Por que falas sem sentido são comuns em idosos com Alzheimer?

                velhinhos

                                                                          “- Em que país nós estamos?

                                                                           – Porque a única coisa que a    

                                                                           gente faz é levantar de manhã!”

                                                                              

A conversa acima parece bem estranha, certo? Essa conversa foi citada como um exemplo de fala bizarra de pacientes que sofrem com demência de Alzheimer, em uma pesquisa realizada por Trahan, Donaldson, McNabney e Kahng (2014). Frases aparentemente sem sentido ou colocadas fora de contexto são um dos sintomas observados em idosos com demência. Quem observa de fora tem a sensação de que essas vocalizações surgem “do nada”. Mas será que é assim mesmo?

Os pesquisadores citados acima desenvolveram uma série de estudos para tentar descobrir se existe algo no ambiente desses idosos que influencie na probabilidade de falas sem sentido acontecerem. Participaram três idosos com demência severa ou moderada que moravam em uma casa de repouso (local onde o experimento foi conduzido). Nos três estudos o experimentador se posicionava um pouco afastado do participante e dizia que ficaria ali trabalhando em alguma atividade.

No primeiro estudo, os pesquisadores criaram três situações: uma em que, quando ocorresse uma fala bizarra o experimentador daria atenção ao participante durante cerca de 10 segundos; uma em que o experimentador pedia para o participante ajudar em alguma tarefa, independente da fala sem sentido ocorrer; e uma em que, a cada 10 segundos o experimentador dava atenção ao participante, independente do que este estivesse fazendo. Os pesquisadores observaram que a quantidade de fala sem sentido, para os três participantes, foi maior na situação em que a atenção era dada, independente do que os participantes estivessem fazendo.

No segundo estudo, os experimentadores estavam interessados em entender se aspectos presentes no ambiente antes de as falas bizarras acontecerem teriam alguma influência em sua ocorrência. Para isso, novamente três situações foram arranjadas: uma em que o experimentador fazia perguntas que requeriam respostas de “sim” ou “não”(ex. “Hoje é segunda-feira?”); outra em que eram feitas perguntas abertas (ex. “Que dia é hoje?); e uma terceira em que o experimentador fazia comentários diversos sobre aspectos do dia-a-dia (ex.: “Hoje é segunda-feira.”), como se estivesse puxando conversa. Os resultados mostraram que na situação em que os participantes deveriam responder questões abertas, o número de falas bizarras foi maior do que nas outras situações.

Por último, os pesquisadores realizaram um estudo em que queriam entender se o que acontecia depois da fala sem sentido poderia influenciar na probabilidade de ela ocorrer novamente. Cinco situações diferentes foram arranjadas. Em quatro delas o experimentador fazia perguntas abertas e em uma delas fazia perguntas que levavam a respostas “sim” ou “não”. As situações com perguntas abertas foram: corrigir o participante depois que ele falasse algo sem sentido; continuar a conversa como se estivesse concordando com a frase dita, mesmo que ela não fizesse sentido; dar um intervalo de 10 segundos na interação com os idosos (lembrando que essa interação consistia em fazer perguntas) quando a fala bizarra acontecesse; e fazer uma nova pergunta após a resposta com fala bizarra. Os resultados mostraram que não houve diferença na quantidade de falas bizarras nas quatro situações com perguntas abertas e, novamente, na situação que envolvia respostas de “sim/não”, a ocorrência desse tipo de fala foi menor.

A partir desses resultados os pesquisadores discutiram que (1) a atenção gera maior probabilidade de falas sem sentido. Isso ocorreria, provavelmente, porque ter a atenção de alguém é uma situação propícia para conversa e, com o aumento da probabilidade do conversar viria o aumento da probabilidade de uma fala bizarra acontecer. Além disso (2) o tipo de pergunta parece ser uma variável importante. Aparentemente, as perguntas abertas, que requerem respostas mais elaboradas, geram mais falas sem sentido.

