Água no umbigo sinal de perigo!

Pesquisadores afirmam que os estímulos classificados como aversivos podem adquirir um valor de reforço positivo quando emparelhado com reforço negativo

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Alguns ditados populares nos falam sobre os “perigos” da vida, como por exemplo “Água no umbigo sinal de perigo! ”.  Esse ditado, bem simples, descreve algo que fazemos no nosso dia a dia: evitamos e até mesmo buscamos eliminar aquilo que nos assusta. A “água no umbigo” nos sinaliza que devemos ficar na região mais rasa do mar para evitarmos o afogamento.

Esses sinais são importantes para nossa segurança, pois permitem a nossa adaptação e prevenção a situações de perigo. Na presença de algo que sinaliza um evento que nos ameaça ou nos incomoda, podemos nos comportar para evitar o contato com esse tipo conhecidos como “eventos aversivo”.

Entretanto, embora alguns desses sinais reduzam a probabilidade de entrarmos em contato com um evento aversivo, também podem resultar em prejuízos pessoais. Esse é o caso, por exemplo, de quando avistamos uma placa escrito “Perigo” e mudamos de caminho para desviarmos do perigo, mesmo que isso nos faça gastar muito tempo com o novo caminho.

Nesse caso, mudar de caminho seria a melhor opção, mesmo diante do desconforto?   A publicação de Ioannis Angelakis e Jennifer Austin na revista The Psychologycal Record, apresentou uma investigação sobre como comportamentos de evitação são mantidos, sugerindo que estímulos classificados como aversivos poderiam adquirir um valor de reforço positivo devido ao seu emparelhamento com períodos reais (ou percebidos) de segurança.

Na investigação, 7 estudantes universitários (com 19 a 22 anos) que não tinham estabelecidos em seus repertórios um padrão comportamental de busca de segurança (ou seja, atos repetitivos que servem para tranquilizar a pessoa da ausência de um perigo eminente), foram convidados a jogar um jogo,  com o objetivo de descobrir tesouros escondidos e evitar bombas escondidas em um mapa da Europa, através de cliques na tela de um computador.

A descoberta de tesouro, produzia o ganho de pontos e a descoberta de bombas produzia a perda de 2 pontos. Os cliques que produziam tesouro estavam programados em um esquema de Razão Variável 50 e os cliques que produziam bombas em um esquema de Intervalo Variável 20. O jogo era reiniciado após cada ponto ganho ou a cada perda, reiniciando os esquemas programados. Os pontos eram computados na parte superior da tela.  As bombas poderiam ser desativadas (e com isso a perda de pontos) caso o jogador acionasse um pedal, que produziria um tom de 72 decibéis. Os esquemas de VI e VR eram repostos para que os participantes não pudessem evitar as bombas e perdas pontuais, pressionando continuamente o pedal

Antes de iniciar o jogo, os participantes passaram por uma fase de avaliação pré-experimental para garantir que o suposto estímulo aversivo (tom) funcionasse como um reforçador negativo. Os participantes jogaram por 10 minutos, um jogo de alinhar uma série de três cores idênticas na horizontal, vertical ou diagonal. O tom foi programado para ser apresentado em esquema de VT10s. Eles também foram informados que o tom poderia ser rescindido (até a próxima entrega programada), pressionando o pedal.

Nessa fase, todos pressionaram o pedal para encerrar o tom em 100% de apresentações, indicando que o tom funcionava como um reforçador negativo para todos.

Com o início do jogo (linha de base) os participantes receberam as instruções sobre como jogar e realizaram três sessões que duraram 30 minutos.

Em seguida os participantes foram expostos a duas condições: Ruído (+) e Ruído (-). Na condição Ruído (+) o jogo aconteceu nas mesmas condições que na linha de base por 5 minutos.  Após esse período uma mensagem aparecia na tela informando a maioria das bombas haviam sido desativadas e o participante poderia continuar procurando os tesouros restantes. Com isso, após o primeiro clique era ativado um esquema VR-50 para tesouros, mas não haviam bombas programadas. A condição Ruído (-), foi idêntica a condição Ruído (+) exceto pelo fato de que as prensas dos pedais não produziam o tom.

