“Repetir, repetir – até ficar diferente”

julia out3

O artigo que abordaremos essa semana, escrito por Tyndall e colaboradores e publicado este ano, aponta uma evidência curiosa: a repetição de determinadas palavras pode mudar a função que elas têm para um dado indivíduo. Como já dizia o poeta Manoel de Barros “Repetir, repetir – até ficar diferente”. Mas como isso pode ser possível?

Em 1910, Titchener propôs um exercício de repetição de palavras, o qual a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem usado nas últimas décadas para trabalhar desfusão cognitiva com os clientes. O termo fusão cognitiva se refere a quando alguém toma algum pensamento que possui como verdade e, em geral, isso lhe traz sofrimento. Por exemplo, Maria pode ter um pensamento de que ela é burra e acreditar piamente nisso. Toda vez que Maria tem esse pensamento, ela desiste de se engajar em atividades intelectuais. Como consequência, ela nunca tem a oportunidade de testar seus conhecimentos ou mesmo de aprender coisas novas, o que por sua vez fortalece o pensamento dela sobre “ser burra”. É claro que se a gente olhar para a história de vida de Maria, vamos entender como esse pensamento surgiu e aumentou de frequência – ela provavelmente esteve em contexto aversivo para a aprendizagem no passado. Nesse sentido, o pensamento não é a causa do comportamento. No entanto, hoje aquele contexto pode não estar mais presente e, mesmo assim, Maria não consegue se engajar em atividades intelectuais pois esse pensamento ganhou uma função de estímulo que a faz se esquivar de novas oportunidades.

Um caso de fusão cognitiva, como a vivida por Maria, tem implicações para a atuação clínica do psicoterapeuta. Na terapia comportamental, algumas vezes pode ser suficiente fazer análises funcionais com os clientes e encorajá-los a se engajar em comportamentos que produzirão consequências diferentes (seja por meio da emissão de comportamentos novos, ou de comportamentos já presentes no repertório, porém em contextos diferentes). Outras vezes, no entanto, o cliente pode estar tão fundido com seus pensamentos (isto é: “eu SOU o que eu penso”) que é necessário trabalhar a desfusão cognitiva para em seguida ele se engajar em novos comportamentos.

Bom, então é só chegar no consultório e pedir para o cliente repetir umas palavrinhas?! Claro que não. Além do conhecimento teórico, os psicólogos vêm buscando produzir evidências sobre suas diversas intervenções e para isso é necessário certo rigor científico para que fiquem claras quais variáveis de fato estão produzindo mudanças. Nesse sentido, embora a técnica da repetição de palavras venha sendo usada por terapeutas há algum tempo, somente aos poucos, questões sobre a especificidade da repetição tem sido clarificadas. Por exemplo, um estudo de 2009, de Masuda e colaboradores, demonstrou ser necessário repetir a palavra por ao menos 20 segundos para haver uma redução significativa no quanto o indivíduo acredita naquele pensamento. Já o estudo que estamos abordando aqui versou sobre o ritmo da repetição e trouxe um debate acerca do porquê esta técnica funciona.

Esses pesquisadores recrutaram 32 estudantes universitários que foram solicitados a escolher uma palavra de avaliação sobre si mesmos (em geral, um adjetivo) que lhes trouxesse sentimentos dolorosos. Algumas das palavras escolhidas foram “fraco”, “inútil” e “egoísta”. Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos. Nos diferentes grupos, a palavra-alvo deveria ser repetida a cada intervalo de tempo diferente: meio segundo, 1 segundo e 2 segundos. Para medir a eficácia das atividades, os participantes responderam a uma escala em que relatavam, atribuindo um número de zero a cem, o quanto acreditavam na palavra escolhida e o quão desconfortável se sentiam com ela. A escala foi aplicada logo antes, logo depois, e um mês depois da repetição.

Na aplicação da técnica, os pesquisadores apresentaram inicialmente uma outra palavra de tamanho semelhante àquela escolhida pelo participante para que ele pudesse praticar o ritmo da repetição. Essa fase de prática durava o tempo que fosse necessário para o participante se habituar ao ritmo. O objetivo era que os indivíduos não ficassem tão preocupados em estar falando na frequência solicitada e pudessem, ao invés disso, prestar atenção na palavra e na repetição em si. Em seguida a palavra de avaliação sobre si mesmo era repetida por 30 segundos no ritmo aprendido.

Uma hipótese era de que quando o participante repetisse a palavra em um ritmo diferente daquele que a fala costuma ocorrer (mais acelerado ou mais lento), haveria uma mudança de contexto e, com isso, a palavra poderia mudar de função. Assim, os autores consideraram que os melhores resultados seriam do grupo de meio segundo e de dois segundos. Outra possibilidade era de que quanto mais rápido o indivíduo repetisse a palavra, mais poderia haver uma extinção da sua função, devido a frequência da exposição. Nesse sentido, o grupo do ritmo de meio segundo apresentaria os melhores resultados.

No entanto, os resultados apontaram que os participantes dos 3 grupos acreditavam menos na palavra escolhida logo após a repetição. Já no quesito desconforto, apenas os participantes que repetiram a cada meio segundo e a cada 1 segundo apresentaram diferenças significativas na comparação logo antes x logo depois do exercício. Por fim, quando avaliada a manutenção desses resultados após um mês, apenas o grupo do ritmo de 1 segundo apresentou dados significativos para ambos os itens em questão. Esses achados não oferecem suporte para nenhuma das duas hipóteses!

Os autores argumentam que, para a ACT, é a exposição atenta ao estímulo aversivo como ele é que amplia as funções que este estímulo possui. Nesse sentido, modificar o estímulo pelo seu ritmo poderia atrapalhar o indivíduo na tarefa de discriminá-lo e estar em contato com ele como ele originalmente é (e não com modificações em seu ritmo, como foi manipulado). Mas isso continua aberto para discussões.

Portanto, esse artigo aponta para a importância do contínuo diálogo entre teoria, pesquisa e prática. Uma técnica, como a repetição de palavras, precisa ser pesquisada (isto é, avaliada e publicada) de maneira cada vez refinada para se buscar os melhores efeitos na prática clínica. E a teoria, por sua vez, pode ser construída e reconstruída, a partir daquilo que se encontra na pesquisa e na prática.

 

Para saber mais, acesse:

Tyndall, I., Papworth, R., Roche, B. & Bennett, M. (2017). Differential Effects of Word-Repetition Rate on Cognitive Defusion of Believability and Discomfort of Negative Self-Referential Thoughts Postintervention and at One-Month Follow-Up. Psychological Record, Vol 67, Issue 3, pp 377–386. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0227-2.

Créditos da imagem: http://events.snwebcastcenter.com/manulife/GBRS/Prod/WSMH/en/mental-health-in-the-workplace/understanding-mental-health/stigma.html

http://tocadospets.blogspot.com.br/2014/10/como-ensinar-um-papagaio-falar.html

http://www.midiamax.com.br/variedades/papagaio-solta-verbo-revela-traicao-marido-empregada-320114

Escrito por Júlia Castro C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

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O software “Culturante Livre” e o estudo da seleção cultural

vivian outubro

 

Há alguns dias, assistindo a um colega apresentar seu projeto de doutorado que envolvia a programação de um jogo para realizar a sua coleta de dados, pensei sobre as diferentes possibilidades que um software pode oferecer para um pesquisador atender suas mais diferentes demandas. Por isso, hoje vamos falar sobre possibilidade de se estudar a seleção cultural, através do uso de um software desenvolvido por Toledo e colaboradores, publicado em 2015.

O software chamado de “Culturante Livre” foi desenvolvido para estudar a seleção cultural usando um procedimento análogo ao operante livre; ou seja, ele propõe um procedimento experimental para o estudo do chamado culturante de forma análoga ao estudo do operante no nível ontogenético.  

O uso do termo culturante não é unanimidade da Análise do Comportamento, mas os autores do estudo fazem uso dele, então, vamos empregá-lo aqui também. Para quem ainda não conhece o conceito de culturante engloba as contingências comportamentais entrelaçadas, as quais estão funcionalmente relacionadas a uma consequência cultural. Portanto, podemos falar de culturante quando o entrelaçamento de contingências comportamentais (dado pela inter-relação entre contingências operantes) produz um efeito, no caso a chamada consequência cultural, que pode ser responsável pela seleção e manutenção do entrelaçamento entre as contingências e seus efeitos.

