Estudo experimental dos eventos privados: será que ela sente o que diz?

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Imagine a seguinte cena: uma criança diz à sua mãe que não quer ir à escola naquele dia. Quando questionada pela mãe acerca dos motivos, ela diz que está com dor de cabeça. Algo lhe pareceu familiar nessa cena doméstica? Você já esteve nessa situação? Se esteve, você se lembra do que aconteceu em seguida? Provavelmente, muitas crianças (e pasmem, adultos também! ) já deixaram de comparecer a compromissos simplesmente por relatarem uma dor de cabeça, desconforto estomacal ou uma angústia repentina! Mas, você já parou para pensar se a criança estava realmente com dor de cabeça quando disse estar? Essa é uma pergunta difícil de responder porque remete ao conceito de evento privado. Eventos privados são aqueles aos quais apenas a própria pessoa tem acesso, como a dor de cabeça, o desconforto estomacal, a angústia repentina[1].

Pensando em questões como a que colocamos acima, Corey Stocco, Rachel Thompson e John Hart, da Western New England University, realizaram uma pesquisa, composta de três estudos, para verificar os efeitos de algumas variáveis sobre o relato de eventos privados. Falaremos aqui sobre dois desses estudos, que tinham como objetivo verificar o efeito do grau de correspondência público-privado, da contingência de reforçamento envolvida e da audiência no ensino de tatos de eventos privados baseado em acompanhamentos públicos. Participaram dos experimentos dez estudantes universitários, com idades entre 18 e 21 anos.

Os pesquisadores ensinariam os participantes a classificar símbolos impressos em cartas semelhantes às cartas de um baralho. De um lado da carta havia um símbolo impresso que era acessível apenas ao participante, sendo considerado portanto, análogo ao evento privado. Esses símbolos deveriam ser relacionados com sílabas sem sentido (como “CUG”,” ZID”, “PAF”), e o experimentador explicava ao participante que cada sílaba correspondia a um símbolo que seria apresentado. Do outro lado da carta, havia uma figura impressa (parte de uma pintura de flores, por exemplo) que era vista pelo participante e pelo experimentador; este seria o acompanhamento público do evento privado.

De maneira geral, as sessões dos estudos eram compostas de trinta tentativas que ocorriam assim: (1) o experimentador fornecia uma folha com as sílabas sem sentido, que permanecia com o participante durante toda a sessão; (2) o experimentador pegava uma carta do baralho com a figura (acompanhamento público) virada para cima, e o símbolo (evento privado) virado para baixo; (3) o participante pegava a carta fornecida pelo experimentador, olhava o símbolo ao qual apenas ele tinha acesso e falava uma sílaba sem sentido da lista; (4) o experimentador sinalizava que o participante havia feito um ponto, caso ele tivesse dito a sílaba correta, sendo que a relação entre sílabas e figuras havia sido estabelecida pelos pesquisadores previamente. Os pontos acumulados em cada sessão eram trocados por brindes ao final do experimento.

Havia pequenas variações no procedimento em cada um dos estudos, considerando as variáveis investigadas. O estudo 1 investigou a influência do grau de correspondência entre os estímulos públicos e privados, considerando também a contingência de reforçamento envolvida.  Em um grau de correspondência alto, cada estímulo privado correspondia a uma única figura em 80% das tentativas. Em um grau de correspondência baixo, cada estímulo correspondia a uma única figura em apenas 40% das tentativas. A análise dos dados obtidos demonstrou que o tato acurado de símbolos privados era mais provável quando o reforçamento era baseado em um acompanhamento público mais altamente correlacionado ao estímulo privado. Além disso, o relato acurado de estímulos privados também foi mais frequente quando os pontos eram liberados pelo experimentador baseado na correspondência público-privado, e não apenas na topografia da resposta do participante. Para entender esses resultados, pense numa situação em que uma criança relata que se sente mal. Baseada em alguns acompanhamentos públicos, como vômito e febre, por exemplo, a mãe pode medicar a criança, permitir que ela não vá à escola naquele dia e ainda cobri-la de mimos. Olha como foi reforçador relatar o evento privado! Isso certamente aumenta a probabilidade de que a criança volte a emitir relatos semelhantes, certo? Mas note que as consequências reforçadoras foram liberadas mediante um alto grau de correspondência entre o evento privado relatado e os acompanhamentos públicos. Isso certamente não só aumenta a probabilidade de emissão do relato como aumenta também a probabilidade de emissão de relatos acurados.

O estudo 2 investigou a influência da audiência na acurácia de relatos de eventos privados. O procedimento era semelhante ao do estudo 1, com a diferença de que cada participante fazia metade das sessões com um experimentador e a outra metade com outro, alternadamente. Havia ainda dois esquemas de reforçamento envolvidos. Em um deles a liberação de pontos era baseada nos mesmos acompanhamentos públicos independente do experimentador (por exemplo, dizer “KEZ” diante de uma figura no centro da carta, para os dois experimentadores); em outro, a liberação de pontos era baseada em acompanhamentos diferentes para cada experimentador (por exemplo, diante de uma figura no centro da carta dizer “NEZ” para um experimentador e “KEZ” para o outro). Você consegue imaginar o que aconteceu? O principal resultado deste estudo é que todos os relatos dos participantes ficaram sob controle da audiência quando a contingência de reforço era diferente para cada experimentador. Não é difícil imaginar uma situação cotidiana que ilustre esse resultado. Se os pais ensinam respostas verbais diferentes diante do mesmo acompanhamento público, a criança pode relatar sensações diferentes, dependendo do interlocutor. Por exemplo, imagine uma criança com alergia. A sensação de coceira (evento privado) e a vermelhidão nos olhos (acompanhamento público) são bem comuns nessa situação. Só que olhos vermelhos também são bem comuns em outras situações, como quando estamos com sono. Se a mãe reforçar o relato “estou com alergia ”e o pai reforçar “estou com sono”, a sensação de coceira pode passar a controlar relatos diferentes, dependendo se a criança estiver diante do pai ou da mãe.

Pesquisas como esta são bastante interessantes porque propõem estudar experimentalmente as interpretações de Skinner e de outros autores acerca dos eventos privados. Como vimos, é possível manipular variáveis para estabelecer relatos mais precisos de eventos privados. Em contextos aplicados isso pode ser bem interessante, já que o relato preciso de eventos privados pode viabilizar intervenções mais efetivas. Por exemplo, a mãe da criança com alergia do exemplo acima, certamente seria mais efetiva nos cuidados para aliviar o desconforto do filho do que o pai. No entanto, alguns autores da Análise do Comportamento têm questionado a teoria de eventos privados quanto à sua função na explicação do comportamento. Os comentários a seguir levantam alguns desses questionamentos.

 

Comentário

Em um interessante texto de 2011, comentando sobre as críticas de William Baum em relação ao conceito de eventos privados, Charles Catania argumenta que:

 

“O ponto de uma análise verbal ou interpretação de termos privados não é alcançar o estímulo privado por meio do significado verbal, mas sim lidar com os termos privados como respostas verbais modeladas por uma comunidade verbal que tem apenas um acesso indireto, necessariamente público, a alguns estímulos pelos quais eles são ocasionados.” (p.232)

 

Essa parece ser também a perspectiva adotada no estudo de Corey Stocco, Rachel Thompson e John Hart. Como uma pessoa pode ensinar a outra respostas verbais relativas a eventos que apenas a pessoa ensinada tem acesso? Essa questão tem sido repetida desde o texto seminal de Skinner, “Análise operacional dos termos psicológicos”, de 1945, e, em boa medida, baliza o estudo e exploração dos chamados eventos privados. Porém, se nos detivermos um pouco a refletir, não é essa a questão que se coloca ao ensino de qualquer discriminação e descrição? Ou ainda, dando um passo atrás, poderíamos nos perguntar: será que essa questão é coerente com a compreensão comportamentalista radical da linguagem (comportamento verbal)? Bom, vamos lá, por partes.

