisadores cognitivos” (p. 9). E você, já parou para pensar sobre o que as outras áreas tem a nos oferecer? Não passou da hora de parar de pensarmos em nós contra eles e pensarmos no que podemos fazer juntos? Que tal repensar nossos preconceitos com relação a outras áreas dentro (e fora) da psicologia?!

Ficou curioso? Aqui está o comentário:

de Houwer, J. (2017). A functional-cognitive framework for cooperation between functional and cognitive researchers in the context of stimulus relations research. The Behavior Analyst. Advanced online publication. doi: 10.1007/s40614-017-0089-6

Referências

Roediger, H. L. (2005). O que aconteceu com o behaviorismo? Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 1(1), p. 1-6.

Skinner, B. F. (1977). Why I am not a cognitive psychologist? Behaviorism, 5(2), p. 1-10.

Fonte da imagem: https://www.memoriaboa.com/estilos-de-aprendizagem/

[1] É interessante lembrar que nos estudos experimentais em psicologia cognitiva estuda-se, também, comportamento (ver, por exemplo, Roediger, 2005).

[2] Esse efeito tem sido descrito como a diferença na latência para nomear uma cor impressa em uma palavra colorida quando há correspondência entre a cor do estímulo e a da palavra e quando não há (e.g., dizer “azul” diante da palavra “AZUL” impressa em azul versus dizer “vermelho” na presença do estímulo “AZUL” impresso em vermelho.

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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Por que é tão difícil manter comportamentos saudáveis?

josi dez

A obesidade é considerada atualmente uma epidemia global. Ao comparar o ano de 2016 ao de 1975, o número de pessoas obesas no mundo praticamente triplicou! (Organização Mundial da Saúde – OMS, 2017). Segundo dados do Ministério da Saúde (2017), mais da metade da população do Brasil está com o peso acima do recomendado e 18,9% dos brasileiros estão obesos.

A obesidade e o sobrepeso são definidos, pela OMS, como o acúmulo de gordura anormal ou excessiva que pode prejudicar a saúde. Eles estão associados com o aumento de diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes, distúrbios musculoesqueléticos e alguns tipos de câncer. Os fatores associados à obesidade e sobrepeso são grandes conhecidos: dieta rica em gordura e sedentarismo (OMS, 2017).

Para tratar a obesidade há algumas opções, como realizar dietas restritivas, atividades físicas regulares, cirurgias e/ou o uso de medicações, sendo que a realização de dietas e atividades físicas estão entre os fatores que contribuem para o maior sucesso na perda de peso (OMS, 2017). Infelizmente, 80% das pessoas que tentam uma dieta ou um programa de exercícios físicos fracassam, sendo esse um número bastante alto.

Diante desse cenário preocupante, Joshua Garner, Chelsey Brown e Sonia Levy, pesquisadores da Chicago School of Professional Psychology, nos Estados Unidos, defendem que a Análise do comportamento pode fornecer um melhor entendimento dos fatores que contribuem para a obesidade.

A obesidade é uma questão muito complexa, e que envolve diversos fatores. Um desses fatores, o qual os autores chamam a atenção no texto, é a manutenção a longo prazo dos comportamentos saudáveis, ou seja, é a pessoa conseguir se engajar em uma dieta ou exercício físico por um longo período de tempo e não desistir.

A literatura da análise do comportamento tem pesquisado sobre alguns temas como: a realização de exercícios físicos, aderência a um modo de alimentação mais saudável e a perda de peso. No entanto, ainda é limitada no ponto de manter as pessoas apresentando esses comportamentos a longo prazo.

O que ocorre na maioria das pesquisas na área é que a intervenção produz bons resultados durante sua aplicação, mas, quando é retirada, as pessoas voltam a apresentar os comportamentos anteriores à intervenção (ou seja, comportamentos relacionados ao desenvolvimento da obesidade). É muito importante a intervenção dar certo, mas manter os comportamentos saudáveis após a intervenção é crucial para a melhora da qualidade de vida dos indivíduos.

Diante desse problema eles elaboraram uma discussão em torno do fenômeno denominado “recaída”, que pode ajudar a melhorar o planejamento de programas de tratamento da obesidade. A recaída consiste na recorrência de uma resposta problema, por exemplo, voltar a comer muito açúcar, ingerir em excesso alimentos altamente gordurosos após uma dieta, abuso de álcool após um período de tratamento, etc.

Há três tipos de recaída: ressurgência, restabelecimento e renovação. A ressurgência é o reaparecimento do comportamento reforçado anteriormente que ocorre durante a extinção de um comportamento alternativo (ver Pontes e Abreu-Rodrigues, 2015).

Para entender melhor, vamos olhar para os três componentes envolvidos na ressurgência. Primeiro, um comportamento é reforçado (por exemplo, ingerir alimentos muito gordurosos ou ter uma vida sedentária). Então, esse comportamento é extinguido enquanto um comportamento alternativo é reforçado (por exemplo, iniciar uma dieta ou um programa de exercícios físicos – a pessoa pode ser reforçada diretamente por se engajar no exercício, pelo efeito da dieta ou do exercício no seu corpo e/ou pelo reforço social fornecido pela família e amigos). Por último, o comportamento alternativo é extinguido (iniciar uma dieta), e o comportamento anterior ressurge, ou seja, a pessoa volta a comer alimentos extremamente calóricos e ter uma vida sedentária!

A renovação ocorre quando um comportamento é colocado em extinção em um contexto diferente da linha de base. O condicionamento é conduzido em um contexto (por exemplo, ter uma vida menos ativa em casa e no trabalho), e esse mesmo comportamento é extinguido em um contexto diferente do primeiro (por exemplo, se exercitar na academia, ou seja, na academia a vida menos ativa é extinguida). Então, o responder ocorre novamente quando retorna ao contexto original, que, no caso, é ter uma vida menos ativa na casa ou trabalho, mesmo que a extinção esteja em curso (se exercitar na academia).

Tudo isso quer dizer que o engajamento em exercícios em um contexto diferente daquele em que o indivíduo é menos ativo pode influenciar a persistência do comportamento original quando ele retorna ao contexto original. Portanto, quando chegar em casa, a pessoa pode continuar abrindo frequentemente a geladeira para “beliscar” algumas comidas, e ficar sentada em frente à televisão por um longo período de tempo.

Já o restabelecimento ocorre quando o reforço é fornecido para uma resposta independente depois da extinção dessa mesma resposta, e, então, o comportamento previamente reforçado ocorre novamente. Ou seja, a resposta é reforçada, depois extinta, e, posteriormente, o reforço é apresentado novamente independente da ocorrência de uma resposta (Rodegheri, 2017). Isso acontece quando alguém que está de dieta vai a uma festa de aniversário e alguém lhe oferece um delicioso pedaço de bolo de chocolate recheado com morango e brigadeirão! Os autores falam que isso seria a conhecida “tentação”.

Joshua, Chelsey e Sonia também mencionam que a Teoria do Momentum Comportamental (TMC) é importante para a compreensão da recaída, pois ajuda a explicar o porquê da persistência de um comportamento, que no caso, é o engajamento em comportamentos não saudáveis.

A TMC diz que um contexto com alta densidade de reforçadores apresentará maior resistência à mudança de um comportamento comparado a um contexto com densidade mais baixa de reforçadores, quando for inserida alguma operação que modifica a taxa de respostas, como, por exemplo, a extinção.

A TMC auxilia na compreensão do porquê é tão difícil um indivíduo parar de comer alimentos gordurosos e se livrar da vida sedentária quando ele retorna ao ambiente em que esses comportamentos foram reforçados anteriormente, e a intensidade da(s) recaída(s). O comportamento de comer e o comportamento sedentário são fortemente associados com os estímulos discriminativos do contexto. Por exemplo, para o comportamento sedentário, temos como estímulos discriminativos o sofá e a televisão em casa, e o computador e a cadeira no trabalho. Como essa associação não é quebrada, então, o comportamento persiste apesar de receber tratamento em outro ambiente.

Portanto, ao elaborar uma intervenção que vise a manutenção à longo prazo de comportamento saudáveis é importante levar em consideração, em conjunto, os diferentes contextos envolvidos na vida pessoa e os comportamentos apresentados em cada um, os comportamentos alternativos que serão reforçados e os reforçadores envolvidos para cada resposta.

