Qual é o lugar dos eventos privados na compreensão do comportamento?

marcelo 1

A crítica de que a Análise do Comportamento não seria capaz de lidar com fenômenos subjetivos parece ter perdido lugar nas discussões, ao menos nas rodas de analistas do comportamento. Podemos não falar de vontade, de motivação, ou mesmo de sentimentos como construtos em si, como entidades ou forças de uma outra natureza, mas abordamos sim os fenômenos regularmente descritos por esses termos. Uma das propostas mais desenvolvidas na obra de Skinner, e defendida por grande parte da comunidade de analistas do comportamento aborda esses fenômenos por meio do conceito de eventos privados – estímulos e respostas observáveis apenas ao próprio indivíduo. Nessa perspectiva, a comunidade verbal arranja estratégias para inferir e, assim, ensinar a discriminar e descrever esses eventos. Desse modo, seria possível aproximar o conhecimento desses eventos à experiência de como eles são sentidos pelo indivíduo. Vale ressaltar que a compreensão das próprias sensações é entendida como produto da interação do indivíduo com os agentes sociais que o cercam.

Entretanto, nem todos os behavioristas concordam que a inferência da participação de eventos privados é a melhor forma de se tratar dos fenômenos subjetivos. Autores como William Baum e Howard Rachlin têm publicado trabalhos questionando a pertinência e necessidade da consideração desses eventos na explicação do comportamento. Para esses autores não devemos considerar os eventos privados na construção do conhecimento científico sobre o comportamento porque não podemos construir um conhecimento preciso sobre eles – como não podemos observá-los ou mensurá-los eles são inadequados e dispensáveis a uma compreensão científica.

Tanto a proposta de Rachlin, chamada de behaviorismo teleológico, quanto a proposta de Baum, chamada de behaviorismo molar, destacam os padrões comportamentais públicos, bem como o aspecto temporal mais extenso dos episódios comportamentais (molar) contra uma abordagem mais restrita, imediata (molecular). A diferença entre as perspectivas teleológica e molar seria que, enquanto no primeiro entende-se que o fenômeno subjetivo é o padrão comportamental específico (por exemplo, a vontade de Maria de que a pena de morte acabe consiste de seus comportamentos de falar contra isso, de participar de passeatas, doar dinheiro para organizações em prol dessa causa etc.); no segundo, o fenômeno subjetivo é entendido como um “rótulo”, uma descrição relativa ao padrão observado (Maria falar e participar de ações contra a pena de morte). Segundo Baum, sua proposta dá ênfase maior para o papel do comportamento verbal e para a natureza cultural dos fenômenos chamados mentais ou subjetivos.

Porém, se nos exemplos apontados os eventos privados podem ser deixados de lado, o que dizer de outras experiências tão comuns e corriqueiras como descrever um sintoma “interno” a um cuidador que não apenas compreende, mas é também capaz de estabelecer precisamente um diagnóstico e um tratamento para o incômodo em questão? Não seriam casos como esse provas da necessidade e pertinência da consideração de eventos privados na compreensão e explicação do comportamento?

Uma boa medida para avaliar a pertinência e relevância do conceito de eventos privados, seria considerar sua capacidade de dar suporte ao desenvolvimento de pesquisas e interpretações coerentes para os episódios comportamentais. Ao menos essa é a compreensão de Leigland (2014) que, explorando os argumentos “pró e contra eventos privados”, apresenta uma revisão das propostas colocadas em debate, bem como uma discussão de exemplos emblemáticos e relatos de pesquisa para explicitar as distinções entre as propostas.

Imagine que você deve resolver um desses de jogos matemáticos, quebra-cabeças ou coisa parecida. Em uma primeira situação, você deve ir dizendo em voz alta exatamente o que está pensando – suas considerações para a resolução da tarefa. Numa segunda situação, resolvendo outro problema, você deve ir respondendo a questões colocadas por outro colega a respeito do seu desempenho nas tentativas, ou ainda sobre as estratégias utilizadas na tarefa anterior. Na primeira situação é provável que você obtenha sucesso mais rápida e efetivamente que na segunda. Pois bem, podemos considerar que na primeira situação você falou o que estava pensando, ou seja, descreveu seu raciocínio, que de outra forma se daria de modo privado, ou melhor, como respostas privadas atuando como antecedentes efetivos para seu comportamento aberto de resolver o problema, certo? Podemos pensar, então, que não há diferença efetiva, nesse caso, entre raciocinar pública ou privadamente. Dito de outra forma, tal qual eventos públicos, eventos privados podem exercer um papel funcional (resposta ou estímulo) nas relações comportamentais. E um papel nem um pouco desprezível, é importante que se diga. Como apresenta Leigland (2014), esse é o argumento do behaviorismo radical.

