Aborígenes… No limite?

Não é um tópico incomum nos cursos de Psicologia a crítica aos manuais nosográficos usados para diagnosticar “doenças mentais”, notadamente o DSM e a CID, nas suas diferentes edições. Contudo, apesar dessas críticas, no âmbito clínico e da saúde pública, tais manuais ainda reinam, impávidos, do alto de suas torres de marfim, alheios a qualquer sombra de crítica.

Em dois importantes artigos, os pesquisadores australianos Robyn Fromene e Bernard Guerin problematizam essa questão, particularmente no que faz referência ao diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline (Boderline Personality Disorder) em aborígenes australianos e ilhéus do estreito das Torres, advogando por uma compreensão dos sintomas em seu contexto cultural e histórico.

A população alvo destas pesquisas apresenta características que justificam um tratamento diferenciado, não apenas por motivos étnicos (relativos à sua cultura ancestral), mas também pelos efeitos deletérios das políticas públicas de sucessivos governos australianos desde princípios do século XX. Uma das políticas que teve maior impacto foi a remoção (praticada de 1909 até 1969) de crianças de ascendência mista de seus lares para serem postas aos cuidados de casais brancos ou de instituições públicas. Embora a intenção dessa política fosse, a priori, louvável (proteger crianças da negligência ou abandono), teve o efeito de desenraizar milhares de pessoas das suas famílias, comunidades e cultura, passando a ser conhecidas como as “Stolen Generations” (Gerações Roubadas).

É razoável pensar que os indivíduos e famílias pertencentes ou em contato com as Gerações Roubadas sofram de trauma coletivo, que se diferenciaria do trauma individual por uma série de indicadores: desmoralização (no sentido de desconfiança em sistemas, família, em si mesmo), desorientação ou confusão (incerteza a respeito de seu lugar social e sua identidade) e perda de conexão (quebra de normas culturais e isolamento social). Esse trauma tende a se perpetuar para as gerações seguintes, já que a habilidade de fornecer um apego adequado aos filhos, por exemplo, pode depender das experiências da própria pessoa na infância. Além disso, o DSM-IV não considera nos seus critérios diagnósticos características culturais dos aborígenes (e outras etnias) como, por exemplo, uma identidade mais coletivista ou ligada à comunidade do que o senso de identidade que seria padrão para um sujeito de cultura europeia ou norte-americana.

Considerando isso tudo, é pertinente fornecer um contexto para os sintomas que o DSM-IV usa para caracterizar o TPB, levando em consideração aspectos da população indígena, sejam estes de natureza étnica ou efeito das políticas assimilacionistas dos governos australianos.

Destarte, sintomas como o chamado “distúrbio de identidade” apresentam uma configuração totalmente diferente no caso dos aborígenes, cuja identidade se constrói a partir de diversos referentes, sendo que uma fonte importante de seu sentimento de identidade é grupal ou familiar (com costumes, crenças e normas próprias) e outro componente fundamental é a identidade imposta aos aborígenes pelos não-aborígenes, que costuma estar carregada de pré-conceitos. A difusão da identidade (dificuldade em integrar os aspectos positivos e negativos do self), típica dos pacientes de TPB seria exacerbada no caso dos aborígenes, que caminham entre duas sociedades e são vítimas constantes de estereótipos e vieses negativos.

Da mesma forma, o comportamento suicida e auto-lesivo, outro sintoma importante do TPB, é melhor compreendido utilizando uma abordagem contextual. Assim, embora o suicídio fosse uma prática incomum nas culturas aborígenes tradicionais, tem aumentado drasticamente, talvez como expressão de sentimentos de desamparo e futilidade. Já o comportamento de cortar-se, que embora muitos sujeitos com TPB usem como forma de aliviar suas intensas emoções, para os aborígenes frequentemente possui um significado ritual, associado as chamadas “Ações de tristeza” que é a forma tradicional de expressar luto quando morre algum membro da comunidade.

Em relação a outro sintoma, os sentimentos crônicos de vazio, cabe afirmar que em casos de trauma coletivo, em que o indivíduo perdeu muito do que era significativo para ele, é normal que ele desenvolva sentimentos de apatia e, tratando-se de trauma intergeracional, encontramos sintomas semelhantes aos que caracterizam a chamada “depressão vital” como perda de vitalidade, perda de sono, apetite, impulso sexual, etc. Mais concretamente, nos aborígenes, sentimentos de depressão e vazio se relacionam a mortes na família e ao trauma por eventos históricos e seus efeitos.

Sem ser exaustiva (nos artigos de Fromene e Guerin encontram-se análises mais detalhadas), esta análise contextual de diferentes sintomas de TPB mostra como é importante dar ênfase ao fato de que um diagnóstico que consista apenas em atribuir rótulos não está cumprindo nenhuma função benéfica, pois os nomes das doenças são apenas isso, nomes, e não necessariamente capturam a vivência e o sofrimento do sujeito. Para permitir uma aproximação a real experiência do individuo, é necessária uma abordagem contextual e histórica que inclua as variáveis ambientais relevantes, que no caso dos aborígenes certamente abrangem aspectos culturais e políticos específicos. Uma abordagem contextual na consideração desses comportamentos e sintomas implica, assim, em uma nova forma de olhar para estes sujeitos: não mais como indivíduos com “personalidade” borderline; mas como pessoas que padeceram ambientes sociais borderline. Não obstante essa especificidade anteriormente referida, lendo sobre as dificuldades dos aborígenes, inevitavelmente surge a questão: Quanto do que dissemos sobre eles não teria aplicação também para os indígenas brasileiros? Acaso não conhecemos casos de traslado forçoso de tribos inteiras de seus territórios originais para outros locais, onde ficam junto com outras tribos de línguas e costumes diferentes, no meio de disputas territoriais e implicando na perda de modos de vida e costumes ancestrais? Podemos sequer imaginar o impacto desses fatores sobre o senso de self e a saúde mental desses “outros” brasileiros?

Referências:

Fromene, R; Guerin, B; Krieg, A. (2014), Australian indigenous clients with a Borderline Personality Disorder diagnosis: A contextual review of the literature. Psychol Rec, 64: 559;567.

Fromene, R; Guerin, B. (2014).Talking with Australian indigenous clients with a Borderline Personality Disorder diagnosis: Finding the context behind the label. Psychol Rec, 64: 569;579.

Escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, Bolsista INCT ECCE.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s