A obesidade é uma questão de saúde pública atualmente. Portanto, é muito importante ser estuda e serem desenvolvidas intervenções em que as pessoas consigam manter os resultados ganhos à longo prazo. Esse é um grande desafio, afinal, os cookies, cupcakes, as batatinhas fritas e hambúrgueres estão o tempo todo em nossa volta, e muitas pessoas estão atreladas a atividades profissionais sedentárias. Que tal se aprofundar nesse tema?

Quer saber mais?

Consulte o texto:

Garner, J., Brown C., & Levy, S. (2017). Diet and exercise failures: A theoretical extension of relapse. The Psychological Record, 161-168.

Outras referências:

Ministério da Saúde. (2017). Vigitel Brasil 2016. Recuperado em http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/junho/07/vigitel_2016_jun17.pdf

Pontes, T. N. R., & Abreu-Rodrigues, J. (2015). Ressurgência comportamental: Uma revisão. Acta Comportamentalia, 23(3), 339-353.

Rodegheri, A. C. N. G.  (2017). Restabelecimento, ressurgência, renovação e resistência à mudança: Efeitos da taxa de respostas e de reforços. 2017. Dissertação, Universidade de Brasília, Brasília.

World Health Organization. (2017). Obesity and overweight. Recuperado de http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/

Fonte da imagem: https://tirinhasdogarfield.blogspot.com.br/2010/07/dieta-4.html

 

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Como se livrar de uma compulsão?

Esclarecendo os efeitos de intervenções comportamentais para o tratamento de comportamentos-problema.

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Quando se fala em adicções e/ou comportamentos compulsivos (compras, jogos, álcool e outras drogas, por exemplo), não é incomum as pessoas pensarem que a única alternativa é a internação – ou seja, afastar a pessoa das situações nas quais costuma ocorrer o comportamento-alvo e mantê-la em abstinência. De fato esta é uma das alternativas, mas em alguns casos o comportamento volta a ocorrer quando a pessoa é exposta novamente àquelas situações da qual foi, de certa forma, isolada – fenômeno conhecido como ressurgência.  Esse fenômeno diz respeito a quando o comportamento-alvo persiste (ou seja, volta a ocorrer) após o término da intervenção.

Em termos comportamentais, uma das estratégias utilizadas para intervenção é a DRA (reforçamento diferencial de comportamentos alternativos). Na prática, aplicar um procedimento de DRA significa fornecer consequências potencialmente reforçadoras aos comportamentos que são alternativos àquele comportamento-alvo. Se o problema em questão são compras compulsivas, por exemplo, a ideia é ir com a pessoa ao supermercado e apresentar consequências reforçadoras todas as vezes em que ela estiver diante de uma compra e não fizer.

Existe, porém, um outro procedimento de intervenção que é o DRO (reforçamento diferencial de outros comportamentos). No DRO, outros comportamentos que não sejam o comportamento-alvo também são reforçados – o que muda é a situação na qual esses comportamentos ocorrem. Então, a diferença entre o DRA e o DRO é que, neste último, os estímulos discriminativos devem ser diferentes para que este outro comportamento seja reforçado (no DRA, basta que seja um comportamento alternativo, mas a situação é a mesma).

Você pode estar pensando: mas o que isso muda na prática? Não seriam ambas as estratégias eficazes em termos de intervenção? O que os estudos mostram é que, de fato, tanto o DRA quanto o DRO cumprem a sua função de diminuir a frequência do comportamento-alvo. Porém, de acordo com a teoria do Momentum Comportamental, o procedimento DRA seria menos efetivo no que diz respeito à redução da frequência de comportamentos problema do que o procedimento DRO. De acordo com esta teoria, a persistência de um comportamento-alvo depende diretamente da taxa de reforçamento que é produzida diante de um determinado estímulo discriminativo. O agravante aqui é que o comportamento alvo poderá persistir ainda que tenha havido um aumento substancial da taxa de reforçadores produzidos por comportamentos alternativos. Mas a teoria do Momentum prevê que  quando se adota um procedimento de DRO para aumentar as taxas de reforçadores para emissão de comportamentos alternativos diante de estímulos discriminativos diferentes, as chances de o comportamento-alvo voltarem a ocorrer será menor em comparação com os procedimentos de DRA. Mas até que ponto tais previsões são acuradas?

Dube, Thompson, Silveira e Nevin (2017) se propuseram a comparar empiricamente as duas estratégias de intervenção. Participaram do estudo seis adultos (idades entre 17 e 21 anos) com deficiências intelectuais, e a tarefa experimental utilizada envolvia a exposição a quatro jogos de videogame apresentados em três monitores de computador. Ao jogar cada um dos jogos, os participantes poderiam produzir os estímulos reforçadores que eram fichas que poderiam ser trocadas por pequenas porções de comida ao final de cada sessão.

Inicialmente, foram conduzidas sessões de modelagem que tinham três objetivos, respectivamente: ensinar aos participantes o procedimento de troca das fichas, executar uma tarefa simples de escolha para garantir que as fichas funcionavam como reforçadores, e ensinar aos participantes como jogar cada um dos quatro jogos. No jogo A, o participante deveria utilizar as teclas de para cima e para baixo do teclado, a fim de mover o ícone de um caminhão na tela para destruir os alvos. No jogo B, o participante deveria utilizar as teclas de direita e esquerda do teclado, a fim de mover o ícone de um palhaço na tela para destruir os alvos. Estes dois jogos eram apresentados em dois monitores diferentes (monitor 1 e monitor 2). Nos jogos C e D o participante deveria utilizar o mouse para atirar, e o que mudava de um para outro era só o efeito da destruição dos alvos (explodiam no jogo C e caíam no D).

Independente da natureza da tarefa, cada aperto de tecla ou cada clique do mouse era considerada uma resposta, e as mesmas eram consequenciadas com uma ficha. Feitos os devidos testes, a primeira condição experimental foi a linha de base, na qual cada sessão era composta pelos jogos A e B no esquema ABAB ou BABA. O jogo A era apresentado na metade esquerda da tela do monitor 1, enquanto o jogo B era apresentado na metade direita da tela do monitor 2 – ou seja, o contexto não era o mesmo para os dois jogos.

A segunda condição experimental foi a intervenção, que consistiu na inserção dos jogos C e D. O arranjo número 1 era composto pelos jogos A e C (arranjo A+C), e o esquema utilizado foi o DRA. O que isso significa na prática? Significa que as respostas do jogo A (ou seja, apertar as teclas de para cima e para baixo) foram extintas, enquanto as respostas do jogo C (atirar nos alvos) eram reforçadas em esquema de VI (intervalo variável). Além disso, o jogo A era apresentado à esquerda do monitor 1, enquanto o jogo C era apresentado à direita do mesmo monitor. Em outras palavras, foi utilizado o reforçamento diferencial de comportamentos alternativos, no mesmo contexto (no caso, o mesmo monitor).

O arranjo número 2 era composto pelos jogos B e D (arranjo B+D), e o esquema utilizado foi o DRO-DRA. As respostas do jogo B foram extintas e as respostas do jogo D eram reforçadas em esquema de VI. “Tá, mas até aqui nada mudou”, você deve estar se perguntando. O que mudou é que o jogo A era apresentado no monitor 2, enquanto o jogo D era apresentado no monitor 3 – ou seja, contextos diferentes! Se o participante ficava 1 segundo sem emitir nenhuma resposta no jogo A (ou seja, sem clicar em nenhuma tecla), então aparecia o jogo D no outro monitor. Isto significa que, na prática, quando o indivíduo deixou de emitir aquele comportamento-alvo, apareceu uma outra situação na qual ele podia emitir um novo comportamento e ser reforçado por isso.

Os resultados mostraram que ambas as estratégias foram eficazes em termos de intervenção. No entanto, as condições posteriores de extinção e de extinção com tarefa distratora mostraram que, de forma geral, quando se utiliza o procedimento de DRO-DRA as chances de o comportamento-alvo voltar a ocorrer são menores – ou seja, a ressurgência tem menos chance de acontecer. A título de curiosidade, os resultados desse estudo corroboraram outros estudos da área, e alguns deles foram feitos com pombos!

E quais são as implicações clínicas desse achado? Bom, se você pensar naquela questão discutida no começo, não basta isolar a pessoa das situações que costumam ser problemáticas de alguma forma. O tratamento deve ser baseado em dois pilares: apresentar consequências reforçadoras quando a pessoa emitir um comportamento alternativo naquela situação, e também apresentar consequências reforçadoras quando a pessoa emitir outros comportamentos em situações diferentes.

