Operantes verbais e operações comportamentais na análise do comportamento corrupto

Pesquisadores propõem uma análise comportamental para o uso de metáforas nas transações envolvendo corrupção

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A corrupção é um fenômeno presente na maioria das sociedades (se não todas). Várias análises sobre comportamentos envolvidos na corrupção já foram realizadas, abarcando, por exemplo, o uso de linguagem figurada, especialmente metáforas e eufemismos ao oferecer ou pedir suborno.

Os pesquisadores Tete Agbota, Ingunn Sandaker e Gunnar Ree, do Oslo and Akershus University College of Applied Sciences, na Noruega, realizaram um estudo a partir da análise de operantes verbais proposta por Skinner (1957), com o intuito de abordar de maneira analítico-comportamental, uma possível linguagem envolvida na corrupção, particularmente, relativa ao uso das metáforas (e.g. dizer que “uma mão lava a outra” ao oferecer ou pedir um suborno).

Este estudo contou com uma análise de questionários obtidos com 518 adultos pertencentes à classe média de Gana (um país da África Ocidental), que, em 2014, foi considerado o 61º. país mais corrupto do mundo. As perguntas compreendiam questões relativas ao oferecimento e solicitação de suborno, como, por exemplo, se os participantes já haviam feito (ou testemunhado) pagamentos informais a pessoas por serviços diversos; se eles achavam melhor utilizar metáforas do que linguagem mais direta ao oferecer ou pedir suborno; quais palavras eram mais utilizadas para pedir ou solicitar suborno, e quais justificativas eles davam para a preferência do uso da linguagem metafórica nas transações envolvendo suborno.

Para os autores, o uso de metáforas nas transações de suborno envolve tanto reforçamento positivo quanto negativo. O suborno pode ser definido como reforço positivo para o comportamento de aceitar ou concordar com essa prática. Existe ainda outra possibilidade: um indivíduo pode sentir, ao receber uma oferta de suborno, o que é chamado de dissonância cognitiva[1], um mal-estar que ocorre quando um indivíduo mantém duas cognições que são incompatíveis uma com a outra, instalando uma condição aversiva que só cessa pela modificação de uma dessas cognições, de modo a torná-las compatíveis. Considerando isso, imagine que um indivíduo que possua uma história de reforçamento por se comportar de maneira moral/ética, que está passando por dificuldades financeiras graves recebe uma oferta de suborno. A aceitação do suborno sanaria seus problemas financeiros, por outro lado, o indivíduo sabe que oferecer ou receber suborno é crime, e apesar de haver apenas uma pequena chance dele ser pego, ao se engajar em tal comportamento, ele estaria fazendo algo que aprendeu ser errado. Se tal indivíduo não aceitar o suborno, por medo das consequências negativas advindas de uma possível descoberta do crime (e.g. desaprovação social, multa, processo judicial e até prisão), ele evita a possível punição, mantendo suas cognições acerca do que seria moralmente correto, o que denota um caso de reforço negativo. Se este indivíduo, em contrapartida, aceitar o suborno, ele pode justificar seu comportamento dizendo que “todo mundo rouba” e/ou “fiz isso por um bom motivo” (pagar as contas, o que não seria moralmente desprezível). Esses exemplos ilustram que a cognição do que era moralmente aceitável foi modificada, de modo a não causar estados emocionais negativos, cessando, portanto, a dissonância cognitiva experimentada pelo indivíduo, e qualificando-se como um caso de reforçamento positivo (apesar de a fuga dos problemas financeiros poder ser conceituada como reforço negativo).

Quem oferece o suborno (falante) pode não saber se o ouvinte aceitará ou não a proposta. Nesse caso, ele pode tomar medidas que diminuam a chance de que, caso o suborno seja negado, ele não constranja abertamene o ouvinte. Em vista disso, o falante pode usar metáforas, como “incentivo”, “molhar a mão” e “motivar”. Isso permite, inclusive, que, caso o ouvinte denuncie o falante, as chances de se provar que tal diálogo envolvia uma proposta de suborno sejam menores. Veja a importância de alguns dos operantes verbais para tal análise:

O tato é uma resposta verbal evocada por estímulos não verbais, e consequenciada por reforçadores generalizados, como quando alguém diz “doce” na presença de um doce, e é consequenciado por um “Muito bem, isso é um doce!”. O tato metafórico acontece quando generaliza-se alguma propriedade do estímulo, como quando alguém diz “doce” ao ver comprimidos do mesmo formato que um doce previamente experimentado.

“Doce” é uma das palavras utilizadas como metáfora para suborno. Na pesquisa, a maioria dos participantes respondeu que usa linguagem metafórica para oferecer suborno, porque “permite ao ouvinte determinar seu conteúdo”. Nesse caso, dizer “quer um doce?” pode, ao ser emitido como um tato metafórico, ter a função desejada (se o ouvinte  compartilhar do mesmo tipo de controle que o falante), ou a função de tato (caso o ouvinte seja, por exemplo, de outra comunidade verbal).

Outro operante verbal útil para tal análise é o mando disfarçado. O mando ocorre quando, diante de uma operação estabelecedora, uma resposta verbal especifica o reforçador. Ao sentir fome e dizer “traga-me a comida”, e ser consequenciado por um prato de comida, qualifica-se tal evento como um mando. No mando disfarçado, uma resposta verbal com a topografia de tato é controlada por um reforçador específico. Assim, um falante pode dizer, por exemplo, “o tempo está seco”, como uma metáfora para pedir suborno. Se o tempo estiver realmente seco, a frase poderá ter a topografia de um tato, e estar, contudo, sob controle de um reforçador específico (oferecimento de suborno por parte do ouvinte).

Essas análises foram feitas com base nas respostas dos participantes, cuja maioria já ofereceu ou presenciou pagamentos informais pela prestação (real ou não) de diversos serviços. E você, o que achou da análise? Será que outros operantes verbais ou operações comportamentais estão presentes nas transações de suborno?

 

Quer saber mais? O artigo: Agbota, T.K., Sandaker, I., e Ree, G. (2015). Verbal operants of corruption: A study of avoidance in corruption behavior. Behavior and Social Issues, 24, 141-163.

 

Referência: 

Skinner, B.F. (1957). Verbal Behavior. Englewood Cliffs: Printice-Hall.

Fonte da imagem: http://www.elllo.org/english/1001/1037-Aiman-Bribes.htm

 

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar.

[1] dissonância cognitiva é um termo descrito por Leon Festinger, ao teorizar que as pessoas têm uma necessidade de buscar coerência entre suas cognições, de modo que, quando há dois comportamentos (abertos ou incobertos) incoerentes, como quando alguém pensa que fazer determinada ação é errado, mas realiza tal ação. Sendo bastante utilizada pelos teóricos da Psicologia Social, sua abordagem é cognitiva, e não comportamental.

 

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A semântica do medo

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Caros leitores, algum de vocês gosta, realmente gosta, de ir ao dentista? Imagino que a resposta da maioria seja “Não!” ou até “É claro que não! Você é louco?”.  Bom, louco ou não, eu também não gosto. É daquelas coisas que me dão um pouco de medo. Na verdade, todos nós podemos sentir medo em alguma ocasião ou outra. Como esse medo se origina, e como se propaga, tem gerado muito interesse na psicologia.

Olhando para essa questão de uma perspectiva evolutiva, podemos afirmar que, para a sobrevivência das espécies, é importante que os organismos vivos consigam evitar ou fugir de potenciais perigos. A percepção de tais perigos ativa o sistema simpático, de forma que o organismo fique pronto para emitir comportamentos adequados à situação, os mecanismos chamados de “luta ou fuga”. Contudo, no animal humano, outros fatores interferem. A linguagem nos permite agrupar esses comportamentos respondentes sob o conceito de medo, e o foco do presente estudo é, precisamente, no efeito das relações linguísticas que, como humanos, podemos estabelecer.

Já no inicio do século XX, Ivan Pavlov investigou o chamado “Condicionamento clássico” em que um estímulo, a priori neutro, uma vez pareado repetidamente com um estímulo incondicionado, passava a eliciar respostas semelhantes, tornando-se um estímulo condicionado.  Posteriormente, observou-se também que estímulos fisicamente semelhantes ao estímulo condicionado eliciavam respostas do mesmo tipo, embora, talvez, de menor intensidade. Esse fenômeno se chama generalização de estímulos e, nesse caso, cabe supor que a generalização acontece por causa da semelhança física entre o estímulo condicionado e os outros. No entanto, os seres humanos, como organismos verbais, apresentam níveis de interação que não estão baseados apenas em propriedades físicas do mundo, mas em relações estabelecidas arbitrariamente pelas comunidades verbais e que constituem as línguas e os jargões.