Outro estudo apresentado por Leigland para mediar essa discussão pró e contra eventos privados refere-se ao trabalho de Lubinski e Thompson (1987). Nesse trabalho, pombos privados de comida recebiam uma injeção contendo uma droga estimulante ou uma droga depressora e, em seguida, eram submetidos a um treino discriminativo em caixas de condicionamento operante. Os pesquisadores observaram que, após algumas sessões de treino, os pombos se tornaram capazes de responder discriminativamente a uma ou a outra chave da caixa, de acordo com o tipo de droga que haviam recebido.

Para Baum, a explicação para o sucesso dos sujeitos na tarefa não requer qualquer menção a eventos privados, que permanecem desconhecidos (afinal ninguém saberia dizer o que os pombos estariam de fato sentindo): o cientista pode olhar apenas para as contingências em vigor, para os eventos públicos – administração da droga estimulante ou da droga depressora.

Já Leigland, alinhado à “defesa dos eventos privados”, argumenta que de fato é importante considerar as contingências em uma escala temporal mais estendida, ou seja, a administração da droga A ou B, que acontece antes da situação efetiva do treino discriminativo. Porém, não há como explicar a eficiência dos sujeitos na tarefa sem considerar que cada tipo de droga produz no organismo um efeito discriminável em relação ao outro. De maneira análoga, e obviamente mais complexa, funcionaria também para nós humanos, em nossas interações verbais sobre sensações e sentimentos.

Um último exemplo do papel dos eventos privados pode ser tomado do estudo de Sonada e Okouchi (2012), dessa vez com humanos (afinal, são esses eventos privados que mais nos interessam!). Após aprenderem a estabelecer relações condicionais entre dois conjuntos (A1 com C1; A2 com C2, e assim por diante), os participantes desse estudo passaram a atuar como “tutores” de outros participantes, os “aprendizes”, em uma tarefa idêntica. Porém, enquanto no computador do tutor os estímulos que apareciam eram dos conjuntos A e C, no computador dos aprendizes apareciam estímulos do conjunto C e de um conjunto novo, B, desconhecido para os “tutores”, mas correspondente ao conjunto A. Os resultados da pesquisa mostram que os “tutores” foram capazes de estabelecer um contexto de aprendizado efetivo para os “aprendizes”. Podemos ver aqui um modelo experimental para explicitar uma das estratégias comportamentais nas relações envolvendo eventos privados – os tutores foram capazes de atuar efetivamente sobre o ambiente em relação a eventos privados (conjunto B) a partir de eventos correlatos que lhes eram públicos (conjunto A).

A partir dos relatos apresentados, Leigland (2014) argumenta em sentido da construção de uma compreensão integrativa, levando em conta aspectos importantes das propostas de Baum e Rachlin, como a tomada dos episódios comportamentais em uma perspectiva temporal mais ampla, porém salientando a pertinência e relevância dos eventos privados para a compreensão do comportamento humano, corroborado não apenas por exemplos cotidianos, mas por avanços crescentes em trabalhos experimentais sobre o tema.

 

Quer saber mais?

Veja o artigo: Leigland, S. (2014), Contingency horizon: on private events and the analysis of behavior. The Behavior Analyst, 37, 13-24.

E a edição do The Behavior Analyst, volume 34, número 2.

 

Referências

 

Leigland, S. (2014), Contingency horizon: on private events and the analysis of behavior. The Behavior Analyst, 37, 13-24.

Lubinski, D. & Thompson, T. (1987) An animal model of the interpersonal communication of interoceptive (private) states. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 48, 1-15

Sonoda, A., & Okouchi, H. (2012). A revised procedure for analyzing private events. The Psychological Record, 62, 645–661.

Postado por Henrique Mesquita Pompermaier. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP

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