Influência da idade e da cultura no reconhecimento de expressões faciais emocionais

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Sabemos que, à medida que envelhecemos, podemos apresentar algumas dificuldades em habilidades físicas e cognitivas. Pesquisas recentes têm indicado que isso é o que parece acontecer com a nossa capacidade de reconhecer expressões faciais emocionais. Esta é uma questão bastante relevante se considerarmos que o reconhecimento de emoções é um importante componente da comunicação. Afinal, você se atreveria a pedir um aumento de salário justamente no dia em que percebesse que seu chefe está irritado?

Inicialmente, podemos pensar que a diminuição da capacidade de reconhecer emoções deva-se a um declínio cognitivo geral, típico do envelhecimento. No entanto, algumas pesquisas têm demonstrado que outros fatores podem contribuir para a diferença de reconhecimento de emoções entre adultos jovens e pessoas mais velhas. Um dado particularmente interessante é que adultos mais velhos parecem ter mais dificuldade em reconhecer expressões faciais consideradas negativas (raiva, tristeza) do que aquelas consideradas positivas (alegria, felicidade), quando comparados a adultos jovens.

Mas quais seriam os fatores, além do declínio cognitivo geral, que poderiam influenciar no efeito da idade sobre o reconhecimento de emoções negativas? Pensando nesta questão, um grupo de pesquisadores chineses investigou a influência da cultura na relação idade-reconhecimento emocional. Como a maioria absoluta dos estudos sobre o tema havia sido conduzida com participantes ocidentais, Ma e colaboradores (2013) desenvolveram uma pesquisa com participantes chineses, para comparar os dados com aqueles obtidos em pesquisas com participantes ocidentais.

Trinta chineses jovens (com idades entre 18 e 28 anos) e trinta chineses mais velhos (com idades entre 61 e 88 anos) participaram da pesquisa. Fotos de faces alegres, raivosas e neutras eram apresentadas em uma ordem aleatória aos participantes, em uma tela de computador.  A tarefa dos participantes consistia em apertar a barra de espaçamento do teclado do computador o mais rapidamente possível, sempre que aparecesse o estímulo alvo. Em um bloco de tentativas o estímulo alvo eram as faces alegres; em outros dois blocos de tentativas, os alvos eram as faces raivosas ou as neutras. Os pesquisadores registraram o tempo de resposta aos estímulos alvo (ou seja, quanto tempo os participantes demoravam para pressionar a barra), e a acurácia das respostas (ou seja,  pressionar a barra apenas diante dos estímulos alvo).

Os resultados do estudo mostram o mesmo padrão dos dados de pesquisas com participantes ocidentais, indicando que adultos mais velhos têm mais dificuldades em reconhecer emoções negativas do que positivas. Adultos mais velhos foram mais lentos e apresentaram mais erros ao responder às faces raivosas do que o grupo de adultos jovens, mas essas diferenças não foram verificadas em relação às faces alegres. Segundo os autores, esses resultados podem sugerir um déficit universal relacionado à idade no reconhecimento de expressões faciais emocionais negativas, ou seja, o declínio da habilidade em reconhecer emoções negativas à medida que envelhecemos, seria um fenômeno universal que se aplica a várias culturas.

Apesar da força dos dados em corroborar essa afirmação, os autores reconhecem algumas limitações do estudo. Uma delas é o fato de terem sido utilizadas apenas faces de adultos jovens como estímulos. Será que adultos mais velhos seriam mais sensíveis a faces de sua própria idade? Esta parece ser uma pergunta de pesquisa bastante interessante para futuras investigações!

 

Quer saber mais?

Veja o artigo: Ma, Z., Li, J., Niu, W., Yu, J. & Yang, L. (2013),Age differences in emotion recognition between chinese younger and older adults. The PsychologicalRecord, 63. 629-640.

 

Postado por Naiene Pimentel, pós-doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

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Qual é o lugar dos eventos privados na compreensão do comportamento?

