Quanto vale o silêncio?

silêncio

Ninguém gosta de um ambiente muito barulhento, não é mesmo? Assistir à aula numa classe em que todos falam juntos parece que vai nos deixando surdos ao longo do tempo… “Shhiiiiiu”, “Silêncio”, “Cala a boca, ae”, são pedidos genuínos para redução de ruídos, entretanto, também contribuem para que o volume dos mesmos aumente. Então, fica a pergunta: como reduzir o barulho, sem para isso fazer mais barulho?

Alguns pesquisadores da Universidade de Baltimore, e da Universidade de Medicina Johns Hopkins pensaram em uma estratégia: apresentar um feedback sobre o barulho produzido em uma sala de aula, e premiar os indivíduos com dinheiro, toda vez que o limite de barulho permitido não fosse violado. Como é difícil identificar, em uma sala de aula, quem está de fato produzindo o barulho, estes pesquisadores utilizaram também contingências interdependentes de grupo. Neste tipo de contingência, todos do grupo têm que aderir ao objetivo, para que o grupo todo ganhe o incentivo.

Este estudo foi feito com jovens ex-usuários de drogas, que estavam tendo aulas de treinamento para o mercado de trabalho. Os autores argumentam que essa população tem dificuldades pra conseguir e manter empregos, muitas vezes por apresentarem comportamentos inadequados ao ambiente de trabalho. E esse estudo propõe procedimentos de redução de ruído em um esquema semelhante ao que já é em empregado pela técnica chamada de “therapeutic workplace” (terapia no local de trabalho – em que é comum o uso de dinheiro). Normalmente, trabalhos de redução de ruídos são feitos em locais com crianças, então, um ponto original deste trabalho foi também a população com a qual os autores propuseram a intervenção.

Os pesquisadores colocaram um medidor de som no ventilador de teto de uma sala de aula de jovens e registraram a quantidade de ruídos produzidos normalmente na classe – fase de linha de base. Distribuíram também panfletos e fizeram uma reunião com estes jovens para explicar sobre barulhos, decibéis (dB) e o nível indicado de ruído para um ambiente ser considerado saudável. Explicaram também os procedimentos aos quais os jovens seriam submetidos em função do estudo (avisaram da presença do medidor de som, falaram a quantidade máxima de violações permitidas em um turno, como era o esquema para ganhar o reforço em dinheiro, etc).

O limite de barulho permitido era de 55dB (que é mais ou menos o volume de som de uma conversa normal entre duas pessoas). Toda vez que o barulho excedia esse valor, era computada uma violação. Na fase de linha de base as violações tinham por consequência um alerta verbal. Já na fase experimental as violações eram demonstradas em computadores para os alunos: um gráfico indicava com uma linha azul o ponto dos 55dB permitidos, e uma linha vermelha indicava quase em tempo real os decibéis capitados pelo medidor de som.

Em cada turno era considerado aceitável até 350 violações (10% da quantidade de violações registradas no período de linha de base). Um painel central na sala, que podia ser visto por todos, apresentava o número de violações acumuladas. O painel ficava verde toda vez que uma violação ocorria, ficava amarelo se a quantidade de violações do turno chegasse a 350, e por fim, ficava vermelho se o limite máximo de violações fosse atingido. Para determinar o total de dinheiro que cada participante receberia, o tempo que o participante permanecia em sala era dividido por 120 (quantidade máxima de minutos por turno), e esse quociente era revertido para um valor em dólar (por exemplo, se um participante passou 48 minutos em sala, ele recebeu 40 centavos de dólar por aquela sessão).

Com todo esse aparato os autores do estudo conseguiram fazer com que o barulho diminuísse durante todo o período experimental (cerca de 20 dias). Entretanto, na volta para a condição inicial (com a retirada do feedback e do reforço com o pagamento), o barulho voltou a aumentar. É possível imaginar esse resultado na medida em que a intervenção apresentava punição contígua ao comportamento (toda vez que havia uma violação o painel mostrava, punindo aquele comportamento que causou a violação), e sabemos, por vários estudos, que a punição perde efeito rápido. Além disso, o reforço era dado em longo prazo: no final do turno (que pode até parecer pouco tempo, mas devemos considerar que se passavam vários minutos entre a emissão dos comportamentos adequados e a apresentação do reforço), outro fato que parece dificultar a manutenção de um certo comportamento.

Considerando isso, podemos pensar no que aconteceria se tirássemos só o reforço com o dinheiro. O painel ainda seria útil para que os participantes conseguissem manter o nível de barulho dentro do padrão estabelecido? E também o inverso, retirando o painel e deixando que os participantes continuassem a receber o reforço em dinheiro? E se tivesse um marcador mostrando o quanto de dinheiro cada participante estava acumulando, seria mais eficaz? Ou ainda, podemos pensar que o tempo em que os participantes ficaram submetidos às condições experimentais não foi suficiente para que os comportamentos se mantivessem com a retirada das consequências diretas propostas pelo estudo… São muitas as ideias! Daria para pensar em um novo estudo… Mas é importante lembrar que os resultados indicam que o procedimento proposto pelos autores foi bom (já que no período experimental o barulho realmente diminuiu), mas que ainda é bem complicadinho manter esse tipo de controle. Para finalizar esse post, deixo a proposta: que tal apreciarmos um pouco melhor o valor do silêncio?

Quer saber mais? Aqui está a referência do artigo original:

Ring, B. M.; Sigurdsson, S. O.; Eubanks, S. L. (2014). Reduction of classroom noise levels using group contingencies. Journal of Applied Behavior Analysis, 47(4), 840–844.

Melina Vaz- estreando por aqui, a um passo de ser doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia/USP-RP, e em treinamento para não contribuir com o aumento de ruídos.

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Muitos dizem quando erro, mas poucos dizem quando acerto.

foto vivian

Foto cedida pelo bailarino Wellington Conceição

É comum no nosso dia a dia nos depararmos com situações em que outras pessoas tentam nos alertar sobre os erros que cometemos, na tentativa de nos ensinar fazer corretamente em uma próxima vez. E mesmo diante das indicações dos erros, muitas vezes continuamos a errar!  Nas escolas de dança, por exemplo, isso ocorre com frequência, os bailarinos são corriqueiramente corrigidos pelos professores, com o apontamento dos seus erros, e em muitos casos isso ocorre com gritos (“Você errou!”) e inúmeras repetições dos passos até chegar ao acerto, mesmo levando o bailarino a exaustão física e psicológica.

A melhora no desempenho acaba, por vezes, se relacionando com práticas consideradas aversivas, que muitas vezes não melhoram os desempenhos dos alunos e trazem muitos sofrimentos para eles. Mas, como seria possível melhorar o desempenho de alguém partindo do que ele faz corretamente e não somente quando ele erra?

Algumas dicas interessantes para responder essa questão podem ser encontradas no estudo realizado por Mallory, Raymond e Victória, da Universidade do Sul da Flórida, publicado em 2015. Partindo de estudos anteriores, sobre métodos de treinamento que envolvem a devolutiva do professor para o aluno dando foco para comportamentos de acerto, esses autores utilizaram um procedimento que envolve uma orientação sonora (estalo) para indicar a execução correta de passos de dança imediatamente após o passo acontecer.

Para isso foram selecionadas 4 bailarinas com idade entre 6 e 9 anos e 2 professores de dança, a modalidade de dança escolhida foi o estilo Jazz. Os professores estabeleceram o que seria considerado como passo de dança executado corretamente, dentro de um conjunto de três passos de dança para cada bailarina. Eles também passaram por um treinamento para aprender a utilizar o aparelho que emitiria o estalo durante a intervenção. Para cada bailarina foram selecionados três passos (chutar, girar e saltar), os quais elas não haviam treinado previamente.

Inicialmente, em uma linha de base as bailarinas foram ensinadas sobre cada passo como de costume do professor e foram observadas executando os passos. Depois foi iniciada a intervenção, na qual as bailarinas foram instruídas a executar um passo de dança por vez e que se o passo fosse correto, seria seguido pelo estalo; a ausência do estalo indicaria, então, que o passo estava incorreto, que deveria ser realizado novamente e que nenhuma devolutiva verbal seria fornecido por parte do professor. Após três tentativas repetindo o mesmo passo de dança sem ouvir o estalo, o professor dava a instrução do que deveria ser feito, e com isso a bailarina poderia repetir o passo de dança. Ao ouvir o estalo, ela poderia passar para a execução do próximo passo de dança.

O que isso resultou? Os autores puderam observar uma  melhora no desempenho de todas as bailarinas após a intervenção, e avaliações positivas sobre a estratégia utilizada tanto pelos professores  quanto pelas bailarinas.

Um dos professores afirmou que o estalo relacionado ao passo executado corretamente funciona melhor do que os comentários negativos, ajudando a bailarina compreender melhor o que trabalhar. As bailarinas também apontaram para melhora na concentração, e isso favoreceu a execução dos passos de dança. As indicações voltadas para o acerto pareceram para professores e bailarinas mais eficazes que comentários negativos, pois aumentaram as chances de acerto e refletiram na melhora dos desempenhos.

Com isso, observamos que o estudo fornece dicas sobre como analisar essas situações de correções e sugere novas estratégias sobre como fazer correções mais eficientes para a melhora no desempenho e com menos sofrimento para as pessoas que as recebem. Nós, a partir disso, podemos ter ampliadas as nossas possibilidades de não darmos continuidade ao que erramos.

Dicas para complementar:

– Para quem não conhece ou nunca fez aulas com professores que costumam apontar os erros com mais frequência do que o acerto, assista alguns episódios do reality show televisivo “Dance Moms”, exibido pelo canal fechado Lifetime. Ele traz exemplos bastantes carregados (exagerados) de métodos com correções severas feitas pela professora Abby Lee diante do erro dos seus alunos. É claro que o exemplo é bastante exagerado, pois por se tratar de um programa de televisão, quanto mais polêmica melhor, mas pode ser pensando para ilustrar como isso ocorre.

– Para conhecer alguns passos de dança semelhantes aos executados pelas bailarinas você pode acessar os links abaixo:

Quer saber mais?!

Quinn, J.M., Miltenberger, R.G.; Fogel, V.A. (2015). Using tagteach to improve the proficiency of dance movements. Journal of Applied Behavior Analysis,103(2), 11–24.
Texto postado por Vivian Bonani de Souza Girotti

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE