Você está certo disso? As falsas memórias e o papel do contexto

Imagine um teste de memória em que é apresentada uma lista com as palavras  “gelo, inverno, casaco, neve, cobertor, agasalho, blusa, aconchego, temperatura, calor, arrepio, chuva, lã, lareira, sopa”, que depois deverão ser lembradas. Sem dúvida essa é uma tarefa fácil, mas ninguém se surpreenderia caso uma ou outra palavra fosse esquecida, afinal nossa memória não funciona perfeitamente a todo momento.Mas, seria possível que este “não funcionamento” resultasse em um outro tipo de distorção do lembrar? Por exemplo, a lembrança da palavra “frio” que não fazia parte da lista original? Estudos indicam que, em tarefas de memória como a descrita acima, em que listas com palavras associadas semanticamente entre si devem ser lembradas, é comum que participantes relatem se lembrar de palavras que não pertenciam à lista, mas que apresentam forte relação semântica com os itens dessa lista. A este fenômeno atribui-se o nome de Falsas Memórias Semânticas e as listas desse tipo– que produzem Falsas Memórias Semânticas – ficaram conhecidas como Listas DRM (em referencia às iniciais dos autores que propuseram esse método).

Como os aspectos semânticos parecem ser importantes na produção de falsas memórias, as primeiras pesquisas que procuraram investigar esse fenômeno na perspectiva da Análise do Comportamento utilizaram o Paradigma da equivalência de estímulos. Utilizando este paradigma, seria possível estabelecer, em um ambiente experimental,relações semânticas entre estímulos que,em um segundo momento, poderiam ser utilizados para formar listas DRM. A pesquisa realizada por Guinther e Dougher (2014) – que será brevemente descrita aqui -utilizou o Paradigma da equivalência de estímulos e o Paradigma DRM para investigar se as distorções no lembrar podem sofrer influência de diferentes contextos.

Os participantes aprenderam quatro classes de equivalência com vinte estímulos em cada classe: duas eram ensinadas em um fundo de tela branco com fonte, cor e tamanho de letras específicos (Contexto X1) e as outras duas em um fundo de tela preto com fonte, cor e tamanho de letra diferentes das outras (ContextoX2).Os mesmos estímulos usados nas classes aprendidas no (Contexto X1) eram usados nas classes do Contexto X2, porém reorganizados. A primeira parte da figura exemplifica a organização das classes, utilizando apenas alguns estímulos como exemplo. Observe que não há relação semântica entre as palavras de cada classe. Sabe-se, porém, que o Paradigma de equivalência constrói estas relações, assim, por exemplo, no Contexto X1, as palavras “aeroporto”, “banheiro”, “dançando”, “deserto”, “ensaio”, e “floresta” passam a ser semanticamente relacionadas. O mesmo acontece no Contexto X2.

 

tabela nat

Após aprenderem as classes, um teste de memória era feito. Neste teste, os participantes visualizaram uma lista de estudo com dez estímulos. Os estímulos apresentados faziam parte de classes diferentes, de acordo com o contexto em que as relações haviam sido aprendidas anteriormente. A segunda parte da figura exemplifica o teste, apresentando alguns dos estímulos. Os participantes deveriam escrever em uma folha de papel todos os estímulos que se lembrassem dessa lista. Metade dos participantes fazia este teste em um fundo de tela branco (Contexto X1) e a outra metade em um fundo de tela preto (Contexto X2). Os pesquisadores queriam saber se os estímulos recordados falsamente no teste de memória seriam diferentes em cada grupo (de acordo com cada contexto).

Os resultados mostraram que quando o teste foi feito no Contexto X1, os estímulos mais falsamente recordados foram os que faziam parte da mesma classe de equivalência dos estímulos da lista de estudo, no Contexto X1. Se “aeroporto”, “banheiro” e “dançando” estavam na lista, os sujeitos tinham mais chance de lembrar também de “deserto”, “ensaio” e “floresta”, que não faziam parte da lista mas eram equivalentes a “aeroporto”, “banheiro”e “dançando”, no Contexto X1. Mas quando o teste era feito no Contexto X2, os estímulos mais falsamente recordados mudaram. Foram os que eram equivalentes a “aeroporto”, “banheiro” e “dançando”, no Contexto X2. As diferenças não foram muito robustas, mas os autores acreditam que este seja um indício de que o contexto pode sim influenciar nas distorções do lembrar.

 

Guinther,P. M. &Dougher, M. J. (2014) Partial Contextual Control of Semantic False Memories in the Form of Derived Relational Intrusions Following Training. Psychological Record.

 

Leituras recomendadas:

 

Chalies, D. M,  Hunt, M., Garry, G., & Harper, D. N. (2011) Whatever gave you that idea? False memories following equivalence training: a behavioral account of the misinformation effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 96(3), 343-362.

 

Guinther M. M. &Dougher M. J. (2010). Semantic false memories in the form of derived relational intrusions following training. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 93 (3), 329–347.

 

Postado em 02/06/2014, por Natalia M. Aggio, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista Capes (de 10/2010 – 12/2010) e Bolsistas Fapesp (01/2011 – atual).

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4 thoughts on “Você está certo disso? As falsas memórias e o papel do contexto

  1. Pingback: Identidade: 2) memória | Questão de acaso

  2. Sobre o blog “Boletim Behaviorista”, Santos (1996) diria: bem bolado, bem bolado!

    Referências:

    Santos, S. (Apresentador). (1996, 4 de agosto). Topa tudo por dinheiro [Espetáculo de televisão]. São Paulo, SP, Brasil: Sistema Brasileiro de Televisão.

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