Esses resultados os levaram a pensar que pode ser possível aumentar a eficácia da comunicação com idosos com demência, se perguntas mais adequadas forem usadas. Por exemplo, ao invés de perguntar “O que você pretende fazer nesse fim de semana?”, seria mais adequado perguntar “Você pode me dar alguns exemplos de coisas que pretende fazer nesse fim de semana?”. O segundo tipo de pergunta leva a respostas mais objetivas, o que pode ser mais fácil para o idoso.

E sabe do que mais? Nesta pesquisa, nas situações em que os participantes respondiam questões de “sim/não”, em geral outros tipos de vocalizações ocorriam em seguida e, na grande maioria das vezes, era falas que faziam perfeito sentido!

Um aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o fato de o que acontecia depois das falas não influenciar na frequência da ocorrência dessas falas no futuro. É sabido que ser sensível às consequências de um comportamento é muito importante para a aprendizagem e manutenção de comportamentos. Por isso o estranhamento em relação a esse resultado! Por outro lado, é também sabido que demências em fase moderada ou severa são resultados de intensas mudanças neurológicas. Talvez essas mudanças gerem uma insensibilidade às consequências e essa insensibilidade seja responsável, em parte, por vários dos sintomas das demências e assim, expliquem esses resultados.

Pesquisas como essas nos dão pistas de como melhorar a comunicação com pessoas com demência moderada e severa, o que reflete diretamente na qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores.

Quer saber mais!?

Trahan, M. A., Donaldson, J. M., Mcnabney, M. K., & Kahng, S. (2014). The influence of antecedents and consequences on the occurrence of bizarre speech in individuals with dementia. Behavioral Interventions, 29 (4), 286–303.

Postado por Natalia Aggio, pos-doc do Departamento de Psicologia da UFSCar. Bolsista CAPES.

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Melhorando o bem estar coletivo: soluções simples para toaletes mais limpos

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Provavelmente todos nós já passamos pela necessidade de utilizar algum toalete público. Seja em um restaurante, bar, universidade ou qualquer outro local que não seja nossa própria casa. E a maioria das pessoas deve conhecer bem um toalete sujo. Como diria nossa amiga Sandra Annenberg: “que deselegante!”. Porém, toaletes sujos estão longe de ser apenas uma questão de deselegância, mas sim de higiene e uma possibilidade real de contaminação. Este problema pode se tornar especialmente delicado para mulheres que compartilham toaletes com homens, por serem elas mais suscetíveis a contrair infecções. Além disso, manter toaletes limpos requer o uso de produtos químicos e principalmente água, um recurso natural essencial que tem sido frequentemente mal utilizado nos dias de hoje.

Mas qual a relação entre toaletes sujos e a Análise do Comportamento? Bom, toaletes são utilizados por pessoas – e essas, obviamente, se comportam. E a Análise do Comportamento é uma ciência sobre o comportamento humano. Assim, formas diferentes de utilizar o toalete poderiam resultar em menos sujeira e contribuir para que estes ambientes se tornem mais agradáveis para o uso.

Neste artigo descreveremos um estudo muito interessante dos pesquisadores Michael Clayton e Julie Blaskewicz, publicado em 2012 no Journal of Organizational Behavior Management. O objetivo do estudo foi verificar os efeitos de dois tipos de dicas visuais em toaletes masculinos sobre o comportamento de urinar de homens que utilizavam os toaletes de um prédio em uma universidade. Os dois tipos de dicas visuais consistiam em um cartaz (intervenção 1), que solicitava um “urinar responsável”, e um dispositivo sensível ao calor em formato de alvo (intervenção 2), que era introduzido dentro do mictório.

A coleta de dados ocorreu em três andares diferentes de um mesmo prédio na universidade. As intervenções eram introduzidas nos andares 2 e 4, enquanto que o terceiro andar era utilizado apenas como controle; ou seja, os pesquisadores não implementaram nenhuma intervenção, apenas tomaram medidas para fins de comparação com os andares 2 e 4.Todos os toaletes eram idênticos e continham duas pias e dois mictórios.