Os autores também empregam o conceito de metacontingências, uma vez que, este conceito descreve as relações presentes nos elementos que compõem o culturante. As metacontingências são unidades que podem ser entendida pelo entrelaçamento das contingências comportamentais e o efeito gerado por elas, que não poderia ser obtido pelo comportamento isolado de cada indivíduo, e este seria critério a partir do qual uma consequência cultural seria produzida. Essa consequência retroage sobre as contingências comportamentais entrelaçadas alterando a probabilidade de que ocorra novamente.

Mas, o que isso quer dizer? De acordo com os pesquisadores, as manipulações experimentais que são propostas no software usam os padrões do comportamento individual produzidos pela programação de reforço como uma linha de base para a experimentação de demandas relacionadas às interações sociais.

O software permite que os participantes emitam respostas de clicar no mouse ou na tecla do computador a qualquer momento, sem intervenção do aparelho ou do experimentador, permitindo avaliar dois processos de seleção que estão em andamento ao mesmo tempo, através da programação simultânea de uma contingência para o comportamento operante e uma metacontingência para o culturante, possibilitando o estudo do comportamento individual e, ao mesmo tempo, dos comportamentos de mais de dois indivíduos um em relação ao outro.

O experimentador pode planejar 48 arranjos experimentais, e alguns deles permitem aos participantes obter todos ou a maioria dos reforçadores que estão programados; nesses casos, a contingência operante e as metacontingências não entram em conflito. Em outros arranjos, o critério de contingência operante pode produzir ou não poucas consequências culturais, o participante pode receber menos reforçadores individuais do que seria possível; nestes casos, existem conflitos entre a contingência operante e a metacontingência.

Para o participante o software funciona como um jogo virtual com até 4 jogadores, portanto, o experimentador, a depender do seu objetivo, programa as suas condições experimentais, estabelecendo os esquemas de reforço para cada condição. Na condição “Contingência operante”, as respostas dos participantes produzem a consequência reforçadora individual, de acordo com o esquema programado. Na condição “Metacontingência” é exigido que as respostas dos participantes estejam coordenadas, em alguma medida, para que uma consequência para o grupo aconteça.

No jogo a seguinte situação hipotética é apresentada ao “jogador”:  moradores de uma pequena cidade passaram dias sem água. Para obter água para si mesmos e para a cidade, o jogador pode clicar no mouse ou uma tecla do computador para encher galões de água para eles mesmos e em alguns momentos, a depender das suas interações eles podem receber um bônus – adição um pouco de água em uma caixa d’água para uso de todos da cidade.

Em seguida, todos os participantes devem clicar em um comando para iniciar a tarefa. Cada participante vê na sua tela do computador seu quadrante e os quadrantes dos outros participantes. Sempre que um participante responde, seu quadrante pisca para os outros.  Os ganhos individuais são registrados em um galão de água e os bônus conquistados são registrados em um hidrômetro localizado à direita da caixa d’água na área comum. Todos os participantes observam as ações e consequências que são apresentadas para cada participante e o grupo como um todo.  Quando a sessão terminada uma mensagem de “Obrigado” aparece na tela. Além disso, os galões e o bônus acumulado podem ser trocados, ao final do experimento, por um valor em dinheiro (centavos).

No estudo piloto realizado pelos autores, seis participantes, divididos em dois grupos foram expostos a duas condições: (a) como conflito, em que foram feitas a comparação das condições em que a produção de consequências culturais envolveria a produção de menos reforçadores individuais e (b) sem conflito, em que atender tanto a contingência operante e metacontingência era possível, sem perdas de reforçadores.

Para o Grupo 1, a Condição Contingência operante era que a cada duas respostas individuais, em média, se produziria uma porção de água no galão (VR2), sendo que 10 porções de água encheriam uma jarra e uma nova jarra poderia ser enchida. A contingência operante permaneceu inalterada ao longo do experimento. A Condição Metacontingência exigiu um intervalo de tempo entre as respostas dos participantes (variou de 1 a 2s), portanto, cada participante deveria clicar nos galões de água,  uma vez de modo espaçado em relação a resposta do outro participante.

No início de cada sessão, os participantes foram instruídos sobre o funcionamento do jogo e que teriam que trabalhar juntos. Não especificou como deveria ser essa interação. No final de cada sessão, cada participante recebeu uma quantidade de dinheiro individual e o grupo discutiu como distribuiria os bônus totais acumulados. Foram feitas duas sessões. Na Sessão 1 os participantes passaram pela Condição de linha de base, Condição Contingência Operante, Condição Metacontingência e retorno a linha de base.  Na Sessão 2 foram feitas 4 condições da metacontingências alterando-se apenas o tempo de espaçamento entre as condições de metacontingência.

Para o Grupo 2, foi programada uma condição sem conflito entre a condição Contingência Operante e a Condição Metacontingência. Os procedimentos iniciais foram os mesmos que os do Grupo 1. Foram feitas 3 sessões, com a mesma sequência experimental: Condição de linha de base, Condição Contingência Operante, Condição de Metacontingência e retorno à linha de base. Em cada sessão foi alterado apenas o espaçamento entre a condição Contingência Operante e a Condição Metacontingência.

O estudo piloto indicou que, para os dois grupos, a produção de bônus fez com que os membros dos grupos adaptassem seus comportamentos para atender aos requisitos da metacontingência, produzindo sistematicamente a consequência cultural, demonstrando que a seleção (ou seja, recorrência) de uma unidade que excedeu o comportamento individual e envolvia o comportamento dos três participantes, estando cada um sob o controle dos outros, podendo ser usada como modelo experimental de seleção cultural. Além disso, foi observado o que os participantes deixaram de responder quando a consequência cultural era suspensa, ou seja, durante a extinção de metacontingência.

Para os autores, esses dados são interessantes pois, o software não limita a duração das tentativas, os participantes tinham a opção de não responder e/ou deixar de coordenar as respostas, assim, a interações eram “livres”, sem interrupção dos experimentos. Fato que até então, não ocorria em estudos anteriores, por exemplo, os que utilizam matrizes, números, o do Dilema do prisioneiro (Você pode encontrar alguns destes estudos aqui no Blog!), em geral, em procedimentos em que há o conflito, se o participante para de responder, o estudo se encerra.

Além disso, o experimentador pode planejar diferentes critérios para a apresentação de consequências individuais e culturais, podendo avaliar os efeitos de uma consequência cultural e das consequências individuais sobre o desempenho individual gerado por esquemas de reforçamento. Portanto, ao que parece, o software favorece o estudo das interações sociais no sentido de oferecer ao experimentador diferentes possibilidades de manipulações, pelas diferentes combinações entre os esquemas de reforço e as e as diferentes possibilidade em manipular as consequências.

E aí? O que achou? Quer saber mais sobre seleção cultural e o software “Culturante Livre”? Leia o artigo original!

Referência:  Toledo, T. F. N., Benvenuti, M. F. L., Sampaio, A. A. S., Marques, N. S., dos Anjos Cabral, P. A., de Souza Araújo, L. A., . . . Moreira, L. R. (2015). Free culturant: A software for the experimental study of behavioral and cultural selection. Psychology & Neuroscience, 8(3), 366-384. Disponível em: http://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fpne0000016. Acessado em 01 de outubro de 2017

Fonte da imagem: http://www.meioemensagem.com.br/home/proxxima/noticias/2013/05/24/unilever-e-personare-renovam-parceria-de-conteudo-web.html/attachment/computador-pessoa

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!

Jogo do Bom Comportamento: vale a pena jogar?!

