Uma perspectiva comportamental moderna da complexidade e flexibilidade da linguagem

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A linguagem é realmente fascinante! Ela permite que nós, seres humanos, realizemos ações realmente fantásticas. Apesar de parecer algo óbvio, natural e muito fácil, ela é extremamente complexa e demanda um bom tempo de prática e aprendizado que inicia ainda em nossos primeiros anos. Muitas vezes somos surpreendidos por suas peculiaridades. Por exemplo, quando ouvimos (em uma conversa) “você deve ir para sua sela”, como sabemos que não estamos sendo presos, mas que sim devemos subir no cavalo?  Ou quando alguém menciona “estou com um problema no assento”, como sabemos que é algo em sua cadeira e não uma dificuldade ortográfica? Ou ainda quando alguém pede “você pode acender o fogão”, sabemos que devemos ligar a chama e não escalar o eletrodoméstico?

Como sabemos responder adequadamente a estímulos verbais sonoros ou escritos? Reagimos diferentemente a esses sons “iguais” e outras vezes reagimos da mesma maneira diante de estímulos diferentes. Quando estamos dirigindo e notamos um policial com a mão levantada, sem titubear, paramos o veículo. Responderíamos da mesma maneira se ouvíssemos um apito, se víssemos uma placa pintada de vermelho com uma palavra (PARE) ou até ao ver uma mudança de cores nas luzes do semáforo. A Análise do Comportamento apresenta diferentes explicações para como nós nos comportamos diante destes estímulos e uma delas é a da Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory – RFT).

Partindo da perspectiva da Teoria das Molduras Relacionais, esse comportamento de “emoldurar” os estímulos é o que permite uma explicação moderna para a linguagem e cognição. Esse comportamento só é possível porque desde muito pequenos somos intensamente expostos a diferentes estímulos e aprendemos a como nos comportar verbalmente, respondendo a dicas contextuais. Essas dicas contextuais do ambiente irão selecionar como devemos relacionar e responder aos eventos. Por exemplo, se eu acabo de conhecer uma pessoa (Fernando) e um amigo me diz “Este é o Fernando” sei que este estímulo verbal “Fernando” poderá substituir em diversos contextos a própria pessoa que me foi apresentada. Essa dica contextual (este é) é do tipo relacional selecionando de como eu irei me comportar em relação a pessoa que eu conheci e o estímulo verbal, neste caso eles seriam “equivalentes”. Em outro momento alguém me diz “Cuidado com o Fernando, ele é perigoso”. Esse termo perigoso é uma dica contextual funcional, e dessa forma irá selecionar como me comportarei perante o estímulo de acordo com a relação estabelecida anteriormente. Provavelmente, mesmo que ele nunca tenha feito nada ruim comigo, depois dessa afirmação minha amizade com o Fernando está com os dias contados. Se passo a me sentir desconfortável e me afasto de Fernando, podemos dizer que foi observada uma transferência de funções, pois reajo a ele da mesma forma que reagiria a coisas “perigosas”.

É desse tipo de controle contextual que iremos falar hoje. O experimento que apresentaremos neste texto foi publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, em 2015 com autoria do William, Adriana, Roberta e Yara. O objetivo deste estudo foi investigar a complexidade de redes relacionais de estímulos que podem, de acordo com o contexto estabelecido, evocar diferentes respostas.

Explicando de forma bem simplificada, no método dessa pesquisa, eles inicialmente expuseram os participantes (todos adultos) ao ensino de relações entre conjuntos de estímulos abstratos. Estímulos de um conjunto A (A1 e A2) foram relacionados aos estímulos de um conjunto B (B1 e B2) e C (C1 e C2).  Foi atestado, em seguida, a partir de sondas o estabelecimento de duas redes relacionais (A1B1C1 e A2B2C2). A partir desse treino, uma primeira questão poderia ser respondida: se fosse ensinado que os estímulos do conjunto B evocassem uma resposta particular (pressionar a tecla X do computador perante B1 ou Z perante B2), será que os estímulos relacionados como equivalentes a estes também evocariam estas respostas? Foi isso que os autores observaram, a medida em que foram ensinadas as respostas perante B1 e B2, sem nenhum ensino posterior, C1 e C2 evocavam as mesmas respostas, respectivamente. Como no exemplo do Fernando, ocorreu aqui uma transferência de função.

Outra questão proposta pelos autores foi: será que essa transferência de funções pode ser colocada sob controle discriminativo? Para isso expuseram os participantes a um novo treino, em que quando os estímulos do conjunto B estivessem em um fundo azul eles deveriam responder nas mesmas teclas (X e Z), contudo quando em um fundo amarelo, evocariam novas respostas (pressionar M perante B1 e N perante B2). Uma vez realizado este treino com os estímulos do conjunto B será que ocorreria, sem treino adicional, a transferência para os estímulos do conjunto C? Este foi o resultado que os autores observaram. Todos os participantes responderam perante os estímulos do conjunto C a conforme o fundo que foi apresentado, da mesma maneira que ocorreu para o estímulo B.

E se fossem adicionados novos elementos a essas classes a transferência de funções observada aconteceria prontamente, considerando os novos fundos e respostas evocadas? Foram ensinadas então, novas relações (CD e DE) e verificadas em testes apropriados a ampliação dessas redes relacionais (neste ponto, A1B1C1D1E1 e A2B2C2D2E2). Novamente, o que foi observado nos resultados de todos os participantes: eles transferiram as funções em todos os contextos citados. E nessa rede maior, os autores ainda fizeram mais uma manipulação: ensinaram que novos fundos (linhas horizontais e verticais) seriam equivalentes aos fundos originais, e estes, equivalentes aos fundos coloridos (azul e amarelo). Com estas novas relações estabelecidas, observaram nova transferência de funções utilizando os novos fundos, mesmo sem os participantes terem sequer aprendido diretamente a responder a eles.

Dessa forma, os resultados obtidos pelos pesquisadores permitiram demonstrar em diferentes contextos a transferência de funções em redes relacionais totalmente arbitrárias. Estes resultados mimetizam aspectos sofisticados da linguagem. No contexto natural, nós comumente respondemos a diferentes dicas contextuais que modulam as funções dos estímulos no nosso ambiente. Quando procuramos explicar a complexidade da linguagem, estes resultados permitem-nos entender que não é apenas a quantidade de relações entre os estímulos que contribuem com essa complexidade, mas também a aprendizagem de novos contextos que podem afetar as funções destes estímulos. Esse tipo de trabalho, mesmo realizado dentro de um laboratório, permite inferir importantes implicações aplicadas. Principalmente quando as funções evocadas são respondentes, esse modelo experimental apresenta importantes interpretações a problemas psiquiátricos como fobias e ansiedade. O aprofundamento de estudos neste tipo de procedimento potencialmente nos permitirá planejar novas intervenções.

Quer saber mais?

Perez, W.F., Fidalgo, A. P., Kovac, R. & Nico, Y. C. (2015) The transfer of Cfunc contextual control through equivalence relations. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 103,3, 511-523.

Texto escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, pesquisador associado e professor voluntário no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar

Crédito foto: TED Staff

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