Estudo experimental dos eventos privados: será que ela sente o que diz?

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Imagine a seguinte cena: uma criança diz à sua mãe que não quer ir à escola naquele dia. Quando questionada pela mãe acerca dos motivos, ela diz que está com dor de cabeça. Algo lhe pareceu familiar nessa cena doméstica? Você já esteve nessa situação? Se esteve, você se lembra do que aconteceu em seguida? Provavelmente, muitas crianças (e pasmem, adultos também! ) já deixaram de comparecer a compromissos simplesmente por relatarem uma dor de cabeça, desconforto estomacal ou uma angústia repentina! Mas, você já parou para pensar se a criança estava realmente com dor de cabeça quando disse estar? Essa é uma pergunta difícil de responder porque remete ao conceito de evento privado. Eventos privados são aqueles aos quais apenas a própria pessoa tem acesso, como a dor de cabeça, o desconforto estomacal, a angústia repentina[1].

Pensando em questões como a que colocamos acima, Corey Stocco, Rachel Thompson e John Hart, da Western New England University, realizaram uma pesquisa, composta de três estudos, para verificar os efeitos de algumas variáveis sobre o relato de eventos privados. Falaremos aqui sobre dois desses estudos, que tinham como objetivo verificar o efeito do grau de correspondência público-privado, da contingência de reforçamento envolvida e da audiência no ensino de tatos de eventos privados baseado em acompanhamentos públicos. Participaram dos experimentos dez estudantes universitários, com idades entre 18 e 21 anos.

Os pesquisadores ensinariam os participantes a classificar símbolos impressos em cartas semelhantes às cartas de um baralho. De um lado da carta havia um símbolo impresso que era acessível apenas ao participante, sendo considerado portanto, análogo ao evento privado. Esses símbolos deveriam ser relacionados com sílabas sem sentido (como “CUG”,” ZID”, “PAF”), e o experimentador explicava ao participante que cada sílaba correspondia a um símbolo que seria apresentado. Do outro lado da carta, havia uma figura impressa (parte de uma pintura de flores, por exemplo) que era vista pelo participante e pelo experimentador; este seria o acompanhamento público do evento privado.

De maneira geral, as sessões dos estudos eram compostas de trinta tentativas que ocorriam assim: (1) o experimentador fornecia uma folha com as sílabas sem sentido, que permanecia com o participante durante toda a sessão; (2) o experimentador pegava uma carta do baralho com a figura (acompanhamento público) virada para cima, e o símbolo (evento privado) virado para baixo; (3) o participante pegava a carta fornecida pelo experimentador, olhava o símbolo ao qual apenas ele tinha acesso e falava uma sílaba sem sentido da lista; (4) o experimentador sinalizava que o participante havia feito um ponto, caso ele tivesse dito a sílaba correta, sendo que a relação entre sílabas e figuras havia sido estabelecida pelos pesquisadores previamente. Os pontos acumulados em cada sessão eram trocados por brindes ao final do experimento.

Havia pequenas variações no procedimento em cada um dos estudos, considerando as variáveis investigadas. O estudo 1 investigou a influência do grau de correspondência entre os estímulos públicos e privados, considerando também a contingência de reforçamento envolvida.  Em um grau de correspondência alto, cada estímulo privado correspondia a uma única figura em 80% das tentativas. Em um grau de correspondência baixo, cada estímulo correspondia a uma única figura em apenas 40% das tentativas. A análise dos dados obtidos demonstrou que o tato acurado de símbolos privados era mais provável quando o reforçamento era baseado em um acompanhamento público mais altamente correlacionado ao estímulo privado. Além disso, o relato acurado de estímulos privados também foi mais frequente quando os pontos eram liberados pelo experimentador baseado na correspondência público-privado, e não apenas na topografia da resposta do participante. Para entender esses resultados, pense numa situação em que uma criança relata que se sente mal. Baseada em alguns acompanhamentos públicos, como vômito e febre, por exemplo, a mãe pode medicar a criança, permitir que ela não vá à escola naquele dia e ainda cobri-la de mimos. Olha como foi reforçador relatar o evento privado! Isso certamente aumenta a probabilidade de que a criança volte a emitir relatos semelhantes, certo? Mas note que as consequências reforçadoras foram liberadas mediante um alto grau de correspondência entre o evento privado relatado e os acompanhamentos públicos. Isso certamente não só aumenta a probabilidade de emissão do relato como aumenta também a probabilidade de emissão de relatos acurados.

O estudo 2 investigou a influência da audiência na acurácia de relatos de eventos privados. O procedimento era semelhante ao do estudo 1, com a diferença de que cada participante fazia metade das sessões com um experimentador e a outra metade com outro, alternadamente. Havia ainda dois esquemas de reforçamento envolvidos. Em um deles a liberação de pontos era baseada nos mesmos acompanhamentos públicos independente do experimentador (por exemplo, dizer “KEZ” diante de uma figura no centro da carta, para os dois experimentadores); em outro, a liberação de pontos era baseada em acompanhamentos diferentes para cada experimentador (por exemplo, diante de uma figura no centro da carta dizer “NEZ” para um experimentador e “KEZ” para o outro). Você consegue imaginar o que aconteceu? O principal resultado deste estudo é que todos os relatos dos participantes ficaram sob controle da audiência quando a contingência de reforço era diferente para cada experimentador. Não é difícil imaginar uma situação cotidiana que ilustre esse resultado. Se os pais ensinam respostas verbais diferentes diante do mesmo acompanhamento público, a criança pode relatar sensações diferentes, dependendo do interlocutor. Por exemplo, imagine uma criança com alergia. A sensação de coceira (evento privado) e a vermelhidão nos olhos (acompanhamento público) são bem comuns nessa situação. Só que olhos vermelhos também são bem comuns em outras situações, como quando estamos com sono. Se a mãe reforçar o relato “estou com alergia ”e o pai reforçar “estou com sono”, a sensação de coceira pode passar a controlar relatos diferentes, dependendo se a criança estiver diante do pai ou da mãe.

Pesquisas como esta são bastante interessantes porque propõem estudar experimentalmente as interpretações de Skinner e de outros autores acerca dos eventos privados. Como vimos, é possível manipular variáveis para estabelecer relatos mais precisos de eventos privados. Em contextos aplicados isso pode ser bem interessante, já que o relato preciso de eventos privados pode viabilizar intervenções mais efetivas. Por exemplo, a mãe da criança com alergia do exemplo acima, certamente seria mais efetiva nos cuidados para aliviar o desconforto do filho do que o pai. No entanto, alguns autores da Análise do Comportamento têm questionado a teoria de eventos privados quanto à sua função na explicação do comportamento. Os comentários a seguir levantam alguns desses questionamentos.

 

Comentário

Em um interessante texto de 2011, comentando sobre as críticas de William Baum em relação ao conceito de eventos privados, Charles Catania argumenta que:

 

“O ponto de uma análise verbal ou interpretação de termos privados não é alcançar o estímulo privado por meio do significado verbal, mas sim lidar com os termos privados como respostas verbais modeladas por uma comunidade verbal que tem apenas um acesso indireto, necessariamente público, a alguns estímulos pelos quais eles são ocasionados.” (p.232)

 

Essa parece ser também a perspectiva adotada no estudo de Corey Stocco, Rachel Thompson e John Hart. Como uma pessoa pode ensinar a outra respostas verbais relativas a eventos que apenas a pessoa ensinada tem acesso? Essa questão tem sido repetida desde o texto seminal de Skinner, “Análise operacional dos termos psicológicos”, de 1945, e, em boa medida, baliza o estudo e exploração dos chamados eventos privados. Porém, se nos detivermos um pouco a refletir, não é essa a questão que se coloca ao ensino de qualquer discriminação e descrição? Ou ainda, dando um passo atrás, poderíamos nos perguntar: será que essa questão é coerente com a compreensão comportamentalista radical da linguagem (comportamento verbal)? Bom, vamos lá, por partes.

Os argumentos presentes tanto no estudo apresentado, quanto no texto de Catania e em grande parte da obra de Skinner baseiam-se na compreensão de que os eventos privados são estímulos ou respostas acessados apenas pela própria pessoa que os sente ou que se comporta. Eventos privados são, portanto, eventos comportamentais. Na perspectiva comportamentalista radical eventos comportamentais são eventos relacionais, o que quer dizer se definem enquanto estímulos ou respostas apenas quando se configuram em uma relação comportamental. Assumimos que as relações comportamentais são acontecimentos únicos no tempo e no espaço, certo? E que envolve um organismo e seu ambiente, correto? Pois bem, se assim o é, todos os estímulos são acessíveis apenas ao organismo envolvido na relação comportamental em questão. Abstrato demais? Tentemos alguns exemplos. Tenho um criado mudo pintado de verde-petróleo. Aprendi a chamar essa cor desse nome a partir da exposição a objetos de cor semelhante, designados dessa forma. Porém tenho um amigo que insiste em dizer que ele é azul-petróleo. Será que enxergamos a mesma cor? Será possível dizer que estamos diante do mesmo estímulo? Minha opinião é que, a menos que assumamos uma posição realista[2], a resposta é não. Temos histórias diferentes, e nos relacionamos com o evento no mundo “criado mudo” de maneira distinta, ao menos em relação ao aspecto chamado cor (acho que ele usa um criado mudo para as mesmas coisas que eu… Será?). Um exemplo nesse sentido, bastante conhecido é o fato de que esquimós distinguem um número bem maior de tons de branco, relacionados a diferentes tipos de neve, que alguém que não habita as porções (con)geladas da Terra, como eu (e imagino que você também). Ora, de uma perspectiva realista não estaríamos, esquimó e eu, expostos aos mesmos estímulos? A cor da neve não é um evento público, não está acessível a nós dois? Se sim, como explicar o fato de que, em minha sincera experiência, não enxergo, nem sei descrever esses diferentes tipos de branco? Se não, então devemos reconhecer que as questões relativas à discriminação e descrição dos chamados eventos privados (como a dor de cabeça do exemplo do início do texto) constituem-se e devem ser encaminhadas da mesma maneira que para os ditos eventos públicos, ou seja, como questões relativas à compreensão do comportamento verbal.

Encaminhando a discussão a partir desse ponto de vista, podemos nos perguntar se a questão central à qual os pesquisadores procuram responder, a partir do conceito de eventos privados, ainda faz sentido, se é pertinente a uma perspectiva comportamentalista radical do comportamento verbal. Como discute Emmanuel Tourinho, em seu (brilhante!) livro “Subjetividade e relações comportamentais”, a compreensão expressa na proposta da pesquisa descrita no texto acima baseia-se em uma “(im)possível (ou supostamente desejável) correspondência” entre os eventos privados e a linguagem, aproximando-se de concepções problemáticas, como a concepção referencialista da linguagem. Tal como articulado pelos autores (e mesmo por Catania, e Skinner), é como se a descrição de uma experiência (dor nas costas) fosse uma referência a um determinado evento privado (“nervo pinçado”). Ora, a teoria do comportamento verbal skinneriana, ergue-se justamente contra a perspectiva referencialista, argumentando que o comportamento verbal é comportamento como qualquer outro, ou seja, construído a partir da interação com o ambiente, na forma de relações funcionais, e não como representação ou expressão de algo que pré-existe ou está para além dessa relação.

Nesse sentido não há uma ligação “mais direta” entre a resposta verbal para eventos públicos, como uma “máquina de escrever”, que para eventos privados, como “dor de dente” (para trazer à baila outro exemplo clássico). Como destacado por Carlos Eduardo Lopes em sua tese de doutorado, a compreensão baseada no conceito de eventos privados ganha forças justamente quando uma comunidade verbal desconsidera o contexto e as diversas situações que controlam o comportamento, e talvez mais especificamente, o comportamento verbal de uma pessoa. A questão central, dessa forma, desloca-se da tentativa de acessar o evento privado ou algum correspondente fiel a este, para a exploração das regularidades nas complexas contingências envolvidas em determinados comportamentos. O que a comunidade verbal faz, ou deve fazer, é ensinar seus membros a sentir e perceber seu corpo, por meio das ações percebidas por quem ensina e do histórico de contingências.

Tomado dessa perspectiva, como uma pesquisa acerca das variáveis envolvidas no comportamento verbal (sem essa distinção de eventos públicos e privados), o estudo de Stocco, Thompson e Hart proporciona resultados bastante interessantes, mostrando a força dos arranjos ambientais na determinação do comportamento. Em uma das condições experimentais do estudo 1, por exemplo, os participantes passaram a receber pontos apenas quando respondiam dizendo uma das sílabas sem sentido (ZID) para um conjunto de cartas (deck 1), e outra sílaba (PAF) para o outro conjunto (deck 2). Qual o resultado? O obvio aumento de frequência das respostas consequenciadas por pontos em cada um dos conjuntos de cartas. Os participantes passaram a responder sempre “ZID” quando o experimentador pegava cartas do deck 1, e sempre “PAF” quando o experimentador pegava cartas do deck 2, independentemente da figura ou do símbolo das cartas, anteriormente relacionados às diferentes sílabas sem sentido.

Além disso, como apontado de maneira geral pelos resultados dos estudos conduzidos nesse trabalho, quanto mais complexos os arranjos, menor a acurácia das respostas dos participantes, dando mais força à posição “anti-privatista” de que a dificuldade de discriminação e descrição dos fenômenos subjetivos é uma questão de complexidade e não de acessibilidade. Mais uma vez voltando a análises mais gerais, esse processo de ensino de discriminação e descrição de eventos será problemático (impreciso) somente se a comunidade em questão não reconhecer as relações entre as contingências e os estímulos sentidos. Considerando-se o porquê determinado evento no mundo é sentido, ou seja, considerando-se as contingências envolvidas na constituição desse evento como um estímulo discriminativo, é possível saber como a pessoa deve sentir-se em determinada situação.

Enfim, a questão ainda é bastante controversa, e ainda será motivo para muitos relatos (de eventos privados ou de fenômenos complexos), a encherem muitas páginas (de papel ou virtuais, como essa). E muito provavelmente muitas crianças ainda relatarão suspeitas dores de cabeça antes de ir pra aula, sem que se chegue a um consenso. Mas depois de todas essas histórias, e você, como se sente?

 

Quer saber mais?

 

Stocco, C. S., Thompson, R. H. & Hart, J. M. (2014). Teaching tacting of private events based on public accompaniments: effects of contingencies, audience control and stimulus complexity. Analysis of Verbal Behavior, 30, 1-19.

Catania, A. C. (2011). On Baum’s Public Claim That He Has No Significant Private Events. The Behavior Analyst34(2), 227-236.

Lopes, C. E. (2006); Behaviorismo radical e subjetividade. Tese de doutorado. São Carlos: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de São Carlos.

Michael, J., Palmer, D. C., & Sundberg, M. L. (2011). The Multiple Control of Verbal Behavior. The Analysis of Verbal Behavior27(1), 3–22.

Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e relações comportamentais. São Paulo: Paradigma.

 

Resumo da pesquisa por Naiene Pimentel, pós-doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano/ UFSCar – bolsista CAPES.

Comentários por Henrique Pompermaier, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/ UFSCar – bolsista FAPESP.

 

[1] Você pode rever algumas discussões sobre eventos privados na Análise do Comportamento no post “Qual é o lugar dos eventos privados na compreensão do comportamento?”, publicado em 23/07/2014, aqui no Boletim Behaviorista

[2] Por “posição realista” aqui, entendemos a compreensão de que o mundo existe real e objetivamente, e de que o conhecimento sobre ele é obtido pelo acesso a seus elementos e leis, de forma independente dos sujeitos que o percebem e sentem.

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3 thoughts on “Estudo experimental dos eventos privados: será que ela sente o que diz?

  1. Achei interessantíssima a criatividade desses pesquisadores em conseguir fazer um “modelo experimental” para estudar eventos privados. Essa ideia das cartas me pareceu genial. Infelizmente as correspondências entre certos eventos privados e certos eventos públicos nem sempre é clara e isso dificulta (ainda mais) as coisas.

    Só uma sugestão: achei o texto muito longo, com parágrafos grandes demais. Para um texto de divulgação isso pode dificultar um pouco para leitores iniciantes.

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