Incentivar financeiramente moradores de rua pode contribuir na adesão aos programas de capacitação para o emprego?

carteira

A pobreza e o desemprego são problemas que levam ao abandono e exclusão social, além de contribuírem para a dependência de álcool e uso de drogas ilícitas. Comumente, a falta de moradia e, muitas vezes, de emprego são grandes determinantes da flutuação no número de moradores de rua. Para se ter ideia, segundo estimativa do IBGE cerca de 31.922 pessoas são moradores de rua no Brasil.

A realidade norte americanados moradores de rua também não é diferente, os indicadores deste país apontam que a falta de educação e o desemprego são fatores intrinsecamente ligados a pobreza e exclusão social.

Com base nestes fatos, o estudo de Mikhail Koffarnus e colaboradores, publicado no Journal of Applied Behavior Analysis, teve como objetivo investigar se grupos que recebessem incentivo financeiro em um programa de capacitação ao emprego dedicariam mais horas e apresentariam maior progresso em comparação a um grupo sem nenhum tipo de incentivo planejado. O principal achado deste estudo foi mostrar empiricamente que fornecer incentivo financeiro em um programa de capacitação ao trabalho contribui paramaior empenho, aumentode tempo despendido e sucesso nos passos do programa.

Participaram do estudo 124 moradores de rua desempregados com diagnóstico de alcoolismo e mais de 18 anos de idade. O diagnóstico de alcoolismo foi baseado na Quinta Edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V).

Todos os participantes receberam um treinamento para fornecer habilidades de informáticaúteis parainserção no mercado de trabalho. A carga horária era de quatro horas diárias, e foram requeridos testes de bafômetro para verificar a ingestão de álcool. A primeira partedo programa de capacitação ensinava digitação aos participantes e a segunda parte do programa ensinava como digitar de maneira mais rápida e precisa.

Os participantes foram distribuídos em três grupos, que correspondiam a diferentes condições experimentais. Um grupo não recebeu pagamento durante o programa de treinamento (sem reforçamento).Outro grupo receberia pagamento (reforçamento), apenas por frequentar o programa e cumprir as exigências requeridas.O terceiro grupo receberia o pagamento (reforçamento), mas durante o programa deveria estar em abstinência de álcool.Cada acerto na tarefa dentro de determinado período de tempo aumentava um ponto em um contador na tela do computador individual de cada participante. Esses pontos se acumulavam e eram trocados por dinheiro, no caso dos grupos que receberam reforçamento, ou seja, incentivo financeiro. O pagamento diário era inicialmente 1 dólar por hora e poderia chegar a 5 dólares por hora, se o participante chegasse pontualmente e desempenhasse as etapas das tarefas de maneira satisfatória.

Em geral, os resultados mostram que a produtividade dos participantes ao completar os passos do programa foi significantemente maior no grupo com incentivo financeiro e no grupo com incentivo e abstinência. Os números de caracteres digitados por minuto foram maiores nos dois grupos com incentivo financeiro. Os dados também mostram maior pontualidade e frequência de comparecimento ao local de trabalho do programa nos dois grupos com incentivo financeiro. Entretanto, a acurácia de acerto ao longo das tarefas foimaior no grupo com incentivo financeiro e abstinência, se comparados ao grupo sem incentivo, e com pequena diferença em relação ao grupo que recebeu apenas incentivo e não precisava estar em abstinência.

De forma geral, os resultados do estudo confirmam o benefício da contingência de remuneração para o aumento de empenho e sucesso em um programa de treinamento para o emprego. Ao se consequenciar o sucesso em uma tarefa por meio de pequena remuneração, a qualidade do desempenho nas tarefas do programa também foi maior. Com base nos resultados do estudo, Mikhail Koffarnus e colaboradores comentam sobre a importância da criação de políticas públicas que estabeleçam o incentivo financeiro como recurso para promover comportamentos desejáveis para que os cidadãos em situação de risco tenham condições de superar suas adversidades. Os autores também indicam limitações do estudo, tais como: o uso de somente atividades de digitação e a falta de investigação sobre a efetividade do programa de capacitação em produzir aumento da empregabilidade dos participantes.

O uso de incentivos para promover comportamentos desejáveis em desempregado, não precisa ser exclusivamente por meio de remuneração financeira. Diferentemente das condições estabelecidas no estudo, uma ONG em Amsterdã pretende utilizar bebida alcoólica como incentivo para o trabalho. A ONG utiliza como pagamento cervejas e um pequeno incentivo financeiro diário aos dependentes de álcool. Ao longo do dia,os participantes do projeto trabalham como limpadores de rua, três vezes por semana, e recebem cinco latas de cerveja. Durante o trabalho eles não recebem cervejas adicionais e são acompanhados por uma monitora para evitar que,durante o período de trabalho, consumam bebidas além do estipulado, com recursos próprios. Enquanto muitos programas procuram evitar o uso do álcool, requerendo que os participantes estejam sóbrios,o que chama a atenção é o fato daONG estabelecer o consumo controlado de álcool em dependentes, ao invés de proibir.Porém, o uso do álcool como incentivo em uma população que apresenta dependência desta substância é polêmico e alguns especialistas da área questionam este tipo de procedimento.

Em contrapartida, o estudode Mikhail Koffarnus e colaboradores apresentou um grupoque deveria estar em abstinência alcoólica, pois grande parte da população contemplada pelo estudo apresenta dependência alcoólica, e programas de capacitação com incentivo financeiro poderiam diminuir também o uso destas substâncias. Interessante notar que o grupo que recebia apenas incentivo financeiro (e não precisava estar em abstinência) teve resultados praticamente semelhantes aos do grupo com condição deabstinência.Os dados mostram,então,que estar em abstinência não foi condição necessária para determinar empenho e sucesso no programa.

Desta forma, podemos pensar em intervenções que se foquem nos comportamentos necessários para retirar o alcoolista do desemprego, sem que necessariamente, ocorra a abstinência. É necessária reflexão sobre esta questão.

 

Quer saber mais? Leia:

O estudo:

Koffarnus, M. N., Wong, C. J., Fingerhood, M., Svikis, D. S., Bigelow, G. E., & Silverman, K. (2013). Monetary incentives to reinforce engagement and achievement in a job‐skills training program for homeless, unemployed adults.Journal of applied behavior analysis46(3), 582-591.

 

Sobre a ONG na Holanda:

http://www.bbc.com/news/world-europe-25548061

http://www.uniad.org.br/interatividade/noticias/item/22354-ong-usa-cerveja-como-sal%C3%A1rio-a-dependentes-de-%C3%A1lcool-na-holanda

 

Para saber mais sobre a situação dos moradores de rua e sensibilizar-se:

http://www.mds.gov.br/backup/arquivos/sumario_executivo_pop_rua.pdf

Muennig, P., Fiscella, K., Tancredi, D., & Franks, P. (2010). The relative health burden of selected social and behavioral risk factors in the United States: Implications for policy. American JournalofPublic Health, 100, 1758–1764.

Nascimento, Eurípedes Costa do, & Justo, José Sterza. (2000). Vidas errantes e alcoolismo: uma questão social. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(3), 529-538.

 

Escrito por Marlon Alexandre de Oliveira. Aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

 

 

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