Alto e claro!

Estudo brasileiro traz avanços importantes para o ensino de crianças com deficiência auditiva que receberam implante coclear

julio blog

Cada vez mais temos sido surpreendidos pelos avanços tecnológicos e a quebra de barreiras que antes pareciam intransponíveis, como é o caso de cirurgias realizadas remotamente via internet e a confecção de próteses por meio de impressoras 3D. Ao mesmo tempo em que algumas barreiras são superadas, vemos também o estabelecimento de novos desafios a serem vencidos. É o que tem acontecido no caso dos implantes cocleares. Já conhece tal tecnologia? Trata-se de dispositivos eletrônicos, parcialmente implantados, que permitem que pessoas acometidas de perda auditiva ao longo da vida voltem a escutar, além de permitir a detecção de estímulos sonoros por crianças com deficiência auditiva congênita ou adquirida nos primeiros meses de vida, em um estágio do desenvolvimento chamado de pré-lingual (anterior à aquisição da linguagem). Para essa população, a dificuldade reside no fato de que, embora o implante coclear permita a detecção de sons (incluindo o som de palavras faladas), os estímulos sonoros detectados logo após a cirurgia são isentos de significado, uma vez que não foram aprendidas as relações entre esses estímulos e os objetos, pessoas ou ações a que eles se referem. O desafio, portanto, é conseguir ensinar essa rede de relações, fazendo com que as crianças tenham um desenvolvimento típico na aquisição da linguagem e sejam capazes de agir de forma ativa como ouvintes e como falantes.

Alguns pesquisadores encararam tal desafio, cientes de que a superação do mesmo exige o estabelecimento de programas de ensino efetivos e que considerem as características individuais, bem como as dificuldades das crianças com implante coclear. Entre as iniciativas mais promissoras já apresentadas está o desenvolvimento de procedimentos de ensino baseados no paradigma da equivalência de estímulos. Por meio de tais procedimentos, crianças com deficiência auditiva pré-lingual que receberam implante coclear têm apresentado o desenvolvimento de repertórios verbais importantes, como a identificação de figuras a partir palavras ditadas e a nomeação de objetos ou de suas propriedades (cor, tamanho, material etc.). As pesquisadoras Raquel Golfeto e Deisy das Graças de Souza, da Universidade Federal de São Carlos, resolveram dar um passo além e desenvolveram um procedimento para ensinar crianças com implante coclear a identificar e a pronunciar sentenças formadas por três elementos principais (sujeito-verbo-objeto; por exemplo, “Beto está espremendo o limão”).

No estudo desenvolvido por elas, as três crianças participantes (duas meninas e um menino) tinham entre 7 e 10 anos e haviam recebido o implante há cerca de 3 anos e meio (em média). Antes do início do estudo, as crianças já haviam passado por outras situações de ensino e eram capazes, por exemplo, de escolher a figura correta diante de uma palavra ditada e de pronunciar uma palavra corretamente diante de uma figura. Ao final do procedimento proposto, Golfeto e de Souza esperavam que elas fossem capazes de realizar duas novas tarefas, consideradas mais complexas:

a) Compreensão verbal: Diante de três videoclipes (cada um mostrando uma pessoa realizando uma ação com um objeto), selecionar aquele que representasse adequadamente uma sentença ditada pelo computador; e

b) Produção de sentença: Diante de um videoclipe (mostrando um sujeito realizando uma ação com um objeto), vocalizar corretamente e de maneira completa, uma sentença que o descrevesse.

As pesquisadoras não queriam, no entanto, que as crianças ficassem sob controle restrito das sentenças e dos vídeos apresentados durante a etapa de ensino (por exemplo, “Dudu está pendurando a camisa”, “Beto está abotoando a camisa” e “Juca está embrulhando a camisa”). A ideia era que elas fossem capazes de abstrair as ações realizadas pelas pessoas nos vídeos, recombinando as unidades mínimas aprendidas (sujeito-verbo-objeto) e formando novas sentenças que não seriam diretamente ensinadas.

Para alcançar tais objetivos, foi adotado um sistema com duas matrizes de ensino de sentenças que proporcionavam a recombinação de sujeitos e verbos em relação a um objeto (3 sujeitos x 3 verbos x 1 objeto), permitindo a formação de nove sentenças diferentes por matriz. Dessa forma, durante a etapa de ensino as crianças eram expostas a sentenças ou vídeos em que dois sujeitos realizavam a mesma ação em relação a um objeto (por exemplo, “Juca está descascando o limão” e “Dudu está descascando o limão”) ou um mesmo sujeito realizava duas ações em relação a um objeto (por exemplo, “Beto está espremendo o limão” e “Beto está ralando o limão”), havendo assim uma sobreposição de elementos. O procedimento permitia avaliar tanto o aprendizado em relação as sentenças diretamente ensinadas, como a generalização do aprendizado e o surgimento de novas respostas não ensinadas previamente (por exemplo, “Juca está espremendo o limão”).

Os resultados foram bastante animadores! Na tarefa de compreensão verbal as crianças passaram de um desempenho inicial mediano (em torno de 50% de acertos) para um desempenho excelente, apresentando 100% de acertos inclusive nos testes de generalização do aprendizado, em que eram expostas a sentenças e vídeos que não haviam sido apresentados durante a etapa de ensino. Na tarefa de produção de sentenças os resultados foram ainda mais impactantes. Antes do início do procedimento, nenhuma criança era capaz de vocalizar as sentenças diante dos vídeos e, ao final, todas eram capazes de realizar a vocalização de forma correta e adequada, tanto diante dos vídeos apresentados durante a etapa de ensino, quanto diante de vídeos inéditos.

O estudo de Golfeto e de Souza é mais uma prova do avanço e da possibilidade de uso de procedimentos derivados do paradigma da equivalência de estímulos para a construção de programas de ensino cada vez mais efetivos, atendendo de forma exemplar as necessidades específicas de crianças com deficiência auditiva, mas também trazendo subsídios para a melhoria da qualidade da educação oferecida para a população em geral. Desafios não faltam!

Para saber mais detalhes sobre o estudo:

Golfeto, R. M. & de Souza, D. G. (2015), Sentence production after listener and echoic training by prelingual deaf children with cochlear implants. Journal of Applied Behav Analysis. doi: 10.1002/jaba.197

Texto postado por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Mestre em Análise do Comportamento pela Universidade Estadual de Londrina

Crédito foto: St. Vincent Foundation

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