Regras: Seguir ou não seguir? Eis a questão!

“Será que eu deveria seguir regras mesmo perdendo dinheiro? Mas… se ninguém está vendo? Humm… Assim eu poderia ‘burlar’ a regra e ganhar mais! Mas, e se alguém aparecer?? E se me repreenderem?? Vixe… e agora??? O que fazer?? Afinal, a regra é clara ou não é???”

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O que nos influencia na hora de seguir ou não uma regra? Para conhecer algumas das variáveis presentes neste tipo de escolha, pesquisadores brasileiros tentaram responder à pergunta acima, por meio de três experimentos. Para tanto, utilizaram um procedimento básico em que os participantes deveriam escolher um entre quatro estímulos, de acordo com a categoria do estímulo-modelo anteriormente apresentado. É o famoso “matching to sample” (MTS) em vigor, ou “escolha de acordo com o modelo”, neste caso, de um modo caracterizado “com atraso”, pois a figura-modelo desaparecia antes que as figuras de comparação aparecessem.

Bem, vamos descrever um pouco dos três experimentos realizados…

Os experimentos foram conduzidos da seguinte maneira: no centro da tela de um computador aparecia uma figura, aquela figura chamada modelo. Ao clicar, ela desaparecia e então, apareciam mais quatro figuras, uma em cada canto da tela. A tarefa dos participantes, que eram 8 estudantes universitários para cada experimento, era, escolher uma das quatro figuras que deveria combinar com a categoria da figura-modelo. Por exemplo, se a figura-modelo fosse de um animal, o participante deveria escolher uma figura de um animal para combinar, dentre as quatro opções. Se fosse um alimento, ele deveria escolher a figura de um alimento, e assim por diante. Foram usadas diversas figuras com categorias bem claras. Após cada escolha do participante, o próprio computador apresentava uma consequência indicando acerto ou erro. O acerto era seguido de pontos, que podiam ser trocados por dinheiro. Já o erro simplesmente não gerava pontos.

Simples, não? Porém, havia um pequeno conflito. O participante sempre tinha duas opções de acerto, pois apareciam duas figuras corretas dentre as quatro apresentadas, só que uma em cada diagonal. Estas diagonais formavam um X, de forma que, uma delas era composta pela figura do canto de cima da esquerda e pela figura do canto de baixo da direita (diagonal 1), e a outra diagonal era o inverso (diagonal 2). Isto era ensinado ao participante antes do estudo começar. Enfim, era ai que ocorria a manipulação de variáveis pelos experimentadores, pois era dito para o participante escolher a figura de uma das diagonais em detrimento da outra, ou diagonal 1 ou 2. A experimentadora, que estava presente na sala desde o início da sessão, dizia ao participante para escolher a figura da diagonal 1, por exemplo. Os estudos foram compostos por 4 fases, sendo que na primeira fase, se esta regra fosse seguida, gerava pontos. Nas demais fases, seguir a regra não gerava pontos, ou seja, a regra não mais correspondia à contingência programada.

Como já foi dito, foram 3 experimentos. Esta era a lógica de funcionamento de todos eles. Mas em cada um deles, os pesquisadores tentaram explorar variáveis distintas. Vamos a elas?

Para o primeiro experimento, se a resposta do participante estivesse certa, ele ganharia 5 centavos por acerto, podendo ao final da sessão, ganhar até 32 reais. Neste experimento, os pesquisadores estavam interessados em verificar se a presença ou a ausência da experimentadora na sala faria o participante mudar seu comportamento de seguir a regra apresentada por ela. Importante lembrar que esta variável foi mantida constante, ou seja, era a mesma experimentadora para todos os participantes.

Na fase inicial em que a regra era correspondente à contingência e na fase seguinte, na qual a regra era não correspondente à contingência, a experimentadora estava presente na sala durante a sessão. Na fase seguinte, ela saía da sala dando uma explicação qualquer e deixava o participante sozinho. Na última fase, ela voltava a estar presente. Só pra lembrar, a regra também não era correspondente à contingência nessas duas últimas fases. E ai, já consegue imaginar o que aconteceu?

Pois é… A maioria dos participantes deixou de seguir a regra quando este comportamento parou de gerar pontos, mas muitos deles só fizeram isto após a saída da experimentadora da sala, e continuaram não seguindo a regra, mesmo quando ela voltava.

Bem, para o segundo experimento, todo procedimento foi mantido, mudando-se apenas uma variável: o valor de cada ponto, que agora teria menor valor. Passou de 5 centavos por ponto para 1 centavo por ponto. Esta alteração enquadra-se no que chamamos de “magnitude do reforço”, que neste caso, diminuiu. No total, os participantes poderiam ganhar pouco mais de 6 reais. E agora, será que ainda valeria a pena “burlar” a regra? O que você faria?

Neste caso, a maioria dos participantes nem se importou com a presença da experimentadora na sala e logo deixou de seguir a regra e passou a responder de acordo com a contingência para ganhar seus pontos. Apenas um deles esperou que ela saísse da sala para então, deixar de seguir a regra.

Mas os pesquisadores ainda não estavam satisfeitos, e criaram um terceiro experimento, tentando responder à seguinte pergunta: e se a experimentadora repreender o participante, relembrando-o sobre qual diagonal ele deveria escolher, o que aconteceria? Neste experimento, caso o participante não seguisse a regra por 10 tentativas, a experimentadora dizia “Lembre-se que eu pedi para que você clicasse na diagonal x” (1 ou 2, dependendo da fase). E então, quais seriam os resultados agora?

Será que você acertou à pergunta? Pois é, apenas 1 dos 8 participantes deixou de seguir a regra e continuou ganhando pontos. Os demais seguiram a regra, mesmo perdendo a oportunidade de ganhar um “dinheirinho”.

Os dados dos 3 experimentos foram discutidos pelos autores, principalmente, em termos da importância da interação entre as duas variáveis independentes manipuladas para a mudança do comportamento.

Grande parte dos participantes parou de seguir a regra em algum momento do experimento, dada a discrepância entre a regra e a contingência, mas isto ocorreu especialmente, após a saída da experimentadora da sala. Assim, os autores afirmaram que ela pode ter tido a função de controle social. Contudo, a simples presença dela na sala não fez com que os participantes voltassem a seguir a regra, na fase seguinte. Para isto, foi necessário o uso da reprimenda verbal. Ou seja, foi importante o uso de duas variáveis em interação para que eles voltassem a se comportar seguindo a regra, que no caso, era discrepante à contingência.

Vale destacar que, o interessante neste estudo, não é simplesmente o seguimento de regras em si, mas justamente, o entrelaçamento das variáveis estudadas. No estudo 1, a discrepância da regra em relação à contingência com a presença ou a ausência da experimentadora na sala. No estudo 2, ainda teve a diminuição da magnitude do reforço. E no estudo 3, o acréscimo da reprimenda verbal. Estes entrelaçamentos se fazem importantes, já que podem mostrar que algumas variáveis agem em conjunto ou afetam o comportamento de forma diferente de quando outra variável não está presente.

E qual a relevância destes estudos? Eles trazem várias contribuições, tanto teóricas, quanto experimentais e práticas. Mas pode-se destacar ao menos uma questão, neste momento, que seria o fato dos participantes terem voltado a seguir a regra logo após a reprimenda, mesmo perdendo a oportunidade de ganhar dinheiro, e não terem ao menos questionado o motivo da reprimenda, que afinal, estava completamente oposta à “realidade” ou à contingência. Será que nós fazemos isto por ai? Seguimos regras que nos “prejudicam” sem ao menos questionar?

Bem… é isto! Espero que este estudo faça você repensar um pouco sobre o seguimento de regras, e se interessar em ler um pouco mais sobre o assunto!

Quer saber mais??

Donadeli, J. M. & Strapasson, B. A. (2015). Effects of Monitoring and Social Reprimands on Instruction-Following in Undergraduate Students. The Psychological Record, 65, 177-188.

Texto escrito por Cristiane Alves, professora da Universidade Federal de Goiás e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos – Laboratório de Estudos do Comportamento Humano.

Agradecimentos especiais à autora Josiane Donadeli pela contribuição neste post.

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