Insaciabilidade: inimiga ou aliada da sustentabilidade?

insaciabilidade1

Como lidar com bilhões de pessoas insaciáveis num mundo de recursos finitos? Essa é uma questão que tem preocupado economistas, cientistas políticos e ambientalistas contemporâneos. Antenados com essa preocupação, alguns analistas do comportamento também têm se esforçado para contribuir, por meio de pesquisas factuais e conceituais. Exemplo disso é o interessante trabalho conceitual de Lyle Grant, da Athabasca University, publicado em 2014 pela Behavior and Social Issues, sob o título de Insaciabilidade: parte do problema ou parte da solução?

(In)saciabilidade tem sido tema candente em debates sobre sustentabilidade, porque muitos indicam o consumismo como o vilão responsável por problemas como aquecimento global e esgotamento de recursos. Nas palavras de Grant (p. 52), “os produtos de consumo exigem a queima de combustíveis fósseis para a sua fabricação e o seu transporte, de modo que o início da saciedade a esses produtos e ao dinheiro usado para comprá-los poderia diminuir o consumo de materiais e reduzir o uso de combustíveis fósseis” (supostamente responsável pelo aquecimento global)[1].

Algumas teorias econômicas orbitam a noção de que, uma vez satisfeitas as necessidades físicas, o nível de “saciação”[2] acenderia progressivamente conforme a renda, até finalmente atingir a saciação total. “Se é verdade que há um ponto em que o aumento da renda e do consumo material deixam de funcionar como reforçadores e não melhoram a felicidade ou o bem-estar, então este deve agir como um freio natural do consumo.” (p. 54). Mas essas teorias têm sido desafiadas por achados que corroboram a hipótese oposta, a da insaciabilidade: pesquisas têm demonstrado que o bem-estar autorrelatado aumenta conforme aumenta a renda, mesmo quando tal renda atinge somas gigantescas – não haveria um “ponto de saciação” para o dinheiro. À época da divulgação de tais pesquisas, veículos de comunicação de massa não titubearam em reportar: os dados indicariam que o dinheiro poderia, sim, comprar felicidade.

O que a análise do comportamento teria a dizer sobre o assunto? Grant (p. 57) sugere que compreender o efeito exercido por reforçadores generalizados ajudaria a iluminar a questão:  “Reforçadores condicionados generalizados (ou simplesmente reforçadores generalizados) são eficazes como reforçadores de forma independente de qualquer estado específico de privação. O dinheiro é um exemplo de reforçador generalizado. Dinheiro funciona como reforçador estejamos ou não com fome, sede, frio, etc., porque ele pode ser trocado por uma grande variedade de outros reforçadores condicionados e incondicionados … Reforçadores generalizados proporcionam uma base para a insaciabilidade comportamental porque uma vez que um reforçador generalizado é estabelecido, ele é eficaz, potencialmente infinitamente, sob uma ampla variedade de condições e independentemente de quaisquer necessidades biológicas específicas. Desejos insaciáveis por dinheiro e renda, por exemplo, estão enraizados no estatuto do dinheiro como um reforçador generalizado, que, de forma clara, freqüente e quantitativa sinaliza a disponibilidade de uma ampla variedade de outros reforçadores.”

Mas se é verdade que o consumismo é o grande vilão, como proceder? Há os que apostam em estratégias como a taxação do consumo, ou da propaganda, que poderia surtir algum efeito positivo sobre a sustentabilidade ao “reduzir a demanda artificialmente criada por renda e produtos de consumo” (p. 60). No entanto, como o autor assinala posteriormente, “esforços no sentido de cercear a insaciabilidade são improváveis de ter sucesso porque desafiam e ameaçam fontes de satisfação das pessoas. Uma abordagem com melhores perspectivas, pelo menos a médio e longo prazo, é alterar o que motiva as pessoas e reforça o seu comportamento.” (p. 62). Desse modo, de antagonista da sustentabilidade, a insaciabilidade poderia passar a ser vista como aliada na produção de um mundo mais sustentável. Como?

De acordo com Grant, o desafio consistiria em potencializar o efeito de reforçadores generalizados sustentáveis. Além do dinheiro, atenção, afeto, aprovação e autonomia também são descritos como reforçadores generalizados. Considerando que “a ausência de um ponto de saciação para o dinheiro também se aplica, em princípio e na prática, a outros reforçadores generalizados” (p. 57), o engajamento em atividades acadêmicas, artísticas, esportivas, dentre outras, proveria o acesso a tais reforçadores como alternativa sustentável. A maneira como alocamos nosso tempo diário depende da disponibilidade do reforçamento provido por diferentes fontes, e o tempo gasto em cada atividade parece ser proporcional ao reforçamento provido por tais atividades. Daí a importância de elevar da efetividade dos reforçadores intrínsecos à conduta sustentável.

Às convencionais táticas de cerceamento da insaciabilidade não-sustentável, o reforçamento diferencial de comportamentos (sustentáveis) alternativos representa uma opção promissora. Exemplos providenciais têm sido oferecidos por algumas comunidades intencionais, cooperativas e por sociedades boêmias, que provém suporte social a práticas frequentemente desencorajadas pela cultura mainstream. O autor ressalva que “o repúdio completo ao dinheiro como reforçador ou fonte de satisfação, como visto em subculturas boêmias extremas, redunda numa incapacidade de negociar as realidades práticas de subsistência, muitas vezes com resultados trágicos” (p. 58). Como contraponto, é mencionado o movimento da simplicidade voluntária, que opera sob a premissa de que a cautela na gestão do dinheiro é essencial para o desfrute de uma vida em que o consumo pode vir a ser deliberadamente diminuído.

“A renda é [apenas] um dos muitos reforçadores generalizados potencialmente poderosos, que incluem aqueles inerentes às artes, grande parte da ciência, computação de código aberto, esportes, conversas, relações familiares, jogos…” (p. 58). O modo como se organiza a cultura em comunidades alternativas sustentáveis pode encerrar dicas úteis aos que, embora não se interessem por outros aspectos dessas comunidades, interessam-se pelo desenvolvimento de uma educação para a sustentabilidade em sua própria comunidade. Tal educação poderia galvanizar a ação de reforçadores generalizados sustentáveis, obtidos por meio de atividades intelectuais, arte, relações interpessoais, esporte, espiritualidade etc. Trata-se de amplificar a sensibilidade humana a uma ampla gama de reforçadores sustentáveis, reconhecendo que a “insaciabilidade está, a um só tempo, no núcleo do problema e no coração da solução” (p. 63).

Quer saber mais? Acesse www.behaviorandsocialissues.org e confira o artigo na íntegra!

Referência:

Grant, L. (2014). Insatiability: Part of the Problem or Part of the Solution? Behavior and Social Issues, 23, 52-67.

Notas:

[1] Especialistas discordam sobre o quão consensual seria a hipótese antropogênica do aquecimento global (cf. Cook et. al., 2013 e 2014, e Tol, 2014 e 2014), não obstante tal hipótese já tenha sido previamente contestada por Lindzen (2011), Molion (2008), Khilyuk & Chilingar (2006), dentre outros.

[2] Grant (2014, p. 53, itálicos meus) pontua que “Saciação e sua antítese, insaciabilidade, são conceitos utilizados de maneiras diferentes em economia e nas outras ciências comportamentais. A preocupação central aqui é com um desses usos, a noção de saciação como atingir um estado de satisfação econômica que reduz o consumo econômico, e insaciabilidade como a falha na ocorrência desse processo.”

Escrito por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

Advertisements

One thought on “Insaciabilidade: inimiga ou aliada da sustentabilidade?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s