Além disso, os resultados deste estudo contribuem para a compreensão de que um problema de comportamento não se limita a termos como “falta de vontade”, por exemplo. É uma questão de manejo de contingências. E há, sim, muitas coisas que podem ser feitas. A ideia é sempre ampliar o repertório, garantir a variabilidade comportamental e a redução da persistência de comportamentos problema mantidos indevidamente por reforçamento diferencial.

Para saber mais:

Dube, W.V., Thompson, B., Siveira, M.V., & Nevin, J.A. (2017). The role of contingencies and stimuli in a human laboratory model of treatment of problem behavior. Psychol Rec, DOI 10.1007/s40732-017-0248-x.

Fonte imagem: https://www.google.com.br/search?biw=1406&bih=705&tbm=isch&sa=1&ei=BH77Way5E4KAmQHn0p-IDw&q=confessions+of+a+shopaholic&oq=confessions+of+a+shopaholic&gs_l=psy-ab.3..0l10.40217.45119.0.45266.33.19.0.0.0.0.574.3658.2-2j2j4j1.9.0….0…1.1.64.psy-ab..25.8.3223….0.01KDiFIlQeY#imgrc=92GdvtT-1cxq7M:

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Mindfulness para behavioristas.

Você já ouviu falar em mindfulness? Se tiver uma conta no facebook, é muito provável que sua resposta seja sim. O que talvez você não saiba é que, mais do que um “modismo” que invadiu as redes sociais, a prática de mindfulness (ou “atenção plena”) tem ganhado espaço também em estudos científicos, e despertou o interesse de teóricos das mais diferentes áreas e abordagens. Originado da filosofia budista, o termo referia-se a uma prática para se alcançar a felicidade, que tem como pano de fundo a crença de que todos os indivíduos estão em contínuo processo de mudança. O termo foi introduzido na Psicologia em meados dos anos 70, devido ao interesse de cognitivistas sobre os efeitos desta prática em condições médicas e nas interações sociais dos indivíduos. Desde então, este interesse dos cientistas só aumentou.

Mindfulness refere-se à capacidade de “autofocalizar” a atenção, observando a própria experiência de maneira aberta e aceitando-a como é, quer dizer, sem julgamentos. Tal definição é interpretada por contextualistas como a aprendizagem de uma nova forma de se comportar, a qual permite ao indivíduo se relacionar de uma forma mais flexível e funcional com o ambiente. No entanto, há uma certa dificuldade de interpretação analítico-comportamental da técnica e seus efeitos, o que se deve não somente pelas diferenças entres os referenciais teóricos, como pelas diferentes formas de empregar o termo que, curiosamente, ora é tratado como um processo, ora como estratégia e, por vezes, como uma habilidade.

Afinal, em termos de comportamento, o que é mindfulness? Será possível operacionalizar o termo, ou compreender seu significado do ponto de vista analítico-comportamental? Tais indagações guiaram o trabalho de pesquisadores dos Estados Unidos e da Colômbia, que realizaram em conjunto uma revisão da literatura existente sobre o tema para encontrar e analisar interpretações contextualistas do mindfulness como processo, estratégia ou habilidade.

Nos textos que referiam-se a mindfulness como “processo”, a análise do comportamento contribuiu para desconstruir a passividade que normalmente está atrelada ao termo, ao compreender que os processos, na realidade, exigem atividade do indivíduo para acontecer. Ou seja, um processo não é algo que simplesmente “acontece”. Segundo Catania, processos são respostas que se produzem devido à influência de eventos contextuais ocasionados pela emissão de respostas dos organismos (que pode ser o próprio indivíduo ou terceiros). Atualmente, a vertente contextualista funcional que talvez mais se aproxime do mindfulness como um processo é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a qual busca desenvolver a habilidade do cliente de observar eventos encobertos em detrimento de outros estímulos do ambiente. Isto é, observar eventos privados e experimentá-los, tais como ocorrem, atentando-se às regras verbais que controlam este comportamento sem, no entanto, permitir que as mesmas interfiram nesta interação.

Outra forma de uso do mindfulness é como uma “habilidade”. Um substituto analítico-comportamental para “ter uma habilidade” é “fazer com eficácia”. Assim, ao tratar o mindfulness como uma habilidade, pressupõe-se que o indivíduo é eficaz na emissão de determinadas classes de respostas. Tais classes, segundo Linehan (1993), seriam: observar, descrever e participar. Observar refere-se a prestar atenção nas suas próprias respostas comportamentais (tanto públicas quanto privadas), sem o intuito de julgá-las ou manipulá-las. Descrever refere-se a narrar as respostas e eventos tais como ocorrem. Por fim, participar refere-se à habilidade de realizar as atividades do momento atual, sem no entanto deixar de observar suas respostas e eventos emocionais.

Linehan traz, também, definições comportamentais para “como” fazer. Ao tratar sobre “focalizar no momento presente”, um termo bastante utilizado por cognitivistas ao referir-se à prática mindfulness, podemos substituí-lo por “atender a um determinado estímulo do ambiente enquanto realiza determinada tarefa, em detrimentos de outros estímulos que estão presentes naquele mesmo contexto”. Para tanto, é preciso saber que os estímulos são transitórios e ora estão presentes, ora ausentes, portanto o indivíduo deve discriminar quais são suas respostas e quais são eventos ambientais, e então priorizar a observação de suas respostas, que são as únicas sob as quais se tem controle.

Por fim, ao tratar do mindfulness como estratégia, pressupõe-se que o mesmo tenha uma série de passos em protocolo a ser seguido em um estudo experimental.  Em tais passos, determinadas variáveis seriam gradualmente manipuladas com o propósito de se observar um efeito em outra variável. Isto é, mindfulness seria um tipo de intervenção composta por uma série de passos definidos pelo terapeuta, apresentados ao cliente por meio de instrução ou outras técnicas, e ajustados de acordo com a demanda e as respostas do próprio cliente, para se alcançar ou ao menos facilitar o alcance dos objetivos terapêuticos (Baer, 2003).

Os autores concluem o trabalho de revisão concluindo que, de modo geral, sob o ponto de vista analítico-comportamental, mindfulness seria a “capacidade de autodescrever o que está acontecendo de modo verbal, de modo público ou encoberto, o que implica a aquisição de comportamentos relacionados à discriminação do ambiente e do próprio comportamento”. No entanto, tal definição pode estar mais ou menos adequada, a depender do modo como se está interpretando o mindfulness: como processo, habilidade ou estratégia.

Tais diferenças na definição do termo dificultam a compreensão dos efeitos da prática sobre os indivíduos, pois levam a diferentes procedimentos e, por sua vez,  diferentes resultados são encontrados na literatura. Encontrar uma definição hegemônica e completa de mindfulness é uma tarefa árdua, mas que poderia trazer muitos avanços para a literatura científica sobre o tema.

Ao mesmo tempo, a busca incessante por uma definição única, ou ainda, a busca por um referencial teórico que melhor descreva o termo talvez seja menos importante do que a busca pelos diferentes modos de aplicação e pelos possíveis efeitos terapêuticos que podem ser alcançados com a técnica. Independente da hegemonia de sua definição, ou do referencial teórico adotado para interpretá-lo, os benefícios do mindfulness estão cada vez mais nítidos, tanto nos artigos científicos quanto nas redes sociais, e esta deve ser a principal preocupação dos estudiosos sobre o tema. Portanto, behavioristas, sintam-se confortáveis para aderir a esta prática sem sentir-se culpados. Mindfulness está na moda, mas também está na ciência.

Para saber mais:

MUNOZ-MARTINEZ, Amanda M.; MONROY-CIFUENTES, Andrea L.; TORRES-SANCHEZ, Laura M.. Mindfulness: ¿proceso, habilidad o estrategia? Un análisis desde el análisis del comportamiento y del contextualismo funcional. Psicol. USP,  São Paulo ,  v. 28, n. 2, p. 298-303,  Aug.  2017

Fonte imagem: https://www.uhs.umich.edu/files/uhs/field/image/Mindfulness

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, Psicóloga pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é mestranda em Gerontologia e cursa Especialização em Reabilitação Neuropsicológica pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão ProVive do Departamento de Gerontologia da UFSCar.

