Análise do Comportamento em Campo Minado!

Sabemos que é possível determinar com certo grau de precisão o exato momento em que um conflito armado começa. Podemos pautar esse tipo de julgamento em “formalidades” políticas mediante as quais os chefes de estado declaram publicamente estarem em estado de guerra contra outra nação, ou simplesmente quando manobras militares são sistematicamente organizadas contra grupos de indivíduos (como é o caso de uma guerra civil). A tendência é que os conflitos produzam uma boa dose de estragos até que o país (ou grupo) mais severamente castigado não vê outra saída se não a rendição completa ao inimigo. Neste momento costumamos dizer que a guerra acabou! Mas o fim do conflito representa automaticamente a restauração da integridade das populações envolvidas?

A pesquisa historiográfica atual demonstrou que a declaração pública do fim de uma guerra, ao contrário do que costumamos pensar, estabelece ocasião para o começo de outro pesadelo de luta pela sobrevivência (caso goste do assunto veja o livro “Fim de Jogo, 1945” de David Stafford para um exemplo de como essa tese é aplicada). Se pelo lado político, os líderes compactuam para que acordos sejam cumpridos e novas alianças aconteçam, a população enfrenta o caos nos sistemas de leis, saúde, alimentação, moradia, educação. Mais do que isso, a população civil padece em decorrência do contato direto com os despojos de guerra (contaminação do solo e mananciais por agentes químicos e campos minados). É comumente aceita a ideia de que a eliminação dos despojos de guerra é o primeiro passo para restituição da ordem social de países que passaram por esse tipo de situação. Mais do que isso, acredita-se que isso deve ser feito o mais rápido possível! A restauração da produção agrícola, por exemplo, depende da remoção quase completa das minas terrestres dos campos aráveis. Além disso, a remoção de minas seria um começo da restauração da segurança para boa parte da população, crianças especialmente.

Infelizmente, apesar da eminência da necessidade de remoção de minas vemos pulular em notícias de televisão e jornal que em alguns lugares do mundo a população continua a padecer com uma agricultura ineficiente em períodos pós-conflito e também com mortes e amputações em decorrência do contato com minas terrestres.

Mas por que isso ainda acontece? A resposta para essa questão é aparentemente simples: Os custos de manutenção de pessoal especializado nesse tipo de serviço são exorbitantes e países localizados em zonas de conflito na África simplesmente não podem arcar com os custos de tal empreitada. Muitas pessoas ficam de mãos atadas diante disso, restando a elas a revolta em seu foro íntimo, a fé e a esperança de que algo aconteça para que tal situação seja resolvida o mais rápido possível. Para outros é possível ir um pouco além…

Olá, somos Analistas do Comportamento. Podemos ajudar?

Costumeiramente refere-se ao Analista do Comportamento como a pessoa que fica no laboratório assistindo ratos ou pombos realizarem tarefas monótonas. Uma atribuição nada meritória! Mas, se perguntarmos por que e para que ele se mantém no laboratório estudando o comportamento de animais, ele provavelmente responderá: estou desenvolvendo tecnologias que possam atender demandas quotidianas.

Opa…a coisa parece ser mais séria do que pensávamos!

Tecnologias são recursos que permitem ampliar o modo como os seres humanos agem sobre o mundo. No mundo atual, as melhores tecnologias são aquelas que produzem melhores efeitos com os menores custos possíveis. Portanto, existiria algum tipo de tecnologia alternativa aos caríssimos operadores de detector de metais usados para detectar minas terrestres? Analistas do Comportamento do grupo formado por Amanda Mahoney, Kate Lalonde, Timothy Edwards, Chistophe Cox, Bart Weetjens e Allan Poling afirmam que sim!

Esse grupo de pesquisadores está fazendo fama entre os cientistas, entre entidades militares e humanitárias por seus recentes sucessos no desenvolvimento de tecnologias de baixo custo para atender habitantes de áreas afetadas por conflitos armados na África Central. Mostrarei agora como esses pesquisadores utilizam os princípios básicos do comportamento estudados há anos em situação experimental para o desenvolvimento dessas tecnologias.

Ratos! Ratos em todos os lugares!

Ao contrário dos povos ocidentais, que preferem ter cães e gatos com animais de estimação, os centro-africanos gostam de ter ratos gigantes da Gâmbia (Crycetomys gambianos) como animais de estimação. Esses ratos são abundantes nessa região e foram domesticados já há muito tempo. Eles convivem bem com seres humanos e a sua manutenção em ambiente caseiro é bastante barata, pois esses animais vivem bem com os alimentos disponíveis na região. Analistas do Comportamento também tem bastante intimidade com ratos. Eles sabem dentre outras coisas, que os ratos são tão bons quanto cães em reconhecer uma grande variedade de cheiros.

