O sentido de “fazer sentido”: Tentar compreender o sentido de ações e acontecimentos é reforçador?

jaume

Questionar o sentido das coisas parece ser uma atividade onipresente nas nossas vidas. De fato, isso é algo que fazemos nos mais diversos âmbitos, desde perguntas abstratas de cunho filosófico, como qual é o sentido da existência, até preocupações cotidianas, como qual é o sentido de ter que fazer X horas de observação no estágio da graduação, passando por assuntos políticos como qual é o sentido de financiar a copa da FIFA com dinheiro público. Dá a impressão de que o ser humano incessantemente procura que tudo faça sentido.

AlishaWray,MichaelDougher,Dereck Hamilton e PaulGuinter, em um estudo publicado em 2012, investigaram o valor reforçador de “fazer sentido”. Seus resultados mostram uma clara preferência dos participantes por se engajar em atividades que fazem sentido. Porém, depois de uma análise mais detalhada, resulta claro que esta preferência vem motivada pela esquiva de atividades insolúveis (que não fazem sentido), que seriam aversivas e, portanto, comportamentos que levem a sua evitaçãoseriam objeto de reforço negativo.

Saber qual é o sentido de uma determinada situação ou prática, como a pontualidade ou o beijo em uma situação social, por exemplo, nos permite operar de forma mais efetiva sobre o ambiente, ou seja, aumentando a probabilidade de ter acesso a reforçadores. A definição usual de reforçador é aquela consequência de um comportamento que aumenta a probabilidade de que este seja emitido novamente.

Contudo, a literatura científica aponta que, em algumas ocasiões, essa tendência a procurar o sentido de situações e eventos pode resultar contraproducente. Imaginem, por exemplo, um rapaz que é abandonado pela namorada. Se a explicação que o rapaz encontra para tal acontecimento é que ele é feio, ou qualquer outra que implique um viés negativo sobre si mesmo, esta explicação pode atrapalhar sua vida amorosa no futuro. Assim sendo, porqual motivo mantemos a tendência a procurar o sentido das situações mesmo quando isso não é proveitoso?

Os autores do estudo apontam a hipótese de que o comportamento de “fazer sentido”acaba adquirindo funções automaticamente reforçadoras, por ter sido amplamente reforçado durante as nossas vidas. O reforço automático pode ser entendido, segundo Vaughan e Michael (1982, p.219), como “o resultado natural de um comportamento que opera diretamente sobre o corpo do organismo que se comporta ou o mundo circundante”.

Wray e colegas procuraram verificar empiricamente até que ponto a hipótese acima mencionada se sustenta. Seu estudo consta de três experimentos. No primeiro deles, os participantes (17 estudantes universitários)realizaram tarefas de emparelhamento ao modelo, também conhecido como MTS (MatchingtoSample), em duas condições experimentais. O delineamento experimental foi intra-sujeito, de forma que todos os participantes passavam pelas duas condições. Na primeira dessas condições, os sujeitos experimentais aprendiam a formar classes arbitrárias de estímulos e recebiam reforço de forma contingente aos acertos. Na segunda condição, o reforço não era dado de forma contingente ao desempenho dos participantes; ele era dado na mesma sequência em que foi dado durante a primeira condição experimental. Dessa forma, a atividade na primeira condição “fazia sentido”, enquanto a atividade na segunda “não fazia sentido” para os participantes.  Posteriormente, eles deveriam manifestar sua preferência por realizar mais um treino na primeira condição experimental ou na segunda.

O segundo experimentofoi uma replicação do primeiro com algumas variações: Os estímulos usados nas tarefas de MTS foram socialmente relevantes (faces e nomes de pessoas), para favorecer o interesse dos participantes na tarefa. Além disso, o autorrelato final do experimento anterior foi substituído por um procedimento de escolha, de forma que os participantes tivessem que mostrar sua preferência engajando-se em alguma atividade, em lugar de só expressá-la verbalmente. Por último, foram acrescentadas tarefas neutras ao procedimento, para testar se a preferência pelas atividades com sentido, detectada no procedimento anterior, era genuína, ou se, na verdade, era reflexo da esquiva das atividades que não faziam sentido. As tarefas neutras consistiam apenas em parear um estímulo modelo com um estímulo comparação idêntico ao modelo.

O terceiro experimento replicou o segundo, com apenas ligeiras mudanças de procedimento: foi mudado o tipo de procedimento de escolha e o número de tentativas nele foi aumentado, para dar mais força aos resultados.

A ideia de inserir atividades “neutras”, que não são aversivas, mas que também não implicam uma procura de qual seja seu sentido, pois são extremamente simples, responde ao seguinte raciocínio: Se os participantes preferem as atividades “com sentido” a ambas as atividades “neutras” e as “sem sentido”, significaria que o “fazer sentido” é, de fato, intrinsecamente reforçador. Se, pelo contrário, são preferidas ambas as atividades “com sentido” e as “neutras” frente às atividades “sem sentido”, isso seria melhor interpretado como um comportamento de esquiva, dado que realizar tarefas sem sentido seria aversivo.

Resumindo, então, os resultados dos três experimentos tomados em conjunto mostram que existe uma preferência por realizar atividades com sentido, mas que essa preferência não é significativamente superior a realizar atividades consideradas neutras. Isso parece indicar que a preferência por realizar atividades que fazem sentido é mantida por reforço negativo, já que numa situação de escolha, tal preferência permite escapar de uma situação aversiva que seria realizar tarefas sem sentido.

E aí, galera, fez sentido?

 

Quer saber mais? Leia:

Wray, A. M., Dougher, M. J., Hamilton, D. A., Guinter, P. M. (2012). Examining the reinforcing properties of making sense: a preliminary investigation.The Psychological Record.

 

Outras referências:

Vaughan, M. E., & Michael, J. L. (1982). Automatic Reinforcement: an important but ignored concept. Behaviorism, 10, 217-227

 

Escrito por Jaume Ferran AranCebria,Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, Bolsista INCT ECCE.

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