Cães preferem carinho ou comida?

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É comum ouvir relatos de donos de cães sobre como estes são apegados e procuram carinho e proximidade do dono constantemente. Ou então de que o cão pára de se alimentar quando o dono viaja. Assim, se fosse dada opção para o cão escolher entre carinho ou comida, o que será que ele preferiria? Para esses donos, a resposta à pergunta seria “Carinho, claro!”. Mas será que é isso mesmo?

Interessados em responder essa pergunta, os pesquisadores Erica Feuerbacher, da Universidade da Flórida, e Clive Wynne, da Universidade Estadual do Arizona,realizaram um experimento para avaliar tal preferência, e descobriram que a pergunta não é tão simples e os resultados dependem de alguns fatores.Nessa pesquisa, os autores avaliaram a preferência de cães de abrigo e de donos particulares por carinho ou comida dando a eles a possibilidade de escolher entre permanecer próximo a uma pessoa que oferecia carinho ou a outra que oferecia petiscos. Dentre os fatores que poderiam ser relevantes para tal investigação, variou-se a familiaridade com a pessoa que fazia carinho (dono ou estranho), familiaridade com o ambiente em que o experimento foi realizado (conhecido ou desconhecido) ea forma de liberação dos petiscos, que podia ser contínua, em intervalos de 15s entre um petisco e outro, intervalos de 1min entre os petiscos e na ausência de petiscos.

O experimento ocorria da seguinte maneira: em uma sala, ficavam duas pessoas sentadas em duas cadeiras 80 cm distantes uma da outra, sendo que uma pessoa faria carinho continuamente e a outra pessoa daria petiscos de acordo com as formas de liberação dos petiscos mencionadas. A preferência do cão foi avaliada por meio do tempo gasto pelo animal próximo a uma ou outra pessoa. Cada cão passava por cinco sessões de teste seguidas, com duração de 5 minutos cada, sendo que a quantidade de comida recebida pelo cão diminuía progressivamente e, na última sessão, a comida voltava a ser liberada de maneira contínua. Os cães foram divididos em diferentes grupos experimentais, variando-se a familiaridade com o experimentador, ambiente e condições de moradia (cães que moravam em abrigo e não tinham donos ou cães de donos particulares).

Como resultado os pesquisadores descobriram que, de maneira geral, os cães preferiram comida a carinho, mas passavam progressivamente menos tempo perto da pessoa que entregava a comida quando esta passava a ser mais escassa. A preferência pela comida foi mais evidente nas sessões em que ela era liberada de forma contínua, ou seja, na primeira e última sessões. Assim, apesar de os cães diminuírem o tempo passado próximo à pessoa que entregava petiscos à medida que se dava menos comida, tal preferência voltava a predominar quando, na última sessão, dava-se alimentos continuamente. Com relação à familiaridade com o ambiente e pessoa que fazia carinho, novamente os cães preferiram a pessoa que entregava petiscos quando estavam em um ambiente conhecido e quem fazia carinho era estranho ao cão.Cães que foram testados com um estranho fazendo carinho em um ambiente desconhecido e com o dono fazendo carinho em um ambiente familiar não mostraram preferência clara pelo carinho ou petiscos. No entanto, quando os cães estavam em um ambiente desconhecido e quem fazia carinho era o dono, os cães preferiram o carinho de seus donos. A preferência pelo carinho também ocorreu para os cães de abrigo, em maior proporção do que para cães de donos particulares, ainda que quem oferecesse o carinho fosse uma pessoa não familiar.

Dentre as discussões feitas acerca dos dados encontrados, os autores comentam que a preferência geral por comida segue de acordo com a visão evolutiva corrente de que a disponibilidade de comida foi o principal fator de domesticação do cão. Nesse caso, cães foram domesticados a partir de lobos pela seleção de indivíduos que se alimentavam de restos de comidas de humanos e que não fugiam com a aproximação dos mesmos. Assim, os humanos provavelmente selecionaram cães que eram altamente atraídos por comida. No entanto, há variáveis que podem afetar essa preferência. Por exemplo, é provável que uma história de interação com o dono pode haver estabelecido carinho do dono como mais valioso do que carinho de um estranho. Com relação ao ambiente, um local estranho pode ser uma fonte de estimulação aversiva, aumentando o valor reforçador de algumas interações sociais, como contato físico.  A maior preferência de cães de abrigo por carinho na maior parte das vezes pode ser explicada pela combinação entre uma privação mais geral de contato humano com o fato de estes cães morarem em ambientes tipicamente mais aversivos do que cães de donos particulares, aumentando novamente o valor reforçador da companhia humana e carinho. Finalmente, os autores discutem que a preferência de cães particulares por alimento em algumas condições, ainda que a comida possa ser escassa, tem relação com uma maior tolerância desses animais a atrasos longos antes de receberem comida e não necessariamente a uma preferência absoluta por comida. Por exemplo, cães estão habituados a esperarem pelo tempo de uma refeição completa do dono até que lhes sejam dadas as sobras da comida.

Essa pesquisa mostra de maneira muito interessante e controlada que cães, assim como nós, apresentam preferências por estímulos alimentares ou sociais que variam em situações diferentes. Pronto para descobrir o que seu cãozinho prefere?

 

Quer saber mais? Leia:

Feuerbacher, E. N., & Wynne, C. D. L. (2014). Most domestic dogs (canis lupus familiaris) prefer food to petting: population, context, and schedule effects in concurrent choice. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 101(3), 385-405.

 

EscritoporIsabela Zaine, aluna de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

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