 

 

“Havia um termo no meio do caminho”: existem alternativas para os “termos médios”, essa “pedra no sapato” da aproximação entre a pesquisa básica e aplicada?

imagem joao

Nessa brincadeira com o poema de Carlos Drummond de Andrade, falamos de uma questão séria para a investigação científica – o uso de “termos médios”. Apesar de uma prática, no contexto comportamental, filosoficamente condenável, esta não apresenta resultados totalmente negativos. É importante destacar que sua aplicação descontrolada pode tornar confusa e circular qualquer abordagem que tenha ambição científica.

O uso de “Middle terms”, (ou “termos médios”) é um tipo de recurso amplamente utilizado em que as variáveis não sejam claramente conhecidas. A noção básica de “termo médio” consiste simplesmente em inserir uma variável ou termo, não teórico e não técnico,  que não tenha sido gerado em um contexto de pesquisa básica na descrição de uma relação comportamental, como por exemplo “fome”, “medo” etc. e considerá-los como parte da explicação – nesse caso como porque tenho “fome”.  Skinner já falava sobre eles desde “O Comportamento dos Organismos”, e dizia que estes podem ser problemáticos em alguns tipos de explicação – dentre elas, a analítico comportamental. No entanto, na prática do analista do comportamento, seja ela básica seja ela aplicada, não é incomum nos depararmos com termos médios como “memória”, “estresse”, “ruminação”, “preconceito”, “fusão”, entre outros.

Muitas vezes os termos médios são utilizados estrategicamente e permitem desenvolver uma ligação maior entre a pesquisa básica e aplicada, por permitirem um tipo de interpretação das contingências. Infelizmente esta interpretação não é precisa, principalmente porque tentam capturar as unidades muito amplas, que muito frequentemente envolvem a explicação de comportamentos complexos, muitas vezes difícil de interpretar precisamente por meio de uma análise funcional com base em termos tradicionais. Dessa forma, eles são considerados familiares em contextos aplicados (tanto para o terapeuta como para o paciente) e podem ser parte importante para alguma proposição teórica futura contribuindo ao destacar fenômenos importantes gerando pesquisas relevantes.

Hoje na Análise do Comportamento, diversos destes termos médios citados os aqui já citados anteriormente anteriormente, têm sido investigados a partir de estudos de relações derivadas baseadas na Teoria das Molduras Relacionais (RFT). A RFT é uma explicação analítico comportamental para a linguagem e cognição humana, e tem contribuído grandemente nas últimas décadas para o estudo do comportamento humano complexo. Nesse post, vamos introduzir uma discussão sobre um modelo recente proposto por pesquisadores dessa área, o Modelo Multidimensional Multinível (MDML) recentemente apresentado no último número do Journal of Contextual Behavioral Science (Barnes-Holmes, Barnes-Holmes, Luciano & McEnteggart, 2017).  O objetivo da proposição deste modelo é permitir uma organização, em dimensões e níveis, do responder relacional arbitrariamente aplicado, destacando as propriedades dinâmicas deste tipo de responder. Essa perspectiva dinâmica facilita a interpretação dos mais diferentes fenômenos verbais. Essa proposta não se trata de algo que irá substituir a proposta da RFT com algo novo ou diferente, mas sim dar ênfase a alguns pontos da teoria e permitir avanços tanto para a pesquisa básica como a aplicada.

A idéia do MDML é direcionar a análise do comportamento relacional, permitindo ao pesquisador identificar em que nível se encontra e como suas dimensões estão relacionadas. O MDML é composto por cinco níveis, organizados em ordem de complexidade (1- Mutual Entailment, 2 –Relational Framing, 3- Relational Networking, 4- Relating Relations e 5- Relating Relational Networks). Os níveis querem dizer de forma bem superficial quantos elementos fazem parte necessariamente de uma resposta relacional derivada e se esses elementos fazem parte de uma única rede relacional ou de mais de uma.

As dimensões que irão relacionar com cada um desses níveis no momento em que analisamos um comportamento são relational coherence (ou seja, quanto uma dada resposta relacional é seguida por consequências) relational complexity (uma análise de todos parâmetros possíveis no estabelecimento de relações entre elementos como tipos de relações, números de elementos, etc.), derivation (quanto esse responder relacional foi exibido na história do indivíduo). A primeira ocorrência tem alta derivação, cada nova observação ele tem um grau menor de derivação) e relational flexibility (quanto flexíveis ao contexto essas respostas relacionais são). Esta proposta consiste que a interseção entre estas dimensões e níveis permitem a observação de vinte unidades de análise experimental. Estas unidades, como citado anteriormente, permitem tanto que pesquisadores básicos organizem e orientem suas possibilidades de pesquisa, quanto  que se compreenda a complexidade e história de aprendizagem de comportamentos do cotidiano.  E como isso funcionaria na prática?

Um exemplo é pensar em um dos termos médios (e.g. fusão) e verificar sua interpretação baseada nessas unidades de análise propostas pelo MDML. Vamos imaginar um cliente que imagine que ele seja uma “pessoa fracassada”. O terapeuta pode questionar quão fracassado ele é, e ele diz “sou totalmente fracassado”. Independentemente das interações e opiniões do terapeuta, o paciente está convicto que é um fracasso e justifica e explica isso com diversos exemplos, reagindo muito mal quando o contrário é sugerido. O terapeuta poderia dizer que o cliente está fortemente fundido a este pensamento de que ele é “um fracasso”. Qual tradução desse termo médio o MDML poderia permitir?

Como a “fusão”, como utilizada em algumas terapias, é um fenômeno verbal, podemos entender que relações arbitrárias foram estabelecidas entre seu Eu (deídico) com o adjetivo fracassado por implicação mútua (nível 1 no MDML). Esta relação de similaridade (baixo nível de complexidade) entre “eu” (cliente) e “fracasso” foi repetidamente apresentada (alto nível de coerência) e que ele se sente assim por muitos e muitos anos (baixo nível de derivação). É difícil para o cliente responder de maneira diferente do estabelecido por esta relação (baixo nível de flexibilidade). Dessa forma o MDML convida a uma análise das dinâmicas do responder relacional.

Assim o MDML apresenta um potencial para que sejam projetadas estratégias alternativas para a explicação do comportamento relacional derivado em que termos básicos da RFT se aproximem do domínio clínico. O grande foco desta proposição é estimular novas questões de pesquisa que, organizadamente, gerem um diálogo mais frequente e próximo de pesquisadores básicos juntamente com terapeutas e pesquisadores aplicados. Ao empregar essa estratégia altamente fundamentada na pesquisa básica e orientada para as demandas do contexto de aplicação, espera-se que a utilização por explicações não funcionais diminua. Por fim, um aspecto muito importante do desenvolvimento organizado da explicação para o comportamento complexo é também realizar uma análise funcional dos termos médios que estão na nossa prática e compreender quais as histórias de reforço e variáveis são responsáveis por determinados comportamentos. Quanto mais profundamente conhecermos estas relações comportamentais mais controle a Análise do Comportamento poderá oferecer nos diferentes contextos. Por fim, hoje em dia não podemos desconsiderar o conhecimento produzido nas últimas décadas sobre relações derivadas para uma análise funcional do comportamento humano, se o fizermos essa análise não irá considerar a contingência humana como um todo. Apesar de muito recente e ainda não ser possível prever o que essa estratégia de análise, baseada no MDML, permitirá, contudo ele já possibilita um primeiro passo importantíssimo que é a organização do Responder Relacional Derivado. Em breve seremos capazes de ver o impacto e relevância deste modelo.

Para saber mais:

Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Luciano, C. & McEnteggart, C. (2017) From the IRAP and REC Model to a Multi-Dimensional Multi-Level Framework for Analyzing the Dynamics of Arbitratily Applicable Relational Responding. Journal of Contextual Berhavioral Science.

 Texto escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, professor voluntário no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar e LIP Lab na Universidade de Ghent.

“Repetir, repetir – até ficar diferente”

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O artigo que abordaremos essa semana, escrito por Tyndall e colaboradores e publicado este ano, aponta uma evidência curiosa: a repetição de determinadas palavras pode mudar a função que elas têm para um dado indivíduo. Como já dizia o poeta Manoel de Barros “Repetir, repetir – até ficar diferente”. Mas como isso pode ser possível?

