O behaviorismo radical desconsidera nossos sentimentos?

Você já se deparou com alguém que diz que “até acha legal” mas não se interessa tanto por análise do comportamento ou pelo behaviorismo porque falta alguma coisa? Uma análise mais profunda?

Um erro comum entre muitos daqueles que não estão tão familiarizados com a teoria do Behaviorismo Radical, é a ideia de que ela é reducionista e não considera os sentimentos e aspectos cognitivos do ser humano, descartando toda sua complexidade. Alguns autores fizeram revisões na teoria de B. F. Skinner, o principal teórico dessa Filosofia, enfatizando as críticas que ele faz ao uso de tais explicações cognitivas para fenômenos comportamentais. Entretanto, já em seus primeiros textos, Skinner ofereceu não só críticas ao modelo de explicações cognitivas (dentre elas o sentimento), mas também interpretações comportamentais para essas explicações, que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento.

Por conta disso, Veloso e Dittrich realizaram, recentemente, uma revisão de literatura conceitual em que enfatizaram as propostas de interpretação comportamental dos termos cognitivos na obra de Skinner. Para isso, os autores realizaram uma busca pelo radical “cognit-” em todos os livros não ficcionais e não biográficos do autor, publicados entre 1938 e 1999. A parte de quatro obras que foram excluídas porque não apresentavam nenhuma entrada com esse radical, foram encontradas 315 entradas, das quais foram selecionadas 67 em que Skinner apresentou alguma interpretação comportamental para elas. Na maioria da vezes, o autor utilizou os termos “resultado das contingências”, “controle de estímulos” e “controle por regras” para interpretar os termos cognitivos.

Uma questão interessante levantada por Skinner é a de que muitas vezes é possível se identificar as variáveis controladoras da emissão de muitos termos, hoje considerados cognitivos, por meio de seu estudo etimológico, ou seja, por meio da identificação da origem desses termos. Por exemplo, o termo “Ponderar”, que geralmente é atribuído a atividades cognitivas, referia-se originalmente às situações em que colocar algum objeto em uma balança ajudaria na decisão de trocá-lo por outro. O mesmo valia para o termo “Deliberar” que vinha libra – balança em latim – e que se dava no mesmo contexto mas enfatizando a balança em si.

Alguns termos cognitivos não estão relacionados a contingência em si, como no exemplo acima, mas aos comportamentos que emergem diante de um conflito nas variáveis da contingência. Em situações que diferentes contingências simultâneas controlam respostas incompatíveis, as respostas precorrentes – aquelas que aumentam a probabilidade da emissão da resposta que resolva o problema – tendem a receber nomes cognitivos. Um exemplo, nesse caso, seria a decisão de qual o melhor caminho escolher; as respostas – frequentemente sutis – como fechar o olho para diminuir os estímulos concorrentes e ajudar na decisão, são consideradas cognitivas.

A memória, um termo difícil de ser desassociado a cognição, é um exemplo de resultado produzido pelas contingências. Nesse caso, o organismo todo é modificado pelo contato com determinadas contingências e apresenta novos comportamentos diante delas. Em outras palavras, se essas condições não estiverem presentes, o organismo permanece modificado mas só exibirá o comportamento referido ao se repetir as condições (ou, eventualmente, parte delas) da modificação.

Controle de estímulos é algo que, segundo Skinner, responde a vários desses termos cognitivos. Quando dizemos que uma pessoa “pegou a ideia” ou abstraiu, na verdade o que vemos são que certos tipos de contingências de reforçamento colocaram uma resposta sob controle de uma única propriedade de um estímulo. O fato de imaginarmos um objeto ao olhar para uma nuvem, seria um exemplo.

O caso das regras, que para muitos cognitivistas são tidas como armazenadas pelo indivíduo na forma de conhecimento, remeteria a uma forma “passiva” de conhecer, por conta do comportamento ser resultado de um “conhecimento comunicado”. Esse “conhecimento comunicado” consistiria nos comportamentos que se tornam comuns entre ouvinte e falante por meio da apresentação de regras deste para aquele, permitindo que ambos respondam da mesma maneira sob controle das mesmas variáveis.

Com essa revisão, de maneira geral, os autores se propuseram a identificar algumas interpretações já apresentadas por Skinner de modo a evidenciá-las. Esses resultados podem servir de ponto de partida para investigações dos processos comportamentais aos quais os cognitivistas se referem e incentivar um diálogo mais produtivo entre as áreas.

Quer saber mais? Acesse o artigo completo:

Veloso, R. J. M. D., & Dittrich, A. (2018). Contribuições de B. F. Skinner para a interpretação comportamental de termos cognitivos. Acta Comportamentalia, 26(3), 363-378.

Crédito da imagem: https://imirante.com/oestadoma/imagens/2016/01/31/1454264661-733057767.jpg

Escrito por Guilherme Sbrocco, graduando em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

 

 

 

 

Advertisements

Planejamento Urbano: A Análise do Comportamento pode auxiliar na confecção de textos legais.

O exame de contingências nas leis pode auxiliar na prescrição de comportamentos desejáveis e no planejamento das funções públicas mais eficiente.

Planejamento Urbano_A Análise do Comportamento pode auxiliar na confecção de textos legais

Do campo à cidade, as civilizações por todo o mundo passaram por um processo de êxodo rural e concentração em centros urbanos ao longo da história. No Brasil, notadamente após 1950, houve um grande crescimento das cidades e uma mudança dinâmica da comunidade e o estilo de vida dos cidadãos. Um fenômeno decorrente disso, a urbanização acabou por ser feita às pressas e muitos problemas sociais foram gerados, culminando em forças governamentais para tentar controlá-los e arranjar de forma mais harmônica esse elementos caóticos. A todo caso, ainda é evidente o quanto o planejamento urbano é um tema atual e seus efeitos são estudados por diversas ciências.

O estudo de Lourencetti & Carrara (2017) trás à tona sua importância com a observação do quanto os problemas de infraestrutura e desigualdade social são evidentes e como a Ciência do Comportamento Humano pode auxiliar. Afinal, como cita o próprio Skinner (1953-2003), é sempre o indivíduo que se comporta, ou seja, sempre há a necessidade de entender os elementos da complexa malha social da comunidade e seus comportamentos para, então, propor soluções viáveis e praticáveis.

O objeto de estudo da Análise do Comportamento é, como o próprio nome suscita, o comportamento. Este, por sua vez, entendido como a relação entre o organismo e o ambiente e as consequências advindas dessa interação, pode ser entendido por algumas ferramentas, entre elas, a Tríplice Contingência. Tríplice Contingência é a descrição das três instâncias do comportamento operante, sendo elas o contexto (ambiente) em que ocorre o comportamento, a resposta, ou seja, a ação do organismo, e, por fim, a consequência, os estímulos que sucedem e aumentam ou diminuem a probabilidade de respostas semelhantes no futuro. Este comportamento operante também pode ser social quando há a relação de duas ou mais pessoas com consequências mediadas por outros organismos que geram alteração no grupo. O conjunto de comportamentos específico de um grupo se torna uma prática cultural quando o repertório comportamental que compõe a prática passa a ser replicado por outros indivíduos de um mesmo grupo ou contexto social. Os indivíduos estão sujeitos a contingências particulares que selecionam seus próprios repertórios resultantes da articulação com os comportamentos de outros membros do grupo.

No convívio social, fazem-se necessárias regras, para descrever como os organismos devem se comportar para a manutenção de determinada ordem em um determinado ambiente. Elas descrevem consequências boas ou ruins, de acordo com o comportamento do organismo e atuam de maneira econômica, evitando que o organismo tenha que entrar em contato direto com os efeitos de um eventual comportamento não aceito pela comunidade. As consequências podem ser imediatas ou a longo prazo para o organismo. Segundo Abib (2001), as consequências imediatas indicam maior susceptibilidade do ser humano em relação a consequências a longo prazo, pela história da espécie de valor de sobrevivência.

Diante disso, o estudo de Lourencetti & Carrara (2017) buscou utilizar os conceitos da Análise do Comportamento para estudar as principais regras que regem a convivência da comunidade: as leis. Em específico, documentos que visavam à organização e planejamento do desenvolvimento urbano, para notar se os textos continham descrições de contingências completas para determinar como deveriam ser os comportamentos dos gestores públicos dos municípios e dos cidadãos comuns.  O estudo objetivou desenvolver uma análise de contingências referenciadas no Estatuto da Cidade, na Política Nacional de Mobilidade Urbana e no Plano Diretor do Município de Bauru. Além de, especificamente, analisar como se ocorrem entrelaçamento de contingências entre os três códigos.

Os resultados foram impressionantes. Nos três textos legais foram encontradas, ao todo, 107 contingências de três termos. Em especial, sobre como deveriam proceder os órgãos administrativos públicos municipais em relação à organização dos espaços e das obras de infraestrutura, para garantir os direitos básicos dos cidadãos dispostos na constituição de 1988. O problema é que os termos utilizados, na maioria das vezes, não descreveram ação alguma. Umas contingências não trouxeram os contextos em que os organismos deveriam se comportar, outras não descreveram consequências, algumas usaram termos tão vagos que quaisquer atitudes dos gestores públicos poderiam se encaixar como “administrar”, “auxiliar financeiramente”, “zelar”, “garantir”.

Conforme os próprios autores comentam, a descrição vaga nos termos da lei pode gerar alguns efeitos negativos. Por parte dos agentes da lei, eles podem tanto atuar em favor da comunidade, quanto em favor de grupos econômicos e outros interesses privados que não beneficiem a maioria, estando ainda dentro da legalidade. Ou seja, eles podem governar pelas consequências imediatas, que segundo Abib (2001) são características evolutivas da espécie, deixando de lado consequências a longo prazo benéficas à comunidade. Constatou-se que o planejamento urbano no Brasil foi feito de maneira pouco efetiva.

O estudo é apenas uma das muitas demonstrações de como a Análise do Comportamento não fica restrita apenas às áreas tradicionais, como a clínica e a educação, mas também às funções políticas vitais para o funcionamento de um município, estado e até um país, com a elaboração de textos legais. Trata-se de uma ciência que se aproxima de quaisquer práticas que envolvam seres humanos, sejam eles em quais campos estiverem.

 

Referências Bibliográficas:

 

Lourencetti, L. A., & Carrara, K. (2017). Descrição e análise de prescrições comportamentais em legislações referentes ao planejamento urbano brasileiro. Perspectivas em análise do comportamento, 8(2), 159-179.

 

Abib, J. A. D. (2001). Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano. Psicologia: reflexão e crítica, 14(1), 107-117.

 

Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (Vol. 10). São Paulo: Martins Fontes.

 

Fonte da imagem: https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/caminhadas-urbanas/sao-paulo-o-desafio-dos-10-anos/

 

Escrito por Eliseu H. Zanesco, graduando em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), membro do grupo de pesquisa CLICS (Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico) do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH).

Crianças autistas podem aprender a explicar tarefas?

file_7431

Se você brincava com seus amigos quando era criança, certamente você já teve que explicar como se joga um jogo. Eu, por exemplo, quando jogava “ABC” com meus amigos, muitas vezes tinha que explicar para alguém que não sabia. Para explicar o jogo eu dizia “primeiro nós escolhemos uma classe de objetos, por exemplo, frutas; depois, cada um tem que colocar um número de dedos; em seguida, contamos cada dedo em ordem alfabética, por exemplo, três dedos contam como letra C; depois, cada pessoa deve dizer uma fruta que começa com a letra C; no final, perde quem não dizer nenhuma fruta começando com a letra C”. Se não explicasse como se joga o ABC, dificilmente conseguiria alguém para brincar comigo. Apesar de parecer simples, explicar como alguém deve fazer uma atividade é um comportamento complexo e importante para a vida social de qualquer indivíduo, não só para explicar brincadeiras na infância, mas também para explicar outras atividades ao longo da vida.  Imagine, por exemplo, como você orientaria alguém para chegar à sua casa se você não soubesse explicar como?

Quando alguém pergunta “como chego à sua casa?” parece difícil dar a resposta prontamente, pois é necessário descrever uma série de passos que a pessoa deve seguir para chegar até a casa. Assim, essa pergunta poderia ser um estímulo verbal aversivo ou um problema na perspectiva de Skinner (1953, p.246), ), pois corresponde a uma “estimulação aversiva” para a qual uma resposta de aliviar existe em potencial, mas não disponível imediatamente. Os comportamentos mediadores que levam à solução do “problema” seriam respostas de resolução de problema. De fato, parece que é complexo “explicar como” realizar atividades.

Essa complexidade do “explicar como”, descrita acima, parece ser maior para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). E esse foi um dos motivos pelo qual as pesquisadoras, Sarah E. Frampton do Marcus Autism Center e M. Alice Shillingsburg do Marcus Autism Center e Emory University School of Medicine, nos Estados Unidos, realizaram um estudo com objetivo de avaliar se crianças com TEA podem aprender a “explicar-como” completar tarefas de múltiplas etapas ensinando-as estratégias de resolução de problemas.

O estudo contava com três crianças com idades de 4 a 6 anos diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e foi realizado em um setting clínico, com diferentes cenários de acordo com a tarefa. Cada um dos três participantes fez parte de um delineamento de sondas múltiplas para avaliar o efeito de um treino de tato de ações e do treino de estratégia de resolução de problemas em respostas de explicar-como.

Para desenvolver as atividades de treino de estratégias de resolução de problema e de tato das ações, adultos foram fotografados executando quatro passos das tarefas em cada cenário (por exemplo, arrumando os pinos, pegando a bola, rolando a bola e derrubando os pinos, no cenário de boliche), ou seja, foram gerados quatro estímulos visuais dos passos para realizar as tarefas. Para cada criança seriam usados três conjuntos com dois cenários cada e quatro passos para realizar a tarefa em cada cenário.

O treino de tato das ações consistia na apresentação, em ordem aleatória, de oito fotografias (quatro por cenário) de um conjunto com dois cenários. Para cada tentativa era utilizada uma fotografia, somando um total de oito tentativas por sessão. No início de cada tentativa, o clínico segurava a fotografia e perguntava “o que está acontecendo?”. Se uma resposta correta ocorria (ex. “arrumando os pinos”), a terapeuta fornecia recompensa e um ponto no cartão de pontos. Se uma resposta incorreta ocorria, o clínico apresentava novamente a foto, fazia a pergunta novamente e dava uma dica fornecendo um exemplo do que o participante deveria dizer (dica ecóica).

No “treino de estratégias de resolução de problema” ou PSST (Problem-Solve Strategy Training), em cada sessão era apresentado um conjunto. Depois de fazer uma pergunta, por exemplo, “como eu jogo boliche?”, a terapeuta imediatamente pedia ao participante para selecionar as fotografias do cenário, em seguida solicitava ao participante para sequenciá-las dentro da ordem correta. Uma vez que as fotografias eram classificadas e sequenciadas, a terapeuta imediatamente solicitava ao participante para tatear a sequência das ações nas fotografias usando as mesmas frases como no treino do tato das ações, mas agora emitindo instruções de sequenciamento, o qual incluía os seguintes advérbios “primeiro”, “depois”, “em seguida” e “finalizando”. Por exemplo, a terapeuta solicitava, “primeiro, você arruma os pinos. Depois, você pega a bola. Em seguida, você rola a bola. Finalizando, você derruba os pinos”. Uma vez que o participante emitia essas respostas vocais nessa sequência,  ele recebia uma recompensa ou pontos.

Então, para avaliar o “explicar-como” nos participantes, as autoras fizeram um delineamento de sonda múltipla. Havia três tipos de sondas. A primeira era a sonda naturalística, a qual era conduzida em um local que correspondia ao cenário alvo e tinha a finalidade de avaliar se o participante, após o treino de tato das ações, poderia explicar como realizar as tarefas em um ambiente natural. A segunda era a sonda intraverbal, a qual avaliava se os participantes podiam explicar-como completar as atividades quando os materiais relacionados à estratégia de resolução de problema não eram apresentados. A terceira era a sonda de tato, a qual era conduzida para avaliar se o participante podia explicar-como completar atividades, quando os materiais relacionados à estratégia de resolução de problema eram apresentados. Essa última condição era também a avaliação de generalização da estratégia de solução de problemas entre os conjuntos não treinados.

Uma linha de base era conduzida para cada conjunto de cenários em todos os três tipos de sonda citadas logo acima. Por exemplo, uma vez concluída a linha de base,  começava o treino de tato de ações para o primeiro conjunto de cenários. Após o treino de tato das ações, todos os três tipos de sonda eram repetidos (sonda naturalística, sonda intraverbal e sonda de tato) para avaliar se os participantes podiam subsequentemente explicar-como completar a tarefa no cenário alvo. Se o aumento do responder correto não era observado para o cenário, o treino de estratégias de resolução de problemas (PSST) era iniciado. Depois do treino de estratégias de resolução de problemas (PSST), todos os três tipos de sonda eram repetidos para avaliar o explicar-como completar a tarefa no cenário alvo.         

Os resultados mostraram que as autoras avaliaram com sucesso um novo procedimento para estabelecer respostas de explicar-como, tanto em situações planejadas como em situações naturais. Junto a isso, os resultados demonstraram generalização da estratégia de resolução de problema treinada, quando os participantes eram apresentados a novos problemas durante as sondas de tato. Os resultados do estudo descrito dão suporte à linha de pesquisa com autistas, pois desenvolve comportamento verbal multiplamente controlado sem que seja ensinado diretamente e desenvolve o uso de estratégias de resolução de problemas multimodais para tratar déficits de linguagem em indivíduos com TEA. Esse tipo de estudo é bastante relevante, particularmente,  para pessoas com TEA, pois saber como explicar tarefas para os outros pode, indiretamente, fazer com que um indivíduo tenha contato com uma grande variedade de benefícios sociais. A Análise do Comportamento tem contribuído muito para facilitar o desenvolvimento de pessoas com TEA.

Referência:

FRAMPTON, Sarah E.; ALICE SHILLINGSBURG, M. Teaching children with autism to explain how: A case for problem solving?. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 51, n. 2, p. 236-254, 2018.

Imagem:

http://www.administradores.com.br/noticias/carreira/carreira-o-que-as-criancas-podem-ensinar-aos-adultos/63781/

Escrito por Filipe Cesar da Hora Carvalho, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

O que a linguagem e o medo têm em comum?

helo.png

Alguma vez você, ou alguém que você conhece, sofreu um acidente de trânsito com um carro e depois passou a ter medo de outros carros e veículos? Ou talvez você, ou alguém, foi assaltado em um local e passou a evitar aquele local e locais semelhantes por sentir medo? Essas situações e sentimentos são realmente muito ruins, mas bastante comuns. O que acontece é o que chamamos de generalização do medo, em que uma resposta ocorre para estímulos não relacionados a uma aprendizagem direta de medo, mas formalmente semelhantes a um estímulo diretamente condicionado.
Muitos estudos encontraram evidências desse tipo de generalização para propriedades formais dos estímulos, como cores, e também para propriedades conceituais, como entre palavras semanticamente relacionadas. Além de respostas de medo, podem ser generalizadas respostas de evitação, essenciais no estabelecimento e manutenção de transtornos de ansiedade, ainda que esse comportamento venha recebendo pouca atenção em pesquisas dessa natureza.
Interessados em demonstrar a generalização do medo, da evitação e da expectativa de apresentação de um estímulo aversivo, Boyle, Roche, Dymond e Hermans (2016) utilizaram pares de estímulos semanticamente relacionados para realizar o experimento apresentado a seguir. Nesse experimento, feito com 28 estudantes universitários, choques foram utilizados como estímulos incondicionados aversivos, que foram considerados incômodos, porém não doloridos para eles.
Na primeira fase do experimento foi realizado um treino de medo condicionado, em que algumas palavras foram pareadas com uma aplicação de 0,5 s de choque. As palavras utilizadas no condicionamento foram, em tradução livre, “Caldo”, “Balela” e “Lacrimejar” (do inglês Broth, Fib e Weep), que foram seguidas de choque (CS+), e “Auxiliar”, “Indisposto” e “Briga” (do inglês Assist, Ill e Brawl), que nunca foram seguidas de choque (CS-). Essas palavras e seus pares que foram utilizados na fase seguinte são avaliadas como altamente relacionadas em associação livre, segundo base de dados da University of South Florida Word Association, Rhyme and Word Fragmentation Norms.
Após o treino com as apresentações das palavras e aplicações de choque, iniciou-se a Fase 2. Nela, os participantes foram avisados que poderiam evitar os choques pressionando a barra de espaço do teclado do computador quando as palavras aparecessem na tela. As mesmas palavras foram apresentadas novamente, por mais 10 vezes cada. Depois dessa etapa, um teste de generalização foi iniciado sem avisos ao participante. Nesse momento, as palavras utilizadas anteriormente continuavam a ser apresentadas, mas foram intercaladas com palavras semanticamente relacionadas que nunca foram seguidas de choque. As palavras semanticamente relacionadas àquelas seguidas de choque na primeira fase foram, em tradução livre, “Sopa”, “Mentira” e “Chorar” (do inglês, Soup, Lie e Cry) (denominadas GCS+ no estudo), e as relacionadas às não seguidas de choque foram “Ajudar”, “Doente” e “Luta” (do inglês, Help, Sick e Fight) (denominadas GCS- no estudo). Por fim, os participantes avaliaram suas expectativas em receber choques quando pressionavam ou não a barra de espaços, em uma escala de 5 pontos, em que 5 significava “definitivamente esperava receber um choque” e 1 significava “definitivamente não haveria choque”.
Foi investigado pelos autores: (1) o índice galvânico da pele dos participantes, medido por eletrodos colocados em suas mãos; (2) a taxa de respostas de evitação deles nas etapas de treino e teste; e (3) a expectativa deles em receber choques ou não quando emitiam respostas de evitação. Dentre os resultados, foi observado que as medidas eletrodermais dos participantes foram significativamente maiores para as palavras seguidas de choque (CS+) do que para as palavras não seguidas de choque (CS-) na Fase 1, o que demonstra a efetividade do pareamento realizado. Também foram observadas diferenças entre CS+ e CS-, e entre as palavras semanticamente relacionadas GCS+ e GCS-, na Fase 2, mas não houve diferenças entre CS+ e GCS+, ou seja, as apresentações do estímulo diretamente pareado com o choque e aquele semanticamente relacionado tiveram efeitos semelhantes sobre a condutância da pele dos participantes.
Quanto a evitação, no treino os participantes emitiram mais respostas para CS+ do que para CS-, ou seja, aprenderam a evitar os estímulos relacionados ao choque e a não-evitar os estímulos que não eram seguidos de choques. Sobre a generalização dessas respostas, a evitação foi maior para os estímulos do grupo CS+ e GCS+ do que para CS- e GCS-. Isso indica que a evitação e a não-evitação diretamente aprendidas anteriormente foram mantidas nessa etapa, e em relação aos estímulos semanticamente relacionados, foi visto que a generalização emergiu como esperado, sendo maior para as palavras semanticamente relacionadas à CS+ e menores para as relacionadas à CS-. No entanto, é importante apontar que os estímulos do grupo GCS+ produziram menores taxas de evitação do que os diretamente condicionados (CS+), o que é bastante comum na literatura sobre generalização, em que não é esperado a ocorrência de uma resposta tão robusta diante de um estímulo apenas testado, quanto diante daquele diretamente aprendido.
Quanto a avaliação da expectativa de receber choques, ela foi maior para CS+ e GCS+ se comparado a CS- e GCS-, quando o participante avaliou o que esperaria que acontecesse caso não emitisse a resposta de evitação. Ou seja, como esperado, o participante tinha expectativa de receber choques diante dos estímulos diretamente pareados com choque na primeira fase e daqueles semanticamente relacionados, mas não diante dos estímulos não pareados com choque e dos relacionados, caso não pressionasse a barra de espaço. Por outro lado, paradoxalmente, quando o participante avaliou o que esperaria que acontecesse caso emitisse a resposta de evitação, a expectativa de receber choques foi maior para os estímulos não pareados diretamente com choques, CS-, e os semanticamente relacionados, GCS-. Isto poderia ser explicado pela história que os participantes tiveram de receberem um choque por não emitirem a resposta correta de evitação diante de CS+. Em decorrência disso, eles poderiam esperar também receberem um choque ao não emitirem a resposta “correta”, de não-evitação, para o CS-, assim como para o GCS- que é semanticamente relacionado.
Concluindo, o estudo buscou demonstrar em laboratório um processo que ocorre com frequência em nosso dia a dia, através da linguagem, ou seja, da generalização. Sua importância se dá pela demonstração da generalização para palavras semanticamente relacionadas e por avaliar o comportamento de evitação neste paradigma. Nesse sentido, podemos dizer que o que a linguagem e o medo têm em comum é que a primeira é importante para a propagação do segundo. Assim, se alguém sente medo diante da palavra anfíbio e diante da palavra sapo, por exemplo, é possível que esse sentimento esteja sendo propagado via generalização. Como a generalização é importante para a propagação de comportamentos, como o de evitação, e a evitação se apresenta como um comportamento central em transtornos de ansiedade, estudos como esse devem continuar avançando na tradição analítico comportamental.

Para saber mais, veja o texto na íntegra:
Boyle, S., Roche, B., Dymond, S. & Hermans, D. (2016). Generalisation of fear and avoidance along a semantic continuum. Cognition and Emotion, 30, 340 – 352.

Imagem:

Heloísa Ribeiro Zapparoli, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

Como lidar com o ciúmes?

06.12.png

Podemos dizer que o ciúmes é um sentimento desagradável para a maioria das pessoas que o sentem, aparecendo como uma queixa frequente nos atendimentos clínicos. Quando surge em uma forma patológica, manifestações de ciúmes também estão muito atreladas a ocorrências de violência doméstica (Costa & Barros, 2010; Oliveira & Paranaguá, 2017). Mas mesmo em sua forma mais ‘amena’ (que não é considerada patológica), as pessoas têm diferentes limiares de tolerância e valoração em relação a esse sentimento, tanto as que sentem o ciúme quanto as que são alvo do mesmo. Ainda, existe uma boa discussão em torno das perguntas: ciúmes tem a ver com amor e/ou paixão? De onde surge o ciúmes e quando ele se torna patológico? Embora, como dito, este seja um tema recorrente na clínica, não existem muitos escritos e estudos sistemáticos sobre ele na literatura comportamental (Costa & Barros, 2010). Ao se tentar fazer uma análise funcional do fenômeno, devemos, primeiramente, considerá-lo como uma classe inteira de comportamentos públicos e privados, tanto operantes quanto respondentes.

E em quais contingências isso aparece? Costa & Barros (2010) apontam para o que Skinner (1948/1976) hipotetizou: o ciúmes aparece em contingências de competição/comparação – em sociedades cooperativas, segundo o autor, o ciúmes dificilmente teria lugar. Isso é indício de que o terceiro nível de seleção atua fortemente em comportamentos ciumentos, bem como influencia na história ontogenética dos indivíduos que, a depender do contexto individual, exacerba mais esse tipo de situação. Mas a filogênese não estaria na base de tudo isso? Ciúmes não seria algo natural, no sentido de que até animais não-humanos também o parecem sentir e expressar? Não seria uma espécie de instinto?

        As áreas evolucionista e cognitivista são as mais engajadas em estudos sobre esse assunto. E, se temos um corpo preparado para eliciar e evocar essa classe de comportamentos, é porque isso também é produto de seleção natural, que de fato proporciona contextos competitivos entre indivíduos, embora também possa promover cooperação sob certas circunstâncias (Nowak, 2006). No entanto, é preciso considerar que, há mais de década, já se sabe que a seleção não é uma via de mão única e que a aprendizagem social tem muita influência sobre as pressões seletivas que atuam sobre nós. Áreas como a Teoria da Construção de Nicho (e.g., Laland & Brown, 2006; Laland & O’Brien 2012) e Coevolução genes-cultura (e.g., Feldman & Laland, 1996; Laland, Odling-Smee & Myles, 2010) já lidam com esse feedback entre níveis de seleção, com alguns pressupostos teóricos que dialogam bem com a Análise do Comportamento (Sampaio, Ottoni & Benvenuti, 2015). Portanto, não é mais algo muito aceitável dizer que o ciúmes é uma lei natural incontestável e imutável, no sentido de que nascemos e morremos assim (isto é, é algo completamente inato). Este apelo por si só não faz sentido.   

        E, enquanto analistas do comportamento, como descrever as contingências do comportamento ciumento, já tendo a dica de que ele está intimamente atrelado à competição? O que isso significa, afinal? Comportamentos ciumentos são respostas que emergem em situações coercitivas, isto é, onde há sinalizações antecedentes de ameaça de perda de reforçadores para um terceiro (punição negativa) e o indivíduo ciumento se comporta para evitar tal perda (reforço negativo). O indivíduo pode também ser reforçado positivamente ao angariar atenção do parceiro (Menezes & Castro, 2001). O parceiro pode avaliar o comportamento ciumento de diversas maneiras, sendo que essa valoração depende muito do referencial cultural que carrega. Oliveira & Paranaguá (2017) destacam bem que o ciúmes pode ser confundido com o amor a partir do momento em que muitos parceiros tratam-no como demonstração de afeto e preocupação com a manutenção da relação. Dentro do rol de comportamentos que se nomeia como amor romântico, muito presente na sociedade ocidental, a demonstração de ciúmes é reforçada positivamente em alta magnitude (Costa & Barros, 2010).

Além disso, a não-demonstração de ciúmes diante de uma situação de competição gera consequências punitivas nas sociedades competitivas (Costa & Barros, 2010), geralmente com relacionamentos guiados pelo que se nomeia de amor romântico e que estimulam a competição por parceiros. Uma situação muito comum de punição à não-demonstração de ciúmes é a seguinte: um rapaz acompanha a namorada em um bar e um terceiro a aborda publicamente; diante da não-demonstração de ciúmes do rapaz, seus amigos cobram-lhe uma atitude em relação ao terceiro: “Você vai deixar que ele fale com sua namorada assim?!”.  É de se esperar, então, que boa parte da população demonstre ciúmes, pois as contingências às quais as pessoas estão submetidas no geral ocasionam isso, salvo exceções.

Oliveira & Paranaguá (2017) ainda fazem a distinção entre o ciúmes moderado e o ciúmes excessivo (ou patológico). Este segundo estaria relacionado à emissão de respostas ansiogênicas mesmo quando não há fundamento real para identificação de rival e/ou competição por reforçadores, levando a prejuízos na esfera pessoal e interpessoal. O indivíduo ciumento passa a verificar compulsoriamente suas dúvidas quanto à fidelidade do parceiro, chegando a padrões obsessivos delirantes, o que levou pesquisadores a estabelecerem um paralelo entre comportamentos ciumentos patológicos e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (Oliveira & Paranaguá, 2017).

        Para lidar com este problema, existem algumas estratégias possíveis de intervenção. Oliveira e Paranaguá (2017) sugerem uma intervenção clínica sobre o ciúmes patológico baseada na extinção e punição destes comportamentos. O uso apenas da extinção e da punição é questionável, pois sabemos que tais procedimentos não ensinam novos comportamentos e provocam efeitos colaterais difíceis de manejar. Dado que o ciúmes patológico pode se assemelhar em algumas características com o TOC, podemos adotar sugestões referentes ao modelo comportamental deste transtorno, tentando quebrar o elo (comportamento) inicial do encadeamento das compulsões, procedimento muito bem discutido por Copque & Guilhardi (2008). Estes comportamentos ciumentos obsessivos surgem à sua maneira em cada história individual e o terapeuta deve, por isso mesmo, identificar a história de contingências à qual o sujeito esteve exposto e verificar quais são as contingências específicas às quais responde no momento presente. Ressalta-se ser desejável que o terapeuta leve o indivíduo a discriminá-las (“desenvolver consciência” delas). E, por fim, ensinar novos comportamentos! Esse medo intenso de perder uma fonte importante de reforçadores pode indicar que não existem outras fontes de reforçadores na vida dessa pessoa ou, pelo menos, fontes que são tão importantes quanto. Além disso, tal padrão pode indicar que essa pessoa não sabe procurar por elas. O terapeuta pode trabalhar para o desenvolvimento ou a expansão do repertório de habilidades sociais desse cliente, de modo a variar os reforçadores disponíveis em sua vida e a emitir respostas sociais mais adequadas.

Quer saber mais?

Consulte os textos:

Oliveira, I. J. S. & Paranaguá, M. P. N. (2017). Amor e ciúme psicopatológico: Uma visão fundamentada na perspectiva analítico-comportamental. Fragmentos de cultura, 27(4), 555-569.

        Costa, N. & Barros, R. S. (2010). Ciúmes: Uma interpretação analítico-comportamental. Acta Comportamentalia, 18(1), 135-149.

Copque, H. L. F. & Guilhardi, H. J. (2008). O Modelo Comportamental na Análise do TOC. In: Wander C. M. Pereira da Silva. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição: Análise Comportamental Aplicada implicações para pesquisas. 1ed.São Paulo: Esetec, 2008, v. 21, 61-72.

Outras referências:

Menezes, A., & Castro, F. (2001, setembro). O ciúme romântico: Uma abordagem analítico-comportamental. Trabalho apresentado no X Encontro Brasileiro de Medicina e Terapia Comportamental, Campinas, São Paulo.

Skinner, B. F. (1976). Walden two. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall (Original publicado em 1948).

Nowak, M. A. (2006). Five rules for the evolution of cooperation. Science, 314, 1560 – 1563.

Laland, K.N.  & Brown, G. R. (2006). Niche Construction, human behavior and the adaptive-lag hypothesis. Evolutionary Anthopology, 15, 95-104.

        Laland, K. N. & O’Brien, M. J. (2012). Cultural Niche Construction: An introduction. Biol. Theory, 6, 191-202.

Texto escrito por Natália Biscassi, psicóloga clínica (CRP 06/141433) formada pela Universidade Federal de São Carlos. Mestranda associada ao Laboratório de Etologia Cognitiva (LEC) na Universidade de São Paulo e aluna do curso de Especialização e Qualificação Avançada em Terapia Comportamental pelo Instituto TCR de Campinas.

Há diferenças sobre como fumantes e não-fumantes percebem seu próprio grupo?

Existe relação entre ter pais fumantes e relacionar mais facilmente fumantes a coisas boas? Existe diferença entre adolescentes e adultos ao fazer isso? Será que uma pessoa que fuma associa “fumantes” mais rapidamente a coisas ruins? Fumantes tendem a relacionar coisas boas mais rapidamente a pessoas que fumam?

Essas perguntas foram investigadas em um uma pesquisa realizada recentemente por Susan Cagney e colaboradores (2017). Os pesquisadores recrutaram adolescentes e adultos para responder questionários e um instrumento de medida implícita a fim de investigar a percepção de fumantes e não-fumantes em relação a adjetivos positivos e negativos.

fumante

Como sabemos, o status do fumante é algo que mudou muito nas últimas décadas. Se décadas atrás, ser fumante poderia ser mais facilmente associado a elegância e autonomia, ao longo dos anos, esse status positivo foi bastante questionado ao longo dos últimos anos. Cagney e os outros autores fizeram dois experimentos para investigar isso: um com adultos e outro com adolescentes, ambos os grupos formados por fumantes e não-fumantes.

A ideia era coletar auto-relatos por meio de questionários e escalas sobre como participantes avaliavam estes dois grupos (pessoas que fumam e aquelas que não) e comparar estes dados a aplicações de um instrumento chamado IRAP e assim avaliar tendências favoráveis e desfavoráveis a fumantes entre esses grupos com relação ao status dos fumantes.

O instrumento usado para capturar medidas implícitas (IRAP) é um instrumento fundamentado na Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory – RFT) que, assim como outros instrumentos de medida implícitos, se baseia principalmente no tamanho do tempo de reação necessário para relacionar estímulos. A ideia principal é que se uma pessoa relaciona mais rapidamente dois estímulos, estes provavelmente já tiveram uma maior história prévia onde foram relacionados durante a história individual e um tempo menor indica que estes foram menos relacionados como semelhantes entre si. Mas cuidado na hora de analisar! um tempo de resposta curto para fazer determinadas relações não indica necessariamente o modo como a pessoa pensa no dia-a-dia, afinal, ele não é um instrumento psicométrico. A vantagem de instrumentos implícitos como o IRAP é que eles conseguem captar nuances da história de reforçamento que nem sempre são facilmente relatáveis em entrevistas ou questionários (onde muitas vezes o que é dito é aquilo que o participante pensa que o pesquisador quer ouvir). Em geral, neles a pessoa tem pouco tempo para responder, e por isso, muitas vezes são registradas nuances que as pessoas às vezes ocultam em questionários.

No primeiro estudo, 35 adultos responderam questionários e um IRAP onde deveriam fornecer duas respostas (verdadeiro ou falso) diante de dois estímulos numa tela. A ideia neste teste era verificar o tempo que elas levavam para afirmar que os dois estímulos estavam relacionados de modo verdadeiro ou falso. Um dos estímulos indicava a condição “fumante” ou “não fumante”. O outro era um adjetivo, que poderia ser positivo (por exemplo, “legal”, “independente”, “popular”, “divertido”, “atrativo’ e “respeitado”) ou negativo (palavras semelhantes a “fraco”, “perdedor”, “tedioso”, “sonso”, “carente” e “sozinho”). Assim, os participantes selecionaram “verdadeiro” ou “falso” diante de quatro tentativas: fumante/positivo, fumante/negativo, não-fumante/positivo e não-fumante/negativo. Já o experimento 2 fez exatamente a mesma situação com participantes adolescentes (fumantes e não fumantes) para verificar diferenças entre o grupo deste experimento com relação aos do primeiro.

fumante 2

Exemplo de como seria uma tentativa no instrumento aplicado nesse experimento

Os resultados do IRAP nos experimentos indicaram que tanto fumantes adolescentes como adultos demonstravam uma tendência a relacionarem mais facilmente fumantes a adjetivos positivos, enquanto não-fumantes tiveram uma pontuação relativamente mais neutra. Já nas entrevistas e nas escalas, ambos os grupos relataram que havia uma maior relação entre estímulos “positivos” com  não-fumantes.

Os pesquisadores também buscaram verificar se havia diferença entre os adultos e adolescentes e, para isso, realizaram uma coleta com um público mais jovem. Nos questionários, tanto adultos como adolescentes que não fumavam tendiam a avaliar o grupo delas como positivo. Já os adolescentes fumantes demonstraram uma tendência de relacionar relativamente fraca entre fumantes e estímulos positivos. Por sua vez, no IRAP, embora os dados em geral fossem bastante semelhantes com os de autorrelato, houve uma diferença curiosa: a tendência entre adjetivos bons e o status “não-fumante” foi muito maior entre os fumantes adultos que entre os adolescentes fumantes.  Os autores discutem que isso potencialmente deve-se ao fato que pessoas mais jovens potencialmente são menos propensas a declarar atitudes a favor de não-fumantes, uma vez que conforme envelhecem, eles recebem críticas por fumar e aprendem a mascarar atitudes a favor de fumantes a fim de obter uma maior aceitabilidade.

Já com relação ao fato de terem tido ou não pais fumantes, tanto adolescentes como adultos filhos de fumantes tendiam responder no IRAP de modo mais favorável a fumantes do que a não-fumantes, enquanto filhos de não-fumantes eram mais favoráveis a não-fumantes do que os filhos de fumantes. Apesar disso, ambos os grupos mostraram tendências positiva em relação aos não-fumantes.

Esses dados são bastante novos e as pesquisas com medidas implícitas têm crescido exponencialmente nos últimos anos. O mais bacana é que estes instrumentos podem colaborar muito para estudarmos fatores de risco em diferentes populações como foi o caso dessa pesquisa que avaliou se ter pais fumantes impacta a percepção dos fumantes em geral.

Quer saber mais?

Cagney, S., Harte, C., Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., & McEnteggart, C. (2017). Response Biases on the IRAP for Adults and Adolescents with Respect to Smokers and Nonsmokers: The Impact of Parental Smoking Status. The Psychological Record, 67(4), 473–483. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0249-9

Referências adicionais:

[1] Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Power, P., Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you really know what you believe? Developing the implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32, 169–177.

Créditos da figura:

https://www.theplace2.ru/photos/Alain-Delon-md1179/pic-354859.html

Escrito por Murilo Cesar Moreira, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

Como chamar atenção do seu crush?

josi.png

Você já se perguntou por que aquela sua tentativa de sedução não funcionou com seu crush? Ou por que quando você deixou escapar “Eu amo você” no segundo encontro, a pessoa nunca mais deu “sinal de vida”, ao contrário das suas expectativas? A Análise do Comportamento pode ajudar a explicar!

        Jennifer A. Wade, da Universidade de Temple, localizada na Filadélfia, escreveu um artigo que teve como objetivo analisar o comportamento de “flerte” sob a ótica da Análise do Comportamento. Ao analisá-lo, é possível identificar características de um flerte “de sucesso”, o que pode contribuir para a elaboração de estratégias para melhorar a qualidade e duração de relacionamentos interpessoais entre duas pessoas.

        A maioria das pesquisas já realizadas sobre o assunto, em geral, se preocuparam em analisar as formas das interações sociais (topografias) que ocorrem quando pessoas estão flertando, e também é comum terem como fonte de dados o relato dos indivíduos – no entanto, devemos ter cautela em relação aos relatos mentirosos. Algumas delas encontraram resultados bem interessantes! Por exemplo, foi identificada uma relação entre o interesse de mulheres (heterossexuais) por um homem com comportamentos como: sorrisos “tímidos”, olhar rapidamente para o homem e tocar as próprias roupas (Grammar, Kruck, Juette, & Flink, 2000). Além disso, esses comportamentos tiveram duração de tempo maior quando elas estavam interessadas pelo parceiro. Em relação aos homens (também heterossexuais), foi encontrada uma relação entre falar mais e o interesse no parceiro do sexo feminino.

Ao utilizar a Análise do Comportamento como caminho para analisar o flerte, olhamos para além da topografia do comportamento, ou seja, olhamos também para a função dele. A autora utiliza algumas concepções para explicar o comportamento de flerte, sendo que serão explicadas neste texto as de contingências de reforçamento recíprocas e comportamento verbal.

Jennifer apontou dois modos que podem influenciar quais estratégias de flerte são  mais prováveis de serem bem-sucedidas. O primeiro são as contingências de reforçamento (a curto e longo prazo), que não envolvem necessariamente comportamento verbal. Esse modo significa que cada pessoa envolvida na relação fornece consequências para o outro membro, e quando os membros reforçam o comportamento do outro, pode ser identificado um flerte bem-sucedido, o qual aumenta a probabilidade de você sair com seu crush! Por exemplo, um estudo encontrou que o reforçamento recíproco de sorrisos é uma contingência que aumenta a interação entre duas pessoas. Vale ressaltar que não é essencial que as consequências do flerte sejam exatamente equivalentes para ambos os indivíduos. Quando a magnitude, potência, ou tipos de reforçadores são desbalanceados na contingência de reforçamento recíproca que opera no flerte, ele pode ser bem-sucedido em termos de consequência apenas a curto prazo. Quando as contingências de reforçamento recíproca não operam ou são muito desbalanceadas para um membro da relação, o flerte será malsucedido.

O segundo modo está relacionado ao papel de falantes e ouvintes e enfatiza o comportamento verbal, principalmente o uso de autoclíticos. O autoclítico é definido como um comportamento verbal que modifica outro comportamento verbal ou a reação do ouvinte. Por exemplo, a seguinte afirmação de uma mulher “Você me faz rir” acompanhada de um gesto tocando a mão de um homem. O gesto pode ter função de autoclítico, no sentido de que ele é mais efetivo em estabelecer o interesse do crush. Vale destacar que a análise, como mencionado anteriormente, é sobre a função do gesto, e não apenas na sua topografia.

O estudo de Wade (2013), citado pela autora, mostrou que a função autoclítica “Você e eu” foi mais bem-sucedida em prolongar a duração de uma conversa e aumentar a chance de um primeiro encontro em comparação com a função autoclítica “Nós”. Por exemplo, a afirmação “Você e eu devemos tomar café algum dia” foi mais bem sucedida do que “Nós devemos tomar café algum dia”. Vale destacar que este estudo foi realizado em um país com nativos ingleses e que o resultado poderia ser similar ou diferente se realizado aqui no Brasil.

A autora cita dois tipos de autoclíticos (há seis tipos. Para mais informações ver Borloti, 2004): o descritivo e o manipulativo. O descritivo faz referência ao falante e pode ou não fazer referência a um estado afetivo. Por exemplo, a seguinte sentença: “Na minha opinião, você é o homem mais lindo do mundo”, a qual difere de um simples tato: “Você é o homem mais lindo do mundo”.  Outros exemplos: “Eu gosto de falar com você”, “Eu amo falar com você”, “Eu gosto de falar com você”.

Já os autoclíticos manipulativos são, em geral, afirmações que modificam outros operantes verbais ou mudam o efeito que um operante verbal tem sobre o ouvinte. Por exemplo: “Apenas me dê uma chance para levar você para jantar, e, se você não tiver uma experiência fantástica, nunca mais ligarei para você de novo” e “Posso comprar seu jantar?”.

O comportamento verbal pode predizer o sucesso do flerte com um membro do sexo oposto. Deste modo, o autoclítico pode exercer um papel potente em diferenciar pessoas que são, de algum modo, similares, como em aparência, interesses, etc., em diferentes graus de sucesso no momento do flerte e nos relacionamentos interpessoais, em geral.

Por fim, a autora destaca que, além das contingências de reforçamento e do comportamento verbal, há ainda outros aspectos a serem levados em consideração quanto ao comportamento de flerte: as operações motivacionais e o contexto. As operações motivacionais (OMs) também têm papel essencial no comportamento do flerte. Por exemplo, indivíduos casados têm menos probabilidade de responder a um flerte (há exceções), e, portanto, a operação motivacional não é a mesma em relação a uma pessoa que está há um ano sem ter algum tipo de relacionamento amoroso. Em relação ao contexto, a depender dele, o comportamento de flerte pode ser mais ou menos provável de ocorrer. Por exemplo, a probabilidade de haver comportamento de flerte em uma balada ou um funeral é diferente. Outro aspecto importante a se mencionar é que as mesmas topografias de comportamento podem ser nominadas como flerte ou não a depender do contexto. Por isso, novamente, destaca-se a importância de se observar a função do comportamento.

Como foi observado no texto, há diversas possibilidades de análise do comportamento de flerte. Quanto mais trabalhos forem conduzidos na área, maior a possibilidade de ajudar as pessoas que apresentam algum tipo de dificuldade, como aquelas que apresentam transtornos de ansiedade, dificuldades sociais, ou história passada em que o flerte foi frequentemente punido. Que tal elaborar um estudo experimental nessa área?

 

Quer saber mais?

Consulte o texto:

Wade, J. A. (2018). (I think) you are pretty: A behavior analytic conceptualization of flirtation. Perspectives on Behavioral Science, 1-22. DOI: 10.1007/s40614-018-0136-y

Outras referências:

Borloti, E. (2004). As relações verbais elementares e o processo autoclítico. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 6(2), 221-236.

Grammar, K., Kruck, K., Juette, A., & Fink, B. (2000). Non-verbal behavior as courtship signals: The role of control and choice in selecting partners. Evolution and Human Behavior, 21, 371–390.

 

Fonte da imagem: https://aminoapps.com/c/undertale-brasil/page/blog/flerte-com-frisk-e-chara/75jz_PZiPu86ZXewPdw0Zdv71K8eq46Gv7

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Estratégias para ensinar categorização em crianças com TEA

natalia aggio

Fonte;: https://www.inspiradospeloautismo.com.br/a-abordagem/atividades-interativas-para-pessoas-com-autismo/

Ultimamente tem crescido muito no Brasil a quantidade de intervenções voltadas para crianças autistas. Esse aumento se deve, em parte, ao grande corpo de investigações experimentais que embasam essas intervenções. E é sobre uma dessas que vamos falar neste post.

Daniela M. Ribeiro, Rayssa S. T. Cavalcante, Maria T. S. Bandeira, Ana Carolina Sella e Caio F. Miguel testaram um procedimento para identificar se o ensino de tato[1] seria suficiente para observar a emergência de dois outros repertórios: categorização e comportamentos de ouvinte. Participaram quatro crianças com TEA. Foram utilizados nove cartões em que estavam impressos a figura de três cães de caça, três de trabalho e três de estimação (um cão em cada cartão).

O pesquisadores começaram testando os comportamentos de categorização, de ouvinte e de tato das crianças em relação às categorias definidas pelo experimentador (cães de caça, de trabalho e de estimação). Em todos os pré-teste o experimentador mostrava uma figuras de cada vez enquanto as outras oito estavam sobre a mesa. No pré-teste de categorização dizia “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?”. No pré-teste de nomeação e categorização dizia “O que é isso? Você pode me dar os outros?”  Por fim, nos testes de ouvinte dizia “Você pode me dar o (cão de caça/cão de trabalho/cão de estimação)?” Nesses pré-testes ele verificaram que nenhuma das crianças conseguiu responder corretamente. Ou seja, elas não sabiam nomear, escolher ou juntar os cartões de acordo com as três categorias propostas. Então as crianças eram ensinadas a nomear cada uma das figuras, de acordo com a categoria à que pertenciam. Esse era o treino de tato. Quando os pré-testes foram refeitos (agora com nome de pós-teste) observou-se que todas as crianças passaram a ser capazes de responder corretamente. Ou seja,  os repertórios de categorização e de ouvinte emergiram, sem treino explícito.

Você pode pensar, se eu aprendi a nomear os cães 1, 2 e 3 como cães de caça e depois alguém me mostrar um deles e disse “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?” ou me perguntar “O que é isso? Você pode me dar os outros?”, é óbvio que eu vou saber responder. Acontece que quando vamos pensar no desenvolvimento de intervenções, não podemos deduzir que nada é óbvio. Essas são habilidades diferentes. Então não é possível assumir que elas vão emergir naturalmente. É preciso pesquisar e investigar! Os autores discutem que esse pode ser um procedimento promissor para ensinar novos repertórios para pessoas com TEA, uma vez que é econômico (o ensino de um repertório proporcionou a emergência de outros dois) e também que mais pesquisas ainda são necessárias sobre esse assunto.

Ficou curioso? Não deixe de ler o artigo na íntegra: Ribeiro, D. M., Cavalcante, R. S. T., Bandeira, M. T. S., Sella, A. C., & Miguel, C. F. (2018). Efeitos do ensino do tato na emergência da categorização em crianças com Transtorno do Espectro Autista.  Acta Comportamentalia, 26 (1), 71-91.

Postado por Natalia M. Aggio, pos-doutoranda do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista Capes.
[1] Ver o post https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2016/12/02/ga-ga-ooh-la-la-lady-gaga-musica-e-o-ensino-dos-operantes-verbais/ para definição de operantes verbais

É apenas uma piada?

julio 28.09

 

Pesquisadores investigam como o humor racial é capaz de disseminar o preconceito contra negros

No dia 30 de junho, durante o jogo de quartas de final da Copa do Mundo entre França e Argentina, o youtuber e influenciador digital Júlio Cocielo se tornou alvo de críticas ao postar um comentário considerado racista no Twitter: “Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein”, comentou Cocielo após um dos gols do jovem atacante francês, que é negro. Não tardou para que o comentário se tornasse uma polêmica de grande proporção, alavancada por inúmeras pessoas que se sentiram ofendidas pelo youtuber. Cocielo tentou se defender dizendo que se referiu somente à velocidade do jogador, mas a desculpa não colou diante da divulgação de diversos outros comentários e piadas racistas postadas por ele ao longo dos últimos 8 anos. Além da retaliação pública, o comentário pôs em xeque as parcerias comerciais do youtuber, tornando incerto o futuro de sua carreira. O assunto dividiu opiniões, com diversas pessoas apontando que os comentários de Cocielo ajudavam a propagar o preconceito contra pessoas negras e, outras tantas, ponderando a situação com o argumento de que as críticas se tratavam de uma vigilância extrema sobre o “politicamente correto”.

De que forma piadas racistas, como as postadas por Cocielo, podem afetar seu público e ajudar a disseminar expressões subsequentes de preconceito racial? Tal questão é de extrema relevância, principalmente se considerarmos que a maior parte da audiência do youtuber (que possui mais de 16 milhões de inscritos em seu canal, o CanalCanalha) é formada por crianças e adolescentes. Em um artigo publicado no início de 2018 no periódico científico Humor (International Journal of Humor Research), o grupo de pesquisa liderado pelo professor Donald Saucier, da Kansas State University, traz resultados bastante interessantes para pensarmos sobre essa questão.

Em uma série de três estudos realizados tanto presencialmente (n = 273), quanto via formulários online (n = 158), os pesquisadores observaram que, após ouvirem ou lerem piadas consideradas de humor racial, os participantes tenderam a avaliar pessoas negras de forma predominantemente negativa, viés que não foi observado quando os participantes ouviam ou liam piadas consideradas neutras em termos raciais. Tal avaliação era feita por meio de escalas de 1 (“discordo totalmente”) a 7 (“concordo totalmente”) nas quais os participantes deviam selecionar quão acuradamente certos estereótipos descreviam pessoas negras. Ao todo, o instrumento continha dez estereótipos, sendo parte hostis/negativos (e.g., preguiçosas, agressivas) e parte benevolentes/positivos (e.g., atléticas, divertidas).

Para surpresa dos pesquisadores, os resultados foram semelhantes tanto quando a piada era claramente depreciativa (“Qual é o melhor lugar para se proteger o dinheiro de um assaltante negro? Dentro dos livros!”), quanto nas situações em que o intuito inicial da piada era confrontar o pensamento preconceituoso (“Do que é chamado o cara negro que leva um avião de um aeroporto? De piloto, seu racista desgraçado!”). A hipótese inicial era de que o humor racial confrontativo pudesse reduzir a expressão do preconceito contra negros, ao deixar claro a inadequação social de tais atitudes. Segundo os autores, o resultado inesperado se deveu ao fato de que mais do que a metade de todos os participantes que ouviram ou leram a piada confrontativa a avaliaram, ao final do estudo, como dirigida, de forma depreciativa, aos negros e não ao interlocutor/pensamento racista como era previsto inicialmente. Interpretada de tal forma, a piada confrontativa teve o mesmo efeito que a piada depreciativa, enviesando negativamente a avaliação feita pelos participantes. A conclusão foi corroborada pela redução do viés racial negativo observada na (menor) parte dos participantes que demonstraram ter interpretado de forma adequada a piada confrontativa.

Saucier e seus colaboradores discutem que a literatura sobre humor tem considerado o uso de piadas depreciativas como uma espécie de “espada” utilizada para atacar indivíduos e grupos sociais com base em sua aparência, vinculação política, raça, religião e gênero. No caso do humor racial, piadas depreciativas podem ser um veículo para disseminação de ideias preconceituosas, valores e julgamentos sobre as pessoas negras, com o intuito de estigmatizá-las e marginalizá-las. E justamente por ter como defesa o argumento de se tratarem de “apenas piadas”, sátiras depreciativas podem ser uma forma de expressar o preconceito racial sem incitar reações negativas da audiência. Com isso, cria-se um contexto no qual outras formas de expressão de preconceito sejam feitas mais livremente. A esperança dos autores era de que o humor confrontativo pudesse ser utilizado como uma forma de “escudo” para combater o preconceito racial. Os resultados os levam a recomendar cautela na utilização de piadas confrontativas, uma vez que, a depender da interpretação feita pelo público, o tiro pode sair pela culatra e ajudar a perpetuar o preconceito racial e o estigma contra pessoas negras em vigor na sociedade.

