O funcionamento do cérebro diante de símbolos com carga emocional

Estudo aponta semelhança nos padrões eletrofisiológicos diante de estímulos emocionais e estímulos neutros a eles relacionados.

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Sabe quando você vai a um restaurante e só de olhar o cardápio já começa a salivar? Ou quando você está viajando de férias e ao avistar a placa com o nome da cidade, já fica super animado?  É lógico que você não vai comer o cardápio e nem se satisfazer em chegar só até a placa da cidade. No entanto, o nome dos pratos no cardápio e a placa com o nome da cidade são símbolos diante dos quais, muitas vezes, nos comportamos da mesma forma que nos comportaríamos diante daquilo que eles simbolizam. Mas por que será que isso acontece?

Falando em termos analítico comportamentais, as palavras no cardápio e a comida fazem parte de uma mesma classe de equivalência de estímulos. O mesmo se aplica ao nome da cidade escrito na placa e à cidade em si. É mais ou menos assim: na nossa vida aprendemos que o som “bolo” (estímulo X1) está relacionado com o bolo em si (estímulo X2). Mais para frente, aprendemos que o som “bolo” (X1) está relacionado com a palavra escrita “bolo” (estímulo X3).  Após essa história de aprendizagem, passamos a relacionar, sem a necessidade de ensino direto, a palavra escrita “bolo” com o bolo em si. Em termos esquemáticos, se X1 é equivalente a X2 e a X3, então X2 e X3 são equivalentes. Esse tipo de relação passa a ser uma relação simbólica.

Depois que uma aprendizagem como essa ocorre, quando um determinado estímulo evoca respostas emocionais ou fisiológicas, por exemplo, os outros estímulos da classe também passam a evocar essas respostas. Sendo assim, salivamos diante do bolo e então passamos a salivar diante da palavra no cardápio também (mas não comemos o cardápio, porque essa relação se aplica apenas para algumas situações, isto é, são relações condicionais). A esse fenômeno deu-se o nome de transferência de função.

Pensando nisso, os pesquisadores Micah Amd, Dermot Barnes-Holmes e Jason Ivanoff ficaram curiosos em saber o que acontece no cérebro de uma pessoa quando ela está diante de estímulos de uma classe de equivalência que originalmente eram neutros, mas que passaram a adquirir uma função diferente por fazerem parte de uma classe de equivalência com algum estímulo significativo.

Eles descobriram com essa pesquisa que os padrões de ativação eletrofisiológicos que ocorrem diante de estímulos positivos ou negativos são parecidos com os que ocorrem diante de estímulos originalmente neutros de uma classe de equivalência e que foram indiretamente relacionados com os estímulos positivos ou negativos.

Para chegar a esses resultados, primeiro os participantes aprenderam três classes de equivalência compostas por três estímulos neutros cada (A1B1C1; A2B2C2; A3B3C3). Em seguida, os estímulos A1, A2 e A3 foram relacionados, respectivamente, com fotos com imagens positivas, neutras e negativas. Por último, os participantes viam uma sequência de estímulos em que eram apresentados tanto aqueles que foram usados no procedimento, quanto outros completamente novos e deveriam dizer quais estímulos já haviam sido vistos durante a sessão. Nessa última tarefa foram coletadas as medidas eletrofisiológicas.

Os padrões eletrofisiológicos apresentados diante dos estímulos novos e dos estímulos A2, B2 e C2 foram comparados com os padrões observados para os estímulos A1, B1, C1, A3, B3 e C3. Os pesquisadores estavam principalmente interessados em observar os resultados diante de C1 e C3, já que esses estímulos nunca foram apresentados juntamente com A1 e A3 e estavam relacionados apenas indiretamente (faziam parte da mesma classe de equivalência).  Os resultados mostraram que os padrões observados diante dos estímulos A1 e C1 e diante de A3 e C3 foram similares entre si; similares aos que se costumam ser observados diante de estímulos emocionais; e diferentes dos estímulos novos e de A2, B2 e C2 (que tinham sido pareados com as figuras neutras).

