Fazendo a pergunta certa

baby

Em geral, bebes são reconhecidamente seres que nos chamam atenção e provocam reações positivas (como o “ooonnnww” que você provavelmente soltou quando viu a foto acima). Frente aos filhotes da nossa espécie, com suas caras redondas e movimentos ainda meio erráticos, não é difícil de ouvir perguntas como “Por que são tão bonitinhos?!” ou “Como podem ser tão fofos?!”. Bom, o texto dessa semana baseia-se em dois artigos de pesquisadores que também se colocam algumas perguntas diante dos bebês, mas um pouco diferentes, tais como “Como os bebes aprendem?” ou “Quais processos cognitivos eles já são capazes?”. Trabalhando com questões sobre aprendizagem de relações de estímulos, Naiara Minto de Sousa, Lucas Garcia, Maria Stella Gil e William (Bill) McIlvane apresentam, não apenas resultados, mas também construções metodológicas muito interessantes.

Um dos maiores desafios para aqueles que trabalham com ciência refere-se a encontrar a maneira certa de propor a pergunta sobre seu objeto de estudo. Como arranjar condições experimentais de modo que o que o sujeito faz possa ser de fato entendido como uma resposta à pergunta colocada pelo pesquisador? Como fazer com que os dados não fiquem aquém (ou seja, resultem de uma dificuldade em relação à própria situação colocada pela tarefa experimental), ou além (resultando de uma mescla, por exemplo, de processos ou repertórios distintos) do alvo da pergunta de pesquisa? Na pesquisa comportamental sobre relações de estímulos esse é um desafio presente. E não é apenas nos cuidados diários que o trato com bebês parece se multiplicar – também na ciência, o trabalho com os pequenos costuma exigir bastante dos que se aventuram a buscar o melhor jeito de interrogar os bebês sobre suas habilidades. Como exemplos dos principais desafios metodológicos ao se trabalhar com esse tipo de população (que já nos deixam tão bobos só com suas carinhas!), pesquisadores tem apontado o encerramento da sessão experimental por cansaço ou desinteresse do bebê, dificuldades em realizar consistentemente a resposta alvo, “proliferação de erros”, além de questões como o efeito de novidade, saciação e preferência em relação aos estímulos utilizados no procedimento.

O primeiro estudo apresentado pelos pesquisadores buscou clarificar o efeito de dois tipos de procedimento em tarefas de discriminação simples. Para isso, as autoras utilizaram uma espécie de “painel com janelas giratórias nas quais haviam brinquedos. A tarefa de discriminação proposta para os bebês consistia basicamente em tocar em uma das janelas com brinquedo. No caso da janela escolhida ser a do estímulo definido como “o estímulo correto” (S+), essa janela girava, apresentando do outro lado, um brinquedo igual ao escolhido, que podia ser tomado pelo bebê para brincar com ele, enquanto a janela que continha o outro brinquedo se fechava. Para reforçar a  escolha do brinquedo “correto”, a pesquisadora conduzia a criança a pegar o brinquedo, e interagia com ela durante 30 segundos. No caso da janela escolhida ser a do brinquedo definido como “estímulo incorreto” (S-), ambas as janelas giravam, fechando-se até o início da tentativa seguinte. Essas consequências apresentadas de acordo com o valor definido do estímulo (S+, acesso ao brinquedo e interação com o experimentador; S-, fechamento da janela) é o que os pesquisadores chamam de reforçamento diferencial, base do procedimento de discriminação.

A diferença explorada no estudo encontrava-se no procedimento de introdução do reforçamento diferencial. Na condição A, o bebê iniciava a tarefa sendo exposto a dois estímulos, sendo que o que ele escolhesse nessa tentativa seria definido (para o restante das tentativas) como S-.  Já na condição B, a tarefa era iniciada com quatro tentativas nas quais era apresentado apenas um brinquedo: primeiro o definido como S+, depois apenas o brinquedo definido como S-, seguido de nova apresentação do S+, e uma última aparição também sozinha do S-. Em cada uma dessas quatro tentativas a criança era conduzida a escolher a janela que apresentava o brinquedo, sendo a escolha consequenciada de acordo com o valor definido do estímulo. Essa medida visava que os bebês experienciassem as consequências de cada uma das escolhas, de modo a aumentar as chances de que escolhessem não pela preferência por um dos brinquedos, e sim pelas consequências distintas. Após esse procedimento de introdução do reforçamento diferencial, seguiam-se as tentativas de discriminação simples. O experimento foi conduzido com metade dos participantes em um delineamento A-B-A-B, e com a outra metade, B-A-B-A.

Mas afinal, encontrou-se alguma diferença em relação a cada tipo de procedimento? Sim! Entre as diferenças, os pesquisadores relatam um maior número de acertos na primeira tentativa de cada conjunto precedida pelo procedimento tipo B em relação às precedidas pelo tipo A. Entretanto, observaram também uma pequena diferença em favor do procedimento tipo A em relação ao total de tarefas aprendidas (ou seja, nas quais foi atingido o critério de aprendizagem). Os autores argumentam que a partir dos resultados obtidos não é possível determinar uma maior eficiência para um dos procedimentos. Porém, indicam a possibilidade de que bebês ainda bem novinhos podem aprender diversos problemas de discriminação simples por meio de estratégias que estabeleçam reforçamento diferencial no começo início de cada conjunto de tarefas.

O segundo estudo também se destaca pela metodologia, que impressiona pela sensibilidade e simplicidade. Geralmente imaginamos que a solução para um problema metodológico vem da construção de instrumentos mirabolantes, que quanto mais tecnológico for nosso aparato, melhor. Pois os autores desse estudo mostraram que nem sempre é assim. Ao invés de utilizar como estímulos brinquedos tridimensionais (com botões, luzes e sons), ou figuras animadas na tela de um computador, os pesquisadores apostaram na simplificação de aspectos técnicos, usando um instrumento estático bidimensional: um caderno de papelão com fotos (de animais) presas às páginas com velcro, bastante semelhante ao tipo de “livro para bebês”, comum no cotidiano das crianças nas creches e em casa.

Diferente do estudo anterior, nesse estudo todos os conjuntos de tentativas iniciavam com o procedimento de introdução do reforçamento diferencial de tipo A – o primeiro estímulo escolhido pela criança era determinado para o restante das tentativas como S-. O procedimento de discriminação simples era seguido de um procedimento de reversão da discriminação, pela simples troca de valor dos estímulos: o que era S+ passa a ser S- e o que era S- passa a ser S+. Outro aspecto importante refere-se à utilização de um procedimento de correção. Caso a criança apresentasse três respostas incorretas consecutivas, ou três respostas consecutivas em um mesmo lado, o experimentador conduzia a mão da criança do estímulo incorreto para o estímulo correto, consequenciando esse movimento com a situação reforçadora – o experimentador destacava a figura e interagia com a criança utilizando a figura por 20 segundos.

Como resultado dessa vez, os pesquisadores encontraram que cinco das oito crianças conseguiram atingir o critério de aprendizagem para as tarefas de discriminação simples e de reversão em todos os seis conjuntos de estímulos propostos. Além disso, essas crianças apresentaram uma diminuição progressiva da quantidade de tentativas necessárias para se atingir o critério de aprendizagem na sequência dos conjuntos de estímulos. Tais resultados são bastante expressivos, considerando-se a faixa de idade dos participantes (de 15 a 23 meses). Ainda, indicam a potencialidade a ser explorada dos procedimentos empregados, com especial destaque à utilização de um instrumento que promove uma situação experimental próxima à de uma atividade familiar a crianças nessa faixa de idade (“leitura de livro com um adulto”); e ao procedimento de correção.

Com cada vez mais sensibilidade e engenhosidade, talvez não apenas os cuidadores se espantem com o que os bebês demonstram já serem capazes de fazer, mas também os cientistas se surpreendam com as respostas dadas quando conseguem fazer a pergunta de maneira certa…

Quer saber mais? Confira os estudos na íntegra:

Minto de Sousa, N., Garcia, L. T., & Gil, M. S. C. de A. (2015). Differential Reinforcement in Simple Discrimination Learning in 10- to 20-Month-Old Toddlers, Psychological Record, 65, 31-40.

Minto de Sousa, N., Gil, M. S. C. de A., & McIlvaine, W. J. (2015). Differential Reinforcement in Simple Discrimination Learning in 10- to 20-Month-Old Toddlers, Psychological Record, 65, 41-47.

Por Henrique M. Pompermaier, doutorando do PPGPsi-UFSCar.

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