O papel e o funcionamento da visão na aprendizagem de discriminações simples

Tradicionalmente, a discriminação simples descreve relações de controle entre dois estímulos antecedentes sobre a probabilidade de emissão de uma classe de respostas. Um caso exemplar do referido fenômeno pode ser observado em um semáforo de trânsito onde, costumeiramente, o motorista acelera o carro diante do sinal verde ou freia quando o sinal fica vermelho. Esse exemplo é simplório, mas serve para demonstrar a condicionalidade que pode existir entre as modificações no ambiente (estímulos) e as modificações no organismo (resposta).

Ao descrevermos um operante discriminado, pode ser suficiente especificar as condições de estímulos antecedentes e uma classe de resposta. No exemplo acima, os estímulos são as cores das luzes no semáforo e classe de resposta é acelerar o carro. Essas especificações são suficientes para dizermos algo sobre o comportamento de dirigir com segurança. No entanto há uma série de mecanismos sensoriais complexos que são mobilizados para a execução de tal atividade que podem ficar de fora da análise.

Dentre os sistemas sensoriais, pode-se considerar que a visão é um dos mais importantes para nós, humanos. No entanto, o papel desse sentido na aprendizagem de discriminações de padrões visuais não havia recebido a devida atenção da Análise Experimental do Comportamento.

Cientes da necessidade de preenchimento dessa lacuna e da necessidade de combinar tecnologias para o estudo do papel da visão na aprendizagem de operantes discriminados, os pesquisadores da Universidade de São Paulo, William Perez, Peter Endemann, Candido Pessoa e Gerson Tomanari deram passos importantes na formulação de um programa de pesquisa sobre o comportamento de observação em humanos. Tal avanço só foi possível graças ao uso combinado da estratégia tradicional de estabelecimento de operantes discriminados em laboratório utilizando simulações computadorizadas e da tecnologia desenvolvida para registrar o comportamento de observação dos participantes ao longo de todo o experimento.

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Figura 1. O ISCAN®.

O ISCAN® possui dois sistemas de câmeras interconectadas. A microcâmera de vídeo padrão, localizada na parte dianteira do equipamento acima ilustrado, focaliza a tela de um computador onde os estímulos estão sendo apresentados. Ao mesmo tempo, uma fonte de luz infravermelha (comprimento de onda não nocivo para o sistema visual humano) é projetada na direção da retina do participante. Um espelho localizado logo abaixo do olho do participante reflete a luz da retina, que é, por sua vez, captada por uma segunda microcâmera. A conjugação da imagem produzida pela microcâmera de vídeo padrão, mais a imagem da microcâmera infravermelha, resultam na seguinte imagem:

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Figura 2. Monitor do computador conforme o ponto de vista do participante. O alvo marcado com o círculo vermelho corresponde à região do monitor que está sendo focalizada pelo olhar do participante.

Trajando o ISCAN®, os participantes foram, inicialmente, treinados a discriminar dois estímulos complexos que eram apresentados no monitor de um computador. Os estímulos complexos eram formados por elementos de duas dimensões distintas de forma e cor (triângulo + círculo vermelho e quadrado + círculo verde). Durante a Fase 1, clicar com o mouse na porção da tela em que estavam posicionados um triângulo branco e um círculo vermelho, produzia um estímulo sonoro (“bipe”), convencionado como a escolha correta. Por outro lado, clicar com o mouse na porção da tela em que estavam posicionados um quadrado branco e um círculo verde, produzia um estímulo sonoro com acordes dissonantes, indicativos de uma escolha incorreta.

Em seguida, os participantes foram submetidos a seis testes, nos quais as formas e cores de estímulos eram recombinadas e apresentadas separadamente para os participantes. No Teste 1, as formas e as cores foram apresentados simultaneamente e os participantes deveriam clicar sobre apenas um deles. Em seguida os estímulos foram apresentados em quatro arranjos distintos: triângulo vs. quadrado (Teste 2); triângulo vs. círculo verde (Teste 3); círculo vermelho vs. quadrado (Teste 4); círculo vermelho vs. círculo verde (Teste 5). Para o Teste 6, foram apresentados novos estímulos (triângulo verde e quadrado vermelho).

Ao final da última fase de teste, os padrões iniciais de cor+forma passaram a ser reapresentados. Porém os participantes foram treinados a produzir o “bipe” clicando com o mouse a porção da tela em que estava sendo apresentado o triângulo branco + o círculo vermelho. Após aprenderem a nova tarefa, os participantes foram submetidos novamente à bateria de testes.

