O uso do cartão de crédito por universitários: levar agora ou poupar e levar depois?

marlon

Um cartão de crédito pode ser usado como uma importante ferramenta financeira ou uma estrada para a ruína”. Essa frase é de Asle Fagerstrøm e Donald A. Hantula de um artigo de 2013 do The Psychological Record. Eles afirmam, ainda, que crédito de compra é parte importante de nossa vida econômica privada, mas que deve ser utilizado com cautela. Para entender como a possibilidade de crediário com uso de cartão controla o comportamento humano, estes autores elaboraram um experimento com o objetivo de expandir nosso conhecimento sobre o uso do cartão de crédito pela população universitária. Vamos conhecer o experimento?

Inicialmente, os autores mostram, com base em estudos anteriores, que o endividamento nas compras com cartão parece ser uma questão relacionada à motivação pois, em geral, há maior gratificação por comprar um produto de maneira imediata, ao invés de poupar para obtê-lo depois. Normalmente, as pessoas compram no cartão de crédito mesmo sabendo que pagarão altas taxas de juros e parecem comprar mais rapidamente ainda se for necessário reservar dinheiro por longos períodos. Em muitas situações, ao poupar dinheiro e pagar pelo produto posteriormente, grande parte do endividamento do consumidor em compras no crediário de cartões seria evitado. Então, a partir destes questionamentos fica fácil imaginarmos a relevância social do experimento para investigar o uso do cartão de credito!

Participaram do estudo 22 estudantes universitários de uma escola de ensino superior da Noruega, sendo 19 homens e três mulheres.  A maior proporção de homens em relação a mulheres, segundo os autores, seria reflexo da realidade daquela universidade.

Cada participante sentava em frente a um computador que continha um programa instalado chamado “simulador de compras microworld”. Neste programa, era oferecida a possibilidade virtual de comprar um celular bastante popular e avançado que, no período do estudo, era bastante caro!

Na tela do computador eram apresentadas duas opções das quais o participante deveria selecionar apenas uma ao longo de seis sessões. As opções eram:economizar o dinheiro por X semana(s) e não utilizar o crédito(as semanas aumentavam, progressivamente a cada sessão;uma semana, três semanas, cinco semanas, sete semanas, 14 semanas, e 21 semanas) ou comprar naquele momento e parcelar no crédito (era exibido aos participantes o número de parcelas, seus valores e o valor total a ser pago ao final do parcelamento, com adição de juros, que aumentavam conforme o número de parcelas). Além disso, os participantes responderam uma entrevista realizada ao fim do experimento sobre suas escolhas ao longo das sessões entre poupar ou comprar no crédito.

Os resultados indicaram que 18 dos 21 participantes (um participante foi excluído ao relatar que escolheu a opção errada por falta de atenção em duas sessões), estavam dispostos a comprar no crédito o celular. Além disso, foi observado que a escolha pela opção de obter crediário no cartão aumentou conforme aumentavam as semanas necessárias para poupar o dinheiro, principalmente quando o tempo de economia levaria de 14 e 21 semanas.

Os resultados mostraram também que mesmo com apenas uma semana de prazo para economia de dinheiro, alguns participantes ainda sim estavam dispostos a comprar no crédito. Durante a entrevista, um participante disse que seria “estúpido” economizar por mais de 7 semanas para se comprar o celular, já que este tipo de produto sai de linha muito rápido, sendo substituído por outra geração; outro, disse que quanto maior o tempo de economia, mais ele preferia pegar no crediário. Esses dados mostram que não se trata de ignorância ou conhecimento sobre as taxas e juros do crediário do cartão, mas sim de uma motivação em obter o produto o mais rápido possível.

Os autores concluem que identificar traços da personalidade ou programas didáticos para o uso do crediário de cartões (conhecimentos sobre o funcionamento e taxas), não tem sido eficiente, e que os dados fornecidos pelo experimento podem ter implicações práticas, como por exemplo, o desenvolvimento de um treino que ensinasse regras gerais do uso apropriado do cartão junto com comportamentos que restrinjam o uso do crédito quando existe alta motivação (operações estabelecedoras) para comprar algo imediato.

E depois dessa, você vai poupar ou levar agora?

Quer saber mais? Leia:

Fagerstrøm, A.; Hantula, A. D. (2013) Buy it now and pay for it later: an experimental study of student credit card use.The Psychological Record, 63, 323-332.

Escrito por Marlon Alexandre de Oliveira. Aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

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2 thoughts on “O uso do cartão de crédito por universitários: levar agora ou poupar e levar depois?

  1. Pesquisa interessante! Olhando o método fiquei pensando algumas coisas:
    1 – Não seria ideal colocar outros tipos de produtos? Como o participante relatou, o tipo de produto pode influenciar muito o tipo de pagamento.
    2 – Não seria interessante colocar não somente a opção de aumento de juros, mas algo correlato com um desconto progressivo? Ainda que racionalmente possa parecer a mesma coisa, será que os resultados não seriam alterados?
    3 – Qual o background destes participantes? Renda? Status sócio-econômico? Enfim, quais variáveis ontogenéticas podem influenciar no uso ou não do cartão de crédito, pagando juros mais altos?

    O site de vocês está excelente!

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