Melhorando o bem estar coletivo: soluções simples para toaletes mais limpos

mictorio

Provavelmente todos nós já passamos pela necessidade de utilizar algum toalete público. Seja em um restaurante, bar, universidade ou qualquer outro local que não seja nossa própria casa. E a maioria das pessoas deve conhecer bem um toalete sujo. Como diria nossa amiga Sandra Annenberg: “que deselegante!”. Porém, toaletes sujos estão longe de ser apenas uma questão de deselegância, mas sim de higiene e uma possibilidade real de contaminação. Este problema pode se tornar especialmente delicado para mulheres que compartilham toaletes com homens, por serem elas mais suscetíveis a contrair infecções. Além disso, manter toaletes limpos requer o uso de produtos químicos e principalmente água, um recurso natural essencial que tem sido frequentemente mal utilizado nos dias de hoje.

Mas qual a relação entre toaletes sujos e a Análise do Comportamento? Bom, toaletes são utilizados por pessoas – e essas, obviamente, se comportam. E a Análise do Comportamento é uma ciência sobre o comportamento humano. Assim, formas diferentes de utilizar o toalete poderiam resultar em menos sujeira e contribuir para que estes ambientes se tornem mais agradáveis para o uso.

Neste artigo descreveremos um estudo muito interessante dos pesquisadores Michael Clayton e Julie Blaskewicz, publicado em 2012 no Journal of Organizational Behavior Management. O objetivo do estudo foi verificar os efeitos de dois tipos de dicas visuais em toaletes masculinos sobre o comportamento de urinar de homens que utilizavam os toaletes de um prédio em uma universidade. Os dois tipos de dicas visuais consistiam em um cartaz (intervenção 1), que solicitava um “urinar responsável”, e um dispositivo sensível ao calor em formato de alvo (intervenção 2), que era introduzido dentro do mictório.

A coleta de dados ocorreu em três andares diferentes de um mesmo prédio na universidade. As intervenções eram introduzidas nos andares 2 e 4, enquanto que o terceiro andar era utilizado apenas como controle; ou seja, os pesquisadores não implementaram nenhuma intervenção, apenas tomaram medidas para fins de comparação com os andares 2 e 4.Todos os toaletes eram idênticos e continham duas pias e dois mictórios.

Dois observadores independentes contavam o número de azulejos com a mínima presença de urina. A quantidade de urina não era medida, apenas a sua presença e localização. Ao final do estudo, os pesquisadores calculavam um índice de concordância entre os registros feitos pelos dois observadores. Esse índice é utilizado como forma de avaliar o quão confiável são os dados registrados pelos observadores. A média de concordância foi de 88%, um grau considerado satisfatório.

Primeiramente, antes de introduzir as intervenções (os dois tipos de dicas visuais) os pesquisadores realizavam registros iniciais nos toaletes dos andares 2 e 4. Estes registros eram importantes para se identificar a linha de base, ou seja, o nível “natural” de presença de urina ao redor dos mictórios. Esse nível natural serviria de base para, posteriormente, verificar se a intervenção surtiu algum efeito. Os pesquisadores tomaram registros no andar 2 por 38 dias e no andar 4 por 51 dias consecutivos.

Depois de levantar a linha de base, os pesquisadores introduziram a Dica Visual 1 (Intervenção 1). Essa dica visual consistia emum cartaz posicionado entre os dois mictórios, a 1,6m do chão, com os dizeres “Pelo Pete, cavalheiro: fique mais próximo. Obrigado!”. Pete era o nome da mascote da universidade, um pinguim. A Dica Visual 1foi inserida nos toaletes dos andares 2 e 4 logo após a tomada da linha de base.No andar 2 ela foi mantida até o final do estudo e no andar 4 foi mantida por 14 dias.

A intervenção 2 (Dica Visual 2) foi introduzida apenas no andar 4, após os 14 dias de intervenção 1 (cartaz). A Dica Visual 2 consistia em um dispositivo sensível ao calor, em formato de alvo circular, na cor preta com o centro vermelho. O alvo era introduzido dentro dos mictórios. Uma mensagem tornava-se visível no dispositivo quando o centro vermelho fosse atingido por alguns segundos, com os dizeres “Ajude os faxineiros: por favor, mire”. Dessa forma, a intervenção 2 consistia na presença das dicas visuais 1 e 2 simultaneamente (cartaz + alvo) e teve duração de 11 dias.

Durante o experimento, os pesquisadores tiveram problemas com vandalismo nos cartazes do andar 4. Em virtude disso, após os 11 dias na intervenção 2, os pesquisadores retiraram os cartazes nos toaletes do andar 4 e assim mantiveram apenas o alvo (Dica Visual 2) até o término do estudo.Depois de encerrada a coleta de dados,os pesquisadores tomaram novos registros quatro meses depois para avaliar se os efeitos das intervenções se mantiveram ao longo do tempo, ou se eram apenas temporários.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores confirmaram o efeito das dicas visuais no comportamento de urinar das pessoas. Vamos aos números: no andar 2, o número médio de azulejos sujos durante a linha de base (o nível natural) foi de aproximadamente 17 azulejos sujos. Após a introdução do cartaz, esse número médio foi reduzido para 11 azulejos. Após os 4 meses, a média de azulejos sujos no andar 2 foi de 9, enquanto que no andar de comparação (andar 3) o número médio era de 20 azulejos sujos.

No andar 4, antes de iniciar a intervenção, a média de azulejos sujos era algo em torno de 19. Após a introdução do cartaz, esse número caiu para 11. Lembre-se que no andar 4 os pesquisadores também introduziram o alvo dentro dos mictórios juntamente com o cartaz. Com o acréscimo do alvo (Dica Visual 2), esse número diminuiu ainda mais:de 11 para 7 azulejos sujos em média. Quando no andar 4 o cartaz foi retirado e mantidos apenas os alvos, o número médio de azulejos sujos foi de 7. E após 4 meses, a média de azulejos sujos encontrada foi de 9 (no andar 3, de comparação, a média era 20 azulejos sujos).

Apesar das medidas de sujeira utilizadas serem de certa forma grosseiras (o ideal seria a mensuração da quantidade de urina), este estudo demonstrou que dicas visuais podem ter efeitos imediatos e também duradouros sobre o comportamento de urinar de homens em toaletes públicos. Além disso, este estudo ilustra como uma intervenção simples e de baixo custo pode contribuir para alterar o comportamento humano em uma direção que melhore o bem estar coletivo. Você já pensou quantos toaletes públicos poderiam se tornar mais agradáveis depois de algo tão simples (e eficaz) ser implementado?

 

Referência:

Clayton, M. C., & Blaskewicz, J. (2012). The use of visual prompts to increase the cleanliness of restrooms on a college campus. Journalof Organizational Behavior Management, 32, 329-337.

Postado por André Varella, Pós-Doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar. Bolsista FAPESP.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s