Por fim, foi realizada a fase de teste, nas mesmas condições que na fase pré-experimental. Para alguns participantes, foi apresentado primeiro a Condição Ruído (+) e depois Condição Ruído (-) e para outros participantes ocorreu o inverso. Nesta configuração, o tom foi apresentado por 5s para sinalizar o início da Condição Ruído (+). As Condições Ruído (+) e Ruído (-) duraram 20 minutos cada. Cada participante experimentou duas a quatro sessões experimentais de 40 min.

Além disso, ao final foi aplicado um questionário para investigar: se eles empregaram quaisquer estratégias particulares durante o jogo (para ganhar tesouros ou evitar perdas); como se sentiram nas condições em que prensas de pedais produziam o tom e quando isso não acontecia; se se sentia ansiosos durante o jogo e se eles acreditavam que as bombas tinham sido efetivamente desativadas durante as condições experimentais.

E, o que isso resultou? Os resultados indicaram altas taxas de respostas pressão ao pedal na linha de base e na condição de Ruído (+) indicando que o “tom” era menos aversivo do que descobrir uma bomba (e a perda ponto associado), e queda nas taxas de respostas na condição Ruído (-), sugerindo a extinção pela ausência do reforço positivo “tom”.

Bom, retomando as questões mudar de caminho seria a melhor opção, mesmo diante do desconforto?  O estudo nos faz afirmar que sim!  Nesse caso, o comportamento de evitação pode funcionar como sinal de segurança positivamente correlacionados com a prevenção de eventos aversivos.  Os sinais de segurança ganharam função de SDs para o comportamento de evitação, e  como reforçadores positivos para o comportamento de evitar.

 

Que saber mais? Confira o artigo:

 

Angelakis, I;. Austin, L. J.  (2015) Aversive Events as Positive Reinforcers: An Investigation of Avoidance and Safety Signals in Humans. The Psychological Record. December, 65, 627-635. DOI 10.1007/s40732-015-0133-4

 

Fonte da imagem: http://revistarugbier.com.br/o-perigo-do-fim/

 

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE.

 

Cooperar primeiro, falar depois?

melina

Você sabia que a aprendizagem e o comportamento tem sido o foco das pesquisas mais recentes sobre evolução?

Para entender o papel da aprendizagem e do comportamento ao longo do processo evolutivo, é preciso pensar a evolução de uma forma multidimensional, que vai além dos genes, e inclui mecanismos epigenéticos, ontogenéticos, evolução simbólica e o impacto do comportamento sobre o ambiente estável.

Processos epigenéticos como metilação de DNA e acetilação de histonas parecem ser os pontos chaves em relação aos processos biológicos envolvidos na regulação dos efeitos de longo prazo da aprendizagem. Por exemplo, camundongos que passaram por um processo de inativação, em laboratório, de “genes da aprendizagem”, quando inseridos em ambientes enriquecidos, mostraram mudanças epigenéticas em seus organismos que os levaram a aprender uma serie de comportamentos a despeito da deficiência genética inicial.

Um comportamento aprendido pode criar uma mudança ambiental de longo prazo, o que altera, por sua vez, os efeitos de seleção daquele ambiente. Um exemplo disso foi o desenvolvimento de tolerância à lactose em humanos adultos, que co-evoluiu com a habilidade aprendida de domesticar animais produtores de leite. Pesquisas mais recentes na área de biologia evolucionista indicam que a aprendizagem foi justamente a responsável pelo conhecido surgimento de muitas novas espécies, ocorrido no período Cambriano (520-540 milhões de anos atrás).

Pensando sob esta perspectiva evolucionista, os pesquisadores Steven Hayes e Brandon Sanford, da Universidade de Nevada, fizeram uma revisão na qual defendem como o comportamento simbólico pode ser uma adaptação evolucionária recente. Para os autores, esta adaptação dependeu da aprendizagem operante e de processos envolvidos no comportamento social estabelecidos previamente, que requeriam espécies altamente cooperativas para que fossem selecionados.

Para Skinner (1981), o comportamento verbal foi possível quando a musculatura vocal dos humanos ficou sob controle operante. Comportando-se verbalmente, os indivíduos puderam cooperar mais entre si. Em outras palavras, a cooperação foi resultado da evolução da comunidade verbal. Esta ideia vai ao encontro do que alguns evolucionistas chamam de “os três Cs” da evolução humana: cognição, cultura e cooperação. Entretanto, alguns evolucionistas argumentam que a cooperação veio primeiro, e então tornou possível “os outros Cs”.