Os resultados mostraram que os participantes sempre observavam mais o padrão complexo de forma+cor diante do qual a resposta de clicar era seguida pelo estímulo reforçador (“bipe”). Durante a bateria de testes, observou-se que os participantes tendiam a observar por mais tempo uma das dimensões do estímulo (ou a forma ou a cor), ainda que ambas fossem igualmente precisas em sinalizar a contingência de reforço. Esse padrão de comportamento de observação foi idiossincrático e variou de participante para participante. Dois participantes, por exemplo, observaram por mais tempo as formas geométricas enquanto um participante observou, por mais tempo, as cores.

Mas por que isso aconteceu? Ainda é difícil explicar ou chegar a conclusões definitivas! No entanto, o principal ensinamento a ser apreendido a partir da pesquisa é que tendemos a manter o foco da visão naqueles estímulos que indicam a disponibilidade de reforçadores. Reconhecer que o comportamento de observação é afetado por contingências de reforçamento positivo é um primeiro passo para que as condições de ensino de operantes discriminados, tão importantes no nosso dia a dia, sejam melhoradas com o intuito de garantir aprendizagens mais rápidas e eficientes.

Caso o seu comportamento de observação tenha te trazido até aqui, isso significa que as pesquisas sobre o papel da visão na aprendizagem da discriminação simples são poderosos reforçadores positivos para o seu comportamento de pesquisar! Portanto, pegue a referência abaixo e confira o estudo na íntegra. Preste bem atenção e observe todos os detalhes!

Confira o estudo na íntegra:

Perez, W. F., Endeman, P., Pessoa, C. V. B. B., & Tomanari, G. A. Y. (2015). Assessing stimulus control in a discrimination task with compound stimuli: Evaluating testing procedures and tracking eye fixations. The Psychological Record, 65, 83-88.

Contribuição de Marcelo Vitor Silveira

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela UFSCar

Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (INCT-ECCE)

Bolsista FAPESP.

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Insaciabilidade: inimiga ou aliada da sustentabilidade?

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Como lidar com bilhões de pessoas insaciáveis num mundo de recursos finitos? Essa é uma questão que tem preocupado economistas, cientistas políticos e ambientalistas contemporâneos. Antenados com essa preocupação, alguns analistas do comportamento também têm se esforçado para contribuir, por meio de pesquisas factuais e conceituais. Exemplo disso é o interessante trabalho conceitual de Lyle Grant, da Athabasca University, publicado em 2014 pela Behavior and Social Issues, sob o título de Insaciabilidade: parte do problema ou parte da solução?

(In)saciabilidade tem sido tema candente em debates sobre sustentabilidade, porque muitos indicam o consumismo como o vilão responsável por problemas como aquecimento global e esgotamento de recursos. Nas palavras de Grant (p. 52), “os produtos de consumo exigem a queima de combustíveis fósseis para a sua fabricação e o seu transporte, de modo que o início da saciedade a esses produtos e ao dinheiro usado para comprá-los poderia diminuir o consumo de materiais e reduzir o uso de combustíveis fósseis” (supostamente responsável pelo aquecimento global)[1].

Algumas teorias econômicas orbitam a noção de que, uma vez satisfeitas as necessidades físicas, o nível de “saciação”[2] acenderia progressivamente conforme a renda, até finalmente atingir a saciação total. “Se é verdade que há um ponto em que o aumento da renda e do consumo material deixam de funcionar como reforçadores e não melhoram a felicidade ou o bem-estar, então este deve agir como um freio natural do consumo.” (p. 54). Mas essas teorias têm sido desafiadas por achados que corroboram a hipótese oposta, a da insaciabilidade: pesquisas têm demonstrado que o bem-estar autorrelatado aumenta conforme aumenta a renda, mesmo quando tal renda atinge somas gigantescas – não haveria um “ponto de saciação” para o dinheiro. À época da divulgação de tais pesquisas, veículos de comunicação de massa não titubearam em reportar: os dados indicariam que o dinheiro poderia, sim, comprar felicidade.

