Do laboratório ao holocausto

Num estudo publicado em 2012 no “The Psychological Record”, Douglas J. Navarick, da California State University, propõe um modelo para o estudo da desobediência em humanos. Tal modelo é pautado pelos achados experimentais de Stanley Milgram, que, nas décadas de 1960 e 1970, conduziu pesquisas sobre o que Navarick chama de “obediência destrutiva”. Como proposta de aplicação do modelo, Navarick analisa um episódio histórico: o massacre de 3200 judeus nas cidades polonesas de Józefów e Lomazy, durante a segunda grande guerra, conforme descrito pelo historiador Christopher Browning, em seu livro “Ordinary men”.

Os estudos de Milgram consistiam em testar até que ponto sujeitos humanos demonstrariam obediência a autoridade, representada por um cientista que lhes prescrevia uma tarefa. Tal tarefa consistia na administração de choques elétricos, gradualmente intensificados, sobre um segundo participante, que a partir de uma certa intensidade de choque reclamava de dor e pedia para abandonar o experimento. Desconhecido aos que administravam o choque era que os participantes “vítimas” eram atores, que não recebiam choque algum.

 

Imagens de Milgram e do primeiro experimento, em 1963

 

Surpreendentemente, poucos dos participantes de Milgram desobedeciam à autoridade do cientista, que os orientava a continuar com a tarefa prescrita. Na análise proposta por Navarick, a retirada ou não-retirada da situação não era interpretada como uma inclinação do sujeito a socorrer à vítima, mas como fuga de um eventual estresse pessoal (fuga de se indispôr com o cientista, no caso). Dados adicionais corroboram essa interpretação, como o fato de poucos participantes terem perguntado pelo estado das “vítimas” após o fim do experimento. Dessa perspectiva, a desobediência do subordinado pode, então, “ser analisada como uma forma de comportamento de fuga, em vez de ‘comportamento pró-social’.”

O modelo comportamental proposto envolve três estágios: 1) condicionamento aversivo de estímulos contextuais, 2) a emergência de um ponto de decisão, e 3) escolha entre reforçadores imediatos ou remotos. Tal modelo, acredita Navarick, seria útil para análise de fenômenos históricos, como alguns episódios do holocausto. Em Józefow, o comportamento dos agentes recrutados pelo exército nazista, homens comuns que em poucos dias seriam transformados em máquinas de matar, parecia obedecer à lógica proposta pelo modelo. Situação semelhante ocorreu em Lomazy, onde técnicas de engenharia social foram empregadas para prevenir a desobediência.

 

Jozefow

O batalhão policial de reserva 101, no treinamento em Józefow

 

Esse tipo de estudo histórico mostra como fenômenos sociais complexos, a despeito de serem impassíveis de uma análise experimental, podem ser analisados por meio de modelos erigidos a partir de achados experimentais. Como observa Navarick, “o uso de análises históricas para testar teorias psicológicas nomotéticas oferece oportunidades únicas para avançar a compreensão da obediência destrutiva.”

 

Referência:

Navarick, D. J. (2012) Historical psychology and the Milgram paradigm: tests of an experimentally derived model of defiance using accounts of massacres by Nazi Reserve Police Battalion 101. The Psychological Record; 62, 1.

 

Postado por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos – Laboratório de Estudos do Comportamento Humano. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

 

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