A cooperação e o desenvolvimento da linguagem podem ser observados juntos na seguinte cena (muito comum entre bebês crescendo e um adulto próximo): um ouvinte humano (o adulto) escuta um falante (o bebê) dizer alguma coisa enquanto não consegue alcançar algum objeto; a ação provável desse ouvinte, no caso dele ter acesso ao tal objeto, será entregá-lo para o falante. Em outras palavras, podemos dizer que a ação do falante é reforçada pelo comportamento cooperativo do ouvinte ao entregar-lhe o objeto requerido. Isso significa que em um contexto de altos níveis de cooperação, qualquer vocalização característica na presença de um objeto desejado seria provável de ser reforçada. Sem altos níveis de cooperação, contudo, isso não seria possível.

Se assumirmos que a cooperação veio primeiro, nós podemos explorar o grau no qual a cooperação e outros comportamentos impactaram o contexto evolutivo no qual os processos de aprendizagem operante poderiam produzir a linguagem humana. A linguagem como compreendida pela RFT (Teoria das Molduras Relacionais) prevê “molduras de coordenação” reguladas por dicas estabelecidas socialmente. Uma vez que a capacidade relacionar diferentes estímulos por meio de “relações de coordenação” tenha se tornado uma habilidade comum no grupo, relações de equivalência compõem um conjunto formado por outros tipos de relações (comparação, oposição, hierarquia, etc) necessárias à linguagem. Um grupo com apenas poucos ouvintes e falantes competentes teria uma vantagem na competição com outros grupos em função da extensão verbal que a cooperação provê para essas habilidades. Dessa forma é possível argumentar que apenas comunidades cooperativas poderiam se tornar comunidades verbais.

O fato de a cooperação e a alteridade parecerem ter existido em hominídeos, do sucesso adaptativo de espécies eussociais, tais como a humana (por exemplo, ainda que as formigas – insetos eussociais – representem apenas 2% do total de espécies de insetos, elas compõem mais da metade da biomassa de insetos), reúnem evidências de que esses fenômenos podem ter estabelecido o cenário para que a linguagem se desenvolvesse. Essa análise é baseada na habilidade de ver o papel do falante do ponto de vista do ouvinte (e vice e versa) como parte de um ato cooperativo. Em função do enorme aumento da variação proporcionada pela linguagem nos grupos cooperativos, práticas culturais puderam ser selecionadas e expandidas de forma bem-sucedida.

Quer saber mais?

Hayes, S. C., Sanford, B. T. (2014). Cooperation came first: evolution and human cognition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 101(1), 112–129.

Melina Vaz- Doutoranda do Programa de Psicobiologia-USP/RP, e cada vez com mais evidências para acreditar que a cooperação realmente muda nossas vidas.

Fonte da imagem: http://zonaretiro.com/wp-content/fotos/2015/09/pinilla-valle-neanderthales.png

Um modelo de aplicação de atividades de geração de renda como estratégia de intervenção sobre o uso abusivo de drogas

sabrina 

O uso de substâncias psicoativas é uma prática comum na sociedade. Isso inclui o cafezinho, sem o qual você não se sente pronto para enfrentar as tarefas cotidianas, e outras, lícitas ou ilícitas, classificadas como drogas de abuso. Este tema gera muitos debates e divide opiniões sobre aspectos relacionados à proibição do comércio de algumas substâncias e às implicações de diferentes modelos de intervenção, para os casos em que o seu consumo torna-se um problema de saúde. Não obstante a relevância do debate, hoje vamos centrar nossa discussão na proposta de análise experimental de uma estratégia de intervenção ao uso abusivo de drogas.

O uso abusivo de drogas está relacionado a danos à saúde, causados em decorrência da ação direta das substâncias no organismo, que podem ser agravados por uma maior tendência ao engajamento em comportamentos de risco, relacionados à vivência de situações de violência e a maior vulnerabilidade ao contágio de doenças infectocontagiosas (devido ao compartilhamento de objetos como seringas, agulhas e cachimbos). Essa é uma questão de saúde pública complexa, em relação à qual a implementação de intervenções efetivas requer a análise de aspectos de ordem fisiológica e social, além de idiossincrasias decorrentes da história de vida dos sujeitos.

