É possível fazer as crianças lerem mais?

Djenane Todos sabem o quanto ler é importante. Imagine se os cientistas descobrissem como motivar as crianças a ler, ou seja, como fazê-las lerem mais. Que consequências isso poderia ter? Num estudo publicado em 2008, os pesquisadores Hubner, Austin e Miguel demostraram que é possível fazer as crianças lerem por mais tempo elogiando-as por falarem favoravelmente da leitura (quando não estão lendo). Como este estudo deixou algumas lacunas Sheyab, Pritchard e Maladay (2014) resolveram replicar o experimento corrigindo as limitações apresentadas por aqueles autores: (1) a simplicidade do delineamento experimental (2) a curta duração da linha de base somada à presença do experimentador nas sessões (que poderia ter produzido efeitos sobre os resultados). Novamente os resultados indicaram que é possível aumentar o tempo empregado em leitura pelas crianças pela apresentação de elogios por um adulto de modo contingente a falas favoráveis das crianças sobre a leitura quando elas não estão lendo. Mas qual a relação entre elogiar o que a criança diz e o aumento da duração do que ela faz?

Estudo das correspondências entre autodescrições do comportamento (o que se diz sobre o comportamento) e o respectivo comportamento não-verbal (as ações descritas) indica que apresentar consequências positivamente reforçadoras para descrições verbais correspondentes às ações descritas pode exercer um importante efeito sobre as ações propriamente ditas, equivalente ou superior à apresentação das consequências reforçadoras diretamente sobre as ações. Assim, uma vez que a correspondência dizer-fazer esteja estabelecida como parte do repertório comportamental de uma criança, modificar seus relatos (dizer) pode afetar também suas ações (fazer). Adicionalmente, há pesquisadores que sugerem que esta relação seja bidirecional. Intervir num dos lados da equação e medir o outro é uma forma de avaliar tais efeitos.

Foi o que Sheyab et al. (2014) fizeram. Eles agiram sobre as falas das crianças referentes à leitura (variável independente – VI) para verificar seus efeitos no tempo dispendido lendo (variável dependente – VD) utilizando o delineamento experimental de linha de base múltipla entre participantes (que permite avaliara relação funcional entre a VI e as VDs com maior precisão do que o delineamento de repetidas medidas com pré e pós intervenção utilizado por Hubner et al., 2008). Eles trabalharam com quatro crianças que já sabiam ler com compreensão, com idades entre nove e doze anos, mas que não apresentaram o comportamento de ler (ou o apresentaram em percentual muito baixo) nas sessões pré-intervenção. Nestas sessões, assim como nas de pós-intervenção, a criança era levada individualmente para uma sala com mesa, cadeiras, e alguns materiais sobre a mesa dentre eles livros, massa de modelar, brinquedos, papel e lápis de cor. Era instruída brevemente a fazer o que quisesse e o experimentador saía da sala. Todas as sessões foram filmadas e o tempo utilizado pela criança para ler foi registrado através das filmagens. Durante as sessões de intervenção, nas quais não havia materiais sobre a mesa, um outro experimentador iniciava uma conversa sobre leitura com a criança. Elogio (semelhante a “Legal saber que você gosta de ler”), reformulação ou parafraseio eram apresentados somente após a criança falar favoravelmente da leitura; tecnicamente, quando ela emitia tatos acompanhados de autoclíticos qualificadores positivos[1].Por exemplo, quando alguém diz: “ ‘Eu li e gostei disso,’ o tato para a leitura (eu li) é modificado pelo autoclítico (eu gostei disso) que caracteriza a leitura de forma positiva (autoclítico qualificador positivo)” (Hubner et al., 2008, p. 56).Outras respostas verbais eram ignoradas.

Os resultados mostraram que para todas as crianças o tempo destinado à leitura aumentou nas sessões pós-intervenção. O tempo médio utilizado pelos participantes com leitura nas sessões pré e pós intervenção foi respectivamente: 0% e 78% para Am; 0% e 83% para Ha; 6% e 84% para Rag; e 23% e 95% para Ram. Tais resultados replicamos obtidos por Hubner et al. (2008)e foram alcançados com a inclusão de estratégias para superar as limitações apontadas por estes autores. Pode-se concluir que uma forma de produzir uma mudança comportamental socialmente tão relevante quanto aumentar o tempo utilizado com a leitura foi demonstrada e está disponível: elogiar falas favoráveis à leitura (comportamento verbal; autoclíticos qualificadores positivos) em crianças que já apresentam a correspondência entre dizer e fazer estabelecida. Sheyab et al. (2014) argumentaram que alguns outros processos comportamentais, além do descrito, também podem ser utilizados para explicar o aumento no tempo dispendido em leitura, indicaram limitações do estudo e temas para pesquisa futura.

Ficou curioso(a)? Confira o artigona íntegra!

Referências:

Hubner, M., Austin, J., & Miguel, C. (2008).The effects of praising qualifying autoclitics on the frequency of reading. The Analysis of Verbal Behavior, 24, 55–62.

Sheyab, M., Pritchard, J., & Malady, M. (2014).An Extension of the Effects of Praising Positive Qualifying Autoclitics on the Frequency of Reading.The Analysis of Verbal Behavior, 30, 2, 141-147.

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton.

[1]Tatos são operantes verbais sob controle de estímulos não verbais, ou seja, os operantes verbais que utilizamos para falar dos objetos e eventos do mundo assim como de suas propriedades (Skinner, 1957). O autoclítico é um operante verbal que acompanha algum outro operante verbal (neste caso os tatos; Skinner, 1957). Sua função mais geral é tornar ‘a fala’ (os operantes verbais que acompanha) mais efetiva em relação ao comportamento do ouvinte (Skinner, 1957; Hubner et al, 2008; Sheyab et al., 2014). Autoclíticos descritivos apontam tanto para aspectos das situações em que uma resposta verbal é emitida quanto para aspectos do repertório do falante ao apresentar uma resposta verbal. Autoclíticos qualificadores de tatos afetam a intensidade ou direção do comportamento do ouvinte.Autocliticos descritivos e qualificadores podem aparecer de modo combinado em uma resposta verbal (Skinner, 1957).

Escrito por:
Djenane Brasil da Conceição
Professora Assistente UFRB
Doutoranda Ppgpsi/Ufscar,
Bolsista Capes- Fulbright 2013/2014; Bolsista Capes Prodoutoral
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s