Robótica e análise do comportamento: o futuro já chegou?

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Se você tem menos de trinta anos, pode não ter conhecido as personagens da figura acima. Os Jetsons foi uma série animada da televisão americana lançada no início dos anos 60 e exibida no Brasil em meados dos anos 80. Nela, apresentava-se o que, àquela época, se imaginava que seria o futuro: carros voadores, cidades suspensas e trabalho automatizado. A robô que aparece na figura é a Rosie; amada pelos Jetsons, ela é a responsável pelos cuidados com a casa e com os filhos e, em alguns momentos, até impõe algumas decisões à família, mostrando sua “personalidade forte e autoritária”. Bem surreal isso tudo, você não acha?

Mas talvez esse futuro projetado pelos Jetsons e por tantas outras produções de ficção científica não esteja assim tão distante. Já há algum tempo, a humanidade tem buscado compreender o mundo por meio de modelos computacionais e a robótica tem fornecido exemplos interessantes do que muitos chamam de inteligência artificial.

William Hutchison dedicou boa parte de sua carreira a desenvolver modelos computacionais e robôs baseados em equações desenvolvidas durante cursos sobre aprendizagem animal. Em um artigo publicado na Behavior Analyst em 2012, o autor afirma que esses seres artificiais se comportam e aprendem de forma muito semelhante aos animais e que, portanto, uma grande vantagem de criá-los é a possibilidade de uma análise quantitativa do comportamento.

Primeiro, é preciso considerar que a inteligência computacional e a robótica, quando estudadas por analistas do comportamento, assumem a formulação básica do condicionamento operante: certos eventos biológicos significativos (reforçadores primários como água e alimento, por exemplo) podem aumentar ou diminuir a força das relações entre estímulos e comportamentos emitidos recentemente. Adicionalmente, deve considerar também que o controle de estímulos adquirido durante o reforçamento primário fornece a base para o reforçamento condicionado. Vemos, nesta proposta, conceitos selecionistas que envolvem tanto a aprendizagem quanto a evolução biológica.

Nesta perspectiva, surgiram os algoritmos genéticos (GAs), uma abordagem selecionista à robótica e à inteligência computacional que tem como objetivo emular (simular) os processos evolutivos de variação, seleção e retenção e reprodução. Os GAs consideram que, embora tanto a aprendizagem quanto a evolução sejam selecionistas, elas não são permutáveis ou competitivas. A evolução determina as características fixas dos animais (relacionadas a cada espécie) que estabelecem suas possibilidades de aprendizagem e, consequentemente, de controle inteligente sobre as ações. Assim, os GAs possibilitam promover, em ambiente virtual, a reciprocidade entre aprendizagem e evolução de forma muito semelhante a como aconteceria na natureza, mas com a vantagem de poder desenvolver o processo milhões de vezes mais rápido do que no mundo real.

Esse tipo de proposta de estudo da Análise do Comportamento tem pelo menos três implicações importantes, segundo Hutchison. A primeira delas é a possibilidade de testar sua hipótese inicial, a de que os robôs se comportam, de fato, de forma muito semelhante aos animais. A segunda é a possibilidade de provar que os processos comportamentais postulados pela análise do comportamento são suficientes para produzir fenômenos de interesse, rebatendo as críticas de que conceitos como generalização, aprendizagem de discriminações visuais abstratas e encadeamento, entre outros, seriam muito simples para explicar o comportamento complexo.

O autor aponta ainda uma terceira consequência, de caráter mais prático, da incorporação do modelo do comportamento operante em robôs. Trata-se da possibilidade de produção de animais sintéticos capazes de desempenhar funções importantes no mundo real. Esses animais poderiam não ser humanóides, como a Rosie dos Jetsons, e sua estrutura física atenderia prioritariamente as especificidades de suas funções comportamentais. O principal a se considerar é que a tecnologia em robótica e inteligência computacional parece destinada a promover o bem-estar humano no futuro, mais ou menos como mostrou o filme “O Homem Bicentenário”. Espera-se que os analistas do comportamento estejam envolvidos nessa empreitada, acrescenta Hutchison.

Para saber mais detalhes sobre o trabalho:

Hutchison, W. R. (2012). The Central Role for Behavior Analysis in Modern Robotics, and Vice Versa. The Behavior Analyst, 35(1), 29–35.

Escrito por Naiene dos Santos Pimentel. Doutora em Filosofia pela UFSCar. Docente do IPTAN – Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves – São João del Rei – MG

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