No dia 4 de julho, o youtuber Júlio Cocielo fez um vídeo pedindo desculpas pelo ocorrido e voltou a dizer que sua intenção não foi ofender ninguém e que só estava se referindo à velocidade do jogador francês. O estudo de Saucier e colaboradores demonstra que o youtuber ou qualquer outro influenciador digital deve ter muito cuidado com suas palavras e com o impacto que suas declarações e piadas podem ter sobre o público, mesmo que a intenção original seja a melhor possível.

Quer saber mais?

Saucier, D. A., Strain, M. L., Miller, S. S., O’Dea, C. J., & Fill, D. F. (2018). “What do you call a Black guy who flies a plane?”: The effects and understanding of disparagement and confrontational racial humor. Humor: International Journal of Humor Research, 31(1), online.

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

TEMOS LIBERDADE PARA ESCOLHER?

gulherme

Assim como o personagem Neo no filme Matrix, o determinismo ou a ideia de que não temos controle ou escolha sobre o que acontece na nossa vida causa incômodo em muita gente. Mas afinal, há espaço para liberdade de escolhas dentro das ciências do comportamento? Para alguns autores, sim. Mas para responder isso, primeiro precisamos definir o que entendemos por liberdade.

No behaviorismo radical, apenas alguns significados de liberdade são rejeitados. Por exemplo, há um relativo consenso em relação a não haver espaço para a liberdade no sentido de uma ausência total de controle. Alguns analistas do comportamento se dedicaram a esse tema em uma tentativa de articular significados da palavra liberdade que são consistentes com a teoria

Talvez um dos analistas do comportamento mais influentes tenha sido Skinner, que por meio da observação das condições em que o termo é utilizado, chegou a conclusão de que ele é mais comumente utilizado em condições onde não há controle aversivo imediato do comportamento ou quando se relaciona a ausência de controle comportamental por reforço positivo em situações com consequências aversivas no médio ou longo prazo. Uma de suas principais críticas ao que ele chama de “literatura da liberdade” é que ela dá ênfase a liberdade no sentido de ausência de controle aversivo imediato, enquanto ignoram o controle aversivo presente nas situações reforçadoras mas com consequências aversivas a médio ou longo prazo. A consequência disso é a produção de “sentimentos de liberdade” que reduzem a probabilidade de contra-controle, criando indivíduos que não identificam as fontes do controle aversivo. Portanto, de maneira geral para Skinner, as condições que caracterizam liberdade são aquelas nas quais não há contingências de controle aversivo, sejam elas reforço negativo ou punição, imediatas ou tardias.

Apesar da grande influência de Skinner, existem concepções alternativas a sua teoria, especificamente de Baum (2017), Catania (1980) e Goldiamond (1965, 1974/2002, 1975a, 1975b, 1976) que não são necessariamente contrárias a ela, mas complementares. Essas concepções são igualmente críticas dos conceitos de liberdade como ausência total de controle e tem um aspecto em comum: Relacionam liberdade com a possibilidade de escolha.

Em poucas palavras, para Baum (2017), além da concepção de ausência imediata de consequências aversivas como em Skinner, existem dois outros significados para liberdade. A liberdade espiritual, que se refere à libertação de uma prisão espiritual e a uma necessidade de desconexão com prazeres mundanos. Para pessoas com um grande repertório de autocontrole e que seguem a prática de uma vida mais simples e altruísta, esse estilo de vida acaba por proporcionar reforçadores positivos atrasados, pois, as consequências advindas dele acabam sendo reforçadoras em algum momento. E finalmente, uma liberdade social ou política, na qual liberdade seria poder ter escolhas sem ser punido por fazê-las.

Para Catania (1980, 1997), escolha implica na disponibilidade de alternativas. Entretanto, após identificar essas conexões, ele enfatiza a possibilidade de investigar experimentalmente o quanto os organismos em geral preferem condições com alternativas ao invés de condições com uma só possibilidade. Colocando esses experimentos em prática, ele descobriu que quando parâmetros reforçadores nas duas condições são os mesmos ou quando há um reforço maior (em tempo ou magnitude) na alternativa de livre escolha, os sujeitos demonstram uma preferência por condições de livre escolha. Por outro lado, quando as condições de livre escolha fornecem reforçadores menores que nas condições de escolha forçada, os sujeitos abrem mão da escolha livre.

Já Goldiamond apresenta uma conceituação de liberdade ampla e bem detalhada que infelizmente é pouco conhecida. Além da possibilidade de escolha, o autor considera que liberdade também deve envolver escolhas genuínas. Essas escolhas seriam aquelas em que as contingências alternativas sejam igualmente possíveis. Por exemplo, não adiantaria se ter muitos trabalhos disponíveis se o sujeito não tem acesso a adquirir as habilidades necessárias para realizar esses trabalhos. Além disso, em 1965, ele conceituou coerção (termo que está muito ligado com liberdade) de uma maneira mais específica, como sendo caracterizada tanto pela criticidade das consequências que controlam a escolha do comportamento (por exemplo, consequências muito críticas seriam não passar fome ou ter liberdade condicional, caso preso), quanto pelos tipos de condições que fazem dessas consequências críticas (como torturas ou mesmo se comportar de acordo com as prescrições para se curar de alguma doença).

Além disso, considerava que liberdade e coerção não são estados absolutos e, em outras palavras, uma pessoa pode ser mais livre ou mais sujeita a coerção que outra.
Conforme sua teoria foi amadurecendo, os aspectos citados anteriormente foram revisados resultando em definições mais sintéticas como “Quanto maior o número de alternativas comportamentais, maior o grau de liberdade e, consequentemente, menor o grau de coerção”. O autor também afirmava que para se analisar o comportamento de escolha, é necessário que se realize uma análise não linear do comportamento, que seria uma análise funcional não somente da ocasião e consequência (e a história) da resposta sob investigação, mas também dos padrões alternativos de resposta presentes no repertório do indivíduo.
Assim, a teoria de Goldiamond, por meio de sua análise não linear do comportamento, ajuda o analista do comportamento a discriminar a disponibilidade ou não de contingências alternativas no contexto imediato do sujeito, coisa que não se via nas construções de Skinner. Contudo, os conceitos de Skinner também podem ser interpretados sob a ótica de Goldiamond, o que os torna complementares, expandindo os significados de liberdade dentro da análise do comportamento.
Baum e Catania apresentam conceitos de liberdade similares ao de Goldiamond, entretanto, os conceitos de Goldiamond não se restringem a análise da disponibilidade de comportamentos alternativos sem consequência aversiva, como enfatizado por Baum  (2017). Para ele, a coerção pode existir mesmo em situações onde há essas alternativas. Os experimentos realizados por Catania (1980, 1997) complementam as considerações de Goldiamond sobre a importância da avaliação não só do grau de liberdade de escolha comportamental mas também do quão críticas as consequências são para o organismo.
Portanto, essas expansões permitem na prática novos diálogos com outras áreas do conhecimento que lidam com o tema da liberdade e permitem ao analista do comportamento atuar em diferentes contextos (como na psicoterapia ou até na elaboração de políticas públicas) na tentativa de promover uma expansão dos graus de liberdade comportamental e da possibilidade de escolhas genuínas.

Quer saber mais? Acesse o artigo completo:
Fernandes, R., & Dittrich, A. (2018). Expanding the behavior-analytic meanings of “freedom”: the contributions of Israel Goldiamond. Behavior and Social Issues, 27, 4-19. doi:https://doi.org/10.5210/bsi.v27i0.8248

Crédito da imagem: https://www.deviantart.com/shanagourmet/art/Red-pill-and-blue-pill-Morpheus-in-Matrix-440981729

Escrito por Guilherme Sbrocco, graduando em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.