Muitos dizem quando erro, mas poucos dizem quando acerto.

foto vivian

Foto cedida pelo bailarino Wellington Conceição

É comum no nosso dia a dia nos depararmos com situações em que outras pessoas tentam nos alertar sobre os erros que cometemos, na tentativa de nos ensinar fazer corretamente em uma próxima vez. E mesmo diante das indicações dos erros, muitas vezes continuamos a errar!  Nas escolas de dança, por exemplo, isso ocorre com frequência, os bailarinos são corriqueiramente corrigidos pelos professores, com o apontamento dos seus erros, e em muitos casos isso ocorre com gritos (“Você errou!”) e inúmeras repetições dos passos até chegar ao acerto, mesmo levando o bailarino a exaustão física e psicológica.

A melhora no desempenho acaba, por vezes, se relacionando com práticas consideradas aversivas, que muitas vezes não melhoram os desempenhos dos alunos e trazem muitos sofrimentos para eles. Mas, como seria possível melhorar o desempenho de alguém partindo do que ele faz corretamente e não somente quando ele erra?

Algumas dicas interessantes para responder essa questão podem ser encontradas no estudo realizado por Mallory, Raymond e Victória, da Universidade do Sul da Flórida, publicado em 2015. Partindo de estudos anteriores, sobre métodos de treinamento que envolvem a devolutiva do professor para o aluno dando foco para comportamentos de acerto, esses autores utilizaram um procedimento que envolve uma orientação sonora (estalo) para indicar a execução correta de passos de dança imediatamente após o passo acontecer.

Para isso foram selecionadas 4 bailarinas com idade entre 6 e 9 anos e 2 professores de dança, a modalidade de dança escolhida foi o estilo Jazz. Os professores estabeleceram o que seria considerado como passo de dança executado corretamente, dentro de um conjunto de três passos de dança para cada bailarina. Eles também passaram por um treinamento para aprender a utilizar o aparelho que emitiria o estalo durante a intervenção. Para cada bailarina foram selecionados três passos (chutar, girar e saltar), os quais elas não haviam treinado previamente.

Inicialmente, em uma linha de base as bailarinas foram ensinadas sobre cada passo como de costume do professor e foram observadas executando os passos. Depois foi iniciada a intervenção, na qual as bailarinas foram instruídas a executar um passo de dança por vez e que se o passo fosse correto, seria seguido pelo estalo; a ausência do estalo indicaria, então, que o passo estava incorreto, que deveria ser realizado novamente e que nenhuma devolutiva verbal seria fornecido por parte do professor. Após três tentativas repetindo o mesmo passo de dança sem ouvir o estalo, o professor dava a instrução do que deveria ser feito, e com isso a bailarina poderia repetir o passo de dança. Ao ouvir o estalo, ela poderia passar para a execução do próximo passo de dança.

O que isso resultou? Os autores puderam observar uma  melhora no desempenho de todas as bailarinas após a intervenção, e avaliações positivas sobre a estratégia utilizada tanto pelos professores  quanto pelas bailarinas.

Um dos professores afirmou que o estalo relacionado ao passo executado corretamente funciona melhor do que os comentários negativos, ajudando a bailarina compreender melhor o que trabalhar. As bailarinas também apontaram para melhora na concentração, e isso favoreceu a execução dos passos de dança. As indicações voltadas para o acerto pareceram para professores e bailarinas mais eficazes que comentários negativos, pois aumentaram as chances de acerto e refletiram na melhora dos desempenhos.

Com isso, observamos que o estudo fornece dicas sobre como analisar essas situações de correções e sugere novas estratégias sobre como fazer correções mais eficientes para a melhora no desempenho e com menos sofrimento para as pessoas que as recebem. Nós, a partir disso, podemos ter ampliadas as nossas possibilidades de não darmos continuidade ao que erramos.

Dicas para complementar:

– Para quem não conhece ou nunca fez aulas com professores que costumam apontar os erros com mais frequência do que o acerto, assista alguns episódios do reality show televisivo “Dance Moms”, exibido pelo canal fechado Lifetime. Ele traz exemplos bastantes carregados (exagerados) de métodos com correções severas feitas pela professora Abby Lee diante do erro dos seus alunos. É claro que o exemplo é bastante exagerado, pois por se tratar de um programa de televisão, quanto mais polêmica melhor, mas pode ser pensando para ilustrar como isso ocorre.

– Para conhecer alguns passos de dança semelhantes aos executados pelas bailarinas você pode acessar os links abaixo:

Quer saber mais?!

Quinn, J.M., Miltenberger, R.G.; Fogel, V.A. (2015). Using tagteach to improve the proficiency of dance movements. Journal of Applied Behavior Analysis,103(2), 11–24.
Texto postado por Vivian Bonani de Souza Girotti

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE

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