Os argumentos presentes tanto no estudo apresentado, quanto no texto de Catania e em grande parte da obra de Skinner baseiam-se na compreensão de que os eventos privados são estímulos ou respostas acessados apenas pela própria pessoa que os sente ou que se comporta. Eventos privados são, portanto, eventos comportamentais. Na perspectiva comportamentalista radical eventos comportamentais são eventos relacionais, o que quer dizer se definem enquanto estímulos ou respostas apenas quando se configuram em uma relação comportamental. Assumimos que as relações comportamentais são acontecimentos únicos no tempo e no espaço, certo? E que envolve um organismo e seu ambiente, correto? Pois bem, se assim o é, todos os estímulos são acessíveis apenas ao organismo envolvido na relação comportamental em questão. Abstrato demais? Tentemos alguns exemplos. Tenho um criado mudo pintado de verde-petróleo. Aprendi a chamar essa cor desse nome a partir da exposição a objetos de cor semelhante, designados dessa forma. Porém tenho um amigo que insiste em dizer que ele é azul-petróleo. Será que enxergamos a mesma cor? Será possível dizer que estamos diante do mesmo estímulo? Minha opinião é que, a menos que assumamos uma posição realista[2], a resposta é não. Temos histórias diferentes, e nos relacionamos com o evento no mundo “criado mudo” de maneira distinta, ao menos em relação ao aspecto chamado cor (acho que ele usa um criado mudo para as mesmas coisas que eu… Será?). Um exemplo nesse sentido, bastante conhecido é o fato de que esquimós distinguem um número bem maior de tons de branco, relacionados a diferentes tipos de neve, que alguém que não habita as porções (con)geladas da Terra, como eu (e imagino que você também). Ora, de uma perspectiva realista não estaríamos, esquimó e eu, expostos aos mesmos estímulos? A cor da neve não é um evento público, não está acessível a nós dois? Se sim, como explicar o fato de que, em minha sincera experiência, não enxergo, nem sei descrever esses diferentes tipos de branco? Se não, então devemos reconhecer que as questões relativas à discriminação e descrição dos chamados eventos privados (como a dor de cabeça do exemplo do início do texto) constituem-se e devem ser encaminhadas da mesma maneira que para os ditos eventos públicos, ou seja, como questões relativas à compreensão do comportamento verbal.

Encaminhando a discussão a partir desse ponto de vista, podemos nos perguntar se a questão central à qual os pesquisadores procuram responder, a partir do conceito de eventos privados, ainda faz sentido, se é pertinente a uma perspectiva comportamentalista radical do comportamento verbal. Como discute Emmanuel Tourinho, em seu (brilhante!) livro “Subjetividade e relações comportamentais”, a compreensão expressa na proposta da pesquisa descrita no texto acima baseia-se em uma “(im)possível (ou supostamente desejável) correspondência” entre os eventos privados e a linguagem, aproximando-se de concepções problemáticas, como a concepção referencialista da linguagem. Tal como articulado pelos autores (e mesmo por Catania, e Skinner), é como se a descrição de uma experiência (dor nas costas) fosse uma referência a um determinado evento privado (“nervo pinçado”). Ora, a teoria do comportamento verbal skinneriana, ergue-se justamente contra a perspectiva referencialista, argumentando que o comportamento verbal é comportamento como qualquer outro, ou seja, construído a partir da interação com o ambiente, na forma de relações funcionais, e não como representação ou expressão de algo que pré-existe ou está para além dessa relação.

Nesse sentido não há uma ligação “mais direta” entre a resposta verbal para eventos públicos, como uma “máquina de escrever”, que para eventos privados, como “dor de dente” (para trazer à baila outro exemplo clássico). Como destacado por Carlos Eduardo Lopes em sua tese de doutorado, a compreensão baseada no conceito de eventos privados ganha forças justamente quando uma comunidade verbal desconsidera o contexto e as diversas situações que controlam o comportamento, e talvez mais especificamente, o comportamento verbal de uma pessoa. A questão central, dessa forma, desloca-se da tentativa de acessar o evento privado ou algum correspondente fiel a este, para a exploração das regularidades nas complexas contingências envolvidas em determinados comportamentos. O que a comunidade verbal faz, ou deve fazer, é ensinar seus membros a sentir e perceber seu corpo, por meio das ações percebidas por quem ensina e do histórico de contingências.

Tomado dessa perspectiva, como uma pesquisa acerca das variáveis envolvidas no comportamento verbal (sem essa distinção de eventos públicos e privados), o estudo de Stocco, Thompson e Hart proporciona resultados bastante interessantes, mostrando a força dos arranjos ambientais na determinação do comportamento. Em uma das condições experimentais do estudo 1, por exemplo, os participantes passaram a receber pontos apenas quando respondiam dizendo uma das sílabas sem sentido (ZID) para um conjunto de cartas (deck 1), e outra sílaba (PAF) para o outro conjunto (deck 2). Qual o resultado? O obvio aumento de frequência das respostas consequenciadas por pontos em cada um dos conjuntos de cartas. Os participantes passaram a responder sempre “ZID” quando o experimentador pegava cartas do deck 1, e sempre “PAF” quando o experimentador pegava cartas do deck 2, independentemente da figura ou do símbolo das cartas, anteriormente relacionados às diferentes sílabas sem sentido.

Além disso, como apontado de maneira geral pelos resultados dos estudos conduzidos nesse trabalho, quanto mais complexos os arranjos, menor a acurácia das respostas dos participantes, dando mais força à posição “anti-privatista” de que a dificuldade de discriminação e descrição dos fenômenos subjetivos é uma questão de complexidade e não de acessibilidade. Mais uma vez voltando a análises mais gerais, esse processo de ensino de discriminação e descrição de eventos será problemático (impreciso) somente se a comunidade em questão não reconhecer as relações entre as contingências e os estímulos sentidos. Considerando-se o porquê determinado evento no mundo é sentido, ou seja, considerando-se as contingências envolvidas na constituição desse evento como um estímulo discriminativo, é possível saber como a pessoa deve sentir-se em determinada situação.

Enfim, a questão ainda é bastante controversa, e ainda será motivo para muitos relatos (de eventos privados ou de fenômenos complexos), a encherem muitas páginas (de papel ou virtuais, como essa). E muito provavelmente muitas crianças ainda relatarão suspeitas dores de cabeça antes de ir pra aula, sem que se chegue a um consenso. Mas depois de todas essas histórias, e você, como se sente?

 

Quer saber mais?

 

Stocco, C. S., Thompson, R. H. & Hart, J. M. (2014). Teaching tacting of private events based on public accompaniments: effects of contingencies, audience control and stimulus complexity. Analysis of Verbal Behavior, 30, 1-19.

Catania, A. C. (2011). On Baum’s Public Claim That He Has No Significant Private Events. The Behavior Analyst34(2), 227-236.

Lopes, C. E. (2006); Behaviorismo radical e subjetividade. Tese de doutorado. São Carlos: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de São Carlos.

Michael, J., Palmer, D. C., & Sundberg, M. L. (2011). The Multiple Control of Verbal Behavior. The Analysis of Verbal Behavior27(1), 3–22.

Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e relações comportamentais. São Paulo: Paradigma.

 

Resumo da pesquisa por Naiene Pimentel, pós-doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano/ UFSCar – bolsista CAPES.

Comentários por Henrique Pompermaier, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/ UFSCar – bolsista FAPESP.

 

[1] Você pode rever algumas discussões sobre eventos privados na Análise do Comportamento no post “Qual é o lugar dos eventos privados na compreensão do comportamento?”, publicado em 23/07/2014, aqui no Boletim Behaviorista

[2] Por “posição realista” aqui, entendemos a compreensão de que o mundo existe real e objetivamente, e de que o conhecimento sobre ele é obtido pelo acesso a seus elementos e leis, de forma independente dos sujeitos que o percebem e sentem.

Uma breve história do nojo: do “tira a mão, é caca!” ao nojo moral

disgust 1O nojo e os objetos que nos enojam parecem ser tão insignificantes que mal justificariam um post do nosso blog, certo? Errado. Hoje elevaremos o status do nojo e dos hábitos de higiene ao estrelato, começando pelo título do artigo – uma brincadeira com o famoso livro do Stephen Hawking, que discute a origem e as características do universo. Agora, você deve estar se perguntando: “o que uma coisa tem a ver com a outra”? E eu respondo: tudo! Voltaremos a essa questão ao final do texto.

Há evidências de que bebês não exibem nojo até os dois anos de idade. A partir dessa idade, o nojo se desenvolve em quatro estágios. Inicialmente as crianças começam a reagir aos eliciadores essenciais de nojo, tais como excretas do corpo humano e matéria em putrefação. Em seguida, passam a exibir repulsa aos eliciadores presentes na “natureza e nos animais” – como são categorizados os estímulos que nos lembram da nossa origem animal e da nossa mortalidade, tais como organismos mortos, falta de higiene, comportamento sexual inadequado e deformidades corporais. O terceiro estágio relaciona-se ao nojo sexual ou interpessoal pelo contato indesejado com pessoas. Finalmente, no quarto estágio, aparece o nojo moral, relativo a condutas morais repreensíveis tais como racismo, abuso sexual de crianças e assassinato.

Pense em algo bastante nojento (tipo um banheiro público bem sujo[1]). Pode ser que sua expressão facial tenha se alterado – seu nariz se enrugado e seu lábio superior se levantado; talvez tenha até colocado a língua entre os dentes – ou até que você tenha emitido uma interjeição de repulsa como “eca!” ou “ugh!”. Já se sabe que, em adultos, ver alguém com cara de nojo produz uma ativação neuronal similar àquela produzida pelo contato com o estímulo produtor do nojo. No entanto, como a sua aquisição se dá em crianças ainda é motivo de especulação. Há uma hipótese de que a sensação de nojo nas crianças seja eliciada por observar a resposta de repulsa dos pais. Outra, é que a criança reproduz a expressão facial dos pais nesse contexto e é isso que provoca nela o sentimento de nojo. Em oposição às duas primeiras, há outra hipótese que propõe apenas que a criança interpreta a expressão facial e aprende a responder a isso, sem que a sensação seja eliciada.

