Uma breve história do nojo: do “tira a mão, é caca!” ao nojo moral

disgust 1O nojo e os objetos que nos enojam parecem ser tão insignificantes que mal justificariam um post do nosso blog, certo? Errado. Hoje elevaremos o status do nojo e dos hábitos de higiene ao estrelato, começando pelo título do artigo – uma brincadeira com o famoso livro do Stephen Hawking, que discute a origem e as características do universo. Agora, você deve estar se perguntando: “o que uma coisa tem a ver com a outra”? E eu respondo: tudo! Voltaremos a essa questão ao final do texto.

Há evidências de que bebês não exibem nojo até os dois anos de idade. A partir dessa idade, o nojo se desenvolve em quatro estágios. Inicialmente as crianças começam a reagir aos eliciadores essenciais de nojo, tais como excretas do corpo humano e matéria em putrefação. Em seguida, passam a exibir repulsa aos eliciadores presentes na “natureza e nos animais” – como são categorizados os estímulos que nos lembram da nossa origem animal e da nossa mortalidade, tais como organismos mortos, falta de higiene, comportamento sexual inadequado e deformidades corporais. O terceiro estágio relaciona-se ao nojo sexual ou interpessoal pelo contato indesejado com pessoas. Finalmente, no quarto estágio, aparece o nojo moral, relativo a condutas morais repreensíveis tais como racismo, abuso sexual de crianças e assassinato.

Pense em algo bastante nojento (tipo um banheiro público bem sujo[1]). Pode ser que sua expressão facial tenha se alterado – seu nariz se enrugado e seu lábio superior se levantado; talvez tenha até colocado a língua entre os dentes – ou até que você tenha emitido uma interjeição de repulsa como “eca!” ou “ugh!”. Já se sabe que, em adultos, ver alguém com cara de nojo produz uma ativação neuronal similar àquela produzida pelo contato com o estímulo produtor do nojo. No entanto, como a sua aquisição se dá em crianças ainda é motivo de especulação. Há uma hipótese de que a sensação de nojo nas crianças seja eliciada por observar a resposta de repulsa dos pais. Outra, é que a criança reproduz a expressão facial dos pais nesse contexto e é isso que provoca nela o sentimento de nojo. Em oposição às duas primeiras, há outra hipótese que propõe apenas que a criança interpreta a expressão facial e aprende a responder a isso, sem que a sensação seja eliciada.

Para investigar a aquisição de respostas de nojo e também como se dá a transmissão parental de hábitos de higiene das mãos, a equipe liderada por Megan Oaten, da Universidade de Macquarie, propôs um experimento com três fases distintas. Quase 100 duplas de cuidadores (a maioria eram mães) e filhos de diferentes idades (de 2 a 16 anos) participaram da pesquisa. Na primeira fase, as crianças eram familiarizadas com as medidas de autorrelato usadas no restante do estudo. Em seguida, as crianças eram expostas a várias situações que poderiam causar repulsa, tais como experimentar sorvete misturado com molho de tomate, colocar a mão em uma meia suja, cheirar compostos orgânicos que tinham odor de fezes e urina, tocar em bigatos e em um olho de vidro. Suas vocalizações eram registradas e as suas reações avaliadas por dois juízes treinados em identificação de expressões faciais. Depois disso, elas eram solicitadas a relatar suas sensações por meio das medidas de autorrelato. O mesmo procedimento foi realizado com fotos que apresentavam alguma violação sócio-moral como, por exemplo, uma mulher idosa casando com um rapaz muito jovem, alguém assaltando uma pessoa com deficiência, lixo espalhado em um parque e uma reunião do KKK[2].

Posteriormente, a criança sentava-se ao lado da mãe ou do pai enquanto eles eram expostos às mesmas situações descritas acima. Após observar a reação da mãe ou do pai, a criança tinha a oportunidade de interagir com os mesmos estímulos novamente. De forma bastante resumida, os resultados indicaram que o comportamento de nojo da criança quando sozinha poderia ser predito pelo comportamento dos pais. Além disso, os comportamentos de nojo dos pais que eram direcionados à criança (expressões faciais e vocalizações) também foram consistentes com a expressão de nojo pela criança, o que demonstra a importância das respostas dos pais para a modelagem da expressão de nojo nos filhos. Pais de crianças pequenas as orientaram mais a limpar as mãos após cada tarefa realizada e, além disso, pais que expressavam mais nojo solicitavam mais frequentemente que seus filhos limpassem as mãos. De forma geral, os pais que tinham maior propensão a ensinar seus filhos a fazer a higiene das mãos, também treinavam mais reações de nojo.

As relações descritas no estudo abrem um leque de possibilidades de interpretação. Pode ser que haja alguma predisposição herdada ao nojo; no entanto, há uma série de razões que dão suporte a uma explicação alternativa – a da transmissão parental. Um estudo realizado com gêmeos não encontrou semelhanças inatas ao responder a estímulos que provocam nojo. Em segundo lugar, o fato de que as reações de nojo dos pais de crianças pequenas eram mais exacerbadas e elas variavam de acordo com a idade da criança fornecem pistas de que reações mais pronunciadas podem não se relacionar com a sensibilidade individual ao nojo e sim com a presença da criança. E, sendo essas reações direcionadas à criança uma forma de transmissão, seria provável que a criança exibisse comportamentos desse tipo mesmo quando sozinha, o que ocorreu de fato. Outro dado que fortalece o argumento da aprendizagem é que a expressão observável de nojo foi semelhante entre pais e filhos.

Retomando nossa inicial “ode ao nojo”, podemos observar sua relevância evolutiva na preservação da nossa espécie. Somos ensinados a não nos aproximarmos de estímulos eliciadores de nojo e essa prática evita uma série de problemas decorrentes do contato com agentes patógenos, principalmente as infecções. A preservação da nossa saúde e da nossa espécie permite inúmeras possibilidades, inclusive realizar investigações científicas sobre o mundo que nos cerca e também teorizar sobre as origens do universo e dos próprios seres humanos! Convencido da importância do nosso “nojinho” de cada dia?

Oaten, M., Stevenson, R. J., Wagland, P., Case, T. I., & Repacholi, B. M. (2014). Parent-child transmission of hand hygiene: the role of vocalizations, gestures and other parental responses. The Psychological Record, 64, 803-811.

Postado por Laura Zamot Rabelo, doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano e bolsista FAPESP.

[1] Falando nisso, já viu nosso post sobre soluções simples para toaletes mais limpos? 

[2] O nojo sociomoral foi pouco discutido por conta de não ter se mostrado relevante nas análises realizadas.

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