Dois observadores independentes contavam o número de azulejos com a mínima presença de urina. A quantidade de urina não era medida, apenas a sua presença e localização. Ao final do estudo, os pesquisadores calculavam um índice de concordância entre os registros feitos pelos dois observadores. Esse índice é utilizado como forma de avaliar o quão confiável são os dados registrados pelos observadores. A média de concordância foi de 88%, um grau considerado satisfatório.

Primeiramente, antes de introduzir as intervenções (os dois tipos de dicas visuais) os pesquisadores realizavam registros iniciais nos toaletes dos andares 2 e 4. Estes registros eram importantes para se identificar a linha de base, ou seja, o nível “natural” de presença de urina ao redor dos mictórios. Esse nível natural serviria de base para, posteriormente, verificar se a intervenção surtiu algum efeito. Os pesquisadores tomaram registros no andar 2 por 38 dias e no andar 4 por 51 dias consecutivos.

Depois de levantar a linha de base, os pesquisadores introduziram a Dica Visual 1 (Intervenção 1). Essa dica visual consistia emum cartaz posicionado entre os dois mictórios, a 1,6m do chão, com os dizeres “Pelo Pete, cavalheiro: fique mais próximo. Obrigado!”. Pete era o nome da mascote da universidade, um pinguim. A Dica Visual 1foi inserida nos toaletes dos andares 2 e 4 logo após a tomada da linha de base.No andar 2 ela foi mantida até o final do estudo e no andar 4 foi mantida por 14 dias.

A intervenção 2 (Dica Visual 2) foi introduzida apenas no andar 4, após os 14 dias de intervenção 1 (cartaz). A Dica Visual 2 consistia em um dispositivo sensível ao calor, em formato de alvo circular, na cor preta com o centro vermelho. O alvo era introduzido dentro dos mictórios. Uma mensagem tornava-se visível no dispositivo quando o centro vermelho fosse atingido por alguns segundos, com os dizeres “Ajude os faxineiros: por favor, mire”. Dessa forma, a intervenção 2 consistia na presença das dicas visuais 1 e 2 simultaneamente (cartaz + alvo) e teve duração de 11 dias.

Durante o experimento, os pesquisadores tiveram problemas com vandalismo nos cartazes do andar 4. Em virtude disso, após os 11 dias na intervenção 2, os pesquisadores retiraram os cartazes nos toaletes do andar 4 e assim mantiveram apenas o alvo (Dica Visual 2) até o término do estudo.Depois de encerrada a coleta de dados,os pesquisadores tomaram novos registros quatro meses depois para avaliar se os efeitos das intervenções se mantiveram ao longo do tempo, ou se eram apenas temporários.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores confirmaram o efeito das dicas visuais no comportamento de urinar das pessoas. Vamos aos números: no andar 2, o número médio de azulejos sujos durante a linha de base (o nível natural) foi de aproximadamente 17 azulejos sujos. Após a introdução do cartaz, esse número médio foi reduzido para 11 azulejos. Após os 4 meses, a média de azulejos sujos no andar 2 foi de 9, enquanto que no andar de comparação (andar 3) o número médio era de 20 azulejos sujos.

No andar 4, antes de iniciar a intervenção, a média de azulejos sujos era algo em torno de 19. Após a introdução do cartaz, esse número caiu para 11. Lembre-se que no andar 4 os pesquisadores também introduziram o alvo dentro dos mictórios juntamente com o cartaz. Com o acréscimo do alvo (Dica Visual 2), esse número diminuiu ainda mais:de 11 para 7 azulejos sujos em média. Quando no andar 4 o cartaz foi retirado e mantidos apenas os alvos, o número médio de azulejos sujos foi de 7. E após 4 meses, a média de azulejos sujos encontrada foi de 9 (no andar 3, de comparação, a média era 20 azulejos sujos).

