Limites biológicos da aprendizagem: um exemplo de aprendizagem de aversão ao gosto

Você já comeu alguma coisa e passou mal depois? Agora você não quer nem ouvir falar desse alimento? Entenda um pouquinho melhor o porquê!

melina

Sabe quando você come aquele “podrão” delicioso na lanchonete do Seu Zé, e dali a algumas horas você começa a se sentir mal, a enjoar, e tem certeza de que, definitivamente, seu lanche “desceu quadrado”? E desde então você não quer nem ouvir mais falar desse podrão. Você já parou para pensar porque isso ocorre? Bom, é mais ou menos essa situação que alguns pesquisadores simulam com animais em laboratório, em um procedimento chamado de condicionamento de aversão ao gosto (conditioned taste aversion).

Esse tipo de procedimento consiste basicamente em dar uma solução de água com açúcar para os animais, em seguida injetar uma substância que produz uma sensação de mal-estar neles (normalmente, essa substância é cloreto de lítio). Quando a mesma solução doce é apresentada em uma ocasião seguinte, observa-se que o consumo dela diminui drasticamente. E isso acontece mesmo quando a sensação de mal-estar aparece até horas depois, caracterizando esse fenômeno como um tipo de aprendizagem muito tolerante a atraso. Este fato é um dos pontos mais interessantes sobre esse assunto, já que nós geralmente aprendemos que, para que ocorra o condicionamento, é necessária uma contiguidade temporal entre a apresentação dos estímulos. Mas por que esta tolerância ao atraso ocorre? Os pesquisadores da área têm apresentados algumas ideias para explicar porque o condicionamento ocorre mesmo com horas de atraso entre o estímulo alvo (o gosto) e a consequência (a sensação de mal-estar).

É possível explicar esse fenômeno considerando que haja uma espécie de “sensação pós-gosto”, que persiste por várias horas. Essa sensação é pareada com a sensação de mal-estar, e produz uma aversão condicionada a essa “sensação pós-gosto”, que então é generalizada para o gosto originalmente apresentado.

Além disso, alguns pesquisadores ainda hipotetizam que haveria um “ofuscamento serial” entre os estímulos. Para verificar isso, os pesquisadores apresentaram uma outra substância com outro gosto, além daquela primeira que já vinha sendo apresentada (a substância a qual podemos dizer que tem o “gosto alvo” de interesse desse tipo de pesquisa). Esse outro gosto era apresentado ora antes, ora depois do gosto alvo, e verificaram se haveria um consumo maior ou menor da substância alvo. Os resultados indicaram que, quando a substância é apresentada depois, a aversão ao gosto alvo é menor.

Outra forma de explicação desse fenômeno é conhecida por Teoria da Interferência Concorrente (Concurrent Interference Theory – Revusky, 1971), que defende que o tempo transcorrido entre a apresentação do estímulo alvo e a consequência não é essencial para explicar esse tipo de fenômeno, mas sim que a presença de outros eventos, que podem competir com o pareamento/a associação entre o gosto e a sensação de mal-estar, ou seja, a apresentação de uma interferência concorrente com o estímulo alvo. Isso quer dizer que se o organismo ingerir outra(s) substância(s) de outro(s) sabor(es), por exemplo, o condicionamento para a aversão ao primeiro gosto será menor. Quanto mais eventos intermediários ocorrerem, e quanto mais relevantes forem os estímulos envolvidos (um gosto mais forte irá produzir mais interferência do que um gosto mais fraco) menor será o condicionamento de aversão ao gosto nestes casos.

A despeito da explicação, os resultados indicam que uma sensação de mal-estar é mais facilmente associada a um estímulo que seja um alimento, do que a um estímulo sonoro, por exemplo. Além disso, evidências indicam também que a aprendizagem de aversão ao gosto é mais pronunciada quando o gosto é totalmente novo. Pesquisas nesse tema nos ajudam a entender desde fenômenos cotidianos, como foi o “caso do podrão” que ilustrou o início do texto, até o condicionamento de aversão ao gosto que pode ocorrer para alguns pacientes em quimioterapia. Como esse tipo de tratamento causa náuseas e sensação de mal-estar, é interessante atentar para os alimentos ingeridos previamente a uma sessão, além de se planejar estratégias que possam minimizar esse efeito (ou seja, dificultar essa aprendizagem).

Esse assunto faz parte de uma edição especial de publicações que falam dos limites biológicos da aprendizagem (Biological Constraints on Learning). Este campo do conhecimento trata o comportamento aprendido como um traço fenotípico que foi adaptativo, e/ou foi uma adaptação, considerando como a evolução influenciou a efetividade dos processos que são usados para estudar a aprendizagem. Temas que envolvam esses assuntos são muito interessantes, e muitas vezes pouco explorados pelos analistas do comportamento, e se referem não apenas a aspectos anatômicos e fisiológicos dos organismos, mas, principalmente também, à história evolutiva e adaptativa do valor da aprendizagem.

Gostou deste post? Quer saber mais? Esses foram os artigos originais:

Burgos, J. E. (2015) Introduction: Biological Constraints on Learning. International Journal of Comparative Psychology, 28.

Kwok, D. W.S., Boakes, R. A. (2015) Taste aversion learning despite long delays: How best explained? International Journal of Comparative Psychology, 28.

Escrito por Melina Vaz. Bióloga, Mestra em Psicobiologia, Doutoranda em Psicobiologia, quase psicóloga. Muito gulosa e fazendo um esforço para esquecer os próprios eventos de aprendizagem de aversão ao gosto que já passou na vida, os quais lembrou enquanto escrevia este texto.

Crédito foto: iStockphoto/Paul Roux

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