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A crítica de que a Análise do Comportamento não seria capaz de lidar com fenômenos subjetivos parece ter perdido lugar nas discussões, ao menos nas rodas de analistas do comportamento. Podemos não falar de vontade, de motivação, ou mesmo de sentimentos como construtos em si, como entidades ou forças de uma outra natureza, mas abordamos sim os fenômenos regularmente descritos por esses termos. Uma das propostas mais desenvolvidas na obra de Skinner, e defendida por grande parte da comunidade de analistas do comportamento aborda esses fenômenos por meio do conceito de eventos privados – estímulos e respostas observáveis apenas ao próprio indivíduo. Nessa perspectiva, a comunidade verbal arranja estratégias para inferir e, assim, ensinar a discriminar e descrever esses eventos. Desse modo, seria possível aproximar o conhecimento desses eventos à experiência de como eles são sentidos pelo indivíduo. Vale ressaltar que a compreensão das próprias sensações é entendida como produto da interação do indivíduo com os agentes sociais que o cercam.

Entretanto, nem todos os behavioristas concordam que a inferência da participação de eventos privados é a melhor forma de se tratar dos fenômenos subjetivos. Autores como William Baum e Howard Rachlin têm publicado trabalhos questionando a pertinência e necessidade da consideração desses eventos na explicação do comportamento. Para esses autores não devemos considerar os eventos privados na construção do conhecimento científico sobre o comportamento porque não podemos construir um conhecimento preciso sobre eles – como não podemos observá-los ou mensurá-los eles são inadequados e dispensáveis a uma compreensão científica.

Tanto a proposta de Rachlin, chamada de behaviorismo teleológico, quanto a proposta de Baum, chamada de behaviorismo molar, destacam os padrões comportamentais públicos, bem como o aspecto temporal mais extenso dos episódios comportamentais (molar) contra uma abordagem mais restrita, imediata (molecular). A diferença entre as perspectivas teleológica e molar seria que, enquanto no primeiro entende-se que o fenômeno subjetivo é o padrão comportamental específico (por exemplo, a vontade de Maria de que a pena de morte acabe consiste de seus comportamentos de falar contra isso, de participar de passeatas, doar dinheiro para organizações em prol dessa causa etc.); no segundo, o fenômeno subjetivo é entendido como um “rótulo”, uma descrição relativa ao padrão observado (Maria falar e participar de ações contra a pena de morte). Segundo Baum, sua proposta dá ênfase maior para o papel do comportamento verbal e para a natureza cultural dos fenômenos chamados mentais ou subjetivos.

Porém, se nos exemplos apontados os eventos privados podem ser deixados de lado, o que dizer de outras experiências tão comuns e corriqueiras como descrever um sintoma “interno” a um cuidador que não apenas compreende, mas é também capaz de estabelecer precisamente um diagnóstico e um tratamento para o incômodo em questão? Não seriam casos como esse provas da necessidade e pertinência da consideração de eventos privados na compreensão e explicação do comportamento?

Uma boa medida para avaliar a pertinência e relevância do conceito de eventos privados, seria considerar sua capacidade de dar suporte ao desenvolvimento de pesquisas e interpretações coerentes para os episódios comportamentais. Ao menos essa é a compreensão de Leigland (2014) que, explorando os argumentos “pró e contra eventos privados”, apresenta uma revisão das propostas colocadas em debate, bem como uma discussão de exemplos emblemáticos e relatos de pesquisa para explicitar as distinções entre as propostas.