Apesar das medidas de sujeira utilizadas serem de certa forma grosseiras (o ideal seria a mensuração da quantidade de urina), este estudo demonstrou que dicas visuais podem ter efeitos imediatos e também duradouros sobre o comportamento de urinar de homens em toaletes públicos. Além disso, este estudo ilustra como uma intervenção simples e de baixo custo pode contribuir para alterar o comportamento humano em uma direção que melhore o bem estar coletivo. Você já pensou quantos toaletes públicos poderiam se tornar mais agradáveis depois de algo tão simples (e eficaz) ser implementado?

 

Referência:

Clayton, M. C., & Blaskewicz, J. (2012). The use of visual prompts to increase the cleanliness of restrooms on a college campus. Journalof Organizational Behavior Management, 32, 329-337.

Postado por André Varella, Pós-Doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar. Bolsista FAPESP.

Novas tecnologias no ensino de linguagem para indivíduos com autismo

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Um dos temas mais desafiadores para a psicologia comportamental é o estudo e desenvolvimento de uma abordagem clara em relação à Linguagem. Desde muito cedo a grande maioria dos bebês responde mais prontamente a sons da fala que a outros tipos de sons. Uma das dificuldades para explicar a aprendizagem da linguagem é que ela não demanda um ensino direto ou especializado. A grande maioria dos seres humanos adquire a linguagem simplesmente convivendo em sociedade. Além disso, somos capazes de falar, escrever e compreender uma quantidade imensa de sentenças e palavras diferentes. Por esse conjunto de fatores é fácil concordar com a primeira frase deste texto.

Dada à complexidade do tema, não é estranho notar que diferentes grupos de pesquisadores desenvolveram diferentes modelos explicativos para a linguagem. Uma das explicações mais elegantes para este fenômeno é o Paradigma da Equivalência de Estímulos, proposto por Sidman e seus colaboradores. Neste modelo, a aprendizagem de relações arbitrárias entre símbolos (palavras, desenhos, etc.) e outros símbolos ou objetos capacitam o significado de nossa fala. As relações ensinadas são arbitrárias no sentido que esses símbolos não possuem semelhança física nenhuma, por exemplo, a palavra “faca” (seja falada ou escrita) não tem nenhuma semelhança física com uma faca.

A partir da aprendizagem de algumas relações somos capazes de exibir tanto os comportamentos aprendidos diretamente como também comportamentos novos. Por exemplo, podemos aprender que o som “CAMISA” está relacionado ao objeto CAMISA. Além disso, podemos aprender que este objeto está relacionado à PALAVRA ESCRITA CAMISA e a partir destas duas relações (SOM → OBJETO e OBJETO → PALAVRA ESCRITA) somos capazes de diante da PALAVRA ESCRITA CAMISA dizer em voz alta “CAMISA”, independente desta resposta ter sido ensinada. Dessa forma, uma das características principais desse modelo é que em alguns contextos esses estímulos (por exemplo, palavras, símbolos ou objetos) sejam substituíveis entre si. Uma palavra escrita na lista de compras indica qual produto eu devo comprar, contudo eu não irei comer a palavra escrita pão. Estudos dessa utilizando este modelo já obtiveram resultados amplamente comprovados e replicados.

O texto de hoje descreverá um experimento com aplicação deste modelo, cujos participantes são parte de uma população que normalmente tem restrições em relação à linguagem, os autistas. Segundo o site da AMA (Associação de Amigos do Autista), os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem ter características bastante distintas, tendo alguns indivíduos comorbidades como deficiência intelectual, além de grandes dificuldades de interação social e de comunicação e de comportamentos restritos e repetitivos que dificultam a aprendizagem de diversas habilidades; outros podem ter apenas poucas restrições na fala e nas habilidades de comunicação e pouquíssimos movimentos repetitivos evidentes.

