SMS e iPod podem causar dependência?

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Hoje em dia, a tecnologia digital parece fazer parte essencial das nossas vidas, a ponto de muitas pessoas não conseguirem mais se imaginar sem ela. Estar conectado tem sido uma das formas mais comuns de manter contato com amigos e estar informado sobre o mundo. Mas será que estamos ficando tão dependentes que isso pode afetar nossa saúde e bem-estar? Os pesquisadores Richard Ferraro, L. Wunderlich, Kayla Wyrobeck e L. Weivoda, da Universidade de Dakota do Norte, fizeram um estudo no qual encontraram dados que o uso excessivo de iPods e envio de SMS (mensagens de texto) podem estar relacionados com problemas de saúde mental, tais como depressão e ansiedade.

Estudos anteriores já haviam apontado que o uso excessivo de SMS está relacionado com problemas como ansiedade, distrações no contexto escolar, notas baixas, redução do contato social e/ou inquietação. Por isso, os pesquisadores imaginaram que essa mesma relação encontrada nos estudos sobre mensagens de texto também poderia ocorrer para o uso excessivo de iPods. Para obter esses dados, os pesquisadores usaram uma Escala de Autopercepção de Dependência de Mensagem de Texto (SPTMDS, Self-Perceptions of Text Messaging Dependency Scale) e escalas para avaliação dos níveis de Ansiedade e Depressão. A Escala de Autopercepção de Dependência de Mensagem de Texto já havia sido validada para o uso de SMS, então, os pesquisadores apenas alteraram algumas afirmações para avaliar se encontrariam os mesmos indicadores para o uso do iPod. Alguns exemplos das afirmações da escala eram: “Me sinto desapontado se não respondo mensagens/ não ouço meu iPod imediatamente”); “Gasto muitas horas com mensagens de texto/meu iPod”); “Não posso estabelecer qualquer novo relacionamento sem usar mensagem de texto/meu iPod”); “Às vezes me preocupo que a vida poderia ser chata e vazia sem mensagens de texto/meu iPod”).

Participaram do estudo 220 indivíduos (88 homens, 132 mulheres) com idade entre 18 e 69 anos. A análise dos dados demostrou que a dependência do uso de iPod está muito relacionada com ansiedade e depressão (isto é, com alta significância estatística). Isso quer dizer que, os indivíduos que apresentam dependência de SMS e iPod também tem altas chances de apresentar sintomas de ansiedade e depressão. Apesar disso, os pesquisadores relatam que poucos participantes apresentaram níveis clinicamente expressivos de ansiedade e depressão.

Richard Ferraro, Wunderlich, Kayla Wyrobeck e Weivoda também mencionam que embora o uso do iPod seja caracterizado como uma atividade individual e solitária, os resultados deste estudo sugerem que alguns aspectos desta dependência pode ser semelhantes à dependência do SMS. Apesar dos autores, mesmo sendo analistas do comportamento, não discutirem as possíveis funções este comportamento, podemos pensar em algumas explicações: o uso excessivo do iPod/SMS pode ocorrer porque a disponibilidade constante destas tecnologias funcionaria como reforçador imediato e isso manteria o comportamento das pessoas em alta frequência (por exemplo, ouvir as músicas preferidas, estar em contato com outras pessoas); nós sabemos que as consequências imediatas controlam o comportamento mais do que consequências remotas ou atrasadas. Ou ainda, o uso destas tecnologias poderia também funcionar como reforço negativo, ou seja, ter a chance de esquivar de tarefas chatas ou ter que interagir com pessoas numa situação qualquer.

Quer saber mais? Confira o estudo na íntegra:

Ferraro, R. R.; Wunderlich, L.; Wyrobek; K. & Weivoda, L. (2014). Does iPod Dependence Relate to Text-Message Dependence? Psychological Record (64), 499-502.

Texto escrito por Angela B. de Lorena

Doutora em Psicologia – UFSCar

Docente do Centro Universitário Central Paulista – UNICEP

Esse ano eu vou para a academia!

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O Ano Novo já passou, o carnaval já acabou e mesmo assim muitas pessoas ainda não colocaram em prática a famosa resolução de início de ano: “Esse ano eu vou para a academia!”. Falta de tempo, falta de dinheiro, falta de ânimo. Muitas são as razões para adiar esse projeto. O fato é que, de acordo com as estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), o sedentarismo é o quarto maior fator de risco para morte, no mundo. Os benefícios da atividade física, em sua maioria, ou não podem ser sentidos, como a diminuição de pressão arterial e diminuição de risco para diabetes, ou ocorrem a longo prazo, como a perda de peso e os efeitos prazerosos que a própria prática de exercícios possibilita depois de um tempo. Acontece que quem entende de comportamento humano sabe muito bem que para um comportamento se manter, é preciso que seja seguido de consequências que aumentem sua probabilidade e essas consequências devem ocorrer a curto prazo (contiguidade).

E aí você vai dizer “Viu só, meu sedentarismo não é falta de força de vontade, mas sim falta de consequências contíguas!!!” (falou bonito!). Quer saber!? Você está certo! Mas calma, nem tudo está perdido. Pelo menos é o que mostra a pesquisa de Andrade, Barry, Litt e Petry (2014). A partir de pesquisas anteriores sobre quais variáveis interferem na manutenção da prática de exercícios físicos, esses autores procuraram desenvolver um procedimento eficaz em fazer com que adultos sedentários passassem a fazer exercícios regularmente e, mais importante, continuassem essa prática mesmo após o fim da intervenção.

Para essa pesquisa foram selecionados adultos que mantinham pouca atividade física. Essa atividade era medida pelo número de passos que a pessoa dava no dia (medido por um pedômetro). Iniciava-se então a intervenção. Durante três semanas todos os participantes usavam o pedômetro e eram incentivados a dar mais de 1000 passos por dia (o que é recomendado pela OMS). Além disso, participavam de reuniões em dias fixos para avaliar a quantidade de exercícios (quantidade de passos). Caso eles tivessem andado mais de 1000 passos, ganhavam um vale e tinham a oportunidade de sortear mais um vale que continha prêmios com valores que variavam entre 1 e 100 dólares. Após as três semanas, os participantes eram divididos em dois grupos. Um em que as atividades eram apenas monitoradas e outro em que os participantes continuavam a ter a oportunidade de receber os vales. A diferença é que agora as reuniões não eram mais em dias fixos e os participantes nunca sabiam quando ocorreriam. Ao longo das semanas, estas reuniões diminuíam. A ideia era retirar gradualmente a possibilidade dos prêmios e ver se isso contribuiria para a manutenção da prática de atividades físicas.

Será que deu certo!? Um número maior de pessoas que passaram pela condição em que a possibilidade dos prêmios ia diminuindo se mantiveram praticando os exercícios, na verificação feita após oito semanas, comparado com os participantes em que a intervenção parou abruptamente (mas vale dizer que alguns deles continuaram suas atividades físicas). Os resultados ainda não são muito robustos, mas nos dão pistas bastante animadoras de como realizar intervenções nessa área.

Nesse momento você deve estar dizendo a si mesmo “Ah, mas se alguém me pagasse eu também faria exercícios”. E quem disse que a pessoa a te pagar não pode ser você mesmo? Os autores sugerem que a própria pessoa pode se dar pequenos prêmios (ou grandes) sempre que se manter fazendo atividades por algum período de tempo. Com isso, aos poucos ela alcançará aquela fase em que o fazer exercícios se tornará prazeroso por si mesmo. E aí, será que não está na hora de finalmente cumprir a tal resolução de Ano Novo?

Quer saber mais?!

Andrade, L. F., Barry, D., Litt, M. D., e Petry, N. M.  (2014). Maintaining high activity levels in sedentary adults with a reinforcement-thinning schedule. Journal of applied behavior analysis, 47(3), 523-536.

Texto postado por Natalia M. Aggio, pesquisadora associada do Departamento de Psicologia da UFSCar)

Uma meta pode controlar um comportamento?

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O que você quer ser quando crescer? Quais são os seus planos quando acabar a faculdade? Qual é a sua meta de vida? Quem nunca ouviu ou perguntou isso a alguém que atire a primeira pedra! Nós estamos acostumados a ter metas em todas as fases de nossas vidas, e nos comportamos (nem que seja por um breve período de tempo) de modo a atingir essas metas. O interessante aqui é notar que, no senso comum, as metas estão localizadas “em algum lugar do futuro” que ainda não existe.

Todos os comportamentos relativos às respostas a essas perguntas poderiam ser descritos pelo termo “comportamentos direcionados a metas” (goal-directed behavior). Comportamentos cuja “motivação” parece ser algo no futuro… Mas como algo que não aconteceu ainda, ou em outras palavras, que ainda não existe poderia determinar um evento presente? Como conciliar essa compreensão corriqueira com a compreensão da ciência do comportamento de que as causas do comportamento, ou seja, as variáveis que controlam os comportamentos devem preceder o comportamento a ser explicado?

Vamos recorrer à definição da psicologia cognitiva para analisar essa questão. De acordo com Burnstein e colaboradores (1998), “metas pessoais são representações cognitivas elaboradas do que a pessoa quer atingir ou evitar nas circunstâncias presentes em sua vida” (p. 494). Para a Psicologia Cognitiva, portanto, metas são vistas como eventos mentais que representam propriedades do futuro, e esses eventos seriam responsáveis por influenciar o comportamento.

Vamos pensar um pouco… É possível tratarmos metas como representações de eventos futuros? O futuro, por definição, não tem características objetivas. Não é uma propriedade do ambiente externo. Como podemos então representar algo que não existe?

Voltemos à visão analítico-comportamental. Skinner vai dizer que o uso de palavras que sugiram ações prováveis, embora pareçam se referir ao futuro, estão, na verdade, se referindo a consequências passadas. Quando uma pessoa diz que está procurando os seus óculos, ela está, de fato, descrevendo as variáveis às quais esse comportamento é função. O que fica implícito na frase “estou procurado meus óculos” é algo do tipo: “quando eu perdi meus óculos no passado, eu fiz isso (procurei os óculos) e os encontrei”. Assim, de acordo com Skinner (1953), “expressões envolvendo metas e intenções são abreviações (p. 90)”.

Podemos retirar disso duas funções para o comportamento, quando falamos sobre metas. A primeira é que metas são utilizadas como abreviações, ou seja, se referem às consequências reforçadoras passadas de determinados comportamentos emitidos por uma pessoa; a segunda é que as metas denotam a descrição de uma consequência específica antecipada que encerra um evento comportamental. Essa explicação faz sentido quando a meta de um indivíduo tem relação com a história de vida dele. Mas e quando a meta de um indivíduo é algo não relacionado aos eventos cotidianos de sua vida, como querer “a paz mundial”, por exemplo?

Esse questionamento nos leva ao conceito de comportamento governado por regras. Uma regra nada mais é que um conjunto de descrições verbais que especificam comportamento e consequência para esse comportamento. É o velho caso do “filho, não coloque a mão na tomada, senão você vai levar um choque”. Quando alguém se comporta sob controle de regras, ela não precisa entrar em contato com as consequências de determinado comportamento para se comportar de certa forma. Não é preciso colocar a mão na tomada para saber que existe uma chance de levar um choque. Portanto, uma meta nada mais é do que um comportamento sob controle de um outro comportamento, a dizer, a declaração de uma meta (goal statement).

Isso esclarece uma questão, mas traz outra: como exatamente um comportamento verbal (a declaração de uma regra) pode controlar outro comportamento (seguir essa regra)? Infelizmente, Skinner não nos respondeu a essa questão, mas, atualmente, pesquisadores têm buscado formas de entender essa relação. O’Hora e Maglieri (2006), por exemplo, realizaram recentemente essa análise, incorporando princípios da teoria das molduras relacionais (RFT, em inglês) em busca de respostas a essa questão.

A RFT, em linhas gerais, sugere que o comportamento verbal é uma forma especial de responder a relações entre estímulos. Por meio dos comportamentos operantes, aprendemos a responder a contingências socialmente estabelecidas desde muito pequenos. O nome dado a essa habilidade, na RFT, é responder relacional arbitrariamente aplicado. Ele é arbitrário no sentido de que nós aprendemos a relacionar arbitrariamente eventos baseando-nos em dicas contextuais, e não somente nas características físicas dos eventos. Assim, se somos capazes de interagir com dicas contextuais de forma que possamos transformar a função dos estímulos, palavras ou gestos podem fornecer dicas que podem alterar o seus significados.

Imaginemos a seguinte situação: uma pessoa ouve a frase “carros alemães são melhores que carros franceses”. Se o indivíduo que ouviu essa frase já dirigiu um carro francês, ele pode passar a considerar carros alemães como melhores, mesmo sem nunca ter tido contato com um carro alemão. Assim, da mesma maneira que um estímulo A pode ser considerado “melhor” que um estímulo B sem que o indivíduo tenha tido qualquer experiência direta com A, um estímulo ou evento pode ser visto como “algo que vem depois”, mesmo que o indivíduo (logicamente) não tenha entrado em contato com o futuro. Assim, o que chamamos de evento futuro, ou meta, nada mais é, do que comportamento verbal emitido no presente. Desse modo, a RFT oferece uma análise de como comportamentos verbais, especificamente, a declaração de uma regra pode controlar o comportamento de determinado indivíduo.

Será que agora dá para entender por que aquela meta de “ir à academia todos os dias”, “guardar certa quantia de dinheiro por mês para fazer aquela viagem”, ou “só beber cerveja nos finais de semana” foi estabelecida, mesmo que você nunca tenha feito isso antes?!

Quer saber mais?

O’Hora, D., & Maglieri, K. A. (2006). Goal statements and goal-directed behavior: A relational frame account of goal setting in organizations. Journal of Organizational Behavior Management, 26(1/2), 131–170.

O artigo: Ramnerö, J., & Törneke, N. (2015) On Having a Goal: Goals as Representations or Behavior. The Psychological Record, 65, 89-99.

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar.