Sobre comportamentalismo, cientificismo e fé

John Staddon retoma David Hume em ensaio provocativo

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Em “Faith, Fact and Behaviorism”, publicado em 2013 pela The Behavior Analyst, o professor John Staddon, da Duke University, retoma um problema originalmente abordado por David Hume (1711-1776): a impossibilidade de derivar prescrições de descrições. Nenhum enunciado do tipo “deve ser” poderia ser naturalmente derivado de um enunciado do tipo “é”. Também conhecido como guilhotina de Hume, esse é um problema que envolve consequências profundas para pensar as relações entre ciência, moralidade e fé. Subscrevendo à tese de Hume, Staddon (2013) vai além: ponderando que nenhum conjunto descrições factuais seria suficiente para instigar o dever, ou seja, para nos impelir a agir, o autor sugere que “toda ação motivada depende, em última instância, de crenças que não podem ser provadas pelos métodos da ciência, isto é, de fé” (p. 229).

A importância em retomar o problema identificado por Hume se deveria, principalmente, à recente (re)emergência da doutrina do naturalismo científico, “a idéia de que a ciência é tudo que existe, de modo que se algo não pode ser provado pelos métodos da ciência, não tem nenhum significado. É uma variedade do positivismo lógico, que os estudiosos entre vocês reconhecerão pela afirmação de que existem apenas dois tipos de afirmações verdadeiras: tautologias, como a lógica e a matemática, e afirmações empiricamente verificáveis pela ciência. Todo o resto é bobagem” (p. 229). Também referido por termos como cientificismo, ou imperialismo científico, o naturalismo científico descrito por Staddon, e encabeçado por pensadores como Richard Dawkins e E. O. Wilson, poderia encontrar ecos em aspectos do comportamentalismo de B. F. Skinner, como na ideia de que seria possível fazer da análise do comportamento uma ciência dos valores. Ora, afinal, valores seriam um problema da ciência ou problema da fé?

Sondando essa questão, Staddon (2013) volta-se ao mais próprio terreno da fé: a religião. O autor nota que toda religião encerraria pelo menos três “ingredientes”, ou categorias, ainda que a ênfase em cada um deles varie conforme a religião, nomeadamente: a categoria do sobrenatural, a categoria da moralidade e a categoria do natural. A categoria do sobrenatural (composta de elementos inobserváveis ou inverificáveis, a exemplo de teorias sobre reencarnação), estaria, por definição, fora do escopo da ciência. Como instituído pelo princípio de non-overlapping magisteria (NOMA), proposto pelo biólogo Stephen J. Gould, ciência e religião tratariam de domínios independentes, que não se sobrepõem. Já parte da categoria do natural, dividida entre asserções atemporais (e.g.. enunciados sobre propriedades e processos físicos, como a teoria da transubstanciação) e históricas (e.g. histórias sobre a ressurreição de Cristo ou a arca de Noé), poderia entrar em conflito com explicações científicas, na medida em que trata de alguns eventos ou fenômenos também próprios, ou ao menos admissíveis, a um escopo científico.

Mas o que dizer em relação à segunda categoria, a moralidade? A ciência oferece possibilidades explicativas para certas questões morais, como a origem dos valores, por exemplo, tratando-os como uma questão de contingências de reforçamento, como fez B. F. Skinner. Acreditar que algo é bom ou ruim, por exemplo, seria algo construído por meio da ação de reforços positivos e negativos (cf. Skinner, 1971). Entretanto, como Staddon (2013) pontua, “compreender as causas de uma crença não faz tal crença correta. Não fornece a nós uma razão para acreditar (…) Os fatos e lógica da ciência, sem a ajuda de valores, não fornecem nenhuma base para a ação. Deve haver um motivo, alguma noção do bem e do mal, algum tipo de fé, para nos impelir a agir” (pp. 236-237). Como exemplo ilustrativo é mencionada a eugenia, hoje mais amplamente repudiada, mas que por muito tempo persistiu como ideia bastante popular entre a elite científica. Poderia a ciência, por si só, decidir pela sua não-viabilidade, ou imoralidade? Deveria, nesse caso, a ciência ser informada por algo que foge ao seu próprio escopo, algo não necessariamente da ordem da religião, mas, ainda assim, da ordem da ?

Tratando da possibilidade de absoluta não-contaminação da ciência pela fé, Staddon (2013) assinala noções metafísicas que frequentemente subjazem a ciência (como a crença em uma realidade externa, ordenada e sujeita a leis fixas), para afirmar que mesmo aqueles pretensamente livres de qualquer fé não o são: o que os distingue “não é a sua falta de fé, mas sua falta de vontade para examiná-la” (p. 237).

Essas são todas questões deliberadamente instigantes e provocativas a comportamentalistas radicais, por diferentes motivos. Um deles é que tais questões carregam consigo uma crítica à visão asséptica do cientista como um sujeito esvaziado de crenças, valores e temperamento. Se levarmos a sério a noção de que ciência é comportamento dos cientistas, ainda faz sentido subscrever à ideia de ciência como produto de um sujeito que opera no mundo absolutamente livre de crenças sobre o seu funcionamento? Um segundo desafio ao comportamentalista é lidar com a própria noção de crença: negligenciar o papel da crença por considerá-la um tema “mentalista” não poderia empobrecer nossa visão sobre o empreendimento científico?

Por outro lado, considerando que “crença é uma questão de probabilidade de ação” (Skinner, 1969, p. 170)[1], talvez estejamos em melhores condições de elaborar um ponto de vista mais complexo sobre o comportamento dos cientistas, lançando luz sobre variáveis de controle outrora não-divisadas. O ensaio de Staddon (2013) é providencial para a reflexão sobre as consequências dos compromissos filosóficos da análise do comportamento, em suas interpretações positivista e pragmatista.

Discorda? Concorda? Ficou curioso? Ficou furioso?

Então confira o artigo na íntegra:

Staddon, J. (2013). Faith, fact and behaviorism. The BehaviorAnalyst, 36(2), 229–238.

Créditos da imagem: https://www.facebook.com/ontologistics/photos/pb.278974435464724.-2207520000.1443363483./995414800487347/

Postado por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

 

[1] Skinner, B. F. (1969). Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.