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O grupo liderado por Amanda Mahoney descobriu que a habilidade de discriminação de estímulos olfativos é bastante flexível nesses ratos. Eles podem ser treinados a discriminar tanto cheiros naturais (comida, por exemplo) quanto os cheiros mais estranhos. Imaginem, por exemplo, os ratos farejando várias amostras de saliva de pessoas com suspeita de tuberculose. Seriam eles capazes de apontar quais amostras contém a bactéria que causa a tuberculose? A resposta é sim! Eles podem ser ótimos técnicos de laboratório (ver Poling, Weetjens, Cox, Beyene, Durgin & Mahoney, 2011). E na ausência de laboratórios caros e ultraespecializados eles são os únicos técnicos disponíveis. Uma grandíssima vantagem, não é mesmo? Agora me perguntem sobre o tempo necessário para treinar esses animais? Respondo: são ótimos aprendizes, por isso aprendem muito rápido. E sobre custos? Respondo novamente: baixíssimos! E querem saber mais: em locais onde médicos e especialistas em saúde são raros, tecnologias como esta que lhes contei são cruciais. E qual o segredo dessa tecnologia: treino de discriminação de estímulos. Sim, nós Analistas do Comportamento podemos ajudar!

Ratos farejadores.

Cães farejadores são eficientes em detectar minas terrestres, porém caros. Além disso, teriam muita dificuldade de se adaptar ao ambiente da África Central. E quanto aos ratos farejadores? Provavelmente os ratos seriam tão bons quanto os cães, mas como treiná-los em segurança? A resposta para essa pergunta é crucial, pois não se pode dar ao luxo de treinar ratos a detectar minas em meio a um campo minado. Isso seria um desastre sem tamanho. Mas, o Analista do Comportamento sabe bem o que fazer: vamos ao campo de pesquisas!

A pesquisa aconteceu em Morogoro, Tanzânia, no campo de treinamento APOPO (acrônimo para Anti-Persoonsmijnen Ontmijnende Product Ontwikkeling, em língua belga). Nesse local havia 32 caixas de madeira de aproximadamente 100 metros quadrados, isoladas umas das outras e contendo em uma maioria pelo menos uma mina terrestre enterrada nela. Apesar de ativas, essas minas estavam seguramente mapeadas, de modo que o contato direto com tais artefatos poderia ser cuidadosamente evitado. Considerando que as regiões onde existem campos minados são também conhecidas pelos altos índices de contaminação por 2,4,6-trinitrotolueno (dinamite – TNT) os pesquisadores utilizaram um tipo de procedimento que permitiu simular condições de contaminação do solo por dinamite em um ponto específico de cada uma das caixas de madeira. Notem bem: nessa condição os odores do composto químico da dinamite poderiam ser provenientes tanto das próprias minas (estímulo 1) quanto do solo contaminado (estímulo 2). Cinco ratos, presos em coleirinhas e guiados pelos experimentadores (experimentador-guia), foram os sujeitos experimentais.

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O treino aconteceu da seguinte forma: os ratos eram guiados pelos pesquisadores até as caixas de madeira. Uma vez colocados sobre a terra, os ratos começavam a farejar e cavar o solo (comportamento de forrageamento). Os experimentadores aguardavam pacientemente até que os ratos se aproximassem por volta de um metro ou de uma área contendo uma mina terrestre, ou de uma área que havia sido contaminada com dinamite. Caso rato emitisse o comportamento de forrageamento nessa região, o experimentador-guia pressionava um pequeno dispositivo que emitia um sinal sonoro e, logo em seguida, recompensava o rato com um pedaço de banana. Sempre que isso acontecia, os ratos eram transferidos para outra caixa de madeira e a ação deveria ser repetida. Esse procedimento consagrado pela Análise do Comportamento é chamado de modelagem por reforçamento. O procedimento tem como resultado o aumento na eficácia dos sujeitos experimentais em emitir a resposta desejada pelo experimentador. No caso da pesquisa aqui relatada, o reforçamento diferencial visa estabelecer o comportamento de rastrear as fontes de odor da dinamite. É importante notar que durante a fase de modelagem, os ratos não estavam sendo especificamente treinados a apontar as minas terrestres.

Após algumas tentativas de modelagem, os pesquisadores conduziram um teste. Nessa nova situação os ratos continuariam a rastrear as minas nas caixas de madeira, porém o experimentador-guia disparava o sinal sonoro e dava a banana ao rato apenas se ele emitisse o comportamento de forragem na área de contaminação por dinamite (estímulo 2). Caso o rato emitisse o comportamento de forragem próximo da mina terrestre, não haveria recompensa. Nessa condição, o rato seria transferido para uma nova caixa e o experimento continuaria. O objetivo dessa modificação foi verificar os efeitos da aplicação do reforçamento em apenas uma das condições de estímulo (estímulo 2, no caso) sobre a detecção das minas terrestres propriamente ditas (estímulo 1). Essa era a fase crítica do experimento!