Imagine que você deve resolver um desses de jogos matemáticos, quebra-cabeças ou coisa parecida. Em uma primeira situação, você deve ir dizendo em voz alta exatamente o que está pensando – suas considerações para a resolução da tarefa. Numa segunda situação, resolvendo outro problema, você deve ir respondendo a questões colocadas por outro colega a respeito do seu desempenho nas tentativas, ou ainda sobre as estratégias utilizadas na tarefa anterior. Na primeira situação é provável que você obtenha sucesso mais rápida e efetivamente que na segunda. Pois bem, podemos considerar que na primeira situação você falou o que estava pensando, ou seja, descreveu seu raciocínio, que de outra forma se daria de modo privado, ou melhor, como respostas privadas atuando como antecedentes efetivos para seu comportamento aberto de resolver o problema, certo? Podemos pensar, então, que não há diferença efetiva, nesse caso, entre raciocinar pública ou privadamente. Dito de outra forma, tal qual eventos públicos, eventos privados podem exercer um papel funcional (resposta ou estímulo) nas relações comportamentais. E um papel nem um pouco desprezível, é importante que se diga. Como apresenta Leigland (2014), esse é o argumento do behaviorismo radical.

Outro estudo apresentado por Leigland para mediar essa discussão pró e contra eventos privados refere-se ao trabalho de Lubinski e Thompson (1987). Nesse trabalho, pombos privados de comida recebiam uma injeção contendo uma droga estimulante ou uma droga depressora e, em seguida, eram submetidos a um treino discriminativo em caixas de condicionamento operante. Os pesquisadores observaram que, após algumas sessões de treino, os pombos se tornaram capazes de responder discriminativamente a uma ou a outra chave da caixa, de acordo com o tipo de droga que haviam recebido.

Para Baum, a explicação para o sucesso dos sujeitos na tarefa não requer qualquer menção a eventos privados, que permanecem desconhecidos (afinal ninguém saberia dizer o que os pombos estariam de fato sentindo): o cientista pode olhar apenas para as contingências em vigor, para os eventos públicos – administração da droga estimulante ou da droga depressora.

Já Leigland, alinhado à “defesa dos eventos privados”, argumenta que de fato é importante considerar as contingências em uma escala temporal mais estendida, ou seja, a administração da droga A ou B, que acontece antes da situação efetiva do treino discriminativo. Porém, não há como explicar a eficiência dos sujeitos na tarefa sem considerar que cada tipo de droga produz no organismo um efeito discriminável em relação ao outro. De maneira análoga, e obviamente mais complexa, funcionaria também para nós humanos, em nossas interações verbais sobre sensações e sentimentos.

Um último exemplo do papel dos eventos privados pode ser tomado do estudo de Sonada e Okouchi (2012), dessa vez com humanos (afinal, são esses eventos privados que mais nos interessam!). Após aprenderem a estabelecer relações condicionais entre dois conjuntos (A1 com C1; A2 com C2, e assim por diante), os participantes desse estudo passaram a atuar como “tutores” de outros participantes, os “aprendizes”, em uma tarefa idêntica. Porém, enquanto no computador do tutor os estímulos que apareciam eram dos conjuntos A e C, no computador dos aprendizes apareciam estímulos do conjunto C e de um conjunto novo, B, desconhecido para os “tutores”, mas correspondente ao conjunto A. Os resultados da pesquisa mostram que os “tutores” foram capazes de estabelecer um contexto de aprendizado efetivo para os “aprendizes”. Podemos ver aqui um modelo experimental para explicitar uma das estratégias comportamentais nas relações envolvendo eventos privados – os tutores foram capazes de atuar efetivamente sobre o ambiente em relação a eventos privados (conjunto B) a partir de eventos correlatos que lhes eram públicos (conjunto A).

A partir dos relatos apresentados, Leigland (2014) argumenta em sentido da construção de uma compreensão integrativa, levando em conta aspectos importantes das propostas de Baum e Rachlin, como a tomada dos episódios comportamentais em uma perspectiva temporal mais ampla, porém salientando a pertinência e relevância dos eventos privados para a compreensão do comportamento humano, corroborado não apenas por exemplos cotidianos, mas por avanços crescentes em trabalhos experimentais sobre o tema.

 

Quer saber mais?

Veja o artigo: Leigland, S. (2014), Contingency horizon: on private events and the analysis of behavior. The Behavior Analyst, 37, 13-24.

E a edição do The Behavior Analyst, volume 34, número 2.

 

Referências

 

Leigland, S. (2014), Contingency horizon: on private events and the analysis of behavior. The Behavior Analyst, 37, 13-24.