Voltando a um dos exemplos do início, isso significa que aquilo que observamos no dia-a-dia, como a alegria diante da placa que indica a proximidade da cidade, também pode ser observado nos padrões eletrofisiológicos. Isto é, assim como nos comportamos de maneira parecida diante da placa e da cidade, os padrões eletrofisiológicos diante de estímulos positivos ou negativos e estímulos originalmente neutros, mas que foram indiretamente relacionados aos estímulos positivos ou negativos, também são parecidos. Esses resultados são bacanas porque nos ajudam a entender melhor o fenômeno da formação de símbolos e de como reagimos a eles.

Quer saber mais?! Confira o artigo original.

Amd, M., Barnes-Holmes, D., & Ivanoff, J. (2013) A derived transfer of eliciting emotional functions using differences among electroencephalograms as a dependent measure. Journal Of The Experimental Analysis Of Behavior 99(3), 318–334.

Postado por Natalia M. Aggio, pesquisadora associada do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos e bolsista CAPES de pos-doutoramento na mesma instituição.

Crédito imagem: http://guardianlv.com/2014/08/brain-to-brain-communication-using-eeg-waves-and-the-internet/

Uma perspectiva comportamental moderna da complexidade e flexibilidade da linguagem

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A linguagem é realmente fascinante! Ela permite que nós, seres humanos, realizemos ações realmente fantásticas. Apesar de parecer algo óbvio, natural e muito fácil, ela é extremamente complexa e demanda um bom tempo de prática e aprendizado que inicia ainda em nossos primeiros anos. Muitas vezes somos surpreendidos por suas peculiaridades. Por exemplo, quando ouvimos (em uma conversa) “você deve ir para sua sela”, como sabemos que não estamos sendo presos, mas que sim devemos subir no cavalo?  Ou quando alguém menciona “estou com um problema no assento”, como sabemos que é algo em sua cadeira e não uma dificuldade ortográfica? Ou ainda quando alguém pede “você pode acender o fogão”, sabemos que devemos ligar a chama e não escalar o eletrodoméstico?

Como sabemos responder adequadamente a estímulos verbais sonoros ou escritos? Reagimos diferentemente a esses sons “iguais” e outras vezes reagimos da mesma maneira diante de estímulos diferentes. Quando estamos dirigindo e notamos um policial com a mão levantada, sem titubear, paramos o veículo. Responderíamos da mesma maneira se ouvíssemos um apito, se víssemos uma placa pintada de vermelho com uma palavra (PARE) ou até ao ver uma mudança de cores nas luzes do semáforo. A Análise do Comportamento apresenta diferentes explicações para como nós nos comportamos diante destes estímulos e uma delas é a da Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory – RFT).

Partindo da perspectiva da Teoria das Molduras Relacionais, esse comportamento de “emoldurar” os estímulos é o que permite uma explicação moderna para a linguagem e cognição. Esse comportamento só é possível porque desde muito pequenos somos intensamente expostos a diferentes estímulos e aprendemos a como nos comportar verbalmente, respondendo a dicas contextuais. Essas dicas contextuais do ambiente irão selecionar como devemos relacionar e responder aos eventos. Por exemplo, se eu acabo de conhecer uma pessoa (Fernando) e um amigo me diz “Este é o Fernando” sei que este estímulo verbal “Fernando” poderá substituir em diversos contextos a própria pessoa que me foi apresentada. Essa dica contextual (este é) é do tipo relacional selecionando de como eu irei me comportar em relação a pessoa que eu conheci e o estímulo verbal, neste caso eles seriam “equivalentes”. Em outro momento alguém me diz “Cuidado com o Fernando, ele é perigoso”. Esse termo perigoso é uma dica contextual funcional, e dessa forma irá selecionar como me comportarei perante o estímulo de acordo com a relação estabelecida anteriormente. Provavelmente, mesmo que ele nunca tenha feito nada ruim comigo, depois dessa afirmação minha amizade com o Fernando está com os dias contados. Se passo a me sentir desconfortável e me afasto de Fernando, podemos dizer que foi observada uma transferência de funções, pois reajo a ele da mesma forma que reagiria a coisas “perigosas”.

É desse tipo de controle contextual que iremos falar hoje. O experimento que apresentaremos neste texto foi publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, em 2015 com autoria do William, Adriana, Roberta e Yara. O objetivo deste estudo foi investigar a complexidade de redes relacionais de estímulos que podem, de acordo com o contexto estabelecido, evocar diferentes respostas.

Explicando de forma bem simplificada, no método dessa pesquisa, eles inicialmente expuseram os participantes (todos adultos) ao ensino de relações entre conjuntos de estímulos abstratos. Estímulos de um conjunto A (A1 e A2) foram relacionados aos estímulos de um conjunto B (B1 e B2) e C (C1 e C2).  Foi atestado, em seguida, a partir de sondas o estabelecimento de duas redes relacionais (A1B1C1 e A2B2C2). A partir desse treino, uma primeira questão poderia ser respondida: se fosse ensinado que os estímulos do conjunto B evocassem uma resposta particular (pressionar a tecla X do computador perante B1 ou Z perante B2), será que os estímulos relacionados como equivalentes a estes também evocariam estas respostas? Foi isso que os autores observaram, a medida em que foram ensinadas as respostas perante B1 e B2, sem nenhum ensino posterior, C1 e C2 evocavam as mesmas respostas, respectivamente. Como no exemplo do Fernando, ocorreu aqui uma transferência de função.

Outra questão proposta pelos autores foi: será que essa transferência de funções pode ser colocada sob controle discriminativo? Para isso expuseram os participantes a um novo treino, em que quando os estímulos do conjunto B estivessem em um fundo azul eles deveriam responder nas mesmas teclas (X e Z), contudo quando em um fundo amarelo, evocariam novas respostas (pressionar M perante B1 e N perante B2). Uma vez realizado este treino com os estímulos do conjunto B será que ocorreria, sem treino adicional, a transferência para os estímulos do conjunto C? Este foi o resultado que os autores observaram. Todos os participantes responderam perante os estímulos do conjunto C a conforme o fundo que foi apresentado, da mesma maneira que ocorreu para o estímulo B.

E se fossem adicionados novos elementos a essas classes a transferência de funções observada aconteceria prontamente, considerando os novos fundos e respostas evocadas? Foram ensinadas então, novas relações (CD e DE) e verificadas em testes apropriados a ampliação dessas redes relacionais (neste ponto, A1B1C1D1E1 e A2B2C2D2E2). Novamente, o que foi observado nos resultados de todos os participantes: eles transferiram as funções em todos os contextos citados. E nessa rede maior, os autores ainda fizeram mais uma manipulação: ensinaram que novos fundos (linhas horizontais e verticais) seriam equivalentes aos fundos originais, e estes, equivalentes aos fundos coloridos (azul e amarelo). Com estas novas relações estabelecidas, observaram nova transferência de funções utilizando os novos fundos, mesmo sem os participantes terem sequer aprendido diretamente a responder a eles.

Dessa forma, os resultados obtidos pelos pesquisadores permitiram demonstrar em diferentes contextos a transferência de funções em redes relacionais totalmente arbitrárias. Estes resultados mimetizam aspectos sofisticados da linguagem. No contexto natural, nós comumente respondemos a diferentes dicas contextuais que modulam as funções dos estímulos no nosso ambiente. Quando procuramos explicar a complexidade da linguagem, estes resultados permitem-nos entender que não é apenas a quantidade de relações entre os estímulos que contribuem com essa complexidade, mas também a aprendizagem de novos contextos que podem afetar as funções destes estímulos. Esse tipo de trabalho, mesmo realizado dentro de um laboratório, permite inferir importantes implicações aplicadas. Principalmente quando as funções evocadas são respondentes, esse modelo experimental apresenta importantes interpretações a problemas psiquiátricos como fobias e ansiedade. O aprofundamento de estudos neste tipo de procedimento potencialmente nos permitirá planejar novas intervenções.

Quer saber mais?

Perez, W.F., Fidalgo, A. P., Kovac, R. & Nico, Y. C. (2015) The transfer of Cfunc contextual control through equivalence relations. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 103,3, 511-523.

Texto escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, pesquisador associado e professor voluntário no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar

Crédito foto: TED Staff