Autocontrole Ético: Estudos experimentais podem traduzir os fenômenos sociais para o laboratório?

água

Principalmente em períodos onde existe a escassez de algum recurso natural nos lembramos de quanto é importante o uso consciente destes. Atualmente, por exemplo, o estado de São Paulo está preocupado com o nível de seus reservatórios de água. Alguns anos atrás,  um problema energético grave foi o estopim para campanhas para mudança de hábitos e maneiras de consumo destes recursos. Várias sugestões para promover a economia destes recursos são divulgadas em jornais e programas televisivos. É nesse momento que notamos: poxa vida! Como é difícil mudar alguns hábitos!

Desde o início da Análise do Comportamento, Skinner mostrava-se preocupado com o papel que a ciência deveria ter em auxiliar a sociedade a sobrepujar esses problemas. Ele defendia a análise social e cultural como componentes fundamentais do behaviorismo radical. Como poderíamos encarar sob uma ótica comportamental essas questões ligadas a utilização de recursos naturais e aos problemas de escassez que estamos enfrentando? Pesquisadores têm tratado esses problemas em estudos bastante engenhosos analisando o que chamam de Autocontrole Ético (Borba, Silva, Cabral, Souza, Leite & Tourinho, 2014). Mas o que é Autocontrole Ético?

Vamos por partes. Primeiro o que é Autocontrole? Autocontrole numa definição comportamental é uma resposta que, quando numa situação de escolha, produz reforçadores de maior magnitude, mas com um atraso também maior. É o oposto de uma resposta impulsiva que seria uma que produz um reforço imediato, porém de menor magnitude. Podemos pensar num exemplo hipotético, por exemplo, em que se deve escolher entre receber R$ 20,00 agora ou R$ 200,00 dentro de 60 dias. A resposta autocontrolada seria a escolha pelo reforçador de maior magnitude e com maior atraso, ou seja, os R$200,00 dentro de 60 dias. A resposta impulsiva é a escolha pelo reforçador de menor magnitude imediato, isto é, R$20,00 agora.. Um exemplo mais próximo do cotidiano poderia ser escolher uma salada ou frutas (resposta autocontrolada) a um bolo de chocolate ou sorvete (resposta impulsiva). A salada pode ser menos reforçadora imediatamente, contudo em longo prazo produzirá maiores benefícios para a saúde.

O Autocontrole Ético, diferente do que podemos pensar, não está ligada a acepção cotidiana da palavra ética. Na verdade o autocontrole ético ocorre quando essas respostas de autocontrole, como citado anteriormente, produzem consequências atrasadas, mas nesse caso que são favoráveis para a cultura. Produzir consequências favoráveis quer dizer exatamente produção de reforços positivos ou remoção de estimulação aversiva para muitos membros da cultura. Tanto para a geração atual como para as gerações subsequentes. Às vezes as consequências são tão atrasadas que os indivíduos que emitiram uma resposta de autocontrole ético não têm contato com as consequências que beneficiam a cultura.

Além do conhecimento da noção de autocontrole ético precisaremos de outro conceito para que possamos acompanhar a maneira como os pesquisadores têm investigado esses problemas sob uma ótica comportamental. Se uma única pessoa se comportasse de forma egoísta seria muito difícil que problemas como a utilização inadequada de recursos naturais viesse a ser um problema social. Esse tipo de problema surge, portanto, quando esse padrão de desperdício é emitido por um grande número de indivíduos. Dessa forma, esse tipo de análise vai obviamente além do escopo individual, uma vez trata de um efeito produzido por muitos indivíduos ao longo de algum tempo. Assim torna-se útil citar o conceito de Macrocontingências. Em 2004, Sigrid Glenn propôs esse conceito para indicar relações funcionais entre macrocomportamentos, ou seja padrões de conduta com conteúdo comportamental similar, e as consequências que eles produzem. Podemos considerar como macrocomportamentos desde estilos de se vestir (e.g. estilo gótico) até hábitos alimentares (e.g. comer fast food). As respostas individuais não tem uma relação funcional umas com as outras, mas elas contribuem com condições que afetam o grupo como um todo. A soma das consequências dos comportamentos individuais tem como consequência um produto agregado, chamado pelos pesquisadores de “efeito acumulado”.

Um exemplo de macrocontingências poderia ser o constante desperdício de água que observamos atualmente. Cada pessoa segue esse padrão comportamental sob controle de contingências de reforçamento individuais (por exemplo, banhos mais longos). No entanto, um aumento das contas pelo consumo de água e demandas por programas de racionamento de água relacionados aos comportamentos dessa população é uma reação ao efeito acumulado do macrocomportamento desperdício. Como as consequências são culturais, podemos considerar esse macrocomportamento como uma ausência de Autocontrole Ético.

O texto de hoje descreve um experimento desenvolvido por Borba, Tourinho e Glenn e publicado no Behavior and Social Issues em 2014. O objetivo deste experimento foi investigar variáveis que seriam importantes para o estabelecimento do macrocomportamento de autocontrole ético em duas microculturas. Para tanto, os pesquisadores recrutaram 38 estudantes universitários. Eles foram divididos em dois diferentes grupos e cada um destes grupos compôs uma microcultura, uma com 18 e outra com 20 participantes. Uma microcultura é considerada, nesse contexto, como um pequeno grupo de pessoas com as características, gírias e rituais similares. Neste experimento cada uma das microculturas desenvolveu todo o procedimento em conjunto. Como isso funcionou?

Inicialmente o pesquisador sentava-se em volta de uma mesa juntamente com os três primeiros participantes. Esses participantes seriam a primeira geração da microcultura. Perto da mesa havia uma televisão de LCD exibindo uma matriz 10×10 com linhas coloridas com cinco cores diferentes roxo, azul, vermelho, verde e amarelo. O primeiro participante foi instruído a escolher uma das linhas de 1 a 10. O que não era declarado era que se escolhesse uma linha impar ele receberia 3 fichas se escolhesse uma linha par ele receberia 1 ficha. Essas fichas seriam trocadas por dinheiro, cada uma valendo R$ 0,05. E o procedimento seguia com o segundo e terceiro participantes realizando o mesmo procedimento. Quando todos os participantes houvessem executado 20 tentativas o participante 1 era substituído por um novo participante. Essas foram as características da Condição A.

Os participantes foram sendo substituídos gradualmente a cada 20 tentativas, e essa condição seria encerrada quando um dos tipos de resposta, isto é, escolher linhas ímpares ou pares fosse 80% predominante nas últimas 20 tentativas. Obviamente, depois de algumas gerações a maioria dos participantes estava escolhendo as linhas impares que produziam um maior número de reforços. Sendo assim foi iniciada a Condição B. Nesta condição só haveria um novo detalhe no procedimento. Os participantes foram instruídos que algumas tentativas teriam como consequência adicional, além das fichas, um selo (essa consequência adicional ocorria somente nas escolhas das linhas pares, mas isso não era dito diretamente aos participantes). Esse selo seria colado em um painel e cada selo adicionaria um item no valor de R$ 0,50 a um kit que seria doado no futuro para uma escola pública.

O delineamento desse estudo foi um ABAB, ou seja, cada uma dessas condições seria apresentada duas vezes alternadamente. Na condição B, apesar de inicialmente as escolhas as linhas pares, que produziam, os menores reforçadores imediatos e os selos, estarem aumentando de frequência, após a substituição de dois participantes, novamente foi observado o padrão predominante de escolhas das linhas ímpares. Na condição A2 semelhante à condição B os participantes distribuíam um pouco mais suas escolhas, mas após cinco gerações, ou seja, cinco substituições graduais de participantes mantiveram suas escolhas nas linhas ímpares. Após as alternâncias das duas condições, na última condição, B2, após cinco gerações o experimento foi encerrado com escolhas nas linhas pares, que representava a escolha autocontrolada, para praticamente 60% a 70% das tentativas. Outros 20 participantes compuseram uma segunda microcultura e dados muito semelhantes foram observados.

Nesse experimento foi investigada a influência do efeito cumulativo para a produção de respostas autocontroladas éticas. Uma das qualidades desse estudo foi apresentar uma analogia precisa, pois a natureza do reforçador imediato é distinta da natureza do reforçador atrasado (dinheiro x material escolar doado). Nas duas microculturas experimentalmente estabelecidas a consequência cultural teve uma efetividade satisfatória selecionando a resposta autocontrolada ética. Um ponto que deve ser destacado é que este efeito demandou uma história bastante longa de exposição às tentativas para que essas respostas fossem predominantes. Outro ponto muito inovador desse estudo foi a utilização de diferentes gerações. Apesar de tornar mais demorada a predominância das respostas autocontroladas éticas, replicou de forma muito interessante uma macrocontingência.

Este experimento permite observar uma proposta muito original para trabalhar experimentalmente com questões de fenômenos sociais e culturais e como eles podem ser “traduzidos” para o laboratório. Podemos notar como nesta situação artificial foi longo o processo para mudar os comportamentos iniciais que envolviam consequências individuais e imediatas. Certamente por se tratar de um experimento tão inovador muitos parâmetros e variáveis podem ser ainda investigadas para produção de melhores resultados. Além disso, devemos ressaltar a importância de estudos como este, que proporcionem um melhor entendimento e subsidio para intervenções diretas e possíveis soluções para problemas que nossa sociedade enfrenta atualmente. Esperamos que medidas cabíveis sejam tomadas, que consequências efetivas sejam programadas por agências de controle responsáveis. Se nada for feito logo nem a popularidade dos governantes poderá mais ir por água abaixo.

Quer saber mais?

Borba, A., Silva, B. R., Cabral, P. A. A., Souza, L. B., Leite, F. L., & Tourinho, E. Z. (2014). Effects of exposure to macrocontingencies in isolation and social situations in the production of ethical self-control. Behavior and Social Issues, 23, 5-19. doi:10.5210/bsi.v23i0.4237

Outras referências

Borba, A., Silva, B. R., Tourinho, E. Z. & Glenn, S. (2014). Establishing the macrobehavior of ethical self-control in an arrangement of macrocontingencies in two microcultures. Behavior and Social Issues, 23, 68-86.

Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture and social change. The Behavior Analyst, 27, 133-151.

Escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia e estagiário de pós-doutorado no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. (Bolsista CAPES-INCT-ECCE).

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Seria a indústria bancária mais desonesta que as demais?

mari

Nos últimos anos, temos assistido a uma série de escândalos e problemas financeiros envolvendo fraudes bancárias. Isto vem causando, além de sérios danos ecônomicos, uma grande desconfiança com relação à reputação dos bancos e de outras agências financeiras. Tais problemas têm sido atribuídos, por alguns analistas políticos, à cultura de negócios prevalecente na indústria bancária, que ao invés de probir comportamentos desonestos, os toleraria.

Diante deste cenário e da falta de evidências científicas que apoiassem tal hipótese, um grupo de pesquisadores do Departamento de Economia da University of Zurich, na Suiça, publicou, recentemente, na Nature, um interessante estudo que revelou que, quando os empregados de um grande banco internacional tiveram suas identidades profissionais tornadas salientes, ou seja, tornadas explícitas (no caso deste estudo, por meio de perguntas que incluiam, em sua formulação, as identidades profissionais dos participantes), uma grande proporção deles passou a se comportar de forma desonesta. O mesmo, por outro lado, não ocorreu quando os participantes foram expostos a uma situação controle (em que suas identidades profissionais não eram tornadas salientes/explícitas nas perguntas).

Para verificar se a cultura bancária seria realmente a responsável pela desonestidade no setor, foram recrutados 128 empregados de diferentes áreas de um grande banco internacional (p. ex: gerentes de ativos, gerentes de investimentos, gerentes de recursos humanos, gerentes de riscos, banqueiros, etc). Metade dos participantes foi exposta, randomicamente, à condição experimental (que salientava suas identidades profissionais nas perguntas) e a outra metade foi exposta à condição controle (que não salientava suas identidades profissionais nas perguntas).

Inicialmente, os participantes respondiam a uma pesquisa online, com algumas questões “recheio” sobre bem-estar e outras questões “críticas”. Neste caso, enquanto o grupo experimental respondia a sete perguntas sobre aspectos profissionais (p. ex: em que banco você trabalha atualmente? ou “Qual a sua função neste banco?”), tornando “saliente” suas identidades profissionais, os participantes do grupo controle respondiam a sete questões não relacionadas à profissão (p.ex: “Quantas horas por semana você assiste televisão?”, etc).

Depois de responder às perguntas online, todos os participantes realizavam, anonimamente, uma tarefa de jogar moedas (cara ou coroa), que se mostrou, em estudos anteriores, uma medida confiável de desonestidade. Os participantes eram instruídos a pegar qualquer moeda, jogá-la por dez vezes e relatar os resultados online. Para cada jogada, eles poderiam ganhar aproximadamente 20 dólares, dependendo se relatavam “cara” ou “coroa”. O interessante é que os participantes eram informados, antes de cada jogada, qual das duas opções (cara ou coroa) receberia o pagamento. Além disso, eles eram informados de que seus ganhos somente seriam pagos se fossem superiores ou iguais aos de um participante randômico de um estudo piloto (que na verdade não exisitia), o que foi feito para tentar simular o ambiente competitivo dos profissionais da área bancária. Considerando que os participantes poderiam receber até 200 dólares e que não eram monitorados durante a realização da tarefa, a “motivação” para mentir, ou seja, para não relatar de forma correspondente  seus resultados na tarefa de cara ou coroa, era bastante alta.

Apesar de não ser possível identificar individualmente quem trapeceou ou não durante a tarefa, os pesquisadores foram capazes de detectar o grau de desonestidade em uma análise de grupo, comparando a fração de relatos de sucessos/acertos na tarefa  a um valor de referência indicado em estudos anteriores. Usando procedimentos similares, estudos prévios revelaram que, em situações nas quais a mentira não pode ser detectada, muitos participantes não tiram vantagem em todas as oportunidades que teriam para mentir e os pesquisadores chegaram a um valor de referência de 50% de relatos honestos.

Os resultados apontaram que, em média, os participantes do grupo experimental, que tiveram suas identidades profissionais salientadas, foram significativamente mais desonestos, relatando sucessos/acertos em 58,2% das ocasiões, enquanto os participantes do grupo controle relataram sucessos/acertos no “cara ou coroa” em 51,6% das oportunidades (próximo ao do valor de referência). Os pesquisadores realizaram diversos estudos adicionais utilizando o mesmo procedimento e variando apenas as características “profissionais” dos participantes. Eles investigaram o grau de desonestidade de empregados de outros setores (telecomunicações, farmácia, tecnologia) e de estudantes universitários. Em todos os casos, não foi verificada diferença significativa entre os relatos de sucesso do grupo experimental e aqueles do grupo controle, indicando que a cultura bancária seria a responsável pelo maior grau de desonestidade em tarefas deste tipo.

Os autores discutiram os dados a partir da “teoria econômica da identidade”, que propõe que os indivíduos têm identidades sociais múltiplas. Segundo tal teoria, as diferentes identidades estão associadas a normas sociais específicas que descrevem os comportamentos desejáveis. A definição de que identidade e quais normas sociais são comportamentalmente relevantes, dependeria do peso que cada indivíduo atribui a uma dada indentidade. Neste sentido, dada uma ocasião, os comportamentos tenderiam a ficar sob controle das normas que são associadas à identidade mais saliente, ou seja,à identidade mais importante ou mais explicitada em um dado contexto. Sendo assim, se a cultura bancária incentiva a desonestidade, é possível incetivar a desonestidade em empregados de banco tornando sua identidade profissional saliente.

Fazendo uma tradução do resultados e das interpretações em termos comportamentais, poderiamos, similarmente, dizer que, diferentes ambientes ou audiências controlam diferentes padrões de resposta. No estudo aqui apresentado, indivíduos da mesma profissão se comportaram de formas diferentes (honesta ou desonesta) a depender da presença (grupo experimental) ou ausência (grupo controle) de um estímulo discriminativo (a inclusão da identidade profissional nas perguntas da pesquisa). Neste sentido, a desonestidade não seria, portanto, uma característica do indivíduo, em termos de caráter ou de sua natureza, e sim produto direto das contingências de reforçamento em vigor.

Se nos ambientes bancários os comportamentos desonestos não são punidos ou, em alguns casos, são até mesmo reforçados com o ganho de grandes quantias de dinheiro, produto de fraudes, teremos, por consequência, indivíduos se comportando de forma desonesta em maior frequência neste contexto do que em ambientes em que tais comportamentos não são aceitos ou estimulados.

Os resultados aqui apresentados, apesar de terem sido interpretados sob a perspectiva de uma teoria ecônomica, confirmam as proposições de Skinner para a explicação do comportamento chamado de “desonesto” ou “mentiroso”. Em 1982, Skinner e alguns colaboradores realizaram um interessante estudo com pombos (se você se interessou por este tema, recomendamos que leia este artigo) intitulado “Mentira no pombo” (em inglês: “Lying in the pigeon), no qual, a partir de um arranjo de contingências puderam observar a emissão de “relatos mentirosos” pelos pombos. Os autores explicaram a emissão de tal padrão de relato em função das consequências diferenciais para o responder “mentiroso”, eliminando do sujeito (neste caso, um pombo), em termos de caráter,  a explicação para o comportamento desonesto.Trinta e dois anos depois, um artigo da Nature, de outra área do conhecimento, contribui para o fortalecimento da explicação skinneriana.

Quer saber mais? Confira o estudo na íntegra:

Cohn, A., Fehr, E., & Maréchal, M.A. (2014).Banking culture and dishonesty in the banking industry.Nature, 516, 86-89.

Lanza, R. P., Starr, J., & Skinner, B. F. (1982).“Lying” in the pigeon.Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 38, 201-203.

Escrito por:

Escrito por Mariéle Diniz Cortez. Pós-doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.