Em 1910, Titchener propôs um exercício de repetição de palavras, o qual a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem usado nas últimas décadas para trabalhar desfusão cognitiva com os clientes. O termo fusão cognitiva se refere a quando alguém toma algum pensamento que possui como verdade e, em geral, isso lhe traz sofrimento. Por exemplo, Maria pode ter um pensamento de que ela é burra e acreditar piamente nisso. Toda vez que Maria tem esse pensamento, ela desiste de se engajar em atividades intelectuais. Como consequência, ela nunca tem a oportunidade de testar seus conhecimentos ou mesmo de aprender coisas novas, o que por sua vez fortalece o pensamento dela sobre “ser burra”. É claro que se a gente olhar para a história de vida de Maria, vamos entender como esse pensamento surgiu e aumentou de frequência – ela provavelmente esteve em contexto aversivo para a aprendizagem no passado. Nesse sentido, o pensamento não é a causa do comportamento. No entanto, hoje aquele contexto pode não estar mais presente e, mesmo assim, Maria não consegue se engajar em atividades intelectuais pois esse pensamento ganhou uma função de estímulo que a faz se esquivar de novas oportunidades.

Um caso de fusão cognitiva, como a vivida por Maria, tem implicações para a atuação clínica do psicoterapeuta. Na terapia comportamental, algumas vezes pode ser suficiente fazer análises funcionais com os clientes e encorajá-los a se engajar em comportamentos que produzirão consequências diferentes (seja por meio da emissão de comportamentos novos, ou de comportamentos já presentes no repertório, porém em contextos diferentes). Outras vezes, no entanto, o cliente pode estar tão fundido com seus pensamentos (isto é: “eu SOU o que eu penso”) que é necessário trabalhar a desfusão cognitiva para em seguida ele se engajar em novos comportamentos.

Bom, então é só chegar no consultório e pedir para o cliente repetir umas palavrinhas?! Claro que não. Além do conhecimento teórico, os psicólogos vêm buscando produzir evidências sobre suas diversas intervenções e para isso é necessário certo rigor científico para que fiquem claras quais variáveis de fato estão produzindo mudanças. Nesse sentido, embora a técnica da repetição de palavras venha sendo usada por terapeutas há algum tempo, somente aos poucos, questões sobre a especificidade da repetição tem sido clarificadas. Por exemplo, um estudo de 2009, de Masuda e colaboradores, demonstrou ser necessário repetir a palavra por ao menos 20 segundos para haver uma redução significativa no quanto o indivíduo acredita naquele pensamento. Já o estudo que estamos abordando aqui versou sobre o ritmo da repetição e trouxe um debate acerca do porquê esta técnica funciona.

Esses pesquisadores recrutaram 32 estudantes universitários que foram solicitados a escolher uma palavra de avaliação sobre si mesmos (em geral, um adjetivo) que lhes trouxesse sentimentos dolorosos. Algumas das palavras escolhidas foram “fraco”, “inútil” e “egoísta”. Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos. Nos diferentes grupos, a palavra-alvo deveria ser repetida a cada intervalo de tempo diferente: meio segundo, 1 segundo e 2 segundos. Para medir a eficácia das atividades, os participantes responderam a uma escala em que relatavam, atribuindo um número de zero a cem, o quanto acreditavam na palavra escolhida e o quão desconfortável se sentiam com ela. A escala foi aplicada logo antes, logo depois, e um mês depois da repetição.

Na aplicação da técnica, os pesquisadores apresentaram inicialmente uma outra palavra de tamanho semelhante àquela escolhida pelo participante para que ele pudesse praticar o ritmo da repetição. Essa fase de prática durava o tempo que fosse necessário para o participante se habituar ao ritmo. O objetivo era que os indivíduos não ficassem tão preocupados em estar falando na frequência solicitada e pudessem, ao invés disso, prestar atenção na palavra e na repetição em si. Em seguida a palavra de avaliação sobre si mesmo era repetida por 30 segundos no ritmo aprendido.

Uma hipótese era de que quando o participante repetisse a palavra em um ritmo diferente daquele que a fala costuma ocorrer (mais acelerado ou mais lento), haveria uma mudança de contexto e, com isso, a palavra poderia mudar de função. Assim, os autores consideraram que os melhores resultados seriam do grupo de meio segundo e de dois segundos. Outra possibilidade era de que quanto mais rápido o indivíduo repetisse a palavra, mais poderia haver uma extinção da sua função, devido a frequência da exposição. Nesse sentido, o grupo do ritmo de meio segundo apresentaria os melhores resultados.

No entanto, os resultados apontaram que os participantes dos 3 grupos acreditavam menos na palavra escolhida logo após a repetição. Já no quesito desconforto, apenas os participantes que repetiram a cada meio segundo e a cada 1 segundo apresentaram diferenças significativas na comparação logo antes x logo depois do exercício. Por fim, quando avaliada a manutenção desses resultados após um mês, apenas o grupo do ritmo de 1 segundo apresentou dados significativos para ambos os itens em questão. Esses achados não oferecem suporte para nenhuma das duas hipóteses!

Os autores argumentam que, para a ACT, é a exposição atenta ao estímulo aversivo como ele é que amplia as funções que este estímulo possui. Nesse sentido, modificar o estímulo pelo seu ritmo poderia atrapalhar o indivíduo na tarefa de discriminá-lo e estar em contato com ele como ele originalmente é (e não com modificações em seu ritmo, como foi manipulado). Mas isso continua aberto para discussões.

Portanto, esse artigo aponta para a importância do contínuo diálogo entre teoria, pesquisa e prática. Uma técnica, como a repetição de palavras, precisa ser pesquisada (isto é, avaliada e publicada) de maneira cada vez refinada para se buscar os melhores efeitos na prática clínica. E a teoria, por sua vez, pode ser construída e reconstruída, a partir daquilo que se encontra na pesquisa e na prática.

 

Para saber mais, acesse:

Tyndall, I., Papworth, R., Roche, B. & Bennett, M. (2017). Differential Effects of Word-Repetition Rate on Cognitive Defusion of Believability and Discomfort of Negative Self-Referential Thoughts Postintervention and at One-Month Follow-Up. Psychological Record, Vol 67, Issue 3, pp 377–386. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0227-2.

Créditos da imagem: http://tocadospets.blogspot.com.br/2014/10/como-ensinar-um-papagaio-falar.html

Escrito por Júlia Castro C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

O software “Culturante Livre” e o estudo da seleção cultural

vivian outubro

 

Há alguns dias, assistindo a um colega apresentar seu projeto de doutorado que envolvia a programação de um jogo para realizar a sua coleta de dados, pensei sobre as diferentes possibilidades que um software pode oferecer para um pesquisador atender suas mais diferentes demandas. Por isso, hoje vamos falar sobre possibilidade de se estudar a seleção cultural, através do uso de um software desenvolvido por Toledo e colaboradores, publicado em 2015.

O software chamado de “Culturante Livre” foi desenvolvido para estudar a seleção cultural usando um procedimento análogo ao operante livre; ou seja, ele propõe um procedimento experimental para o estudo do chamado culturante de forma análoga ao estudo do operante no nível ontogenético.  

O uso do termo culturante não é unanimidade da Análise do Comportamento, mas os autores do estudo fazem uso dele, então, vamos empregá-lo aqui também. Para quem ainda não conhece o conceito de culturante engloba as contingências comportamentais entrelaçadas, as quais estão funcionalmente relacionadas a uma consequência cultural. Portanto, podemos falar de culturante quando o entrelaçamento de contingências comportamentais (dado pela inter-relação entre contingências operantes) produz um efeito, no caso a chamada consequência cultural, que pode ser responsável pela seleção e manutenção do entrelaçamento entre as contingências e seus efeitos.

Os autores também empregam o conceito de metacontingências, uma vez que, este conceito descreve as relações presentes nos elementos que compõem o culturante. As metacontingências são unidades que podem ser entendida pelo entrelaçamento das contingências comportamentais e o efeito gerado por elas, que não poderia ser obtido pelo comportamento isolado de cada indivíduo, e este seria critério a partir do qual uma consequência cultural seria produzida. Essa consequência retroage sobre as contingências comportamentais entrelaçadas alterando a probabilidade de que ocorra novamente.

Mas, o que isso quer dizer? De acordo com os pesquisadores, as manipulações experimentais que são propostas no software usam os padrões do comportamento individual produzidos pela programação de reforço como uma linha de base para a experimentação de demandas relacionadas às interações sociais.

O software permite que os participantes emitam respostas de clicar no mouse ou na tecla do computador a qualquer momento, sem intervenção do aparelho ou do experimentador, permitindo avaliar dois processos de seleção que estão em andamento ao mesmo tempo, através da programação simultânea de uma contingência para o comportamento operante e uma metacontingência para o culturante, possibilitando o estudo do comportamento individual e, ao mesmo tempo, dos comportamentos de mais de dois indivíduos um em relação ao outro.