O que a análise do comportamento teria a dizer sobre o assunto? Grant (p. 57) sugere que compreender o efeito exercido por reforçadores generalizados ajudaria a iluminar a questão:  “Reforçadores condicionados generalizados (ou simplesmente reforçadores generalizados) são eficazes como reforçadores de forma independente de qualquer estado específico de privação. O dinheiro é um exemplo de reforçador generalizado. Dinheiro funciona como reforçador estejamos ou não com fome, sede, frio, etc., porque ele pode ser trocado por uma grande variedade de outros reforçadores condicionados e incondicionados … Reforçadores generalizados proporcionam uma base para a insaciabilidade comportamental porque uma vez que um reforçador generalizado é estabelecido, ele é eficaz, potencialmente infinitamente, sob uma ampla variedade de condições e independentemente de quaisquer necessidades biológicas específicas. Desejos insaciáveis por dinheiro e renda, por exemplo, estão enraizados no estatuto do dinheiro como um reforçador generalizado, que, de forma clara, freqüente e quantitativa sinaliza a disponibilidade de uma ampla variedade de outros reforçadores.”

Mas se é verdade que o consumismo é o grande vilão, como proceder? Há os que apostam em estratégias como a taxação do consumo, ou da propaganda, que poderia surtir algum efeito positivo sobre a sustentabilidade ao “reduzir a demanda artificialmente criada por renda e produtos de consumo” (p. 60). No entanto, como o autor assinala posteriormente, “esforços no sentido de cercear a insaciabilidade são improváveis de ter sucesso porque desafiam e ameaçam fontes de satisfação das pessoas. Uma abordagem com melhores perspectivas, pelo menos a médio e longo prazo, é alterar o que motiva as pessoas e reforça o seu comportamento.” (p. 62). Desse modo, de antagonista da sustentabilidade, a insaciabilidade poderia passar a ser vista como aliada na produção de um mundo mais sustentável. Como?

De acordo com Grant, o desafio consistiria em potencializar o efeito de reforçadores generalizados sustentáveis. Além do dinheiro, atenção, afeto, aprovação e autonomia também são descritos como reforçadores generalizados. Considerando que “a ausência de um ponto de saciação para o dinheiro também se aplica, em princípio e na prática, a outros reforçadores generalizados” (p. 57), o engajamento em atividades acadêmicas, artísticas, esportivas, dentre outras, proveria o acesso a tais reforçadores como alternativa sustentável. A maneira como alocamos nosso tempo diário depende da disponibilidade do reforçamento provido por diferentes fontes, e o tempo gasto em cada atividade parece ser proporcional ao reforçamento provido por tais atividades. Daí a importância de elevar da efetividade dos reforçadores intrínsecos à conduta sustentável.

Às convencionais táticas de cerceamento da insaciabilidade não-sustentável, o reforçamento diferencial de comportamentos (sustentáveis) alternativos representa uma opção promissora. Exemplos providenciais têm sido oferecidos por algumas comunidades intencionais, cooperativas e por sociedades boêmias, que provém suporte social a práticas frequentemente desencorajadas pela cultura mainstream. O autor ressalva que “o repúdio completo ao dinheiro como reforçador ou fonte de satisfação, como visto em subculturas boêmias extremas, redunda numa incapacidade de negociar as realidades práticas de subsistência, muitas vezes com resultados trágicos” (p. 58). Como contraponto, é mencionado o movimento da simplicidade voluntária, que opera sob a premissa de que a cautela na gestão do dinheiro é essencial para o desfrute de uma vida em que o consumo pode vir a ser deliberadamente diminuído.

“A renda é [apenas] um dos muitos reforçadores generalizados potencialmente poderosos, que incluem aqueles inerentes às artes, grande parte da ciência, computação de código aberto, esportes, conversas, relações familiares, jogos…” (p. 58). O modo como se organiza a cultura em comunidades alternativas sustentáveis pode encerrar dicas úteis aos que, embora não se interessem por outros aspectos dessas comunidades, interessam-se pelo desenvolvimento de uma educação para a sustentabilidade em sua própria comunidade. Tal educação poderia galvanizar a ação de reforçadores generalizados sustentáveis, obtidos por meio de atividades intelectuais, arte, relações interpessoais, esporte, espiritualidade etc. Trata-se de amplificar a sensibilidade humana a uma ampla gama de reforçadores sustentáveis, reconhecendo que a “insaciabilidade está, a um só tempo, no núcleo do problema e no coração da solução” (p. 63).

Quer saber mais? Acesse www.behaviorandsocialissues.org e confira o artigo na íntegra!