Lubinski, D. & Thompson, T. (1987) An animal model of the interpersonal communication of interoceptive (private) states. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 48, 1-15

Sonoda, A., & Okouchi, H. (2012). A revised procedure for analyzing private events. The Psychological Record, 62, 645–661.

Postado por Henrique Mesquita Pompermaier. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP

Análise do Comportamento em Campo Minado!

Sabemos que é possível determinar com certo grau de precisão o exato momento em que um conflito armado começa. Podemos pautar esse tipo de julgamento em “formalidades” políticas mediante as quais os chefes de estado declaram publicamente estarem em estado de guerra contra outra nação, ou simplesmente quando manobras militares são sistematicamente organizadas contra grupos de indivíduos (como é o caso de uma guerra civil). A tendência é que os conflitos produzam uma boa dose de estragos até que o país (ou grupo) mais severamente castigado não vê outra saída se não a rendição completa ao inimigo. Neste momento costumamos dizer que a guerra acabou! Mas o fim do conflito representa automaticamente a restauração da integridade das populações envolvidas?

A pesquisa historiográfica atual demonstrou que a declaração pública do fim de uma guerra, ao contrário do que costumamos pensar, estabelece ocasião para o começo de outro pesadelo de luta pela sobrevivência (caso goste do assunto veja o livro “Fim de Jogo, 1945” de David Stafford para um exemplo de como essa tese é aplicada). Se pelo lado político, os líderes compactuam para que acordos sejam cumpridos e novas alianças aconteçam, a população enfrenta o caos nos sistemas de leis, saúde, alimentação, moradia, educação. Mais do que isso, a população civil padece em decorrência do contato direto com os despojos de guerra (contaminação do solo e mananciais por agentes químicos e campos minados). É comumente aceita a ideia de que a eliminação dos despojos de guerra é o primeiro passo para restituição da ordem social de países que passaram por esse tipo de situação. Mais do que isso, acredita-se que isso deve ser feito o mais rápido possível! A restauração da produção agrícola, por exemplo, depende da remoção quase completa das minas terrestres dos campos aráveis. Além disso, a remoção de minas seria um começo da restauração da segurança para boa parte da população, crianças especialmente.

Infelizmente, apesar da eminência da necessidade de remoção de minas vemos pulular em notícias de televisão e jornal que em alguns lugares do mundo a população continua a padecer com uma agricultura ineficiente em períodos pós-conflito e também com mortes e amputações em decorrência do contato com minas terrestres.

Mas por que isso ainda acontece? A resposta para essa questão é aparentemente simples: Os custos de manutenção de pessoal especializado nesse tipo de serviço são exorbitantes e países localizados em zonas de conflito na África simplesmente não podem arcar com os custos de tal empreitada. Muitas pessoas ficam de mãos atadas diante disso, restando a elas a revolta em seu foro íntimo, a fé e a esperança de que algo aconteça para que tal situação seja resolvida o mais rápido possível. Para outros é possível ir um pouco além…

Olá, somos Analistas do Comportamento. Podemos ajudar?

Costumeiramente refere-se ao Analista do Comportamento como a pessoa que fica no laboratório assistindo ratos ou pombos realizarem tarefas monótonas. Uma atribuição nada meritória! Mas, se perguntarmos por que e para que ele se mantém no laboratório estudando o comportamento de animais, ele provavelmente responderá: estou desenvolvendo tecnologias que possam atender demandas quotidianas.

Opa…a coisa parece ser mais séria do que pensávamos!

Tecnologias são recursos que permitem ampliar o modo como os seres humanos agem sobre o mundo. No mundo atual, as melhores tecnologias são aquelas que produzem melhores efeitos com os menores custos possíveis. Portanto, existiria algum tipo de tecnologia alternativa aos caríssimos operadores de detector de metais usados para detectar minas terrestres? Analistas do Comportamento do grupo formado por Amanda Mahoney, Kate Lalonde, Timothy Edwards, Chistophe Cox, Bart Weetjens e Allan Poling afirmam que sim!