O experimentador pode planejar 48 arranjos experimentais, e alguns deles permitem aos participantes obter todos ou a maioria dos reforçadores que estão programados; nesses casos, a contingência operante e as metacontingências não entram em conflito. Em outros arranjos, o critério de contingência operante pode produzir ou não poucas consequências culturais, o participante pode receber menos reforçadores individuais do que seria possível; nestes casos, existem conflitos entre a contingência operante e a metacontingência.

Para o participante o software funciona como um jogo virtual com até 4 jogadores, portanto, o experimentador, a depender do seu objetivo, programa as suas condições experimentais, estabelecendo os esquemas de reforço para cada condição. Na condição “Contingência operante”, as respostas dos participantes produzem a consequência reforçadora individual, de acordo com o esquema programado. Na condição “Metacontingência” é exigido que as respostas dos participantes estejam coordenadas, em alguma medida, para que uma consequência para o grupo aconteça.

No jogo a seguinte situação hipotética é apresentada ao “jogador”:  moradores de uma pequena cidade passaram dias sem água. Para obter água para si mesmos e para a cidade, o jogador pode clicar no mouse ou uma tecla do computador para encher galões de água para eles mesmos e em alguns momentos, a depender das suas interações eles podem receber um bônus – adição um pouco de água em uma caixa d’água para uso de todos da cidade.

Em seguida, todos os participantes devem clicar em um comando para iniciar a tarefa. Cada participante vê na sua tela do computador seu quadrante e os quadrantes dos outros participantes. Sempre que um participante responde, seu quadrante pisca para os outros.  Os ganhos individuais são registrados em um galão de água e os bônus conquistados são registrados em um hidrômetro localizado à direita da caixa d’água na área comum. Todos os participantes observam as ações e consequências que são apresentadas para cada participante e o grupo como um todo.  Quando a sessão terminada uma mensagem de “Obrigado” aparece na tela. Além disso, os galões e o bônus acumulado podem ser trocados, ao final do experimento, por um valor em dinheiro (centavos).

No estudo piloto realizado pelos autores, seis participantes, divididos em dois grupos foram expostos a duas condições: (a) como conflito, em que foram feitas a comparação das condições em que a produção de consequências culturais envolveria a produção de menos reforçadores individuais e (b) sem conflito, em que atender tanto a contingência operante e metacontingência era possível, sem perdas de reforçadores.

Para o Grupo 1, a Condição Contingência operante era que a cada duas respostas individuais, em média, se produziria uma porção de água no galão (VR2), sendo que 10 porções de água encheriam uma jarra e uma nova jarra poderia ser enchida. A contingência operante permaneceu inalterada ao longo do experimento. A Condição Metacontingência exigiu um intervalo de tempo entre as respostas dos participantes (variou de 1 a 2s), portanto, cada participante deveria clicar nos galões de água,  uma vez de modo espaçado em relação a resposta do outro participante.

No início de cada sessão, os participantes foram instruídos sobre o funcionamento do jogo e que teriam que trabalhar juntos. Não especificou como deveria ser essa interação. No final de cada sessão, cada participante recebeu uma quantidade de dinheiro individual e o grupo discutiu como distribuiria os bônus totais acumulados. Foram feitas duas sessões. Na Sessão 1 os participantes passaram pela Condição de linha de base, Condição Contingência Operante, Condição Metacontingência e retorno a linha de base.  Na Sessão 2 foram feitas 4 condições da metacontingências alterando-se apenas o tempo de espaçamento entre as condições de metacontingência.

Para o Grupo 2, foi programada uma condição sem conflito entre a condição Contingência Operante e a Condição Metacontingência. Os procedimentos iniciais foram os mesmos que os do Grupo 1. Foram feitas 3 sessões, com a mesma sequência experimental: Condição de linha de base, Condição Contingência Operante, Condição de Metacontingência e retorno à linha de base. Em cada sessão foi alterado apenas o espaçamento entre a condição Contingência Operante e a Condição Metacontingência.

O estudo piloto indicou que, para os dois grupos, a produção de bônus fez com que os membros dos grupos adaptassem seus comportamentos para atender aos requisitos da metacontingência, produzindo sistematicamente a consequência cultural, demonstrando que a seleção (ou seja, recorrência) de uma unidade que excedeu o comportamento individual e envolvia o comportamento dos três participantes, estando cada um sob o controle dos outros, podendo ser usada como modelo experimental de seleção cultural. Além disso, foi observado o que os participantes deixaram de responder quando a consequência cultural era suspensa, ou seja, durante a extinção de metacontingência.

Para os autores, esses dados são interessantes pois, o software não limita a duração das tentativas, os participantes tinham a opção de não responder e/ou deixar de coordenar as respostas, assim, a interações eram “livres”, sem interrupção dos experimentos. Fato que até então, não ocorria em estudos anteriores, por exemplo, os que utilizam matrizes, números, o do Dilema do prisioneiro (Você pode encontrar alguns destes estudos aqui no Blog!), em geral, em procedimentos em que há o conflito, se o participante para de responder, o estudo se encerra.

Além disso, o experimentador pode planejar diferentes critérios para a apresentação de consequências individuais e culturais, podendo avaliar os efeitos de uma consequência cultural e das consequências individuais sobre o desempenho individual gerado por esquemas de reforçamento. Portanto, ao que parece, o software favorece o estudo das interações sociais no sentido de oferecer ao experimentador diferentes possibilidades de manipulações, pelas diferentes combinações entre os esquemas de reforço e as e as diferentes possibilidade em manipular as consequências.

E aí? O que achou? Quer saber mais sobre seleção cultural e o software “Culturante Livre”? Leia o artigo original!

Referência:  Toledo, T. F. N., Benvenuti, M. F. L., Sampaio, A. A. S., Marques, N. S., dos Anjos Cabral, P. A., de Souza Araújo, L. A., . . . Moreira, L. R. (2015). Free culturant: A software for the experimental study of behavioral and cultural selection. Psychology & Neuroscience, 8(3), 366-384. Disponível em: http://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fpne0000016. Acessado em 01 de outubro de 2017

Fonte da imagem: http://www.meioemensagem.com.br/home/proxxima/noticias/2013/05/24/unilever-e-personare-renovam-parceria-de-conteudo-web.html/attachment/computador-pessoa

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!

Jogo do Bom Comportamento: vale a pena jogar?!

Djenane

Uma parte dos problemas em ser professor(a) da educação básica envolve o famoso e, talvez, misterioso tema do “manejo de classe”. Neste sentido, interessa aos(as) professores(as) saber como manter seus alunos engajados nas tarefas que apresentam, de forma a tornar o trabalho produtivo e prazeroso para ambos, alunos(as) e professores(as). O presente estudo de Pennington & McComas (2017) traz contribuições para esse tema ao analisar o Jogo do Bom Comportamento.
O Jogo do Bom Comportamento (Good Behavior Game, GBG em inglês) tem sido usado para manejar efetivamente os comportamentos de crianças em classes escolares, aumentando a ocorrência dos comportamentos adequados ou diminuindo a ocorrência dos inadequados. Tipicamente ele é jogado durante uma pequena parte do período escolar, que varia de 10 minutos a uma hora, durante atividades específicas (e.g., período da matemática) ou em ambientes específicos (e.g., na lanchonete da escola). Em geral, o(a) professor(a) define, ou combina, as regras com as crianças e a turma é dividida em, pelo menos, dois grupos. Cada grupo ganha pontos, quando todas as crianças estão apresentando os comportamentos adequados, ou quando alguém apresenta um comportamento inadequado. No primeiro caso, é o grupo com maior número de pontos que vence; no segundo, o grupo com menor número de pontos. Aos vencedores são atribuídos pequenos prêmios (e.g., pequenos doces, figurinhas ou lápis) ou vantagens (e.g., participar de certa brincadeira).
Em estudos descritos no artigo de Pennington e McComas (2017), pesquisadores investigaram os efeitos comportamentais obtidos durante o GBG sobre outros momentos e/ou contextos escolares em que o jogo não estava vigorando. Os resultados de um desses estudos apontaram para a não alteração dos comportamentos inadequados antes e depois do uso do jogo, tendo sido avaliado o desempenho coletivo.
Seguindo esta linha de pesquisas, Pennington e McComas (2017) investigaram os efeitos do GBG sobre os comportamentos de engajar-se nas tarefas escolares de três estudantes (todos com 8 anos de idade), uma menina e dois meninos, do terceiro ano do ensino fundamental de uma escola pública situada numa área urbana nos EUA. As crianças foram selecionadas por serem consideradas as menos engajadas nas tarefas escolares, da turma em questão. A turma era composta, em sua maioria, por crianças de classes sociais menos favorecidas. Havia uma professora titular, uma assistente e a pesquisadora (responsáveis pelo estudo). Definiram-se dois contextos da rotina escolar, que ocorriam em sequência, para a realização da pesquisa: (a) os encontros matinais e (b) o período da matemática.
Os encontros matinais ocorriam no início do dia e duravam de 10 a 20 minutos, com a professora guiando as atividades. Consistiam de oportunidade para que todos os alunos se cumprimentassem, resolvessem problemas de matemática e jogassem um jogo rápido. Neste momento as crianças ficavam sentadas, em círculo, sobre o carpete da sala de aula. Nos encontros matinais os seguintes comportamentos de engajamento na tarefa foram definidos como alvo: (a) sentar sobre o carpete e olhar para a professora ou para quem estivesse falando; (b) fazer comentários relevantes referentes ao tópico que vinha sendo discutido; (c) seguir as regras descritas pela professora no início de um jogo educativo ou (d) fazer comentários encorajadores para os(as) colegas.
O período da matemática consistia em uma espécie de “circuito de atividades”, com três “estações”, que durava aproximadamente uma hora. As três estações de atividades eram: trabalho com a professora titular; trabalho com a professora assistente e tempo para brincar com jogos matemáticos. Todas as crianças da turma foram alocadas em três grupos, correspondentes a cada estação (mas em dois grupos para o GBG). Os grupos trocavam de estação a cada vinte minutos. No período da matemática os seguintes comportamentos de engajamento na tarefa foram definidos com alvo: (a) permanecer na estação que lhe foi atribuída, direcionado para o grupo e com os materiais ali definidos; (b) usar os materiais adequadamente ou (d) fazer comentários encorajadores para os(as) colegas.
As responsáveis pelo estudo registraram os comportamentos das crianças selecionadas, em lousas portáteis, ao longo de 21 sessões. Durante a linha de base os comportamentos inadequados foram ignorados ou corrigidos. Durante a intervenção as crianças foram divididas em dois grupos. As regras do jogo foram apresentadas (o engajamento de todas as crianças do grupo na tarefa proposta poderia produzir o ganho de pontos e as crianças do grupo que somasse mais pontos poderiam ganhar prêmios mais tarde) e a cada 30-s o grupo que tivesse todas as crianças engajadas na tarefa tinha um ponto registrado em uma das lousas carregadas pelas três responsáveis pelo estudo. Ao final da intervenção, a cada dia, somavam-se os pontos registrados em cada uma das três lousas.
A intervenção, aplicação do GBG, ocorreu primeiro no contexto do encontro matinal, a partir da sexta sessão, enquanto continuava a coleta de dados de linha de base no contexto do período de matemática. Posteriormente, a partir da décima primeira sessão, o GBG foi aplicado também ao contexto do período de matemática.
Os resultados confirmam achados anteriores que apontam a não alteração dos comportamentos alvo fora da vigência do GBG. Assim, os resultados do estudo de Pennington e McComas (2017) mostraram que o engajar-se nas tarefas das crianças foi afetado pela aplicação do GBG, aumentando a frequência dos comportamentos adequados para todas as três crianças e reduzindo a variabilidade das respostas em ambos os contextos: encontros matinais e períodos de matemática. Neste caso, mostram também que os efeitos do GBG, podem ser observados em diferentes contextos da sala de aula quando o jogo está em vigor. Por outro lado, o engajamento no período da matemática não aumentou em decorrência da aplicação do GBG ao período de encontro matinal, situado imediatamente antes na rotina escolar diária.
Algumas limitações foram apontadas pelos autores como: o número reduzido de crianças cujos comportamentos foram observados; o desconhecimento das contingências mantenedoras do não engajamento nas tarefas durante a linha de base e as diferenças entre os contextos educacionais (encontros matinais e período da matemática) avaliados. Sugeriu-se que as diferenças entre estes contextos podem ter dificultado a generalização.
Concluímos que vale a pena jogar o GBG pois ele é efetivo no “manejo de classe”, aumentando a frequência de comportamentos adequados, como os de engajar-se nas tarefas escolares. Mas esta resposta não encerra o problema. Como afirmam Pennington & McComas (2017), é preciso cuidar para que os repertórios comportamentais estabelecidos pelo GBG ocorram em momentos em que o jogo não esteja vigorando e em contextos em que o jogo não tenha sido aplicado diretamente, efeitos não observados no estudo em questão, o que demanda novas pesquisas.

Pennington, B., & McComas, J. J. (2017). Effects of the good behavior game across classroom contexts. Journal of Applied Behavior Analysis, 50, 1, 176-180.

Resumo elaborado por Djenane Brasil da Conceição, Professora Adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

https://i.ytimg.com/vi/SdBFa-g2Qts/hqdefault.jpg Consultado em 25/09/2017

Desenvolvendo programas para diminuir a pobreza da população: como os analistas do comportamento podem dar “uma mãozinha”.

silvana

Como os princípios do condicionamento operante podem contribuir na eficácia de programas que usam incentivo financeiro para aumentar emprego e renda da população.

Um dos grandes desafios de qualquer país é (ou deveria ser) criar condições para que um maior número de pessoas não viva abaixo da linha da pobreza. Não se trata apenas de uma questão altruísta, mas indivíduos nessas condições sofrem mais com problemas de saúde crônicos, tendem a ter menor expectativa de vida, dentre outras dificuldades que acabam acarretando ônus para o Estado. Uma das estratégias governamentais utilizadas tem sido a criação de programas, normalmente em larga escala, que incentivam financeiramente essa camada da população de forma a melhorar sua situação de emprego e renda. Mas será que tais programas atingem seus objetivos? Se não, por quê?

Os pesquisadores August Holtyn, Brantley Jarvis e Kenneth Silverman publicaram um interessante artigo no JEAB no qual apontam alguns dos motivos pelos quais estes programas tendem a falhar, e como os analistas do comportamento podem contribuir para torná-los mais efetivos. Para tanto, utilizaram como principal fonte de análise os dados de artigos publicados pelo Manpower Demonstration Research Corporation (MDRC), Instituto de pesquisa que implementa e avalia programas antipobreza nos Estados Unidos. Os autores descrevem detalhadamente os aspectos relevantes de cada um dos programas, sendo citados seis que incentivam diretamente o emprego e três que focam no desempenho acadêmico. De maneira geral, tais programas visam principalmente gerar emprego e educação para indivíduos que já são destinatários de assistência social ou vivem na pobreza. Incentivos financeiros são usados de acordo com as metas estabelecidas. Para testar a efetividade de cada Programa, o MDRC divide os indivíduos em dois grupos: controle, que não recebem incentivos, e os que fazem parte do respectivo Programa. Após a implementação, são usadas medidas como emprego e renda anual de cada grupo verificando se haveria diferença significativa entre eles.

Como exemplificação, um destes programas é intitulado “First Job Program”, no qual o indivíduo que consegue um emprego continua recebendo normalmente seu benefício de assistência social, do qual já é destinatário, durante o limite de 21 meses. Os do grupo controle têm seus ganhos de assistência reduzidos quando isto ocorre. Apesar de haver diferenças entre os grupos após quatro anos, considerando que os participantes do Programa conseguiram mais empregos, não foi observado um aumento de trabalho em período integral e maior renda, como o esperado. Além do incentivo direto ao emprego, outros buscam o estabelecimento de metas educacionais, como o “Opening Doors”. Neste caso, o incentivo é entregue com base no rendimento acadêmico do indivíduo, visando facilitar posteriormente sua inserção no mercado de trabalho. Os resultados mostram que os participantes do Programa  apresentam melhor desempenho acadêmico do que os do grupo controle. No entanto, não foi verificado se, a longo prazo, este incentivo teria o efeito desejado sobre o emprego e renda.   

