“Te chamo pra festa, mas você só quer atingir sua meta”

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Sábado é o dia em que posso tirar um cochilo depois do almoço. Acordei preguiçosamente da minha siesta e pensei como era bom estar deitada no meu sofá. Então, lembrei que não poderia curtir o ócio naquele momento. Levantei, tomei um banho e sentei-me à mesa para cumprir o objetivo da minha tarde: este texto que vos escrevo. O título dele é um trecho da música “A seta e o alvo”, do Paulinho Moska, que fala sobre alguém que abre mão de coisas supostamente divertidas e prazerosas para atingir um determinado objetivo. Agora, eu pergunto: como uma meta altera o nosso comportamento no presente? Jonas Rämnero e Niklas Törneke discutem isso em seu artigo teórico fresquinho publicado na The Psychological Record.

Muitas vezes abrimos mão do que queremos fazer aqui e agora para alcançar uma meta no futuro. Além disso, dizemos que nos esforçamos muito para conseguir atingir aquele objetivo, fazendo X, Y e Z. Quer dizer, tratamos a meta como a causa de tudo o que fizemos para atingí-la. E para a nossa sociedade, quem cumpre metas o faz por que é “responsável”, “confiável” e “determinado”. No nosso dia-a-dia não há problemas em usarmos esses adjetivos para explicar por que alguém conseguiu chegar aonde queria. No entanto, eles não nos ajudam a entender o comportamento humano e nem como podemos auxiliar alguém a cumprir seus objetivos. Neste momento, tente lembrar-se dos seus objetivos para o ano de 2014. Você foi à academia todos os dias, como havia planejado? Leu os livros que queria? Cumpriu sua rotina de estudos da forma que queria em Dezembro de 2013? Não? Pois é, acontece… A boa notícia é que por meio da análise experimental do comportamento conseguimos identificar algumas variáveis que podem influenciar o “atingir metas” (e, em breve, haverá outra oportunidade para formular e tentar chegar aos seus objetivos, afinal 2015 está aí!).

A literatura científica apresenta uma série de relações interessantes entre metas, bem estar, saúde mental e produtividade. Diversas pesquisas relacionam a formulação de metas como uma parte importante do processo terapêutico, uma vez que elas orientam o trabalho e oferecem uma forma clara de se avaliar o progresso do cliente. O processo terapêutico é mais efetivo quando terapeutas e clientes se engajam conjuntamente na eleição de objetivos e juntos trabalham para alcançá-los. Metas podem ser descritas pelos termos de “aproximação” e “evitação”.  Há uma correlação entre metas de evitação (alguém estuda para evitar ir mal na prova e não por se interessar pelo assunto, por exemplo) e uma série de psicopatologias, tais como depressão e ansiedade. No âmbito educacional e organizacional a descrição de metas está relacionada a um melhor desempenho e maior produtividade.

Para algumas áreas da psicologia, metas são vistas como representações cognitivas de algo a ser realizado no futuro, tendo um efeito causal sobre o comportamento presente. Já sob a perspectiva da análise do comportamento, metas são vistas como descrições de ações prováveis, se referindo a comportamentos reforçados previamente. A sociedade reforça o nosso comportamento de falar sobre metas desde cedo. A resposta à famosa pergunta “o que você vai ser quando crescer?” geralmente é seguida de atenção e aprovação dos adultos (a não ser no caso “mamãe, eu quero ser como o Skinner quando eu crescer”…). Trabalhar para atingir uma meta é um comportamento influenciado por outro comportamento –  no caso, o comportamento verbal que o descreve. Ele funciona como uma regra, isto é, um antecedente que especifica o comportamento e a conseqüência dele.

Os autores também explicam como o responder relacional derivado (relações indiretas entre estímulos, por isso o termo “derivado”) influenciam o nosso comportamento direcionado a metas. A Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory) trata de questões relacionadas a esse tipo de responder. As molduras relacionais são metáforas que se referem simplesmente a relações entre estímulos, tais como IGUALDADE, COMPARAÇÃO, HIERARQUIA, etc. Sei que parece um pouco confuso, mas vamos a um exemplo que talvez ajude a esclarecer. Imagine que você nunca tenha ouvido falar no prêmio “Zamot” (obviamente, eu o inventei agora!). No entanto, pode se engajar fortemente em um projeto após ouvir: “Seu projeto é um forte candidato a receber o prêmio Zamot, que É MAIS IMPORTANTE DO QUE o Nobel.” A função do referido prêmio muda de neutra para reforçadora quando alguém lhe diz que ele “é mais importante do que” o Nobel, que você já conhecia. Assim, podemos concluir que as molduras relacionais podem alterar indiretamente as funções de estímulo tornando-as apetitivas ou aversivas.

Quando metas são tratadas como comportamento verbal há a possibilidade de alterá-las, uma vez que elas se tornam variáveis manipuláveis. Terapeutas podem, inclusive, instalar em seus clientes um repertório de comportamentos orientados a objetivos. Apesar de Rämnero e Törneke não esclarecerem detalhes do procedimento a ser usado para a instalação do novo repertório, eles apontam que seria necessário um treino de molduras relacionais temporais, dêiticas (relações de tomada de perspectiva) e hierárquicas (relações de categorização). Adicionalmente, seria necessário um treino de comportamentos governados por regras e um treino em que as pessoas aprendessem a identificar com mais precisão as conseqüências do próprio comportamento ao seguir essas regras (tracking). Nesse sentido, ainda há esperança para você e seus objetivos de fim de ano! Contudo, como já dizia Carlos Drummond de Andrade: “Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta”.

Referência:

Ramnerö, J. & Törneke, N.(2014). On having a goal: goals as representation or behavior. The Psychological Record. DOI: 10.1007/s40732-014-0093-0

Para saber mais sobre a Relational Frame Theory:

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational Frame Theory: a post-Skinnerian account of human language and cognition. New York: Plenum.

Postado por Laura Zamot Rabelo, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH/UFSCar). Bolsista FAPESP.

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