A semântica do medo

jaume

Caros leitores, algum de vocês gosta, realmente gosta, de ir ao dentista? Imagino que a resposta da maioria seja “Não!” ou até “É claro que não! Você é louco?”.  Bom, louco ou não, eu também não gosto. É daquelas coisas que me dão um pouco de medo. Na verdade, todos nós podemos sentir medo em alguma ocasião ou outra. Como esse medo se origina, e como se propaga, tem gerado muito interesse na psicologia.

Olhando para essa questão de uma perspectiva evolutiva, podemos afirmar que, para a sobrevivência das espécies, é importante que os organismos vivos consigam evitar ou fugir de potenciais perigos. A percepção de tais perigos ativa o sistema simpático, de forma que o organismo fique pronto para emitir comportamentos adequados à situação, os mecanismos chamados de “luta ou fuga”. Contudo, no animal humano, outros fatores interferem. A linguagem nos permite agrupar esses comportamentos respondentes sob o conceito de medo, e o foco do presente estudo é, precisamente, no efeito das relações linguísticas que, como humanos, podemos estabelecer.

Já no inicio do século XX, Ivan Pavlov investigou o chamado “Condicionamento clássico” em que um estímulo, a priori neutro, uma vez pareado repetidamente com um estímulo incondicionado, passava a eliciar respostas semelhantes, tornando-se um estímulo condicionado.  Posteriormente, observou-se também que estímulos fisicamente semelhantes ao estímulo condicionado eliciavam respostas do mesmo tipo, embora, talvez, de menor intensidade. Esse fenômeno se chama generalização de estímulos e, nesse caso, cabe supor que a generalização acontece por causa da semelhança física entre o estímulo condicionado e os outros. No entanto, os seres humanos, como organismos verbais, apresentam níveis de interação que não estão baseados apenas em propriedades físicas do mundo, mas em relações estabelecidas arbitrariamente pelas comunidades verbais e que constituem as línguas e os jargões.

Pode, então, o medo se propagar através das redes de significados que existem em uma língua? Um grupo de pesquisadores formado por Mark Bennet, Ann Meulders, Frank Baeyens na Bélgica e John Vlaeyen na Holanda pesquisaram a generalização simbólica do medo à dor, que é um fator importante para pacientes com dor crônica, com um delineamento experimental bem interessante.

Os experimentadores estabeleceram duas classes de estímulos equivalentes, cada uma delas composta por formas abstratas, pseudo-palavras e movimentos de joystick. As classes foram criadas usando o procedimento de emparelhamento com o modelo (também conhecido como MTS por suas siglas em inglês), de forma que os participantes eram reforçados a selecionar certa pseudo-palavra, ou realizar determinado movimento, perante uma figura abstrata particular. No procedimento de emparelhamento com o modelo, geralmente temos, em cada tentativa, um estímulo que serve como estímulo condicional, de forma que quando ele é apresentado, reforçamos que o participante selecione especificamente algum dos outros estímulos apresentados nessa tentativa. O estímulo condicional é chamado de “modelo” e os outros são chamados “comparações”. Neste experimento, algumas das comparações eram movimentos realizados pelo próprio participante, e isso é bastante incomum. Depois desse treino, os autores testaram se as categorias artificiais de estímulos tinham sido efetivamente formadas. Na fase seguinte do experimento, uma pseudo-palavra de uma das classes, ou categorias anteriormente criadas, foi pareada com um estímulo doloroso, enquanto uma palavra da outra classe não recebeu esse pareamento. Finalmente, os participantes tiveram que fazer os movimentos pertencentes a ambas as classes treinadas, e eram informados que cada movimento poderia ser seguido do estímulo doloroso, embora isso nunca acontecesse.

E qual foi o resultado disso? Reações de medo ao estímulo doloroso se propagaram através das relações arbitrárias treinadas da pseudo-palavra para o movimento de joystick? Propagaram-se, sim! Ou, como os autores colocam, houve generalização simbólica do medo relacionado à dor. Dito de forma mais técnica, houve transferência de função entre estímulos equivalentes. Isso significa que, uma vez que foram criadas classes de equivalência mediante o procedimento de emparelhamento com o modelo, a propriedade de eliciar respostas associadas ao medo se estendeu entre todos os estímulos da mesma classe, mesmo que essa propriedade tenha sido diretamente associada apenas a alguns membros dessa classe.

Bennet e colegas fizeram alguns tipos de medição para poder fazer essa afirmação: autorrelato sobre a expectativa de dor no momento de realizar os movimentos de joystick, e autorrelato sobre a intensidade da dor; e também verificaram a latência da resposta (quanto tempo os participantes demoravam em iniciar os movimentos).

Uma importante novidade deste estudo consiste em demonstrar essa generalização simbólica do medo usando classes de equivalência heterogêneas, pois mover um joystick em determinada direção, que é uma resposta dos participantes, e as pseudo-palavras, que são estímulos, constituem, no procedimento de MTS, comparações de tipo diferente. Contudo, por pertencer à mesma classe de equivalência, a função de eliciar medo se transfere da pseudo-palavra ao movimento, mesmo se tratando de topografias de resposta muito diferentes.

Este estudo é particularmente relevante, pois o processo que ele modela parece ser o fundamento, na concepção da ACT (Terapia da Aceitação e Compromisso), de fenômenos psicopatológicos que envolvem, precisamente, a generalização do medo via relações verbais.

 

Para saber Mais:

Bennett, M. P.; Meulders, A.; Bayens, F.; Vlaeyen, J. W. (2015) Words putting pain in motion: The generalization of pain-related fear within na artificial stimulus category. Frontiers in psychology.

 

Também podem ser de interesse:

Dougher M.J, Augustson E.M, Markham M.R, Greenway D.E, Wulfert E. The transfer of respondent eliciting and extinction functions through stimulus equivalence classes. Journal of the Experimental Analysis of Behavior. 1994;62:331–351.

 

https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2015/09/23/o-funcionamento-do-cerebro-diante-de-simbolos-com-carga-emocional/

 

Escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, Bolsista FAPESP.

 

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