Seria a indústria bancária mais desonesta que as demais?

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Nos últimos anos, temos assistido a uma série de escândalos e problemas financeiros envolvendo fraudes bancárias. Isto vem causando, além de sérios danos ecônomicos, uma grande desconfiança com relação à reputação dos bancos e de outras agências financeiras. Tais problemas têm sido atribuídos, por alguns analistas políticos, à cultura de negócios prevalecente na indústria bancária, que ao invés de probir comportamentos desonestos, os toleraria.

Diante deste cenário e da falta de evidências científicas que apoiassem tal hipótese, um grupo de pesquisadores do Departamento de Economia da University of Zurich, na Suiça, publicou, recentemente, na Nature, um interessante estudo que revelou que, quando os empregados de um grande banco internacional tiveram suas identidades profissionais tornadas salientes, ou seja, tornadas explícitas (no caso deste estudo, por meio de perguntas que incluiam, em sua formulação, as identidades profissionais dos participantes), uma grande proporção deles passou a se comportar de forma desonesta. O mesmo, por outro lado, não ocorreu quando os participantes foram expostos a uma situação controle (em que suas identidades profissionais não eram tornadas salientes/explícitas nas perguntas).

Para verificar se a cultura bancária seria realmente a responsável pela desonestidade no setor, foram recrutados 128 empregados de diferentes áreas de um grande banco internacional (p. ex: gerentes de ativos, gerentes de investimentos, gerentes de recursos humanos, gerentes de riscos, banqueiros, etc). Metade dos participantes foi exposta, randomicamente, à condição experimental (que salientava suas identidades profissionais nas perguntas) e a outra metade foi exposta à condição controle (que não salientava suas identidades profissionais nas perguntas).

Inicialmente, os participantes respondiam a uma pesquisa online, com algumas questões “recheio” sobre bem-estar e outras questões “críticas”. Neste caso, enquanto o grupo experimental respondia a sete perguntas sobre aspectos profissionais (p. ex: em que banco você trabalha atualmente? ou “Qual a sua função neste banco?”), tornando “saliente” suas identidades profissionais, os participantes do grupo controle respondiam a sete questões não relacionadas à profissão (p.ex: “Quantas horas por semana você assiste televisão?”, etc).

Depois de responder às perguntas online, todos os participantes realizavam, anonimamente, uma tarefa de jogar moedas (cara ou coroa), que se mostrou, em estudos anteriores, uma medida confiável de desonestidade. Os participantes eram instruídos a pegar qualquer moeda, jogá-la por dez vezes e relatar os resultados online. Para cada jogada, eles poderiam ganhar aproximadamente 20 dólares, dependendo se relatavam “cara” ou “coroa”. O interessante é que os participantes eram informados, antes de cada jogada, qual das duas opções (cara ou coroa) receberia o pagamento. Além disso, eles eram informados de que seus ganhos somente seriam pagos se fossem superiores ou iguais aos de um participante randômico de um estudo piloto (que na verdade não exisitia), o que foi feito para tentar simular o ambiente competitivo dos profissionais da área bancária. Considerando que os participantes poderiam receber até 200 dólares e que não eram monitorados durante a realização da tarefa, a “motivação” para mentir, ou seja, para não relatar de forma correspondente  seus resultados na tarefa de cara ou coroa, era bastante alta.

Apesar de não ser possível identificar individualmente quem trapeceou ou não durante a tarefa, os pesquisadores foram capazes de detectar o grau de desonestidade em uma análise de grupo, comparando a fração de relatos de sucessos/acertos na tarefa  a um valor de referência indicado em estudos anteriores. Usando procedimentos similares, estudos prévios revelaram que, em situações nas quais a mentira não pode ser detectada, muitos participantes não tiram vantagem em todas as oportunidades que teriam para mentir e os pesquisadores chegaram a um valor de referência de 50% de relatos honestos.

Os resultados apontaram que, em média, os participantes do grupo experimental, que tiveram suas identidades profissionais salientadas, foram significativamente mais desonestos, relatando sucessos/acertos em 58,2% das ocasiões, enquanto os participantes do grupo controle relataram sucessos/acertos no “cara ou coroa” em 51,6% das oportunidades (próximo ao do valor de referência). Os pesquisadores realizaram diversos estudos adicionais utilizando o mesmo procedimento e variando apenas as características “profissionais” dos participantes. Eles investigaram o grau de desonestidade de empregados de outros setores (telecomunicações, farmácia, tecnologia) e de estudantes universitários. Em todos os casos, não foi verificada diferença significativa entre os relatos de sucesso do grupo experimental e aqueles do grupo controle, indicando que a cultura bancária seria a responsável pelo maior grau de desonestidade em tarefas deste tipo.

Os autores discutiram os dados a partir da “teoria econômica da identidade”, que propõe que os indivíduos têm identidades sociais múltiplas. Segundo tal teoria, as diferentes identidades estão associadas a normas sociais específicas que descrevem os comportamentos desejáveis. A definição de que identidade e quais normas sociais são comportamentalmente relevantes, dependeria do peso que cada indivíduo atribui a uma dada indentidade. Neste sentido, dada uma ocasião, os comportamentos tenderiam a ficar sob controle das normas que são associadas à identidade mais saliente, ou seja,à identidade mais importante ou mais explicitada em um dado contexto. Sendo assim, se a cultura bancária incentiva a desonestidade, é possível incetivar a desonestidade em empregados de banco tornando sua identidade profissional saliente.

Fazendo uma tradução do resultados e das interpretações em termos comportamentais, poderiamos, similarmente, dizer que, diferentes ambientes ou audiências controlam diferentes padrões de resposta. No estudo aqui apresentado, indivíduos da mesma profissão se comportaram de formas diferentes (honesta ou desonesta) a depender da presença (grupo experimental) ou ausência (grupo controle) de um estímulo discriminativo (a inclusão da identidade profissional nas perguntas da pesquisa). Neste sentido, a desonestidade não seria, portanto, uma característica do indivíduo, em termos de caráter ou de sua natureza, e sim produto direto das contingências de reforçamento em vigor.

Se nos ambientes bancários os comportamentos desonestos não são punidos ou, em alguns casos, são até mesmo reforçados com o ganho de grandes quantias de dinheiro, produto de fraudes, teremos, por consequência, indivíduos se comportando de forma desonesta em maior frequência neste contexto do que em ambientes em que tais comportamentos não são aceitos ou estimulados.

Os resultados aqui apresentados, apesar de terem sido interpretados sob a perspectiva de uma teoria ecônomica, confirmam as proposições de Skinner para a explicação do comportamento chamado de “desonesto” ou “mentiroso”. Em 1982, Skinner e alguns colaboradores realizaram um interessante estudo com pombos (se você se interessou por este tema, recomendamos que leia este artigo) intitulado “Mentira no pombo” (em inglês: “Lying in the pigeon), no qual, a partir de um arranjo de contingências puderam observar a emissão de “relatos mentirosos” pelos pombos. Os autores explicaram a emissão de tal padrão de relato em função das consequências diferenciais para o responder “mentiroso”, eliminando do sujeito (neste caso, um pombo), em termos de caráter,  a explicação para o comportamento desonesto.Trinta e dois anos depois, um artigo da Nature, de outra área do conhecimento, contribui para o fortalecimento da explicação skinneriana.

Quer saber mais? Confira o estudo na íntegra:

Cohn, A., Fehr, E., & Maréchal, M.A. (2014).Banking culture and dishonesty in the banking industry.Nature, 516, 86-89.

Lanza, R. P., Starr, J., & Skinner, B. F. (1982).“Lying” in the pigeon.Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 38, 201-203.

Escrito por:

Escrito por Mariéle Diniz Cortez. Pós-doutoranda do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

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