O desenvolvimento de estudos com participantes com restrições na linguagem, tanto autistas como pessoas com outros quadros de desenvolvimento atípicos, permite não só uma adequação teórica mais precisa do modelo utilizado, como também o desenvolvimento de tecnologia para intervenção nessas populações. O Estudo de André Varella e Deisy de Souza (2014), publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, tem essas características. Os participantes foram três meninos e uma menina autistas, com idades de sete a 15 anos. Os participantes foram inicialmente testados, e todos apresentavam restrições severas para linguagem em uma avaliação inicial. Foram usadas figuras coloridas sem sentido como estímulos. Em pesquisas é comum o uso deste tipo de estímulo, pois permite uma maior confiabilidade nos dados. É como se os participantes tivessem aprendendo palavras de um idioma criado pelo pesquisador.

As figuras coloridas foram apresentadas na tela de um computador, e os participantes deveriam escolher a partir de uma figura na parte de cima da tela, qual de três figuras apresentadas na parte de baixo se relacionava com aquela. É importante frisar que o procedimento foi planejado para estabelecer relações entre dois conjuntos com quatro figuras. Quando o participante acertava uma tentativa do conjunto de figuras 1, era tocada uma melodia 1 e ele recebia um item comestível 1. O mesmo ocorrendo para as respostas corretas do conjunto de figuras 2, que era seguido da melodia 2 e do item comestível 2. Os itens comestíveis foram diferentes para cada criança, podendo ser amendoim, batata chips, biscoito, etc.

Você deve estar se perguntando: “Por que os experimentadores fizeram isso?” Uma investigação importante desse experimento foi verificar se esses participantes seriam capazes de relacionar corretamente as figuras. Além disso, esses detalhes descritos anteriormente foram realizados para responder a duas questões de pesquisa importantes e inovadoras.

A primeira delas é relativa ao uso de reforçadores naturais específicos, ou seja, os itens comestíveis. Normalmente, são ensinadas diversas relações com um mesmo reforçador comum, que pode ser um elogio ou mesmo um item comestível, muito efetivo com indivíduos com autismo. Contudo, uma maneira de ensinar as relações sem a necessidade de elementos em comum foi empregar essas reforçadores naturais específicos. Assim, o número de relações ensinadas era muito menor tornando o ensino mais resumido. É muito difícil manter um participante com desenvolvimento atípico engajado em uma tarefa, e qualquer redução do tempo para o ensino é muito bem vinda. Além disso, como estes participantes desenvolvem atividades terapêuticas em seus tratamentos, esse tempo reduzido para a tarefa é muito útil. O uso deste tipo de procedimento mostrou resultados bastante satisfatórios em experimentos anteriores.

E a outra parte das consequências, as diferentes melodias? Os indivíduos com autismo demonstram grande dificuldade em prestar atenção ao que se fala e as tarefas que devem realizar simultaneamente. Neste estudo até o ponto descrito, foram empregadas figuras como estímulos que é um tipo de tarefa que eles  um pouco mais concebível para eles. A utilização de um elemento auditivo na consequência permite investigar se eles serão capazes de aprender essa relação que tem uma característica diferente: enquanto relacionar as figuras entre si são relações visuais- visuais, relacionar essa melodia com as figuras é uma tarefa auditivo-visual. O ensino desse segundo tipo de tarefa tem sido muito trabalhoso com indivíduos com autismo e não se conhece uma forma prática, até então, para realizar este tipo de atividade. A questão aqui proposta para a investigação foi: será que apenas com um ensino de relações entre estímulos visuais-visuais (figura-figura), poderiam emergir relações de outra natureza, auditivo-visuais (melodia-figura) não treinadas?

Analisemos então os resultados. A opção pelo procedimento de reforço específico comprovou os indícios de outros estudos mostrando que a aprendizagem das relações ocorre de maneira mais eficaz e precisa. O uso de consequências específicas mostrou-se uma variável importante a ser considerada para o desenvolvimento de programas de ensino para autistas, essa característica ampliou sensivelmente as possibilidades de aprendizagem de comportamentos mais complexos.

