De Morogoro para o mundo. Ou, a saga dos Ratos Farejadores Africanos continua!

marcelo blog

Os Ratos Gigantes da Gâmbia (Cricetomys gambianus) que, por meio de técnicas de condicionamento operante, aprenderam a seguir o rastro olfativo de material explosivo que evola das cápsulas de minas terrestres[1], estão ganhando reconhecimento mundial. Consequentemente, países como o Camboja, também acometido pelo flagelo da guerra civil, estão considerando a viabilidade de recorrer aos roedores-socorristas para acelerar o processo de limpeza de campos minados. No entanto, segundo regras ambientais internacionais, os Ratos Gigantes precisariam ser castrados caso precisassem ser removidos do seu habitat natural e alocados em países com ecossistemas totalmente diferentes.

Apesar de alguns estudos terem demonstrado que a castração pode afetar a aquisição e a manutenção da discriminação olfativa em algumas espécies de roedores, uma pesquisa conduzida recentemente pelos cientistas comportamentais da APOPO (Anti-Persoonsmijnen Ontmijnende Product Ontwikkeling, em língua belga) demonstrou que os desempenhos de um grupo de Ratos Gigantes castrados eram idênticos aos desempenhos de um grupo de animais não castrados (sujeitos de ambos os grupos apresentaram praticamente a mesma porcentagem de acertos, falsos-alarmes, e levaram a mesma quantidade de tempo para encontrar o alvo). Mais interessante ainda é que a magnífica habilidade olfativa desses animais também pode ser útil em contextos de catástrofes urbanas.

Em outra pesquisa conduzida pela APOPO, publicada no Journal of Applied Behavior Analysis, cinco ratos foram treinados a rastrear alvos humanos (as próprias pessoas ou objetos utilizados por estas pessoas) em um campo de simulação de situação de catástrofe. Primeiramente, um rato era colocado sobre um tapume (50 cm x 2 m), onde podia se mover livremente. Sempre que ele se aproximasse de um dos adestradores um “beep” era acionado e uma porção de comida lhe era entregue por aquele adestrador. Após algumas tentativas, o rato movia-se prontamente em direção ao adestrador sempre que o “beep” era acionado. Foi estabelecida uma relação entre um som arbitrário e o reforçador primário (S-Sr+).

Na fase seguinte, uma pessoa (humano-alvo) adentrava no setting e ficava posicionada a certa distância, em diagonal ao rato. Utilizando o “beep”, o adestrador modelou, no rato, a resposta de mover-se na direção do humano-alvo, tocá-lo com as duas patas dianteiras e correr de volta para o local onde o adestrador estava posicionado, momento no qual recebia uma porção de comida. Todos os ratos foram submetidos a esse treino e, em seguida, eram transferidos para condições em que deveriam desviar de obstáculos pequenos (cadeiras, tijolos) ou grandes (fogões, geladeiras, móveis) para encontrar o humano-alvo e retornar ao adestrador em seguida.

Por último, os ratos foram testados em salas escuras que simulavam catástrofes reais. Esse novo setting era montado de tal modo que o único meio para encontrar o humano-alvo seria guiar-se por sinais olfativos.

Os pesquisadores reportaram que os as respostas de rastreio de humanos-alvo se transferiram prontamente para o novo setting. Além disso, os pesquisadores notaram que os ratos foram capazes de encontrar objetos com cheiros associados a seres humanos (roupas, por exemplo), demonstrando-se, assim, a ocorrência de generalização de estímulos. As aventuras dos nossos heróis roedores não devem parar por aqui. Acompanhe os posts do Boletim Behaviorista para ler sobre os próximos experimentos!

Para conferir os experimentos na íntegra:

Edwards, L.; Cox, C.; Weetjens, B.; & Poling, A. (2015). Influences of castration on the performance of landmine-detection rats (Cricetomys gambianus). Journal of Veterinay Behavior.

La Londe, K. B.; Mahoney, A.; Edwards, T. L..; Cox, C..; Weetjens, B.; Durgin, A.; & Poling, A. (2015). Training pouched rats to find people. Journal of Applied Behavior Analysis, (1)1-10.

Texto escrito por Marcelo Vitor Silveira

Doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano

Bolsista FAPESP

[1] https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2014/07/10/analise-do-comportamento-em-campo-minado/

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