Para investigar a aquisição de respostas de nojo e também como se dá a transmissão parental de hábitos de higiene das mãos, a equipe liderada por Megan Oaten, da Universidade de Macquarie, propôs um experimento com três fases distintas. Quase 100 duplas de cuidadores (a maioria eram mães) e filhos de diferentes idades (de 2 a 16 anos) participaram da pesquisa. Na primeira fase, as crianças eram familiarizadas com as medidas de autorrelato usadas no restante do estudo. Em seguida, as crianças eram expostas a várias situações que poderiam causar repulsa, tais como experimentar sorvete misturado com molho de tomate, colocar a mão em uma meia suja, cheirar compostos orgânicos que tinham odor de fezes e urina, tocar em bigatos e em um olho de vidro. Suas vocalizações eram registradas e as suas reações avaliadas por dois juízes treinados em identificação de expressões faciais. Depois disso, elas eram solicitadas a relatar suas sensações por meio das medidas de autorrelato. O mesmo procedimento foi realizado com fotos que apresentavam alguma violação sócio-moral como, por exemplo, uma mulher idosa casando com um rapaz muito jovem, alguém assaltando uma pessoa com deficiência, lixo espalhado em um parque e uma reunião do KKK[2].

Posteriormente, a criança sentava-se ao lado da mãe ou do pai enquanto eles eram expostos às mesmas situações descritas acima. Após observar a reação da mãe ou do pai, a criança tinha a oportunidade de interagir com os mesmos estímulos novamente. De forma bastante resumida, os resultados indicaram que o comportamento de nojo da criança quando sozinha poderia ser predito pelo comportamento dos pais. Além disso, os comportamentos de nojo dos pais que eram direcionados à criança (expressões faciais e vocalizações) também foram consistentes com a expressão de nojo pela criança, o que demonstra a importância das respostas dos pais para a modelagem da expressão de nojo nos filhos. Pais de crianças pequenas as orientaram mais a limpar as mãos após cada tarefa realizada e, além disso, pais que expressavam mais nojo solicitavam mais frequentemente que seus filhos limpassem as mãos. De forma geral, os pais que tinham maior propensão a ensinar seus filhos a fazer a higiene das mãos, também treinavam mais reações de nojo.

As relações descritas no estudo abrem um leque de possibilidades de interpretação. Pode ser que haja alguma predisposição herdada ao nojo; no entanto, há uma série de razões que dão suporte a uma explicação alternativa – a da transmissão parental. Um estudo realizado com gêmeos não encontrou semelhanças inatas ao responder a estímulos que provocam nojo. Em segundo lugar, o fato de que as reações de nojo dos pais de crianças pequenas eram mais exacerbadas e elas variavam de acordo com a idade da criança fornecem pistas de que reações mais pronunciadas podem não se relacionar com a sensibilidade individual ao nojo e sim com a presença da criança. E, sendo essas reações direcionadas à criança uma forma de transmissão, seria provável que a criança exibisse comportamentos desse tipo mesmo quando sozinha, o que ocorreu de fato. Outro dado que fortalece o argumento da aprendizagem é que a expressão observável de nojo foi semelhante entre pais e filhos.

Retomando nossa inicial “ode ao nojo”, podemos observar sua relevância evolutiva na preservação da nossa espécie. Somos ensinados a não nos aproximarmos de estímulos eliciadores de nojo e essa prática evita uma série de problemas decorrentes do contato com agentes patógenos, principalmente as infecções. A preservação da nossa saúde e da nossa espécie permite inúmeras possibilidades, inclusive realizar investigações científicas sobre o mundo que nos cerca e também teorizar sobre as origens do universo e dos próprios seres humanos! Convencido da importância do nosso “nojinho” de cada dia?

Oaten, M., Stevenson, R. J., Wagland, P., Case, T. I., & Repacholi, B. M. (2014). Parent-child transmission of hand hygiene: the role of vocalizations, gestures and other parental responses. The Psychological Record, 64, 803-811.

Postado por Laura Zamot Rabelo, doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano e bolsista FAPESP.

[1] Falando nisso, já viu nosso post sobre soluções simples para toaletes mais limpos? 

[2] O nojo sociomoral foi pouco discutido por conta de não ter se mostrado relevante nas análises realizadas.

As cartas Ulman-Skinner sobre o futuro da análise do comportamento  

cartas

“I don’t like the word behaviorology.” (B. F. Skinner) 

“If I may suggest a remedy: in the privacy of your bath, try saying behaviorology aloud at least 50 times.” (Jerome “Jerry” Ulman)

Que tipo de ciência é a análise do comportamento? Ora descrita como parte da biologia, ora como parte da psicologia, ainda hoje permanece controversa sua posição no cenário científico. B. F. Skinner, talvez o principal epígono (se não prógono) dessa ciência no século XX sustentou diferentes posições sobre o assunto. Em algumas ocasiões, defendeu uma espécie de “reforma” da psicologia, reivindicando que no lugar da mente ou cérebro, o comportamento fosse estabelecido como objeto de estudo. Exemplo desses esforços são os textos “Can the experimental analysis of behavior rescue psychology?” (Skinner, 1983) e “Whatever happened to psychology as the science of behavior?” (Skinner, 1987)

Posteriormente, Skinner (1990, p. 1210) demonstrou certo desencanto diante dessa possibilidade, e encerrou seu último texto publicado em vida com a asserção: “se a análise do comportamento será chamada de psicologia, essa é uma questão para o futuro decidir”. Mas foi uma publicação póstuma que revelou uma mudança mais contundente de Skinner em relação à psicologia. Em “A world of our own” (Skinner, 1993/2014, p. 24), ele declarou: “Temos sido acusados de construir nosso próprio gueto, de recusar contato com outros tipos de psicologia. Em vez de sair do gueto, eu penso que deveríamos fortalecer os seus muros.”

O texto foi originalmente publicado num periódico chamado Behaviorology, e republicado pelo European Journal of Behavior Analysis em 2014. Essa edição do journal traz ainda a republicação de um dossiê (seguido de análises por uma série de comentadores) que revela um pouco sobre o contexto prévio à publicação de “A world of our own”: trata-se da correspondência trocada entre Jerome “Jerry” Ulman e B. F. Skinner, entre os anos 1986 e 1990.

Como Skinner, Ulman também mudou de opinião sobre o assunto ao longo do tempo. Na primeira carta endereçada a Skinner, datada de 20 de Junho de 1986, ele escreveu: “Eu cheguei à conclusão que você está inteiramente correto. Nós devemos continuar a luta pelo estabelecimento de uma psicologia científica. Por que abandonar o campo de batalha e deixar mentalistas e cognitivistas reivindicarem o título de psicólogos?” (Ulman, 1986/2014, p. 11). Dois anos depois, contudo, Ulman (1988/2014, p. 12) reconsiderou, e escreveu ao amigo: “…eu não mais compartilho daquela posição. Tornou-se cada vez mais evidente para mim que tentar reformar a psicologia é não somente uma grande perda de tempo e esforço, mas nos desvia da linha principal, de estabelecer uma ciência natural do comportamento.”

O descontentamento de Ulman ia além da psicologia: ele também se mostrava insatisfeito com a organização institucional da análise do comportamento. Em suas palavras: “Quando a ABA foi formada eu tinha esperança de que a nossa disciplina finalmente tivesse uma comunidade de apoio para o seu crescimento futuro. Mas ao longo dos anos, o que tenho observado naquela organização é uma crescente ‘deriva tecno-cognitiva’ longe da ciência básica do comportamento e do comportamentalismo radical, sua filosofia orientadora. Parece que cada vez mais estudantes de programas de análise de comportamento estão sendo ensinados como aplicar um determinado conjunto de estratégias de intervenção com diferentes tipos de comportamentos em várias configurações, enquanto a formação na ciência básica está sendo negligenciada.” (Ulman, 1988/2014, p. 12). É por conta dessa insatisfação que Ulman finaliza a carta comunicando a Skinner sua filiação a uma nova associação, a TIBA – The International Behaviorology Association.

Fato curioso que merece ser mencionado é a simpatia de Ulman pela filosofia marxista. Convencido de que o comportamentalismo radical subscreveria um “monismo materialista”, e crítico da tendência da psicologia em buscar explicações em “outros mundos” (como o mundo da “psique”), ele considera que a negligência ao modelo selecionista se deveria à resistência à demanda por modificar o ambiente: “Sem pressupor uma teoria da conspiração, essas orientações [psicológicas] do ‘outro mundo’ servem para sustentar o status quo … Eu acho que é útil para nós considerar a afirmação de Marx de que em qualquer sociedade as ideias dominantes são aquelas da classe dominante.” (Ulman, 1988/2014, p. 13) O comportamentalismo radical, na visão de Ulman, seria uma filosofia inerentemente subversiva, desafiadora das ideologias então vigentes.