Em relação à emergência das relações auditivo-visuais, todos os participantes demonstraram comportamentos relacionados entre a melodia e as figuras coloridas. Observando os resultados das relações visuais-visuais, três dos quatro participantes demonstraram os comportamentos emergentes coerentes com o ensino. Esse resultado permite então sugerir uma nova possibilidade de procedimento. Ao se ensinar relações entre objetos do nosso cotidiano, ao aprender a relação entre o objeto maçã e a palavra escrita maçã, as consequências poderiam incluir a palavra falada maçã. Dessa forma, estudos futuros podem investigar a validade desse procedimento.

O experimento aqui descrito permitiu vislumbrar aplicações inovadoras utilizando o Paradigma da Equivalência de Estímulos para o ensino de linguagem com pessoas com desenvolvimento atípico. Os resultados mostraram que a utilização de consequências combinadas (som + item comestível) capacita uma aprendizagem eficaz e diversificada. Com a utilização deste procedimento foi possível que os participantes aprendessem algo que é normalmente muito difícil que eles aprendessem! Espera-se que com o cuidadoso estudo deste modelo explicativo da linguagem seja possível desenvolver novas tecnologias de ensino para melhora da qualidade de interação em pessoas autistas.

Referências

Associação Amigos do Autista (http://www.ama.org.br/site/en/definicao.html)

Sidman, M. (2000). Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 74, 127-146.

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination vs. matching to sample: an expansion of the testing paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37, 5-22.

Varella, A. A. B, & de Souza, D. G. (2014). Emergence of auditory-visual relations from a visual-visual baseline with auditory-specific consequences in indivuals with autism. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 102, 139-149.

Escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia e estagiário de pós-doutorado no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. (Bolsista CAPES-INCT-ECCE).

“Te chamo pra festa, mas você só quer atingir sua meta”

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Sábado é o dia em que posso tirar um cochilo depois do almoço. Acordei preguiçosamente da minha siesta e pensei como era bom estar deitada no meu sofá. Então, lembrei que não poderia curtir o ócio naquele momento. Levantei, tomei um banho e sentei-me à mesa para cumprir o objetivo da minha tarde: este texto que vos escrevo. O título dele é um trecho da música “A seta e o alvo”, do Paulinho Moska, que fala sobre alguém que abre mão de coisas supostamente divertidas e prazerosas para atingir um determinado objetivo. Agora, eu pergunto: como uma meta altera o nosso comportamento no presente? Jonas Rämnero e Niklas Törneke discutem isso em seu artigo teórico fresquinho publicado na The Psychological Record.

Muitas vezes abrimos mão do que queremos fazer aqui e agora para alcançar uma meta no futuro. Além disso, dizemos que nos esforçamos muito para conseguir atingir aquele objetivo, fazendo X, Y e Z. Quer dizer, tratamos a meta como a causa de tudo o que fizemos para atingí-la. E para a nossa sociedade, quem cumpre metas o faz por que é “responsável”, “confiável” e “determinado”. No nosso dia-a-dia não há problemas em usarmos esses adjetivos para explicar por que alguém conseguiu chegar aonde queria. No entanto, eles não nos ajudam a entender o comportamento humano e nem como podemos auxiliar alguém a cumprir seus objetivos. Neste momento, tente lembrar-se dos seus objetivos para o ano de 2014. Você foi à academia todos os dias, como havia planejado? Leu os livros que queria? Cumpriu sua rotina de estudos da forma que queria em Dezembro de 2013? Não? Pois é, acontece… A boa notícia é que por meio da análise experimental do comportamento conseguimos identificar algumas variáveis que podem influenciar o “atingir metas” (e, em breve, haverá outra oportunidade para formular e tentar chegar aos seus objetivos, afinal 2015 está aí!).

A literatura científica apresenta uma série de relações interessantes entre metas, bem estar, saúde mental e produtividade. Diversas pesquisas relacionam a formulação de metas como uma parte importante do processo terapêutico, uma vez que elas orientam o trabalho e oferecem uma forma clara de se avaliar o progresso do cliente. O processo terapêutico é mais efetivo quando terapeutas e clientes se engajam conjuntamente na eleição de objetivos e juntos trabalham para alcançá-los. Metas podem ser descritas pelos termos de “aproximação” e “evitação”.  Há uma correlação entre metas de evitação (alguém estuda para evitar ir mal na prova e não por se interessar pelo assunto, por exemplo) e uma série de psicopatologias, tais como depressão e ansiedade. No âmbito educacional e organizacional a descrição de metas está relacionada a um melhor desempenho e maior produtividade.

Para algumas áreas da psicologia, metas são vistas como representações cognitivas de algo a ser realizado no futuro, tendo um efeito causal sobre o comportamento presente. Já sob a perspectiva da análise do comportamento, metas são vistas como descrições de ações prováveis, se referindo a comportamentos reforçados previamente. A sociedade reforça o nosso comportamento de falar sobre metas desde cedo. A resposta à famosa pergunta “o que você vai ser quando crescer?” geralmente é seguida de atenção e aprovação dos adultos (a não ser no caso “mamãe, eu quero ser como o Skinner quando eu crescer”…). Trabalhar para atingir uma meta é um comportamento influenciado por outro comportamento –  no caso, o comportamento verbal que o descreve. Ele funciona como uma regra, isto é, um antecedente que especifica o comportamento e a conseqüência dele.

Os autores também explicam como o responder relacional derivado (relações indiretas entre estímulos, por isso o termo “derivado”) influenciam o nosso comportamento direcionado a metas. A Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory) trata de questões relacionadas a esse tipo de responder. As molduras relacionais são metáforas que se referem simplesmente a relações entre estímulos, tais como IGUALDADE, COMPARAÇÃO, HIERARQUIA, etc. Sei que parece um pouco confuso, mas vamos a um exemplo que talvez ajude a esclarecer. Imagine que você nunca tenha ouvido falar no prêmio “Zamot” (obviamente, eu o inventei agora!). No entanto, pode se engajar fortemente em um projeto após ouvir: “Seu projeto é um forte candidato a receber o prêmio Zamot, que É MAIS IMPORTANTE DO QUE o Nobel.” A função do referido prêmio muda de neutra para reforçadora quando alguém lhe diz que ele “é mais importante do que” o Nobel, que você já conhecia. Assim, podemos concluir que as molduras relacionais podem alterar indiretamente as funções de estímulo tornando-as apetitivas ou aversivas.

Quando metas são tratadas como comportamento verbal há a possibilidade de alterá-las, uma vez que elas se tornam variáveis manipuláveis. Terapeutas podem, inclusive, instalar em seus clientes um repertório de comportamentos orientados a objetivos. Apesar de Rämnero e Törneke não esclarecerem detalhes do procedimento a ser usado para a instalação do novo repertório, eles apontam que seria necessário um treino de molduras relacionais temporais, dêiticas (relações de tomada de perspectiva) e hierárquicas (relações de categorização). Adicionalmente, seria necessário um treino de comportamentos governados por regras e um treino em que as pessoas aprendessem a identificar com mais precisão as conseqüências do próprio comportamento ao seguir essas regras (tracking). Nesse sentido, ainda há esperança para você e seus objetivos de fim de ano! Contudo, como já dizia Carlos Drummond de Andrade: “Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta”.

Referência:

Ramnerö, J. & Törneke, N.(2014). On having a goal: goals as representation or behavior. The Psychological Record. DOI: 10.1007/s40732-014-0093-0

Para saber mais sobre a Relational Frame Theory:

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational Frame Theory: a post-Skinnerian account of human language and cognition. New York: Plenum.

Postado por Laura Zamot Rabelo, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH/UFSCar). Bolsista FAPESP.