Djenane

Uma parte dos problemas em ser professor(a) da educação básica envolve o famoso e, talvez, misterioso tema do “manejo de classe”. Neste sentido, interessa aos(as) professores(as) saber como manter seus alunos engajados nas tarefas que apresentam, de forma a tornar o trabalho produtivo e prazeroso para ambos, alunos(as) e professores(as). O presente estudo de Pennington & McComas (2017) traz contribuições para esse tema ao analisar o Jogo do Bom Comportamento.
O Jogo do Bom Comportamento (Good Behavior Game, GBG em inglês) tem sido usado para manejar efetivamente os comportamentos de crianças em classes escolares, aumentando a ocorrência dos comportamentos adequados ou diminuindo a ocorrência dos inadequados. Tipicamente ele é jogado durante uma pequena parte do período escolar, que varia de 10 minutos a uma hora, durante atividades específicas (e.g., período da matemática) ou em ambientes específicos (e.g., na lanchonete da escola). Em geral, o(a) professor(a) define, ou combina, as regras com as crianças e a turma é dividida em, pelo menos, dois grupos. Cada grupo ganha pontos, quando todas as crianças estão apresentando os comportamentos adequados, ou quando alguém apresenta um comportamento inadequado. No primeiro caso, é o grupo com maior número de pontos que vence; no segundo, o grupo com menor número de pontos. Aos vencedores são atribuídos pequenos prêmios (e.g., pequenos doces, figurinhas ou lápis) ou vantagens (e.g., participar de certa brincadeira).
Em estudos descritos no artigo de Pennington e McComas (2017), pesquisadores investigaram os efeitos comportamentais obtidos durante o GBG sobre outros momentos e/ou contextos escolares em que o jogo não estava vigorando. Os resultados de um desses estudos apontaram para a não alteração dos comportamentos inadequados antes e depois do uso do jogo, tendo sido avaliado o desempenho coletivo.
Seguindo esta linha de pesquisas, Pennington e McComas (2017) investigaram os efeitos do GBG sobre os comportamentos de engajar-se nas tarefas escolares de três estudantes (todos com 8 anos de idade), uma menina e dois meninos, do terceiro ano do ensino fundamental de uma escola pública situada numa área urbana nos EUA. As crianças foram selecionadas por serem consideradas as menos engajadas nas tarefas escolares, da turma em questão. A turma era composta, em sua maioria, por crianças de classes sociais menos favorecidas. Havia uma professora titular, uma assistente e a pesquisadora (responsáveis pelo estudo). Definiram-se dois contextos da rotina escolar, que ocorriam em sequência, para a realização da pesquisa: (a) os encontros matinais e (b) o período da matemática.
Os encontros matinais ocorriam no início do dia e duravam de 10 a 20 minutos, com a professora guiando as atividades. Consistiam de oportunidade para que todos os alunos se cumprimentassem, resolvessem problemas de matemática e jogassem um jogo rápido. Neste momento as crianças ficavam sentadas, em círculo, sobre o carpete da sala de aula. Nos encontros matinais os seguintes comportamentos de engajamento na tarefa foram definidos como alvo: (a) sentar sobre o carpete e olhar para a professora ou para quem estivesse falando; (b) fazer comentários relevantes referentes ao tópico que vinha sendo discutido; (c) seguir as regras descritas pela professora no início de um jogo educativo ou (d) fazer comentários encorajadores para os(as) colegas.
O período da matemática consistia em uma espécie de “circuito de atividades”, com três “estações”, que durava aproximadamente uma hora. As três estações de atividades eram: trabalho com a professora titular; trabalho com a professora assistente e tempo para brincar com jogos matemáticos. Todas as crianças da turma foram alocadas em três grupos, correspondentes a cada estação (mas em dois grupos para o GBG). Os grupos trocavam de estação a cada vinte minutos. No período da matemática os seguintes comportamentos de engajamento na tarefa foram definidos com alvo: (a) permanecer na estação que lhe foi atribuída, direcionado para o grupo e com os materiais ali definidos; (b) usar os materiais adequadamente ou (d) fazer comentários encorajadores para os(as) colegas.
As responsáveis pelo estudo registraram os comportamentos das crianças selecionadas, em lousas portáteis, ao longo de 21 sessões. Durante a linha de base os comportamentos inadequados foram ignorados ou corrigidos. Durante a intervenção as crianças foram divididas em dois grupos. As regras do jogo foram apresentadas (o engajamento de todas as crianças do grupo na tarefa proposta poderia produzir o ganho de pontos e as crianças do grupo que somasse mais pontos poderiam ganhar prêmios mais tarde) e a cada 30-s o grupo que tivesse todas as crianças engajadas na tarefa tinha um ponto registrado em uma das lousas carregadas pelas três responsáveis pelo estudo. Ao final da intervenção, a cada dia, somavam-se os pontos registrados em cada uma das três lousas.
A intervenção, aplicação do GBG, ocorreu primeiro no contexto do encontro matinal, a partir da sexta sessão, enquanto continuava a coleta de dados de linha de base no contexto do período de matemática. Posteriormente, a partir da décima primeira sessão, o GBG foi aplicado também ao contexto do período de matemática.
Os resultados confirmam achados anteriores que apontam a não alteração dos comportamentos alvo fora da vigência do GBG. Assim, os resultados do estudo de Pennington e McComas (2017) mostraram que o engajar-se nas tarefas das crianças foi afetado pela aplicação do GBG, aumentando a frequência dos comportamentos adequados para todas as três crianças e reduzindo a variabilidade das respostas em ambos os contextos: encontros matinais e períodos de matemática. Neste caso, mostram também que os efeitos do GBG, podem ser observados em diferentes contextos da sala de aula quando o jogo está em vigor. Por outro lado, o engajamento no período da matemática não aumentou em decorrência da aplicação do GBG ao período de encontro matinal, situado imediatamente antes na rotina escolar diária.
Algumas limitações foram apontadas pelos autores como: o número reduzido de crianças cujos comportamentos foram observados; o desconhecimento das contingências mantenedoras do não engajamento nas tarefas durante a linha de base e as diferenças entre os contextos educacionais (encontros matinais e período da matemática) avaliados. Sugeriu-se que as diferenças entre estes contextos podem ter dificultado a generalização.
Concluímos que vale a pena jogar o GBG pois ele é efetivo no “manejo de classe”, aumentando a frequência de comportamentos adequados, como os de engajar-se nas tarefas escolares. Mas esta resposta não encerra o problema. Como afirmam Pennington & McComas (2017), é preciso cuidar para que os repertórios comportamentais estabelecidos pelo GBG ocorram em momentos em que o jogo não esteja vigorando e em contextos em que o jogo não tenha sido aplicado diretamente, efeitos não observados no estudo em questão, o que demanda novas pesquisas.

Pennington, B., & McComas, J. J. (2017). Effects of the good behavior game across classroom contexts. Journal of Applied Behavior Analysis, 50, 1, 176-180.

Resumo elaborado por Djenane Brasil da Conceição, Professora Adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

https://i.ytimg.com/vi/SdBFa-g2Qts/hqdefault.jpg Consultado em 25/09/2017

Desenvolvendo programas para diminuir a pobreza da população: como os analistas do comportamento podem dar “uma mãozinha”.

silvana

Como os princípios do condicionamento operante podem contribuir na eficácia de programas que usam incentivo financeiro para aumentar emprego e renda da população.

Um dos grandes desafios de qualquer país é (ou deveria ser) criar condições para que um maior número de pessoas não viva abaixo da linha da pobreza. Não se trata apenas de uma questão altruísta, mas indivíduos nessas condições sofrem mais com problemas de saúde crônicos, tendem a ter menor expectativa de vida, dentre outras dificuldades que acabam acarretando ônus para o Estado. Uma das estratégias governamentais utilizadas tem sido a criação de programas, normalmente em larga escala, que incentivam financeiramente essa camada da população de forma a melhorar sua situação de emprego e renda. Mas será que tais programas atingem seus objetivos? Se não, por quê?

Os pesquisadores August Holtyn, Brantley Jarvis e Kenneth Silverman publicaram um interessante artigo no JEAB no qual apontam alguns dos motivos pelos quais estes programas tendem a falhar, e como os analistas do comportamento podem contribuir para torná-los mais efetivos. Para tanto, utilizaram como principal fonte de análise os dados de artigos publicados pelo Manpower Demonstration Research Corporation (MDRC), Instituto de pesquisa que implementa e avalia programas antipobreza nos Estados Unidos. Os autores descrevem detalhadamente os aspectos relevantes de cada um dos programas, sendo citados seis que incentivam diretamente o emprego e três que focam no desempenho acadêmico. De maneira geral, tais programas visam principalmente gerar emprego e educação para indivíduos que já são destinatários de assistência social ou vivem na pobreza. Incentivos financeiros são usados de acordo com as metas estabelecidas. Para testar a efetividade de cada Programa, o MDRC divide os indivíduos em dois grupos: controle, que não recebem incentivos, e os que fazem parte do respectivo Programa. Após a implementação, são usadas medidas como emprego e renda anual de cada grupo verificando se haveria diferença significativa entre eles.

Como exemplificação, um destes programas é intitulado “First Job Program”, no qual o indivíduo que consegue um emprego continua recebendo normalmente seu benefício de assistência social, do qual já é destinatário, durante o limite de 21 meses. Os do grupo controle têm seus ganhos de assistência reduzidos quando isto ocorre. Apesar de haver diferenças entre os grupos após quatro anos, considerando que os participantes do Programa conseguiram mais empregos, não foi observado um aumento de trabalho em período integral e maior renda, como o esperado. Além do incentivo direto ao emprego, outros buscam o estabelecimento de metas educacionais, como o “Opening Doors”. Neste caso, o incentivo é entregue com base no rendimento acadêmico do indivíduo, visando facilitar posteriormente sua inserção no mercado de trabalho. Os resultados mostram que os participantes do Programa  apresentam melhor desempenho acadêmico do que os do grupo controle. No entanto, não foi verificado se, a longo prazo, este incentivo teria o efeito desejado sobre o emprego e renda.   

O fato é que, a análise de cada um dos programas antipobreza, bem como os resultados obtidos, levou os pesquisadores a concluírem que as falhas existem porque não são considerados aspectos importantes do condicionamento operante na implantação da maioria deles. Os principais pontos críticos abordados nesta análise foram: atraso entre atendimento do objetivo e recebimento do incentivo devido ao tempo que se leva para verificar o cumprimento da atividade e o pagamento; frequência inadequada de entrega do benéfico, sendo no mínimo uma vez por mês; requerimento de respostas substanciais, que muitas vezes não estavam ao alcance do participante; baixa magnitude do incentivo; não desenvolvimento de habilidades necessárias para atingir as metas (alguns participantes alegaram que não sabiam como conseguir um trabalho integral, por exemplo); falta de informações claras sobre o sistema de incentivo, entre outros.

Como forma de demonstrar como a abordagem analítico-comportamental pode contribuir para o desenvolvimento de programas desta natureza, os pesquisadores apontam o modelo do Therapeutic Workplace. Neste programa de intervenção, o indivíduo passa por fases até atingir os objetivos desejados, desde a abstinência de drogas até o desenvolvimento de habilidades que possibilitem aumentar a empregabilidade. De forma geral, os incentivos são entregues continuamente através do dia, são estabelecidos pré-requisitos comportamentais antes de se requerer comportamentos mais complexos, e os reforços são aplicados contingentemente a comportamentos discretos, sendo aumentados gradualmente. Há uma pesquisa rigorosa que avalia a intervenção em pequenos grupos de participantes e os resultados têm demonstrado a efetividade deste tipo de intervenção.

Os autores concluem que programas que visam à diminuição da pobreza são muito importantes, mas devem ser planejados considerando uma forte base empírica para produzir os resultados almejados. Consideram que os analistas do comportamento possuem o arcabouço necessário para ajudar neste processo. E no Brasil? Será que nossos programas com incentivo financeiro têm dado certo? Como poderíamos “dar uma mãozinha”?

Quer mais detalhes sobre a pesquisa? Leia:

Holtyn, A. F., Jarvis, B. P., & Silverman, K. (2017). Behavior analysts in the war on poverty: a review of the use of financial incentives to promote education and employment. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 107, 9-20.

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

Créditos da imagem: http://hiperboreajuvenalia.blogspot.com.br/2012/09/a-pobreza-de-muitos-e-riqueza-de-alguns.html

A ocasião faz o ladrão?

melina

O que as Neurociências nos dizem sobre essa sabedoria popular?

Todo mundo sabe que a maneira como nos comportamos altera nosso ambiente, mas o ambiente também altera a maneira como nos comportamos. Por exemplo, sabe aquela cena  assustadora do início de um filme de terror que depois começa a parecer menos aterrorizante? Ou uma cena muito violenta, que depois de algum tempo nem te choca mais? As pesquisas de Neurociências explicam isso em função de uma dessensibilização progressiva da amígdala (região cerebral), que reduz a nossa percepção de aversividade nos estímulos conforme eles se repetem. Por isso, o que era muito violento ou assustador no início do filme, vai parecendo, conforme a repetição de cenas com esses conteúdos, menos violento e assustador para o espectador ao final do filme. Será que podemos apresentar um comportamento parecido quando o que está envolvido é a honestidade?

Por exemplo, você já se viu em uma situação que ficou tentado a agir desonestamente e quanto mais tempo se viu nessa situação, mais difícil foi “resistir” e acabou pensando que aquele seu ato nem era “tão desonesto assim, ou nem tão condenável”? Já ouviu ou falou comentários do tipo: “aquele político, no início da carreira não roubava, agora, 2 milhões é pouco!”. Enfim, será mesmo que, a depender a oportunidade, podemos nos comportar de forma desonesta, e será que quanto mais somos expostos a essas oportunidades, maior a intensidade da ação desonesta?

Tentando responder essas questões, quatro pesquisadores da University College London, na Inglaterra, e da Duke University, no Estados Unidos fizeram uma pesquisa muito interessante, publicada ano passado na Nature Neuroscience, em que buscaram investigar se haveria aumento progressivo de comportamentos desonestos conforme as pessoas fossem expostas a situações em que seria vantajoso para elas se comportarem de forma desonesta, e os mecanismos neurológicos subjacentes a este fenômeno. Para isso eles arranjaram diferentes situações experimentais para uma tarefa relativamente simples: olhar para uma figura de um pote com moedas, estimar quantas moedas havia nele, e relatar essa estimativa para uma outra pessoa (que o participante não sabia, mas era um confederado – uma pessoa que finge ser participante, mas que na verdade faz parte do arranjo das contingências programadas para o experimento). O participante (conselheiro) acreditava que estava dando conselhos sobre a quantidade de moedas para auxiliar a pessoa (palpiteiro) a decidir seu palpite. Para o participante, ele e o confederado estavam jogando juntos contra um computador, mas só o participante tinha acesso às diferentes “regras das condições do jogo”.

Essas regras eram as diferentes condições experimentais, e havia seis delas. A primeira, era a linha de base: conselheiro e palpiteiro recebem igualmente a recompensa conforme mais preciso for o palpite. A segunda condição era “benefício pra mim-prejuízo para o outro”: o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com quanto o palpiteiro superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite, enquanto que o palpiteiro seria recompensado de acordo com a precisão do seu palpite. Na terceira condição, “benefício para mim e para o outro”, a regra era que ambos seriam recompensados conforme a superestimativa do palpiteiro. A quarta condição era inversa à segunda: “prejuízo para mim- benefício para o outro”:  o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com a precisão do palpite, enquanto que o palpiteiro iria ser recompensado conforme superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite. Na quinta condição (“benefício pra mim”), a regra que o participante recebia era a que ele seria recompensado conforme o palpiteiro superestimasse seu palpite, mas o palpiteiro receberia um valor fixo. Na sexta condição, “benefício para o outro”, o cenário se invertia, e quem receberia o valor fixo era o conselheiro. Foram feitas 60 tentativas em cada uma dessas condições, e o que os pesquisadores usaram como medida de desonestidade do participante foi seu conselho (dado nas diferentes condições experimentais) menos o conselho que ele deu durante a linha de base, respectivamente para cada tentativa (por exemplo, conselho da 1ª tentativa da condição “benefício para mim”, menos conselho da 1ª tentativa da linha de base).

Os resultados mostraram o que os pesquisadores já desconfiavam (e nós também!): a desonestidade foi progressivamente aumentando conforme foram passando as tentativas, mas só quando isso beneficia quem a pratica. Ninguém age de forma desonesta para se prejudicar. Isto quer dizer que na condição “benefício pra mim-prejuízo para o outro”, conforme iam passando as tentativas, os participantes iam oferecendo um conselho cada vez maior (e cada vez mais superestimado) para o palpiteiro. Na condição “benefício para mim e para o outro” isso também aconteceu, mas com menor intensidade. Além disso, como alguns dos participantes realizaram esta tarefa ao mesmo tempo em que tinham seus cérebros escaneados por um aparelho de fMRI, os pesquisadores também observaram uma redução da ativação da amígdala ao longo do tempo. Podemos dizer que houve uma redução da sensibilidade da amígdala à aversividade contida nas ações desonestas, como se fôssemos ficando menos sensíveis a desonestidade, que antes era percebida como aversiva. Quando a desonestidade beneficiava o outro, mas não afetava a pessoa que a praticava, ela aconteceu, mas os resultados indicam que ela não se intensifica com o tempo, e não afetava a ativação da amígdala, possivelmente porque esse tipo de ação normalmente não é percebida como desonestidade, e sim como generosidade já que não há benefício próprio e sim do outro.

Como nós, analistas do comportamento, gostamos de lembrar sempre, as pessoas não malvadas porque existe a maldade dentro delas. Pesquisas como estas, que apresentam correlatos neurais da desonestidade, nos mostram que a forma como nos comportamos vai muito além de “uma questão de escolha individual”, e que depende muito da interação com as contingências ambientais. E no fim, parece que a sabedoria popular tem mesmo muito a nos ensinar. Ao que tudo indica, a ocasião faz sim o ladrão, e começar a cometer pequenos delitos, percebidos como pouco prejudiciais podem ser o gatilho para atos cada vez mais corruptos.

Ficou curioso? Quer saber mais? Leia o artigo original:

Garrett, N., Lazzaro, S. C., Ariely, D., & Sharot, T. (2016). The Brain Adapts to Dishonesty. Nature Neuroscience, 19(12), 1727–1732.

Escrito por Melina Vaz – Bióloga, quase psicóloga e doutoranda em Psicobiologia na USP-Ribeirão Preto, uma carioca que percebeu que a malandragem é desnecessária no interior de São Paulo.

Créditos da imagem: https://pt.slideshare.net/italocolares/o-que-a-natureza-humana

Tecnocracia e engenharia social no pensamento de B. F. Skinner

Quem foram e o que defendiam os líderes do movimento tecnocrático nos EUA?

E o que Skinner teria a ver com isso?

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Uma queixa comum entre simpatizantes da análise do comportamento refere-se ao quanto a abordagem seria incompreendida por seus críticos. Quando chamados a falar para fora do círculo, não raras vezes começamos fazendo “esclarecimentos” preliminares, lamentando sobre quão injustiçados seríamos. Dentre as injustiças de que seríamos vítimas, há a crítica segundo a qual nossa visão de mundo seria “cientificista”, algo frequentemente ilustrado por posicionamentos do mais famoso mentor da área, e ainda muito venerado, B. F. Skinner. Tal crítica acusa também que, no tocante à relação entre ciência e sociedade, a perspectiva skinneriana seria fundamentalmente tecnocrática.

Mas o que isso significa, afinal? Seria a crítica improcedente? Uma referência que ajuda a responder tais questões é o artigo de Alexandra Rutherford, da York University, B. F. Skinner and Technology’s Nation: Technocracy, Social Engineering, and the Good Life in 20th Century, recém-publicado pela History of Psychology. Nele, Rutherford explora a história do movimento tecnocrático americano, ícone de uma tradição de engenharia social da qual também fez parte a obra de Skinner.

Rutherford (2017) nota que, desde seus primórdios, “. . . a psicologia foi permeada por uma atitude tecnocientífica, que enfatizou objetivos geminados de conhecimento e aplicação, ciência e prática, muitas vezes empregados a serviço de aumentar a ordem, a eficiência, a racionalização e o controle . . . Esta atitude tecnocientífica levou rapidamente a psicologia a adquirir uma função de engenharia social, que continuou a aumentar à medida que os psicólogos desenvolveram vínculos cada vez mais estreitos com o Estado, especialmente durante e após a Segunda Guerra” (p. 291).

Foram relativamente parcos os esforços de psicólogos para reformar práticas sociais vigentes, tendo a maioria servido aos desígnios do status quo. Uma exceção a ser notada seria B. F. Skinner, dada a sua vindicação pela transformação do mundo, e sendo a publicação do romance Walden two uma expressão exemplar de seu compromisso social. Um dos alvos do estudo de Rutherford foi o período imediatamente anterior a essa publicação, que coincide com a emergência do movimento tecnocrático nos Estados Unidos da América.

Duas figuras importantes nesse contexto foram Howard Scott e Harold Loeb. A gestação da iniciativa tecnocrática coube a Scott, um auto-proclamado engenheiro, habituado a exagerar suas credenciais, que se muda para Nova Iorque após o fim da Primeira Guerra, e funda, em 1919, a Aliança Técnica. O coletivo se propunha a pesquisar métodos de produção industrial, e reunir dados que permitissem elaborar uma alternativa. Porém sua má organização, brigas internas e problemas financeiros forçaram a aliança a se desfazer em 1921. Scott continuou as pesquisas por conta própria, e atravessou a década se sustentando com trabalhos avulsos, até que, a partir de 1929, advém a ocasião providencial para o ressurgimento da propaganda tecnocrática: a Grande Depressão.

Apadrinhado por um catedrático da Columbia University, Scott institui o Comitê sobre Tecnocracia, em 1932, do qual também faria parte Harold Loeb, escritor que havia dividido o apartamento com Scott quando moravam no Greenwich Village, bairro boêmio de Nova Iorque. O grupo finalizou a pesquisa iniciada pela Aliança Técnica, e passou a disseminar seus achados e seus planos. Dentre eles estava a promessa de um sistema capaz de reduzir drasticamente o tempo de trabalho geral, e ainda assim garantir abundância material a todos os envolvidos. Os tecnocratas propuseram a abolição do sistema de preços, e apostaram numa retórica anticapitalista radical.

Insubsistente, a aposta foi logo frustrada, e, em 1933, uma fala de Scott em rede nacional de rádio colocou em xeque o futuro do comitê. Um conjunto de dissidentes se destacou, formando o Comitê Continental sobre Tecnocracia, e encontrando uma nova liderança em Loeb, que no mesmo ano haveria de publicar o seu Life in a technocracy. Apologia expressa a um governo de técnicos sem mecanismos democráticos, como o voto popular, o livro também assegurava que males como a corrupção na política seriam suplantados mediante a eliminação do uso do dinheiro.

Sumarizando as finalidades dessas inciativas, Rutherford (2017) escreveu:

Em resumo, o Movimento da Tecnocracia foi um movimento social e de pesquisa que defendia a substituição do sistema de preços por um sistema de produção e distribuição baseado em unidades de energia. Defendeu a aplicação tecnológica das ciências físicas aos problemas de organização e controle social . . . O sistema de salários e preços, argumentaram, era obsoleto, e o capitalismo nas mãos de empresários com fins lucrativos não funcionaria mais como um sistema econômico ou social. Eles defendiam, assim, um sistema de governo no qual uma organização apolítica de especialistas técnicos (chamada tecnato) resolveria os problemas do governo da mesma maneira que resolveria qualquer outro problema – cientificamente. (p. 296)

Passando, enfim, a B. F. Skinner: o que haveria em comum entre o seu projeto e o dos tecnocratas? Ora, no modelo de engenharia social idealizado em Walden two (Skinner, 1948) há aspectos manifestamente semelhantes, com jornadas de trabalho breves e substituição do sistema econômico tradicional por outro baseado em “créditos-trabalho” (p. 45), com o planejamento centralizado por especialistas não-eleitos (p. 48), com o apelo por um “comitê de ação não-político” (p. 180), com pouca ou nenhuma participação popular (p. 251), e com a tecnologia comportamental utilizada para a maximização da eficiência (p. 276). Não se trata, faça-se a ressalva, de exaltar ou depreciar o legado de Skinner, mas de garantir uma apreciação abrangente – não deixando de reconhecer eventuais virtudes, mas tampouco camuflando seus vícios e anacronismos.

Em sua síntese, Rutherford (2017, p. 300) ainda destaca que tanto Skinner quanto os tecnocratas recusaram a noção de “homem autônomo”, abraçaram uma ontologia materialista[1], desabonaram a utilidade da liberdade e da dignidade como valores[2], conceberam o planejamento da cultura como um problema a ser resolvido cientificamente[3], e sustentaram um ideal tecnológico de ciência. Apesar de não haver registros de que Skinner tenha realizado intercâmbios diretos com o movimento, a investigação de Rutherford (2017) revela indícios de possíveis conexões indiretas.

Finalmente, a autora avalia a reação da sociedade americana às propostas de Skinner e dos tecnocratas. Dando-lhe a palavra: “embora hostis à subversão da democracia e do capitalismo pelo totalitarismo e pelo socialismo, muitos americanos simpatizavam com o ideal tecnológico que Skinner e os tecnocratas desposavam. O emparelhamento de tecnologia com progresso social tem sido parte integrante do credo americano desde os primeiros dias como república” (p. 304). Desse modo, as potencialidades da engenharia social defendida por Skinner e pelos tecnocratas carregavam consigo um apelo óbvio à sociedade americana, profundamente tecnológica. Apesar disso, o apreço por valores basilares da nação falou mais alto: “quando ambos, os tecnocratas e Skinner, pediram que o público americano escolhesse entre a democracia e a tecnocracia, eles escolheram a democracia” (pp. 304-305).

O trabalho de Rutherford é tão informativo quanto instigante, e oferece subsídios para pensar e repensar as questões aventadas no início deste texto. Afinal, procede a crítica segundo a qual B. F. Skinner seria um tecnocrata? Seria sensato estendê-la a analistas do comportamento mais genericamente?[4] Aliás, será que essa crítica tem sido aceita como tal? Compreendendo as ideias tecnocráticas a partir do que representaram historicamente, para alguns, talvez, sequer soem extravagantes. Ainda que hoje dificilmente alguém reclame aos quatro ventos a rejeição aos valores da democracia liberal em nome de uma autocracia socialista de técnicos, o germe das ideias de Scott e Loeb parece subsistir. Será que o espectro da tecnocracia ainda ronda o behaviorismo?