Em resposta a essa carta, Skinner (1988/2014, p. 14) foi enfático: “Eu não gosto do termo ‘behaviorology’ … Eu prefiro permanecer um psicólogo desde que isso possa ser definido como Watson o fez em 1913.” Skinner escreveu ainda que o que era preciso era não tanto uma nova organização, mas um trabalho experimental mais ativo sobre campos ainda inexplorados, bem como discussão sobre as implicações da análise do comportamento para outras áreas. “Esse é o tipo de coisa que eu estou tentando fazer por mim mesmo nos dias de hoje. Receio que isso não é o que você queria ouvir, mas parece-me ser tudo o que eu devo tentar fazer pelo o resto da minha vida”: assim Skinner (1988/2014, p. 15) encerrou a resposta a Ulman.

Conquanto desapontado com a posição de Skinner, ousando alertá-lo que seus esforços em reformar a psicologia se traduziriam num trabalho de Sísifo, Ulman reponde reiterando a disposição dos “behaviorologistas” em lutar pelo reconhecimento de uma ciência natural do comportamento, e chega a comparar o papel da TIBA com aquele desempenhado por Thomas Huxley, o “bulldog de Darwin”, famoso por ser um dos principais defensores e disseminadores de suas ideias.

Em resposta, Skinner (1988/2014, pp. 15-16) agradece pelo “entusiasmo e lealdade” dos behaviorologistas, mas insiste que as preocupações capitais deveriam ser outras: “O que mais me preocupa não é a necessidade de ter uma outra organização, mas fazer com que as pessoas competentes ataquem o que está sendo feito em nome da psicologia. E os analistas do comportamento estão fazendo um monte de coisa errada eles mesmos. É difícil encontrar um artigo que não reporte algo acontecendo dentro da cabeça.” Além disso, ele chama atenção para a apatia da comunidade de analistas do comportamento, pouco disposta a responder a críticas ou popularizar seus achados: “Eu escrevi três artigos atacando a psicologia cognitiva, mas quem mais o fez? E quem tem falado para o público leigo?”

Mesmo concordando com as preocupações de Skinner (mais especificamente, com suas críticas à comunidade de analistas do comportamento), Ulman seguiu inconformado com sua posição em relação à psicologia, e estrila na penúltima carta: a manutenção de uma aliança com a psicologia serviria apenas para invalidar os esforços pelo estabelecimento da “behaviorologia”. Mas, surpreendentemente, o tom da próxima e última carta (na verdade, trata-se de uma breve nota) é bastante diferente: “Querido Fred, parabéns pela sua declaração de independência!” (Ulman, 1990/2014, p. 18). Era uma reposta a um pronunciamento de Skinner (que os amigos gentilmente chamavam de Fred) na 15ª. reunião da ABA em Milwaukee, posteriormente publicado em “A world of our own”: “Por muito tempo tentei seguir Watson em dizer que a psicologia era a ciência do comportamento. Eu agora estou convencido de que isso está errado.” (Skinner, 1993/2014, p. 21)

Passadas mais de duas décadas de todas essas declarações, provenientes de dois eminentes analistas do comportamento (sendo patente a influência de B. F. Skinner sobre a comunidade analítico-comportamental ainda hoje), convém questionar: poderiam elas ajudar a explicar o cenário contemporâneo da análise do comportamento no geral, e, em particular, das relações entre a análise do comportamento e a psicologia? Sejam quais forem as lições a tirar das cartas Ulman-Skinner, antes de reiterar ou abandonar suas ideias, convém notar como tais ideias sofreram mudanças profundas com o passar do tempo.

Um dos maiores méritos da republicação dessa correspondência, me parece, é que ela dá relevo a algumas circunstâncias que fizeram com que os autores se posicionassem do modo como se posicionaram inicialmente, às mudanças que operaram em seus discursos, e a potenciais variáveis que influenciaram tais mudanças. Isso ajuda a prevenir que transformemos numa doutrina aquilo que restou do comportamento verbal desses autores, ao mesmo tempo em que talvez nos ajude a refletir sobre a questão, ainda candente, da relação entre análise do comportamento e psicologia. Estamos em 2014: se, como Skinner alertou no passado, “essa é uma questão para o futuro decidir”, estejamos preparados!

Quer saber mais?

Ulman, J. D. (2014). The Ulman-Skinner Letters. European Journal of Behavior Analysis, 15 (1), 11-19.

Publicadas originalmente pela Behaviorology, as cartas também podem ser acessadas aqui.

Postado por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Vamos jogar ou estudar? Estratégias para melhorar o desempenho acadêmico de universitários

games and study

Todo fim de semestre é assim: depois do desespero para fazer as leituras a tempo para as provas, você promete que no próximo semestre estudará um pouco a cada semana, desde o início. Mas no semestre seguinte, você percebe que aquilo não passou de uma promessa. Tudo o que você queria era uma fórmula mágica que te motivasse a estudar. Mas será que isso já não existe?

Se é uma fórmula mágica ou não, eu não sei dizer, mas que há uma maneira que pode te motivar a estudar semanalmente, certamente há! Pelo menos é o que diz os resultados de uma pesquisa que descobriu que atividades em forma de jogos, envolvendo a formulação de perguntas e respostas pelos próprios estudantes melhoraram os seus desempenhos em testes subsequentes.

Nancy Neef e seus pesquisadores colaboradores, da Ohio State University verificaram que, dos oito alunos que participaram de um jogo no qual um grupo fazia perguntas para o outro responder, e vice-versa, sete acertaram um número significativamente maior de questões do que quando a forma de estudo não envolvia o jogo. Os autores comentaram, inclusive, que essa diferença é o equivalente a mudança de um conceito (se os participantes do jogo conseguissem um “A”, por exemplo, o grupo sem jogo conseguiria um “B”). E não foi só isso! A pesquisa durou oito semanas, e os resultados mostraram que os universitários que participaram do jogo tiveram desempenhos maiores do que quem estava na condição de não jogo em quase todas as semanas. Agora imagine quanto tempo eles passaram jogando para obter desempenhos tão altos. Seis horas semanais? Quatro? Não! Foram apenas 20 minutos por semana!!!

Descobrir estratégias que facilitem o estudo, nos motivem a rever os materiais e consigam nos manter estudando ao longo de uma disciplina ou curso são fundamentais para facilitar a vida dos estudantes, aumentando a motivação e diminuindo o caráter aversivo do estudar. Estudando um pouco por vez, os alunos não precisarão lidar com grande parte do material dias antes das provas, o que costuma gerar bastante ansiedade, além de poder tirar as dúvidas com os professores a cada unidade estudada, e ter consciência sobre quais conteúdos precisarão ser revisados com mais detalhe antes das provas.

E como eram os detalhes do estudo?

Os oito universitários frequentavam um curso de pós-graduação e foram divididos de maneira aleatória em dois grupos: um no qual a forma de estudo seria por meio desses jogos, e o outro no qual os estudantes simplesmente se sentavam com um tutor para discutir os planos e os progressos em um projeto que eles deveriam realizar e entregar no fim do curso. Esses dois grupos foram ainda sub-divididos em duas equipes cada, possibilitando, assim, que uma equipe fizesse questões para a outra, na condição de jogo.  Uma característica importante é a de que o grupo de jogo era alternado com o de não jogo, ou seja, se em uma semana o Grupo 1 realizava o jogo e o Grupo 2 não, na semana subsequente o Grupo 2 realizaria o jogo e o Grupo 1 não. Isso possibilitou comparar os resultados obtidos nos testes aplicados após cada jogo. Esses testes, que serviram como forma de avaliação utilizada nesse estudo, eram realizados no início de cada aula, tinham a duração de 20 minutos, e cobriam o material trabalhado na semana anterior, valendo até oito pontos na nota.

Pelo menos quatro perguntas deveriam ser feitas para o jogo antes da aula, e o autor tinha que saber as respostas dessas perguntas, uma vez que ele era responsável por dizer se o aluno que respondeu deu uma resposta adequada àquela pergunta. O professor lia essas perguntas antes da aula, e selecionava algumas delas para o jogo. As questões dos testes posteriores, entretanto, eram formuladas antes do recebimento dessas questões formuladas pelos alunos. Cada aluno que respondesse corretamente a uma pergunta ganhava um ponto para sua equipe. Além disso, cada aluno do grupo “desafiado” tinha que responder pelo menos uma pergunta, fazendo com que todos colaborassem. Durante cada jogo, ambos os times se passavam, em algum momento, por “desafiadores”, fazendo perguntas, e por “desafiados”, respondendo-as. Cada membro do time vencedor ganhava quatro pontos na nota do curso, e, em caso de empate, ambos os times ganhavam o incentivo.

E aí, vai conversar com seu professor para implementar essa ideia em sua classe?

O estudo: Neef, N.A.; Perrin, C.J.; Haberlin, A.T.; & Rodrigues, L.C. (2011). Studying as fun and games: Effects on college students’ quizz performance. Journal of Applied Behavior Analysis, 44(4), 897-901.

Escrito por Táhcita M. Mizael, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar, bolsista da CAPES.