O fato é que, a análise de cada um dos programas antipobreza, bem como os resultados obtidos, levou os pesquisadores a concluírem que as falhas existem porque não são considerados aspectos importantes do condicionamento operante na implantação da maioria deles. Os principais pontos críticos abordados nesta análise foram: atraso entre atendimento do objetivo e recebimento do incentivo devido ao tempo que se leva para verificar o cumprimento da atividade e o pagamento; frequência inadequada de entrega do benéfico, sendo no mínimo uma vez por mês; requerimento de respostas substanciais, que muitas vezes não estavam ao alcance do participante; baixa magnitude do incentivo; não desenvolvimento de habilidades necessárias para atingir as metas (alguns participantes alegaram que não sabiam como conseguir um trabalho integral, por exemplo); falta de informações claras sobre o sistema de incentivo, entre outros.

Como forma de demonstrar como a abordagem analítico-comportamental pode contribuir para o desenvolvimento de programas desta natureza, os pesquisadores apontam o modelo do Therapeutic Workplace. Neste programa de intervenção, o indivíduo passa por fases até atingir os objetivos desejados, desde a abstinência de drogas até o desenvolvimento de habilidades que possibilitem aumentar a empregabilidade. De forma geral, os incentivos são entregues continuamente através do dia, são estabelecidos pré-requisitos comportamentais antes de se requerer comportamentos mais complexos, e os reforços são aplicados contingentemente a comportamentos discretos, sendo aumentados gradualmente. Há uma pesquisa rigorosa que avalia a intervenção em pequenos grupos de participantes e os resultados têm demonstrado a efetividade deste tipo de intervenção.

Os autores concluem que programas que visam à diminuição da pobreza são muito importantes, mas devem ser planejados considerando uma forte base empírica para produzir os resultados almejados. Consideram que os analistas do comportamento possuem o arcabouço necessário para ajudar neste processo. E no Brasil? Será que nossos programas com incentivo financeiro têm dado certo? Como poderíamos “dar uma mãozinha”?

Quer mais detalhes sobre a pesquisa? Leia:

Holtyn, A. F., Jarvis, B. P., & Silverman, K. (2017). Behavior analysts in the war on poverty: a review of the use of financial incentives to promote education and employment. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 107, 9-20.

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

Créditos da imagem: http://hiperboreajuvenalia.blogspot.com.br/2012/09/a-pobreza-de-muitos-e-riqueza-de-alguns.html

A ocasião faz o ladrão?

melina

O que as Neurociências nos dizem sobre essa sabedoria popular?

Todo mundo sabe que a maneira como nos comportamos altera nosso ambiente, mas o ambiente também altera a maneira como nos comportamos. Por exemplo, sabe aquela cena  assustadora do início de um filme de terror que depois começa a parecer menos aterrorizante? Ou uma cena muito violenta, que depois de algum tempo nem te choca mais? As pesquisas de Neurociências explicam isso em função de uma dessensibilização progressiva da amígdala (região cerebral), que reduz a nossa percepção de aversividade nos estímulos conforme eles se repetem. Por isso, o que era muito violento ou assustador no início do filme, vai parecendo, conforme a repetição de cenas com esses conteúdos, menos violento e assustador para o espectador ao final do filme. Será que podemos apresentar um comportamento parecido quando o que está envolvido é a honestidade?

Por exemplo, você já se viu em uma situação que ficou tentado a agir desonestamente e quanto mais tempo se viu nessa situação, mais difícil foi “resistir” e acabou pensando que aquele seu ato nem era “tão desonesto assim, ou nem tão condenável”? Já ouviu ou falou comentários do tipo: “aquele político, no início da carreira não roubava, agora, 2 milhões é pouco!”. Enfim, será mesmo que, a depender a oportunidade, podemos nos comportar de forma desonesta, e será que quanto mais somos expostos a essas oportunidades, maior a intensidade da ação desonesta?

Tentando responder essas questões, quatro pesquisadores da University College London, na Inglaterra, e da Duke University, no Estados Unidos fizeram uma pesquisa muito interessante, publicada ano passado na Nature Neuroscience, em que buscaram investigar se haveria aumento progressivo de comportamentos desonestos conforme as pessoas fossem expostas a situações em que seria vantajoso para elas se comportarem de forma desonesta, e os mecanismos neurológicos subjacentes a este fenômeno. Para isso eles arranjaram diferentes situações experimentais para uma tarefa relativamente simples: olhar para uma figura de um pote com moedas, estimar quantas moedas havia nele, e relatar essa estimativa para uma outra pessoa (que o participante não sabia, mas era um confederado – uma pessoa que finge ser participante, mas que na verdade faz parte do arranjo das contingências programadas para o experimento). O participante (conselheiro) acreditava que estava dando conselhos sobre a quantidade de moedas para auxiliar a pessoa (palpiteiro) a decidir seu palpite. Para o participante, ele e o confederado estavam jogando juntos contra um computador, mas só o participante tinha acesso às diferentes “regras das condições do jogo”.

Essas regras eram as diferentes condições experimentais, e havia seis delas. A primeira, era a linha de base: conselheiro e palpiteiro recebem igualmente a recompensa conforme mais preciso for o palpite. A segunda condição era “benefício pra mim-prejuízo para o outro”: o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com quanto o palpiteiro superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite, enquanto que o palpiteiro seria recompensado de acordo com a precisão do seu palpite. Na terceira condição, “benefício para mim e para o outro”, a regra era que ambos seriam recompensados conforme a superestimativa do palpiteiro. A quarta condição era inversa à segunda: “prejuízo para mim- benefício para o outro”:  o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com a precisão do palpite, enquanto que o palpiteiro iria ser recompensado conforme superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite. Na quinta condição (“benefício pra mim”), a regra que o participante recebia era a que ele seria recompensado conforme o palpiteiro superestimasse seu palpite, mas o palpiteiro receberia um valor fixo. Na sexta condição, “benefício para o outro”, o cenário se invertia, e quem receberia o valor fixo era o conselheiro. Foram feitas 60 tentativas em cada uma dessas condições, e o que os pesquisadores usaram como medida de desonestidade do participante foi seu conselho (dado nas diferentes condições experimentais) menos o conselho que ele deu durante a linha de base, respectivamente para cada tentativa (por exemplo, conselho da 1ª tentativa da condição “benefício para mim”, menos conselho da 1ª tentativa da linha de base).

Os resultados mostraram o que os pesquisadores já desconfiavam (e nós também!): a desonestidade foi progressivamente aumentando conforme foram passando as tentativas, mas só quando isso beneficia quem a pratica. Ninguém age de forma desonesta para se prejudicar. Isto quer dizer que na condição “benefício pra mim-prejuízo para o outro”, conforme iam passando as tentativas, os participantes iam oferecendo um conselho cada vez maior (e cada vez mais superestimado) para o palpiteiro. Na condição “benefício para mim e para o outro” isso também aconteceu, mas com menor intensidade. Além disso, como alguns dos participantes realizaram esta tarefa ao mesmo tempo em que tinham seus cérebros escaneados por um aparelho de fMRI, os pesquisadores também observaram uma redução da ativação da amígdala ao longo do tempo. Podemos dizer que houve uma redução da sensibilidade da amígdala à aversividade contida nas ações desonestas, como se fôssemos ficando menos sensíveis a desonestidade, que antes era percebida como aversiva. Quando a desonestidade beneficiava o outro, mas não afetava a pessoa que a praticava, ela aconteceu, mas os resultados indicam que ela não se intensifica com o tempo, e não afetava a ativação da amígdala, possivelmente porque esse tipo de ação normalmente não é percebida como desonestidade, e sim como generosidade já que não há benefício próprio e sim do outro.

Como nós, analistas do comportamento, gostamos de lembrar sempre, as pessoas não malvadas porque existe a maldade dentro delas. Pesquisas como estas, que apresentam correlatos neurais da desonestidade, nos mostram que a forma como nos comportamos vai muito além de “uma questão de escolha individual”, e que depende muito da interação com as contingências ambientais. E no fim, parece que a sabedoria popular tem mesmo muito a nos ensinar. Ao que tudo indica, a ocasião faz sim o ladrão, e começar a cometer pequenos delitos, percebidos como pouco prejudiciais podem ser o gatilho para atos cada vez mais corruptos.

Ficou curioso? Quer saber mais? Leia o artigo original:

Garrett, N., Lazzaro, S. C., Ariely, D., & Sharot, T. (2016). The Brain Adapts to Dishonesty. Nature Neuroscience, 19(12), 1727–1732.

Escrito por Melina Vaz – Bióloga, quase psicóloga e doutoranda em Psicobiologia na USP-Ribeirão Preto, uma carioca que percebeu que a malandragem é desnecessária no interior de São Paulo.

Créditos da imagem: https://pt.slideshare.net/italocolares/o-que-a-natureza-humana