 

Quer saber que fim levou o movimento tecnocrático? Quer conferir por si próprio como Rutherford traçou paralelos com o pensamento de B. F. Skinner?

Então leia o artigo na íntegra, disponível aqui e aqui.

 

Escrito por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar e pesquisador visitante na Duke University. Bolsista FAPESP.

 

*As notas são sugestões do autor desse texto, e não extraídas de Rutherford (2017).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

[1] Cabe ressalvar que não há consenso em relação à ontologia da análise do comportamento (cf. Rocha, Leão e Laurenti, 2016; Zilio, 2012; Krägeloh, 2006; Tonneau, 2005; Barnes-Holmes, 2005).

[2] Vale a pena ler a análise filosófica de Hocutt (2013) dos argumentos de Skinner sobre a liberdade.

[3] Staddon (2004) se refere a essa postura como uma forma de “imperialismo científico”.

[4] Para uma discussão sobre o que viria a ser um “skinneriano”, cf. De Rose (1999).

Para com esse barulho !!!

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Prezados leitores, o artigo desta semana não apenas é recentíssimo como também é cheio das novidades. Se trata de um estudo de caso publicado pelas doutoras Rebecca Schneider e Joanna Arch, da Universidade de Columbia, em que descrevem uma nova abordagem para tratar de uma doença também nova: a Misofonia.

Não sabem o que é Misofonia? Me parece totalmente compreensível, pois esta doença ainda não foi incluída nos manuais nosográficos comumente usados, como o DSM-V e a CID 10.

Se trata de um transtorno caracterizado por uma extrema sensibilidade a sons produzidos por outros seres humanos. Esses sons são barulhos cotidianos, como os que fazemos mastigando a comida, quando brincamos com uma caneta, ou até quando respiramos. Os indivíduos que sofrem esta doença, quando entram em contato com o som específico que os incomoda, se sentem imediatamente dominados por intensos sentimentos de raiva, desgosto e ansiedade, que logo se torna intolerável. Esta afecção é considerada como sendo relacionada ao TOC (Transtorno Obsessivo – Compulsivo).

Devido a este transtorno ter sido descrito na literatura psiquiátrica apenas recentemente, não há, ainda, protocolos de tratamento bem estabelecidos. Alguns relatos apontam que a Terapia Cognitivo Comportamental (particularmente dessensibilização sistemática) pode ser efetiva nestes casos. Contudo, devido à relutância de muitos psicólogos clínicos em aplicar as técnicas de dessensibilização, que se baseiam na exposição gradual e controlada a estímulos aversivos, as autoras do estudo consideraram oportuno desenvolver outra abordagem.

A abordagem adotada foi embasada nos pressupostos a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) por causa do seu foco na aceitação, em lugar de na tentativa de reduzir os sintomas, e também porque a ACT permite trabalhar com um amplo leque de emoções e não apenas com a ansiedade, que na Misofonia é menos proeminente do que em outros transtornos de humor. Também foi considerada relevante, como base para a intervenção, a DBT (Terapia Comportamental Dialética), por causa do seu foco em sentimentos de raiva.

As autoras trataram o caso de um adolescente de 17 anos (vamos nos referir a ele como “Michael”), que apresentava Misofonia a respeito e barulhos relacionados com alimentação. Este tipo de sons já o incomodava desde antes de começar o Ensino Médio, mas no momento de procurar a terapia tinha chegado a níveis em que o desconforto era intolerável e as tentativas de evitação realizadas pelo paciente afetavam significativamente diversos aspectos da sua vida.

O tratamento, que consistiu em 10 sessões de 50 minutos, inicialmente empregou componentes da ACT relacionados a aceitação e a desfusão (processos psicológicos que envolvem aceitar os eventos privados, como as emoções ou pensamentos, sem necessariamente acreditar que sejam verdadeiros ou se identificar com eles), tendo por objetivo ajudar o Michael a se distanciar dos seus pensamentos relacionados à Misofonia e a se abrir a experienciar os sentimentos de raiva. Além disso, o paciente foi treinado a identificar as situações em que a Misofonia era mais intensa apenas descrevendo fatos, sem a interferência de julgamentos a respeito delas.

Posteriormente, foram usadas técnicas da DBT, para identificar variáveis situacionais relevantes. No caso do Michael, identificou-se que ele ficava com o corpo tenso em antecipação de potenciais barulhos irritantes. Por esse motivo, aplicou-se a técnica de “ação oposta” na qual o cliente deve se engajar na ação oposta àquela exigida pela emoção do momento, com a finalidade de debilitar a relação entre o estímulo e a resposta disfuncional. Durante o tratamento, Michael foi instruído a relaxar o corpo nas situações em que percebesse um estado de tensão antecipatória.

Ao término do tratamento, todas as medidas de Misofonia tomadas como linha de base diminuíram, exceto a reação ao som de mastigar com a boca aberta. Contudo, a necessidade que Michael sentia de fazer algo a respeito desse som diminuiu muito, demonstrando uma maior capacidade de tolerar o desconforto. Essas condições se mantiveram em diversos follow up, que aconteceram até seis meses após a conclusão do tratamento.

A efetividade demonstrada após um tratamento de tão curta duração sugere que este tipo de tratamento baseado em componentes da ACT e da DBT apresenta um grande potencial para lidar com casos de Misofonia e outros transtornos relacionados à ansiedade.

Texto escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestre em Psicologia pela UFSCar

Psicólogo e Professor assistente do Curso de Psicologia da UFGD e Pesquisador do CLiCS.

Quer saber mais?

Rebecca L. Schneider and Joanna J. Arch, Case Study: A Novel Application of Mindfulness- and Acceptance-based Components to Treat Misophonia, Journal of Contextual Behavioral Science, 2017.

http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.04.003

Fonte da Imagem: https://www.rinconpsicologia.com/2016/07/te-molesta-el-sonido-que-hace-la-gente.html

Como saber se estamos formando bons terapeutas?

 

imagem julio2Pesquisadores enfrentam o desafio de mensurar o aprendizado de habilidades terapêuticas fundamentais para a boa prática clínica

A busca pela produção de práticas baseadas em evidência tem sido uma pauta constante no debate entre pesquisadores interessados na validação científica de procedimentos clínicos, em especial, na psicoterapia analítico-comportamental. De forma geral, essa discussão tem como foco a avaliação de quão eficazes são determinadas intervenções psicoterapêuticas na remissão de problemas psicológicos e na melhora no quadro clínico de clientes submetidos a tais intervenções. Uma vertente menos explorada (mas nem por isso menos importante) dessa discussão se refere à avaliação da eficácia dos procedimentos de formação de novos psicoterapeutas, incluindo o treinamento de habilidades terapêuticas indispensáveis para a boa prática clínica.

A chamada Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), proposta por Kohlenberg e Tsai (1991), é um modelo de clínica analítico-comportamental fortemente embasado na construção de uma relação interpessoal genuína entre terapeuta e cliente. Segundo os proponentes da FAP, a relação estabelecida dentro do setting terapêutico é um instrumento fundamental para a identificação de comportamentos clinicamente relevantes a serem trabalhados durante as sessões, o que inclui as queixas, os progressos e as interpretações que o cliente faz sobre o próprio comportamento. É por meio da interação face a face que ocorre ao longo das sessões que o terapeuta pode trabalhar a produção de mudanças na direção esperada e a generalização dos resultados para fora do consultório, ou seja, para o ambiente social do cliente, provável fonte do sofrimento psicológico que o levou a procurar ajuda.

Dadas essas características, a formação do terapeuta que virá a atuar segundo os pressupostos da FAP vai além da reprodução de técnicas e do domínio conceitual referente aos princípios analítico-comportamentais. A necessidade de construir relações interpessoais genuínas com os clientes demanda uma entrega pessoal muito grande por parte do terapeuta. Ao basear sua prática no aqui e agora da relação terapêutica, o terapeuta precisa estar constantemente atento aos próprios sentimentos e a como as ações dos clientes os afetam. Além disso, é necessário estar disposto a compartilhar elementos de sua própria história pessoal, o que muitas vezes serve como gatilho para que os clientes passem também a expor informações mais íntimas e importantes para a continuidade da psicoterapia. Por fim, o terapeuta precisa abrir mão de julgamentos e compreender as ações dos clientes como fruto de uma longa e complexa história de reforçamento.

Em termos mais práticos, as ações do terapeuta durante as sessões de FAP envolvem (1) a identificação de comportamentos clinicamente relevantes que são um problema na vida social do cliente, os quais espera-se reduzir a frequência; (2) o estabelecimento de repertórios alternativos mais adequados, o que demanda uma atenção especial para pequenas mudanças que o cliente apresenta ao longo das sessões; (3) o apontamento de relações funcionais entre as ações do cliente e os sentimentos que estas evocam, chamando-se a atenção para os possíveis efeitos semelhantes que tais ações produzem nas pessoas que convivem diariamente com o cliente; (4) a valorização das análises funcionais produzidas pelo próprio cliente e de uma postura mais ativa em direção às mudanças desejadas.

Para a formação de novos terapeutas, os proponentes da FAP têm recorrido à publicação de livros, artigos e materiais didáticos que possibilitam ao aprendiz o contato com os pressupostos básicos do modelo, a visualização de exemplos práticos e a realização de exercícios nas quais algumas habilidades terapêuticas são trabalhadas. Um treino mais elaborado envolve a participação dos aprendizes em cursos e workshops com terapeutas mais experientes, nos quais são discutidos casos clínicos e simuladas experiências de atendimento por meio de role-plays, nos quais os aprendizes são convidados a atuar tanto como terapeutas quanto como clientes. Versões mais recentes desses cursos e workshops têm sido ofertadas via internet, com os encontros entre terapeutas experientes e grupos de aprendizes sendo realizados em sessões de videoconferência.

Mas como saber se estamos formando bons terapeutas? Ou, mais especificamente, o que os proponentes da FAP têm feito para validar empiricamente os cursos e workshops ofertados, de forma a poderem afirmar que os aprendizes são capazes de exibir as habilidades terapêuticas necessárias em seus atendimentos clínicos futuros? Eis um grande desafio!

De modo geral, a avaliação da eficácia dos treinamentos ofertados em Psicoterapia Analítica Funcional passa pela utilização de instrumentos padronizados construídos especificamente para medir habilidades consideradas essenciais para o trabalho do terapeuta. Um desses instrumentos é o FAPIS, um questionário de autoavaliação com 46 escalas do tipo likert, no qual o aprendiz responde o quanto concorda ou discorda de determinadas afirmações. Também é comum a utilização de questionários contendo pequenas descrições de casos clínicos, na qual pede-se que o aprendiz responda, de acordo com o que aprendeu no treino, quais seriam suas respostas frente a determinadas situações. Por se pautarem somente no relato verbal dos aprendizes e estarem sujeitas a respostas enviesadas pela expectativa social gerada pelos terapeutas mais experientes, tais medidas acabam limitando a validação empírica dos procedimentos de ensino empregados. Além disso, não permitem avaliar nuances mais específicas da interação terapeuta-cliente, tais como a entonação e o ritmo da fala, bem como a adequação dos feedbacks aos comportamentos do cliente.

Com base nisso, o grupo liderado por Kohlenberg e Tsai propôs um novo instrumento para medir as habilidades terapêuticas exibidas pelos aprendizes submetidos aos cursos e workshops de FAP: a escala de competências (FAPCS). Ao invés de se basear no auto relato dos aprendizes, a FAPCS é uma escala com 12 itens, na qual terapeutas e codificadores treinados podem avaliar de forma simples e objetiva alguns trechos de sessões conduzidas pelos aprendizes (gravados em áudio, vídeo ou transcritos). Cada item abarca algum tipo de habilidade interpessoal, terapêutica ou conceitual esperada na FAP e pode ser pontuado de 0 a 3, sendo 3 referente ao atendimento de todos os requisitos necessários para se dizer que determinada habilidade foi estabelecida.

Os resultados apresentados pelo grupo ainda são preliminares e as vantagens desse novo instrumento ainda precisam ser analisadas em novos estudos. O primeiro estudo realizado apontou que a FAPCS é capaz de produzir medidas que apresentam forte correlação com as produzidas pelos instrumentos mais tradicionais, como o FAPIS e as respostas às descrições de casos clínicos.  Acredita-se que o novo instrumento seja capaz de detectar nuances mais específicas das habilidades avaliadas, dada a impossibilidade de os aprendizes mascararem suas respostas para atingir os critérios esperados.

Quer saber mais?

Maitland, D. W. M., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Manbeck, K. E., Kohlenberg, R. J. (2016). Preliminary Findings on the Effects of Online Functional Analytic Psychotherapy Training on Therapist Competency. Psychological Record, 66(4), 627-637. https://doi.org/10.1007/s40732-016-0198-8

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

Crédito foto: http://www.drjonicewebb.com/

Você pagaria para parar de fumar?

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De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o tabaco mata em torno de 7 milhões de pessoas por ano. Cerca de metade das pessoas que fumam morrem em decorrência desse hábito. Bom, que o cigarro é um veneno todo mundo sabe, mas muitas pessoas têm uma grande dificuldade em largar esse vício. É um tal de larga e volta que só que passa por isso sabe. Será que uma motivação financeira a mais poderia ajudar?

Alguns estudos verificaram a eficácia de um programa de redução de fumo em que o participante deposita um determinado valor em dinheiro e vai recebendo partes desse valor de volta, caso consiga atingir metas de redução de consumo. A maioria desses estudos são antigos, mas as novas possibilidades tecnológicas estão impulsionando novamente essas investigações.

Brantley Jarvis e Jesse Dallery da Universidade da Flórida fizeram uso dessa tecnologia da seguinte forma. Foram convidados a participar dos experimentos pessoas que fumavam mais de 10 cigarros por dia, há pelo menos dois anos. Essas pessoas realizavam um depósito online da quantia dinheiro que eles escolhessem e poderiam receber esse dinheiro de volta conforme fossem atingindo as metas de redução do fumo. Eram no total 28 metas de redução e 10 dias de abstenção. As metas foram estabelecidas individualmente, a partir do consumo costumeiro de cada um, que foi aferido durante 3 ou 5 dias (linha de base). Os participantes tinham acesso, por meio de login e senha, a uma área em que poderiam comunicar e verificar seu consumo de cigarro, assim como acompanhar seus ganhos. Para medir o consumo, duas vezes por dia  os participantes faziam upload de um vídeo em que filmavam a checagem desse consumo. Isso era feito quando eles assopravam perto um aparelho que ganharam dos experimentadores para este fim.

Os resultados mostraram que os participantes atingiram em média 64% das suas metas e que houve uma redução média de 45,1% no consumo nas fases de redução e de 58,4% na fase de abstinência, se comparado com o consumo na linha de base.No segundo experimento, os pesquisadores resolveram dar uma forcinha a mais. O procedimento foi o mesmo, mas o pessoal da universidade dobrava o valor que os participantes depositavam (até uma quantia máxima de 50 dólares). Resultados? Em média 67% das metas foram atingidas e a redução média do consumo foi de 41,2% na fase de redução e 41,6% na fase de abstinência e a variabilidade entre os participantes foi maior do que no Estudo 1. Os resultados são animadores, mas parece que o aumento do valor total do dinheiro não fez tanta diferença. Segundo os autores, esses resultados poderiam ser melhores se, por exemplo, o valor recuperado fosse aumentando conforme as metas fossem atingidas (nos experimentos descritos a quantidade de dinheiro devolvido por meta era sempre a mesma).

É a tecnologia, mais uma vez, sendo usada para ajudar as pessoas a serem mais saudáveis. E você, pagaria para parar de fumar?

Quer saber mais? Leia o artigo: Jarvis, B. P. & Dallery, J. (2016). Internet-based self-tailored deposit contracts to promote smoking reduction and abstinence. Journal of applied behavior analysis, 50, 189–205.

Postado por Natalia Maria Aggio, Pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (Bolsista CAPES)

É possível entender a cultura da pichação pela análise do comportamento?

 

Você sabe o que é etnografia? De maneira resumida, etnografia é o estudo descritivo de uma cultura, uma vez que permite produzir conhecimento sobre os costumes, crenças e tradições de um grupo cultural e, mais ainda, compreender como as práticas são transmitidas de geração em geração e como permitem a continuidade de um determinado sistema social. Na antropologia cultural, o etnografar é eleito como procedimento intrínseco desta área de conhecimento.

Na etnografia é importante que o pesquisador observe diariamente os modos de vida, relações sociais, ritos e, principalmente, conviva com a cultura que está inserido. Isso levará ao entendimento pelo olhar dos membros daquela cultura, somente possível por meio da interação entre investigador e a sociedade. Adicionalmente, o pesquisador pode conduzir entrevistas para colher dados adicionais sobre a subjetividade do grupo. Embora não seja apenas o relato verbal eleito como método de análise, mas a interação e observação das práticas sociais. Podemos sintetizar o método etnográfico com a seguinte frase de Urpi Montoya Uriarte, antropólogo da USP campus São Paulo: “um descobrimento fortuito da importância de conviver e ouvir aqueles que pretendemos entender”.

Deste modo, apesar da análise cultural com referencial analítico-comportamental ainda ser um campo tímido, deve-se fomentar estudos possam entender as dinâmicas das culturas e, posteriormente, procedimentos que promovam mudanças culturais. Diante da complexidade do comportamento cultural e sua transmissão entre gerações é necessário desenvolver ferramentas que permitam extrair conhecimento sobre práticas de indivíduos em grupos.

E você? Já pensou se mais pesquisas em análise do comportamento se apropriassem deste método? Pois bem, Lucas Couto, em colaboração com pesquisadores da Oslo and Akershus University College investigaram no Brasil, por meio de uma etnografia, a cultura dos pichadores das cidades de Brasília e Goiânia. Os principais resultados descrevem e identificam propriedades da cultura da pichação que podem sugerir possíveis estratégias de intervenções. Tais intervenções são interessantes por não terem o objetivo de punir ou extinguir a cultura dos membros, mas sim produzir alternativas à pichação por meio de planejamento para ocorrência de comportamentos pró-sociais.

Os autores do artigo discutem tais resultados em duas direções. Em primeiro lugar são discutidas as características dos reforçadores que mantem estas práticas, pois apesar de não prover ganhos materiais, o ato de pichar fornece amplas e poderosas contingências de reforçamento social. Em segundo lugar, a análise funcional das práticas culturais permite possiblidades de intervenções.

Os autores argumentam que ao realizar uma análise funcional das práticas culturais podemos planejar contingências que alterem o ambiente social dos pichadores e, desta forma, existe a possibilidade de produzir novos comportamentos e tornar incompatíveis os atualmente emitidos (não aceitos socialmente), porém sem extinguir a cultura da pichação. Nesta questão, por exemplo, pode-se levar elementos do graffiti a serem incorporados aos pichadores para favorecer contingências que promovam o engajamento com ativismo cultural, mas sem os efeitos prejudiciais à sociedade. Isso poderá promover uma rede de apoio aos pichadores em um contexto de ativismo. Assim, setores que apoiam o ativismo podem favorecer o desenvolvimento de comportamentos socialmente aceitáveis nos pichadores.

Para chegar a estes resultados, somente Lucas entrevistou vários membros dos grupos de pichadores, com os quais conviveu interagindo quase diariamente. Essa convencia direta com o grupo estudado propiciou uma análise da cultura com foco na relação funcional entre variáveis ambientais e práticas culturais.

A cultura da pichação envolve muitas práticas. As mais comuns são a criação de apelidos entre os membros, estilos e formatos de letras característicos de cada grupo (você com certeza já visualizou essas letras em pichações de cidades de grande porte), hierarquia entre os grupos e pichações em ambientes de ampla visualização e de risco, por exemplo, obras públicas. Ao categorizar e analisar essas práticas foram encontrados alguns achados.

Inicialmente, observou-se os subsistemas nos quais são criados apelidos individuais e o nome do grupo dos membros. Isso permite que a identidade do pichador e da facção sejam reforçadas. Por exemplo, quanto o membro picha muros, monumentos e/ou paredes, as letras com os apelidos permitem que pessoas de fora (pichadores ou mídia) apresentem consequências sociais (expor a grafia em redes sociais, noticiários e entre outros pichadores) para o produto do pichador e da sua coligação. É importante dizer que os grupos podem ser fundidos e, consequentemente, aumenta-se o número de membros, propiciando maior visibilidade a relação entre os pichadores.

Também foi observado que a prática cultural da pichação é transmitida para os novos membros. Isso inclui os melhores pontos para picharem, características simbólicas do grupo, uso do melhor material para pichar. Em relação a isto, podemos destacar as características topográficas (formatos) das letras pichadas, pois, em geral, os tipos de grafias são modelados pelos membros mais velhos e experientes que ensinam como será feita a arte para os iniciados. Esses infográficos contêm anagramas, tamanhos e formas variadas, todas reforçadas diferencialmente (letras maiores recebem maiores comentários de outras pessoas, ou seja, maior magnitude de reforçamento). Isso demonstra como a prática cultural é mantida pelos membros que as mantém ao longo das gerações.

Como último ponto de observação foi possível analisar funcionalmente esta cultural. Notou-se uma relação entre o ambiente social da pichação, entre pichadores, os grupos de pichadores e influência de diversas contingências punitivas e de reforçamento providas por terceiros, como: a mídia, as famílias, os ambientes escolares, a polícia e as nossas leis (no Brasil, o ato de pichar é considerado crime ambiental, artigo 65 da Lei 9.605/98).

Um exemplo de como estes fatores estabelecem a relação entre a cultura de pichar e terceiros é a grande mídia. No texto é relatado que um importante monumento de Brasília, o Memorial do Presidente Juscelino Kubitschek, apelidado de Memorial JK, é frequentemente pichado, sendo isso usualmente noticiado em jornais de ampla circulação. Aqui podemos notar que o ato de pichar locais de grande importância social é constantemente reforçado pela mídia, que indiretamente mantém tal prática, que se torna prazerosa aos pichadores e aos grupos, mas fortemente aversiva aos terceiros (membros fora desta cultura, ditos forasteiros).

Em relação à possíveis intervenções, os autores fazem um alerta sobre quem for planejar a mudança cultural se atentar aos reforçadores naturais que selecionam as práticas. Normalmente, quem irá planejar uma mudança de práticas, pode não considerar os reforçadores disponíveis no ambiente de quem pratica a pichação, tal visão tem função apenas de remover a estimulação aversiva dos que estão de fora da cultura da pichação. Dessa forma, a chance de contra controle do grupo é muito alta e será produzido novos comportamentos prejudiciais à sociedade.

O artigo traz um exemplo de mudanças culturais que não funcionaram, ao relatar uma exposição de artes da Alemanha em 2012, na qual foi convidado um grupo de pichadores para participarem de um workshop com o objetivo de reconhecer a pichação como arte. Para este evento, o curador restringiu sobre o que deveria ser apresentado como arte pelos pichadores e somente haveria discussão teórica sobre o assunto em formato de painéis, ou seja, impôs sua visão de como deveria ser exposta e dialogada com a mostra artística. Diante dessa situação, os pichadores subiram ilegalmente a igreja que sediava o evento e deixaram suas marcas no local. Segundo os pichadores, a sua arte é livre, não pode ser restringida, pois a pichação é sempre transgressiva e das ruas. Provavelmente, este tipo de intervenção não funcionou por não considerar os reforçadores naturais como uma poderosa fonte de controle de novos comportamentos. Ao estabelecer consequências arbitrárias, por não ter contato com a cultura do pichador, o planejador com certeza irá favorecer mais comportamentos prejudiciais do que benéficos.

Como no artigo descrito nessa resenha e, na maioria dos estudos sobre planejamentos culturais, os autores nos instigam a fazer a seguinte reflexão: Parece haver uma tendência em relação à noção de planejamento cultural do cientista comportamental em buscar intervenções que levariam a uma mudança da cultura, dentro daquilo que se convenciona como necessário de modificação pelo interventor. Porém, podemos aprender com as ciências antropológicas que devemos entender pela visão dos membros internos a cultura analisada. Por que não pensar em se interessar por simplesmente “entender” certa sociedade? Às vezes, tentativas de “controlar’ as práticas sociais podem levar a caminhos tão desastrosos como o de uma mudança cultural não planejada. É possível que a compreensão do sistema social seja um caminho mais seguro para a mudança do nosso olhar e, quando for planejada a mudança, as intervenções poderão ser mais pontuais e menos totalitárias.

Por fim, podemos pensar na seguinte reflexão enquanto analistas do comportamento: Não devemos limitar nossa metodologia e olhar os fenômenos apenas com modelos tradicionais de nossa ciência. Tal prática pode levar a uma deturpação do que seria um planejamento cultural efetivo, uma vez que para entender uma cultura, o olhar do outro deve prevalecer sobre o nosso e devemos entender as complexas relações de contingências que mantêm as práticas culturais do grupo observado. Temos as ferramentas produzidas pela investigação experimental, mas aplicá-las nas outras culturas requer mudanças em nossas próprias práticas culturais!

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

Quer saber mais?

de Carvalho, L. C., Sandaker, I., & Ree, G. (2017). An ethnographic study of tagging cultures. Behavior and Social Issues, 26, 67.

Uriarte, U. M. (2012). O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, (11).

Fonte da imagem: https://kikacastro.files.wordpress.com/2015/07/11231805_1132454836769937_2069011068897199668_n.jpg