Esse grupo de pesquisadores está fazendo fama entre os cientistas, entre entidades militares e humanitárias por seus recentes sucessos no desenvolvimento de tecnologias de baixo custo para atender habitantes de áreas afetadas por conflitos armados na África Central. Mostrarei agora como esses pesquisadores utilizam os princípios básicos do comportamento estudados há anos em situação experimental para o desenvolvimento dessas tecnologias.

Ratos! Ratos em todos os lugares!

Ao contrário dos povos ocidentais, que preferem ter cães e gatos com animais de estimação, os centro-africanos gostam de ter ratos gigantes da Gâmbia (Crycetomys gambianos) como animais de estimação. Esses ratos são abundantes nessa região e foram domesticados já há muito tempo. Eles convivem bem com seres humanos e a sua manutenção em ambiente caseiro é bastante barata, pois esses animais vivem bem com os alimentos disponíveis na região. Analistas do Comportamento também tem bastante intimidade com ratos. Eles sabem dentre outras coisas, que os ratos são tão bons quanto cães em reconhecer uma grande variedade de cheiros.

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O grupo liderado por Amanda Mahoney descobriu que a habilidade de discriminação de estímulos olfativos é bastante flexível nesses ratos. Eles podem ser treinados a discriminar tanto cheiros naturais (comida, por exemplo) quanto os cheiros mais estranhos. Imaginem, por exemplo, os ratos farejando várias amostras de saliva de pessoas com suspeita de tuberculose. Seriam eles capazes de apontar quais amostras contém a bactéria que causa a tuberculose? A resposta é sim! Eles podem ser ótimos técnicos de laboratório (ver Poling, Weetjens, Cox, Beyene, Durgin & Mahoney, 2011). E na ausência de laboratórios caros e ultraespecializados eles são os únicos técnicos disponíveis. Uma grandíssima vantagem, não é mesmo? Agora me perguntem sobre o tempo necessário para treinar esses animais? Respondo: são ótimos aprendizes, por isso aprendem muito rápido. E sobre custos? Respondo novamente: baixíssimos! E querem saber mais: em locais onde médicos e especialistas em saúde são raros, tecnologias como esta que lhes contei são cruciais. E qual o segredo dessa tecnologia: treino de discriminação de estímulos. Sim, nós Analistas do Comportamento podemos ajudar!

Ratos farejadores.

Cães farejadores são eficientes em detectar minas terrestres, porém caros. Além disso, teriam muita dificuldade de se adaptar ao ambiente da África Central. E quanto aos ratos farejadores? Provavelmente os ratos seriam tão bons quanto os cães, mas como treiná-los em segurança? A resposta para essa pergunta é crucial, pois não se pode dar ao luxo de treinar ratos a detectar minas em meio a um campo minado. Isso seria um desastre sem tamanho. Mas, o Analista do Comportamento sabe bem o que fazer: vamos ao campo de pesquisas!

A pesquisa aconteceu em Morogoro, Tanzânia, no campo de treinamento APOPO (acrônimo para Anti-Persoonsmijnen Ontmijnende Product Ontwikkeling, em língua belga). Nesse local havia 32 caixas de madeira de aproximadamente 100 metros quadrados, isoladas umas das outras e contendo em uma maioria pelo menos uma mina terrestre enterrada nela. Apesar de ativas, essas minas estavam seguramente mapeadas, de modo que o contato direto com tais artefatos poderia ser cuidadosamente evitado. Considerando que as regiões onde existem campos minados são também conhecidas pelos altos índices de contaminação por 2,4,6-trinitrotolueno (dinamite – TNT) os pesquisadores utilizaram um tipo de procedimento que permitiu simular condições de contaminação do solo por dinamite em um ponto específico de cada uma das caixas de madeira. Notem bem: nessa condição os odores do composto químico da dinamite poderiam ser provenientes tanto das próprias minas (estímulo 1) quanto do solo contaminado (estímulo 2). Cinco ratos, presos em coleirinhas e guiados pelos experimentadores (experimentador-guia), foram os sujeitos experimentais.

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O treino aconteceu da seguinte forma: os ratos eram guiados pelos pesquisadores até as caixas de madeira. Uma vez colocados sobre a terra, os ratos começavam a farejar e cavar o solo (comportamento de forrageamento). Os experimentadores aguardavam pacientemente até que os ratos se aproximassem por volta de um metro ou de uma área contendo uma mina terrestre, ou de uma área que havia sido contaminada com dinamite. Caso rato emitisse o comportamento de forrageamento nessa região, o experimentador-guia pressionava um pequeno dispositivo que emitia um sinal sonoro e, logo em seguida, recompensava o rato com um pedaço de banana. Sempre que isso acontecia, os ratos eram transferidos para outra caixa de madeira e a ação deveria ser repetida. Esse procedimento consagrado pela Análise do Comportamento é chamado de modelagem por reforçamento. O procedimento tem como resultado o aumento na eficácia dos sujeitos experimentais em emitir a resposta desejada pelo experimentador. No caso da pesquisa aqui relatada, o reforçamento diferencial visa estabelecer o comportamento de rastrear as fontes de odor da dinamite. É importante notar que durante a fase de modelagem, os ratos não estavam sendo especificamente treinados a apontar as minas terrestres.

Após algumas tentativas de modelagem, os pesquisadores conduziram um teste. Nessa nova situação os ratos continuariam a rastrear as minas nas caixas de madeira, porém o experimentador-guia disparava o sinal sonoro e dava a banana ao rato apenas se ele emitisse o comportamento de forragem na área de contaminação por dinamite (estímulo 2). Caso o rato emitisse o comportamento de forragem próximo da mina terrestre, não haveria recompensa. Nessa condição, o rato seria transferido para uma nova caixa e o experimento continuaria. O objetivo dessa modificação foi verificar os efeitos da aplicação do reforçamento em apenas uma das condições de estímulo (estímulo 2, no caso) sobre a detecção das minas terrestres propriamente ditas (estímulo 1). Essa era a fase crítica do experimento!

Pausa aqui! Você deve estar se perguntando se não seria mais eficiente reforçar as respostas de forragem quando elas acontecem próximas às minas terrestres e não diante dos odores da dinamite. Se você pensou isso, ótimo! Isso mostra que você tem um bom raciocínio crítico. Uma habilidade importante para cientistas. Mas vamos dar alguns passos atrás: lembre-se que, assim como cientistas de outras áreas, os analistas do comportamento acreditam que o melhor lugar para desenvolver tecnologias é o laboratório! E a pesquisa que estou relatando aqui é em campo. O laboratório não é apenas mais seguro do que um campo minado. É o local onde diversos tipos procedimentos de controle de variáveis podem ser feitos de modo adequado. Ademais, não é seguro para ninguém entrar em um laboratório com dinamite ou minas terrestres. Então, se apenas o treino de rastreamento de odores for suficientemente eficaz para tornar os ratos igualmente eficientes na detecção das minas terrestres, então tais procedimentos de treino poderiam ser repetidos e melhorados na segurança do laboratório de pesquisa para depois serem implantados para atender as demandas do mundo real! Dito isso, voltemos aos resultados. Todos os cinco ratos tornaram-se ótimos farejadores de minas terrestres. Agora se prepare: a taxa de acertos na detecção de minas aumentou gradativamente ao longo das tentativas de teste mesmo nunca sendo devidamente recompensados por encontrar as minas. Creio que assim como você ou eu, os componentes do grupo da pesquisa que estou relatando também ficaram bastante surpresos com isso.

Vamos para o laboratório?

Por que o desempenho na detecção de minas melhorou depois que os ratos foram treinados a reconhecer o cheiro da dinamite apenas? Ninguém ainda sabe explicar ao certo. Essa é uma questão empírica e questões empíricas são respondidas mais convenientemente após a realização de pesquisas de laboratório. Mas, os autores dão uma dica válida: generalização de estímulos. A generalização de estímulos é um processo comportamental básico e já bastante estudado pelos analistas do comportamento. Esse processo diz respeito ao fato de que se você treinar um rato a emitir uma determinada resposta diante uma condição de estímulo específica (uma luz acesa, por exemplo), você observará que uma resposta semelhante tende a ocorrer diante outras luzes de diferentes intensidades. Além disso, você observará que diante de uma luz apagada, por exemplo, o rato simplesmente não responderia. No caso da pesquisa aqui relatada, os ratos que aprenderam a reconhecer o odor da dinamite em áreas de contaminação do solo por meio de processos de generalização de estímulos reconheceriam o cheiro de dinamite independentemente da sua proveniência: dentro de dispositivos metálicos (minas), sacos plásticos, projéteis e etc…Mas, conforme os autores, os processos envolvidos na pronunciada melhora dos ratos em detectar minas são assunto para pesquisas a serem realizadas no futuro. E tomara mesmo que estas aconteçam…

Apesar de ainda desconhecerem os processos por trás do desempenho dos ratos, os autores ressaltam a eficiência dos conhecimentos clássicos da Análise do Comportamento (modelagem por reforçamento e generalização de estímulos) em desenvolver tecnologias que possam ser úteis para resolver problemas humanos ou mesmo problemas causados por seres humanos.

Em vários momentos da sua vida, B. F. Skinner defendeu que a Análise do Comportamento deveria se preocupar mais em desenvolver tecnologias que ajudassem a acelerar os avanços sociais de certas populações ou mesmo eliminar fontes de controle aversivo. É sabido que a África Central é uma região que ainda sofre muito com os despojos dos conflitos armados e também com ausência de recursos profissionais e financeiros. O grupo de analistas do comportamento da APOPO avança em passos largos no desenvolvimento de tecnologias eficientes e de baixo custo para sanar alguns problemas dessas populações e ajudá-los a entrar, ainda que minimamente, nas engrenagens do desenvolvimento social. Isso sim é algo bastante meritório!

Sim, somos analistas do comportamento e nós podemos ajudar!

Quer saber mais a respeito? Visite o site da APOPO (www.apopo.org/about-apopo/about-apopo/about), ou confira as referências abaixo:

 

Mahoney, A; Lalonde, K; Edwards, T.; Cox, C.; Weetjens, B.; & Poling, A. (2014). Landmine-detection rats: an evaluation of reinforcement procedures under simulated operational conditions. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 101(3), 450-456.

Poling, A.; Weetjens, B.; Cox, C.; Beyene, N.; Durgin, A.; & Mahoney, A. (2011). Tuberculosis detection by Giant African Pouched Rats. The Behavior Analyst, 34(1), 47-54.

 

Postado por Marcelo Vitor da Silveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

Você está certo disso? As falsas memórias e o papel do contexto

Imagine um teste de memória em que é apresentada uma lista com as palavras  “gelo, inverno, casaco, neve, cobertor, agasalho, blusa, aconchego, temperatura, calor, arrepio, chuva, lã, lareira, sopa”, que depois deverão ser lembradas. Sem dúvida essa é uma tarefa fácil, mas ninguém se surpreenderia caso uma ou outra palavra fosse esquecida, afinal nossa memória não funciona perfeitamente a todo momento.Mas, seria possível que este “não funcionamento” resultasse em um outro tipo de distorção do lembrar? Por exemplo, a lembrança da palavra “frio” que não fazia parte da lista original? Estudos indicam que, em tarefas de memória como a descrita acima, em que listas com palavras associadas semanticamente entre si devem ser lembradas, é comum que participantes relatem se lembrar de palavras que não pertenciam à lista, mas que apresentam forte relação semântica com os itens dessa lista. A este fenômeno atribui-se o nome de Falsas Memórias Semânticas e as listas desse tipo– que produzem Falsas Memórias Semânticas – ficaram conhecidas como Listas DRM (em referencia às iniciais dos autores que propuseram esse método).

Como os aspectos semânticos parecem ser importantes na produção de falsas memórias, as primeiras pesquisas que procuraram investigar esse fenômeno na perspectiva da Análise do Comportamento utilizaram o Paradigma da equivalência de estímulos. Utilizando este paradigma, seria possível estabelecer, em um ambiente experimental,relações semânticas entre estímulos que,em um segundo momento, poderiam ser utilizados para formar listas DRM. A pesquisa realizada por Guinther e Dougher (2014) – que será brevemente descrita aqui -utilizou o Paradigma da equivalência de estímulos e o Paradigma DRM para investigar se as distorções no lembrar podem sofrer influência de diferentes contextos.

Os participantes aprenderam quatro classes de equivalência com vinte estímulos em cada classe: duas eram ensinadas em um fundo de tela branco com fonte, cor e tamanho de letras específicos (Contexto X1) e as outras duas em um fundo de tela preto com fonte, cor e tamanho de letra diferentes das outras (ContextoX2).Os mesmos estímulos usados nas classes aprendidas no (Contexto X1) eram usados nas classes do Contexto X2, porém reorganizados. A primeira parte da figura exemplifica a organização das classes, utilizando apenas alguns estímulos como exemplo. Observe que não há relação semântica entre as palavras de cada classe. Sabe-se, porém, que o Paradigma de equivalência constrói estas relações, assim, por exemplo, no Contexto X1, as palavras “aeroporto”, “banheiro”, “dançando”, “deserto”, “ensaio”, e “floresta” passam a ser semanticamente relacionadas. O mesmo acontece no Contexto X2.

 

tabela nat

Após aprenderem as classes, um teste de memória era feito. Neste teste, os participantes visualizaram uma lista de estudo com dez estímulos. Os estímulos apresentados faziam parte de classes diferentes, de acordo com o contexto em que as relações haviam sido aprendidas anteriormente. A segunda parte da figura exemplifica o teste, apresentando alguns dos estímulos. Os participantes deveriam escrever em uma folha de papel todos os estímulos que se lembrassem dessa lista. Metade dos participantes fazia este teste em um fundo de tela branco (Contexto X1) e a outra metade em um fundo de tela preto (Contexto X2). Os pesquisadores queriam saber se os estímulos recordados falsamente no teste de memória seriam diferentes em cada grupo (de acordo com cada contexto).

Os resultados mostraram que quando o teste foi feito no Contexto X1, os estímulos mais falsamente recordados foram os que faziam parte da mesma classe de equivalência dos estímulos da lista de estudo, no Contexto X1. Se “aeroporto”, “banheiro” e “dançando” estavam na lista, os sujeitos tinham mais chance de lembrar também de “deserto”, “ensaio” e “floresta”, que não faziam parte da lista mas eram equivalentes a “aeroporto”, “banheiro”e “dançando”, no Contexto X1. Mas quando o teste era feito no Contexto X2, os estímulos mais falsamente recordados mudaram. Foram os que eram equivalentes a “aeroporto”, “banheiro” e “dançando”, no Contexto X2. As diferenças não foram muito robustas, mas os autores acreditam que este seja um indício de que o contexto pode sim influenciar nas distorções do lembrar.

 

Guinther,P. M. &Dougher, M. J. (2014) Partial Contextual Control of Semantic False Memories in the Form of Derived Relational Intrusions Following Training. Psychological Record.

 

Leituras recomendadas:

 

Chalies, D. M,  Hunt, M., Garry, G., & Harper, D. N. (2011) Whatever gave you that idea? False memories following equivalence training: a behavioral account of the misinformation effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 96(3), 343-362.

 

Guinther M. M. &Dougher M. J. (2010). Semantic false memories in the form of derived relational intrusions following training. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 93 (3), 329–347.

 

Postado em 02/06/2014, por Natalia M. Aggio, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista Capes (de 10/2010 – 12/2010) e Bolsistas Fapesp (01/2011 – atual).