Observar o que o outro ganha torna o objeto ganho importante para quem observa?

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Aprendizagem social constitui-se em tema ímpar para compreensão do comportamento humano. Estudar como reforçadores sociais e socialmente condicionados são estabelecidos e mantidos contribui para o entendimento de comportamentos tais como interação verbal entre pessoas, pensar, solucionar problemas e aprender comportamentos novos.

Em recente artigo publicado no Psychological Record,  Michelle Zrinzo e Douglas Greer (2013) abordaram as seguintes questões: Afinal, observar o que o outro ganha por realizar uma tarefa pode tornar o objeto ganho relevante para os comportamentos da pessoa que observa o ganho mas não a tarefa realizada? Em se tratando de crianças pequenas, esse efeito pode ocorrer mesmo na ausência de um adulto? E caso ocorra, o efeito se mantém no ambiente de sala de aula após algumas semanas decorridas da intervenção? Os resultados indicaram que sim, sim e sim!

Similarmente às pesquisas anteriores, a aprendizagem social produzida pela intervenção observacional – procedimento em que ocorre a observação das consequências recebidas por uma criança (observada, confederada) enquanto realizava uma tarefa, mas não recebidas por outra criança (criança alvo, observadora) que trabalhava ao lado da primeira −, atuou para converter os estímulos neutros (arruelas metálicas) em reforçadores condicionados para os comportamentos da criança observadora. Na pesquisa atual, após a intervenção envolvendo observação do ganho de arruelas pela criança observada houve aumento nas taxas de respostas corretas para uma tarefa previamente aprendida (desempenho) pela criança alvo e também aumento no número de respostas corretas a tarefas envolvendo aprendizado de novos operantes (aprendizagem) quando as arruelas eram oferecidas como consequências para respostas corretas da criança alvo. Antes da intervenção observacional, as arruelas não funcionaram como estímulos reforçadores para as tarefas de desempenho ou de aprendizagem. Um detalhe interessante é que as arruelas nunca eram trocadas por outros reforçadores, pela criança confederada. Os resultados foram semelhantes para os três participantes do estudo.

Diferentemente de pesquisas anteriores com seres humanos, ao adotar um dispensador mecânico de arruelas, o estudo de Zrinzo e Greer (2013) eliminou a presença do experimentador tornando-se análogo e comparável a investigações prévias realizadas com animais infra-humanos e mostrou que o efeito reforçador condicionado não é dependente da presença do experimentador (adulto) no ambiente em que a aprendizagem ocorre. Essa é na verdade a grande contribuição do estudo atual! Os resultados obtidos são equivalentes aos de estudos anteriores em que o experimentador estava presente no ambiente em que ocorria a intervenção observacional.  As arruelas, inicialmente estímulos neutros, tornaram-se reforçadores condicionados para tarefas de desempenho e aprendizagem, para os três participantes, após a intervenção observacional, na ausência do experimentador e, adicionalmente, na ausência da visão da face e da tarefa realizada pela criança confederada.

O efeito reforçador condicionado adquirido pelas arruelas em decorrência da intervenção observacional manteve-se para a situação típica de ensino – aprendizagem em sala de aula (diferenciando-se do local onde foi realizado o experimento) – seis a dez semanas depois do procedimento de intervenção.

Mas afinal o que os experimentadores fizeram? Eles trabalharam com três crianças alvo (observadoras) postas lado-a-lado, alternadamente, com quatro crianças confederadas (observadas). Todas as crianças tinham quatro anos de idade. As atividades foram desenvolvidas em uma pequena sala contendo mobiliário compatível com o tamanho das crianças. Um mobiliário especial que permitia a criança alvo ver o ganho de arruelas pela criança confederada, mas não ver o que a criança confederada fazia ou como ela se expressava, foi utilizado na intervenção observacional.

O comportamento alvo nas tarefas de desempenho era o de classificar itens inserindo-os em copos plásticos de acordo com a etiqueta presente nestes. As tarefas de aprendizagem variavam de acordo com a história prévia (conhecimento) de cada criança. Alguns exemplos foram: Dizer o nome à visão de itens alimentícios, dizer o valor de moedas, apontar para as moedas após ouvir o professor dizer seu valor, e dizer palavras rimadas.

Durante as avaliações pré e pós-intervenção e a intervenção observacional obtiveram-se dados decorrentes de respostas às tarefas de desempenho que foram convertidos em respostas corretas e incorretas por minuto. Dados decorrentes das tarefas de aprendizagem consistiam em respostas corretas e incorretas a blocos de vinte tentativas. Dessa forma os pesquisadores investigaram o estabelecimento e manutenção de reforçadores condicionados através da observação do outro, uma forma de aprendizagem social, em crianças pequenas. Qual seria a importância desse tipo de investigação?

Sugere-se que o uso da intervenção observacional para estabelecer estímulos como reforçadores condicionados seja uma alternativa ao uso do pareamento de estímulos, em ambientes aplicados, para crianças como as desse estudo e de pesquisas equivalentes. Adicionalmente, estudos sobre como reforçadores sociais condicionados são adquiridos e mantidos podem contribuir para a compreensão de outras atividades humanas como comportamento aditivo (por exemplo, fumar) e moda.

Em síntese, demostrou-se que crianças de quatro anos de idade são capazes de aprender a valorizar um objeto, inicialmente indiferente para elas, quando o ganhar o objeto por outra criança é observado ainda que um adulto não esteja presente no ambiente de aprendizagem e que as expressões faciais da criança que ganha não possam ser observadas. Parece que a presença da outra criança é o aspecto crítico desse tipo de aprendizagem social. Entretanto, pesquisas futuras ainda devem determinar tal efeito e especificar os princípios básicos da aprendizagem envolvidos.

 

Quer saber mais? Leia:

Zrinzo, M. & Greer, R. D. (2013) Establishment and Maintenance of Socially Learned Conditioned Reinforcement in Young Children: Elimination of the Role of Adults and View of Peers’ Faces. Psychological Record, v. 63, n. 1, 43-62.

 

Texto elaborado por:

Djenane Brasil da Conceição

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

Professora Assistente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Bolsista Capes-Fulbright (Estágio de Doutorado nos EUA 2013-2014)

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