Referência:

Grant, L. (2014). Insatiability: Part of the Problem or Part of the Solution? Behavior and Social Issues, 23, 52-67.

Notas:

[1] Especialistas discordam sobre o quão consensual seria a hipótese antropogênica do aquecimento global (cf. Cook et. al., 2013 e 2014, e Tol, 2014 e 2014).

[2] Grant (2014, p. 53, itálicos meus) pontua que “Saciação e sua antítese, insaciabilidade, são conceitos utilizados de maneiras diferentes em economia e nas outras ciências comportamentais. A preocupação central aqui é com um desses usos, a noção de saciação como atingir um estado de satisfação econômica que reduz o consumo econômico, e insaciabilidade como a falha na ocorrência desse processo.”

Escrito por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

“Vamos brincar de quê?” O efeito do contexto no nível de atividade física das crianças

Silvana

O tema da obesidade infantil tem sido cada vez mais discutido em todo o mundo. Afinal de contas todos sabem das consequências que isto pode ocasionar na vida adulta. Mas, o que fazer para evitar este problema? A maioria concorda que uma das maneiras mais eficazes é incentivar o envolvimento das crianças em atividades físicas. Ah, mas então é só tirá-las dos aparelhos eletrônicos e mandar brincar? Ok, mas onde? Com quem? Tem brinquedos disponíveis? Quais? Estas são apenas algumas das variáveis que podem interferir no quanto as crianças se movimentam ou não. Entender como condições ambientais interferem no nível de atividade física pode ser útil para promover intervenções mais direcionadas.

Uma pesquisa realizada por Kristin Hustyi e colaboradores da University of the Pacific investigou uma dessas variáveis: o contexto das atividades ao ar livre. Os resultados apontaram que o equipamento fixo, como trepa-trepa (playground)  leva a um maior nível de atividade física. Parece até óbvio, mas como chegaram a esta conclusão?

Quatro crianças com idade de 4 anos participaram do estudo realizado na creche que elas frequentavam. Cada participante teve seu nível de atividade física medido por meio do Observational System for Recording Physical Activity Codes (OSRAC). De maneira geral, é um instrumento de avaliação que utiliza códigos de 1 a 5, onde 1 representa atividades de menor movimento e 5 atividades de maior movimento, em um certo período de tempo.  Foi utilizado o Moderate-to-vigorous physical activity (MVPA) como medida do nível de atividade. O percentual deste era calculado dividindo o número de intervalos que o participante se engajava em atividades nível 4 e 5 pelo número total de intervalos de análise.

Para fazer estes registros, primeiramente as crianças eram observadas brincando em condições naturais, onde todos os contextos estavam simultaneamente disponíveis, o que servia como uma linha de base. Nas condições experimentais a criança era inserida sozinha nos seguintes contextos (não havia interação com o experimentador):

Brinquedos ao ar livre: vários brinquedos para atividades motoras estavam presentes como bolas, baldes e pás, bambolês, discos etc.

Equipamento fixo: nesta condição estava disponível o trepa-trepa (playground) que incluía 2 escorregadores, barras, escadas e várias áreas de escalada.

Espaço aberto: nenhum material de atividade específica estava presente.

condição controle: a criança ficava em uma área separada das usadas nas outras condições. Uma mesa com vários materiais como livros para colorir, lápis de cor etc, ficava disponível.

Os resultados apontaram que todos os participantes ficaram envolvidos com os materiais das sessões, mas foi obtido um maior nível de atividades na condição com o equipamento fixo. O interessante é que não foi identificado engajamento com esta atividade na linha de base, ou seja, em situação natural as crianças gastaram o mesmo tempo no espaço livre e com os brinquedos. Os autores concluem que este tipo de avaliação pode ser útil para verificar os efeitos do contexto ambiental na atividade física de criança. Neste caso, por exemplo, poderia possibilitar uma intervenção individualizada ou em grupo, provendo reforço contingente para o engajamento no equipamento fixo. As limitações estão no fato de que só houve manipulação do contexto, mas é claro que é importante para uma análise funcional do comportamental considerar todas as outras variáveis como presença de outras pessoas e consequências. Interessante não é?

Quer saber mais? Leia:

Hustyi, K. M., Normand,M. P., Larson, T.A. & Morley, A. J. (2012). The effect of outdoor activity context on physical activity in preschool children. Journal of Applied Behavior Analysis, 45(1), 401-405.

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Aluna de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos