O que uma “corrida radical” pode nos dizer sobre ensino-aprendizagem?

marlon

Como motivar os alunos a se empenharem em realizar suas tarefas de casa? Em especial, alunos com dificuldades de aprendizagem. No estudo de Derek Houser e colaboradores, alunos norte-americanos foram expostos a uma intervenção e como resultado aprimorou-se o desempenho acadêmico destes alunos.

Esse estudo foi realizado com alunos de uma sala de inclusão que apresentavam dificuldades de aprendizagem e a maioria possuía algum tipo de deficiência. Ademais, apresentavam baixo desempenho escolar e, em geral, não completavam suas lições de casa. A intervenção procurou gerar um clima de competição amistosa e motivar os alunos no engajamento em suas tarefas por meio de múltiplos componentes. Esses componentes eram: uma pista de brinquedo oval com 20 casas, cinco cores diferentes de carrinhos de corrida, o placar que indicava a colocação dos carrinhos, um quadro, cartões para recompensas ao time vencedor e um “motivador misterioso” que era um brinde obtido ao final da corrida. Toda a tarefa que envolvia o processo de intervenção foi nomeada corrida radical (Radical Raceway no original) e a condução do experimento ficou a cargo dos dois professores responsáveis pela sala.

 

Mas o leitor deve estar se perguntando! Como isso foi programado? Vamos descrever o método do estudo então!

 

Na condição inicial não era realizada nenhuma alteração na rotina dos estudantes. Os alunos tinham dez minutos ao final da aula para realizarem suas lições de casa independentemente e, após tocar o sinal, entregavam a lição em uma caixa na mesa do professor. Durante a condição de intervenção, os professores dividiram os alunos em cinco times com base nas cores dos carrinhos de corrida e explicaram aos alunos as regras do jogo. Ao longo desta fase, nos dez minutos finais da aula, os times se reuniam em rodas onde eram discutidas as resoluções da lição de casa. Desse modo, cada time tinha dez minutos para resolução da atividade e, ao tocar do sinal, os alunos deveriam entregar as suas lições na caixa do professor. O critério para o avanço na corrida era a entrega das atividades de todos os membros do time realizadas em sua totalidade e com no mínimo 85% de acertos. Completar as tarefas dentro deste critério dava direito a cada grupo avançar uma casa com seus carrinhos e o time recebia uma recompensa adicional. Diariamente, o time com maior número de pontos nas tarefas poderia avançar duas casas adicionais e o time em segundo lugar uma casa adicional.

O time vencedor, ou seja, o primeiro a cruzar a linha de chegada, tinha acesso a um envelope com a indicação do “motivador mistério” (brinde com alto valor reforçador). Os professores monitoravam os desempenhos dos times publicamente por meio de postagens em um placar com a posição de cada carrinho. Adicionalmente, os professores postavam em um quadro os nomes da equipe, as cores dos melhores colocados, as médias diárias dos trabalhos de casa (contendo a conclusão e precisão das tarefas de cada time), porém, as notas dos alunos individuais não eram postadas. Havia um retorno à condição inicial (sem intervenção) e posteiromente os alunos eram reexpostos à intervenção para finalizar o experimento.

 

Esperando por detalhes dos resultados? Vamos conferir!

 

A corrida radical produziu contingências interdependentes nos grupos, ou seja, os elementos da corrida radical foram reforçadores e produziram aumento do repertório acadêmico desejado. Tais elementos, segundo os pesquisadores foram: a colaboração entre os colegas do time na realização das tarefas, o motivador secreto e próprio avançar dos carrinhos pelas casas.

Os resultados mostram que todos alunos tiveram melhoras nas suas notas e entregaram as lições de casa com pontualidade (incluindo alunos com planos de ensino individualizado, dos quais se esperava maior dificuldade com a realização das tarefas), entretanto nas condições em que a corrida radical (intervenção) era retirada este desempenho não era mantido. Os autores discutem que estudos futuros deveriam verificar qual parâmetro da intervenção de fato é crucial para o aumento de engajamento nas tarefas, ou seja, qual característica da corrida radical permitiu a melhor adesão nas tarefas. Ainda, segundo os autores, novos estudos poderiam verificar o efeito de uma intervenção ao longo do tempo (a corrida radical ou outra intervenção) e se possível verificar a ocorrência de explicita generalização de desempenho para outras atividades.

 

Resumo da ópera e a moral da história…

 

Desse modo, o estudo Derek Houser e colaboradores teve como principal contribuição mostrar que intervenções com multicomponentes podem melhorar consideravelmente o desempenho e engajamento de alunos com dificuldades de aprendizagem. Esse estudo mostra que a corrida radical é uma intervenção eficaz e original, pois confirma que, no processo de ensino, as contingências planejadas em sala de aula podem favorecer a aprendizagem.

 

Para saber mais sobre o estudo:

 

Houser, D., Maheady, L., Pomerantz, D., & Jabot, M. (2015). Effects of Radical Raceway on Homework Completion and Accuracy in a Ninth-grade Social Studies Inclusion Class. Journal of Behavioral Education, 24(4), 402-417.

 

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos

Medo de falar em público? Nós temos a solução!

Untitled

Vo-vo…você fica nervoso…huuuuumm….na hora de …haaaaammmmm…. falar em público?

E quando isso, né, acontece, né. Você fica, falando, né…. Hããã…. um monte de “nés”, “hãns” e “hums”???

Seus problemas acabaram! – ou ao menos é isso que parece indicar o estudo realizado por Carolyn Mancuso e Raymond G. Miltenberger, pesquisadores da Universidade da Califórnia: É possível desenvolver um treino adequado para superar essas dificuldades!

Pensando nisso, os pesquisadores da Universidade da Califórnia, Carolyn Mancuso e Raymond G. Miltenberger, convidaram seis estudantes universitárias e propuseram a elas um tipo de treinamento que pudesse melhorar o modo como elas falavam em público.

Primeiro os pesquisadores apresentavam às participantes vários temas (meu primeiro emprego, minhas férias favoritas, meu filme predileto, etc) e, entre eles, um era escolhido por sorteio para que a participante, em 10 minutos, pudesse preparar uma breve fala sobre o assunto em questão. Depois de preparado o rascunho do discurso, as participantes deveriam apresentá-lo ao pesquisador durante 3-5 minutos.

Por meio da filmagem dessas falas, foi possível observar a taxa de ocorrência por minuto, desse tipo de comportamento (de proferir sílabas sem sentido como “um,” “uh,” “ah,” né “eh”, ou de palavras sendo usadas fora do contexto de sua classe gramatical, por exemplo, “então”, durante um discurso). Antes do início do treinamento, essa contagem foi utilizada para aferir a linha de base, e também o pós-teste ao final de todo o processo.

O treinamento foi de dois tipos: primeiro o de “tomada de consciência” e o de “comportamentos concorrentes”. O primeiro incluía observar a topografia desses comportamentos, e aprender a discriminar toda vez que ele acontecia (levantando a mão direita), ou quando estava prestes a acontecer (levantando a mão esquerda). Esse exercício foi feito, inicialmente, assistindo o vídeo feito na linha de base, depois, a participante teria que identificar suas falas de sílabas sem sentido durante um novo discurso. Já no treinamento de comportamentos concorrentes os participantes aprendiam comportamentos alternativos para fazerem toda vez que uma dessas sílabas sem sentido era falada: esses comportamentos eram, basicamente, parar de falar por um intervalo de 3s, e depois reiniciar seu discurso daquele ponto em diante.

Com todo esse treinamento Carolyn Mancuso e Raymond G. Miltenberger encontraram em seus resultados uma redução desse tipo de “hábito de discurso” em todas as seis participantes, logo nas primeiras medidas de pós-teste. A média das participantes para esse tipo de resposta era de 7,4 por minuto, e reduziu para 1,4 após a intervenção. E as participantes indicaram que gostaram dos procedimentos, que se sentiram confortáveis durante a pesquisa, e relatando que consideravam que, de fato, o treinamento tinha sido eficiente.

Os autores defendem que este é um estudo preliminar, e apontam que outros elementos poderiam estar em pesquisas futuras, como a presença de um público de fato para ouvir o discurso e mais tempo para os participantes o prepararem, variáveis que aproximariam a pesquisa de um cenário mais real. Esse tipo de treinamento de reversão de hábitos tem sido usado em diferentes contextos (por exemplo com pessoas que querem parar de fumar, parar de roer as unhas), e parece ter um potencial positivo quando aplicado a ajudar as pessoas a como falar melhor em público.

Ficou curioso? Quer os detalhes para praticar, você mesmo, seu treino de reversão de hábitos? Aqui está o artigo original:

Mancuso, C., Miltenberger, R. G. (2016). Using habit reversal to decrease filled pauses in public speaking. Journal of Applied Behavior Analysis, 49(1), 49, 1–5.

Escrito por Melina Vaz. Bióloga, quase psicóloga, doutoranda em Psicobiologia-USP/RP, e praticante (a partir de agora) de treinamentos de reversão de hábitos em discursos (para os próximos congressos).

 

Fonte da imagem: http://www.marcellopepe.com/2014/como-vencer-o-medo-de-falar-em-publico/