Pode, então, o medo se propagar através das redes de significados que existem em uma língua? Um grupo de pesquisadores formado por Mark Bennet, Ann Meulders, Frank Baeyens na Bélgica e John Vlaeyen na Holanda pesquisaram a generalização simbólica do medo à dor, que é um fator importante para pacientes com dor crônica, com um delineamento experimental bem interessante.

Os experimentadores estabeleceram duas classes de estímulos equivalentes, cada uma delas composta por formas abstratas, pseudo-palavras e movimentos de joystick. As classes foram criadas usando o procedimento de emparelhamento com o modelo (também conhecido como MTS por suas siglas em inglês), de forma que os participantes eram reforçados a selecionar certa pseudo-palavra, ou realizar determinado movimento, perante uma figura abstrata particular. No procedimento de emparelhamento com o modelo, geralmente temos, em cada tentativa, um estímulo que serve como estímulo condicional, de forma que quando ele é apresentado, reforçamos que o participante selecione especificamente algum dos outros estímulos apresentados nessa tentativa. O estímulo condicional é chamado de “modelo” e os outros são chamados “comparações”. Neste experimento, algumas das comparações eram movimentos realizados pelo próprio participante, e isso é bastante incomum. Depois desse treino, os autores testaram se as categorias artificiais de estímulos tinham sido efetivamente formadas. Na fase seguinte do experimento, uma pseudo-palavra de uma das classes, ou categorias anteriormente criadas, foi pareada com um estímulo doloroso, enquanto uma palavra da outra classe não recebeu esse pareamento. Finalmente, os participantes tiveram que fazer os movimentos pertencentes a ambas as classes treinadas, e eram informados que cada movimento poderia ser seguido do estímulo doloroso, embora isso nunca acontecesse.

E qual foi o resultado disso? Reações de medo ao estímulo doloroso se propagaram através das relações arbitrárias treinadas da pseudo-palavra para o movimento de joystick? Propagaram-se, sim! Ou, como os autores colocam, houve generalização simbólica do medo relacionado à dor. Dito de forma mais técnica, houve transferência de função entre estímulos equivalentes. Isso significa que, uma vez que foram criadas classes de equivalência mediante o procedimento de emparelhamento com o modelo, a propriedade de eliciar respostas associadas ao medo se estendeu entre todos os estímulos da mesma classe, mesmo que essa propriedade tenha sido diretamente associada apenas a alguns membros dessa classe.

Bennet e colegas fizeram alguns tipos de medição para poder fazer essa afirmação: autorrelato sobre a expectativa de dor no momento de realizar os movimentos de joystick, e autorrelato sobre a intensidade da dor; e também verificaram a latência da resposta (quanto tempo os participantes demoravam em iniciar os movimentos).

Uma importante novidade deste estudo consiste em demonstrar essa generalização simbólica do medo usando classes de equivalência heterogêneas, pois mover um joystick em determinada direção, que é uma resposta dos participantes, e as pseudo-palavras, que são estímulos, constituem, no procedimento de MTS, comparações de tipo diferente. Contudo, por pertencer à mesma classe de equivalência, a função de eliciar medo se transfere da pseudo-palavra ao movimento, mesmo se tratando de topografias de resposta muito diferentes.

Este estudo é particularmente relevante, pois o processo que ele modela parece ser o fundamento, na concepção da ACT (Terapia da Aceitação e Compromisso), de fenômenos psicopatológicos que envolvem, precisamente, a generalização do medo via relações verbais.

 

Para saber Mais:

Bennett, M. P.; Meulders, A.; Bayens, F.; Vlaeyen, J. W. (2015) Words putting pain in motion: The generalization of pain-related fear within na artificial stimulus category. Frontiers in psychology.

 

Também podem ser de interesse:

Dougher M.J, Augustson E.M, Markham M.R, Greenway D.E, Wulfert E. The transfer of respondent eliciting and extinction functions through stimulus equivalence classes. Journal of the Experimental Analysis of Behavior. 1994;62:331–351.

 

https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2015/09/23/o-funcionamento-do-cerebro-diante-de-simbolos-com-carga-emocional/

 

Escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, Bolsista FAPESP.