Pausa aqui! Você deve estar se perguntando se não seria mais eficiente reforçar as respostas de forragem quando elas acontecem próximas às minas terrestres e não diante dos odores da dinamite. Se você pensou isso, ótimo! Isso mostra que você tem um bom raciocínio crítico. Uma habilidade importante para cientistas. Mas vamos dar alguns passos atrás: lembre-se que, assim como cientistas de outras áreas, os analistas do comportamento acreditam que o melhor lugar para desenvolver tecnologias é o laboratório! E a pesquisa que estou relatando aqui é em campo. O laboratório não é apenas mais seguro do que um campo minado. É o local onde diversos tipos procedimentos de controle de variáveis podem ser feitos de modo adequado. Ademais, não é seguro para ninguém entrar em um laboratório com dinamite ou minas terrestres. Então, se apenas o treino de rastreamento de odores for suficientemente eficaz para tornar os ratos igualmente eficientes na detecção das minas terrestres, então tais procedimentos de treino poderiam ser repetidos e melhorados na segurança do laboratório de pesquisa para depois serem implantados para atender as demandas do mundo real! Dito isso, voltemos aos resultados. Todos os cinco ratos tornaram-se ótimos farejadores de minas terrestres. Agora se prepare: a taxa de acertos na detecção de minas aumentou gradativamente ao longo das tentativas de teste mesmo nunca sendo devidamente recompensados por encontrar as minas. Creio que assim como você ou eu, os componentes do grupo da pesquisa que estou relatando também ficaram bastante surpresos com isso.

Vamos para o laboratório?

Por que o desempenho na detecção de minas melhorou depois que os ratos foram treinados a reconhecer o cheiro da dinamite apenas? Ninguém ainda sabe explicar ao certo. Essa é uma questão empírica e questões empíricas são respondidas mais convenientemente após a realização de pesquisas de laboratório. Mas, os autores dão uma dica válida: generalização de estímulos. A generalização de estímulos é um processo comportamental básico e já bastante estudado pelos analistas do comportamento. Esse processo diz respeito ao fato de que se você treinar um rato a emitir uma determinada resposta diante uma condição de estímulo específica (uma luz acesa, por exemplo), você observará que uma resposta semelhante tende a ocorrer diante outras luzes de diferentes intensidades. Além disso, você observará que diante de uma luz apagada, por exemplo, o rato simplesmente não responderia. No caso da pesquisa aqui relatada, os ratos que aprenderam a reconhecer o odor da dinamite em áreas de contaminação do solo por meio de processos de generalização de estímulos reconheceriam o cheiro de dinamite independentemente da sua proveniência: dentro de dispositivos metálicos (minas), sacos plásticos, projéteis e etc…Mas, conforme os autores, os processos envolvidos na pronunciada melhora dos ratos em detectar minas são assunto para pesquisas a serem realizadas no futuro. E tomara mesmo que estas aconteçam…

Apesar de ainda desconhecerem os processos por trás do desempenho dos ratos, os autores ressaltam a eficiência dos conhecimentos clássicos da Análise do Comportamento (modelagem por reforçamento e generalização de estímulos) em desenvolver tecnologias que possam ser úteis para resolver problemas humanos ou mesmo problemas causados por seres humanos.

Em vários momentos da sua vida, B. F. Skinner defendeu que a Análise do Comportamento deveria se preocupar mais em desenvolver tecnologias que ajudassem a acelerar os avanços sociais de certas populações ou mesmo eliminar fontes de controle aversivo. É sabido que a África Central é uma região que ainda sofre muito com os despojos dos conflitos armados e também com ausência de recursos profissionais e financeiros. O grupo de analistas do comportamento da APOPO avança em passos largos no desenvolvimento de tecnologias eficientes e de baixo custo para sanar alguns problemas dessas populações e ajudá-los a entrar, ainda que minimamente, nas engrenagens do desenvolvimento social. Isso sim é algo bastante meritório!

Sim, somos analistas do comportamento e nós podemos ajudar!

Quer saber mais a respeito? Visite o site da APOPO (www.apopo.org/about-apopo/about-apopo/about), ou confira as referências abaixo:

 

Mahoney, A; Lalonde, K; Edwards, T.; Cox, C.; Weetjens, B.; & Poling, A. (2014). Landmine-detection rats: an evaluation of reinforcement procedures under simulated operational conditions. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 101(3), 450-456.

Poling, A.; Weetjens, B.; Cox, C.; Beyene, N.; Durgin, A.; & Mahoney, A. (2011). Tuberculosis detection by Giant African Pouched Rats. The Behavior Analyst, 34(1), 47-54.

 

Postado por Marcelo Vitor da Silveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

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2 thoughts on “Análise do Comportamento em Campo Minado!

  1. Pingback: De Morogoro para o mundo. Ou, a saga dos Ratos Farejadores Africanos continua! | Boletim Behaviorista

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