Dentre as possibilidades de intervenção existentes, vamos abordar aqui a proposta das terapias de substituição ou manutenção, cujo o princípio básico é reduzir os malefícios causados pelo uso abusivo de uma droga por meio do consumo controlado de uma substancia da mesma classe farmacológica, porém, em boas condições de higiene e em dosagem estabelecida por um profissional de saúde. Um exemplo disso, são os programas de substituição por metadona (um opióide sintético) para usuários de opióides (como a heroína), presentes nos Estado Unidos e em países europeus. Os defensores desse método afirmam que seus benefícios estão ligados à inibição dos sintomas de abstinência e, consequentemente, à redução da probabilidade do uso da droga ilícita e da emissão de comportamentos de risco. Isto facilita o engajamento em atividades cotidianas, como trabalho e a inclusão comunitária dos sujeitos.

No entanto, em muitos casos, participantes de programas de substituição por metadona, eventualmente, continuam fazendo uso de heroína e outras drogas, como a cocaína. Considerando este fato, um grupo de pesquisadores  realizou um estudo no qual um dos objetivos foi investigar se uma atividade de geração de renda poderia atuar como reforçador para a participação em programas de terapia de substituição por metadona, e para a supressão do consumo das referidas substâncias durante o período de tratamento.

Para tanto, os pesquisadores contaram com a participação de 33 voluntários, maiores de 18 anos, com baixo nível socioeconômico. Todos os participantes atendiam aos critérios do DSM IV para o diagnóstico de dependência de opióides e pouco mais da metade também recebeu o diagnóstico de adição à cocaína. Durante todo o estudo, os participantes realizaram exames toxicológicos periódicos, que foram usados como parâmetros para a avaliação dos resultados. Na primeira fase, os mesmos tinham a possibilidade de permanecer até quatro horas por dia em um ambiente onde poderiam realizar atividades por meio de computadores e receber um pagamento equivalente a oito dólares por hora de trabalho, em vales trocáveis por bens e serviços. Esse valor poderia ainda sofrer o acréscimo de dois dólares por hora a depender do desempenho dos participantes nas atividades propostas. Essa fase durou um mês e durante esse período, os participantes foram incentivados a se inscreverem em programas de terapia de substituição por metadona.

Aqueles que concordaram em aderir à terapia de substituição, foram encaminhados para a segunda fase do estudo, na qual a participação na atividade de geração de renda dependia da continuidade do tratamento. Essa fase durou três semanas. Após esse período de tempo, foi iniciada a terceira fase, em que foi estabelecida uma contingência para a abstinência de opióides. Caso os exames indicassem um resultado positivo para o consumo das referidas substâncias, os participantes teriam seus ganhos reduzidos (de oito para um dólar por hora), porém, esse valor era gradativamente acrescido à medida que fossem observados resultados negativos nos exames toxicológicos. Após três semanas, foi iniciada a quarta e última fase do estudo, com duração semelhante à anterior, em que foi implementada uma contingência de abstinência de cocaína. Nessa condição, para manter o valor integral do pagamento, os participantes deveriam suspender o uso de cocaína, além dos opióides (com exceção da metadona, empregada no tratamento).

Posteriormente, os pesquisadores analisaram os resultados dos exames toxicológicos realizados em cada fase do estudo e observaram que na segunda fase, após o início da terapia de substituição por metadona, houve um pequeno aumento no número de resultados negativos para o consumo de opióides e cocaína. A partir da inserção da contingência de abstinência de opióides, foi observado um aumento significativo de amostras negativas para o consumo desse tipo de substância e também, um pequeno aumento na proporção de resultados negativos para o uso de cocaína, que passou a ter um valor mais expressivo após o estabelecimento da contingência de sua abstinência.

Esses resultados indicam que atividades de geração de renda podem ser empregadas como reforçadoras para adesão a intervenções, por pessoas que fazem uso abusivo de drogas. Isto é  particularmente apropriado para aquelas que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, uma vez que tal condição pode atuar como operação motivacional, neste contexto. Além disso, podemos considerar também que o trabalho pode, paralelamente, ter proporcionado acesso a outros reforçadores sociais para os participantes, como a aprovação de pessoas de seu convívio.

Bem, como discutimos anteriormente, este é um tema complexo que requer a consideração de diversas variáveis. A adoção de atividades laborais nesse ou em outro modelo exigirá a análise do contexto e avaliação de seus efeitos.  E neste sentido, uma perspectiva experimental de análise certamente tem muito a contribuir!

 

Quer saber mais? Confira o artigo:

Holtyn, A., Koffarnus, M. N., DeFulio, A., Sigursson. S. O., Strain, E. C. Schwartz, R. P., Silverman, K. (2014). Employment-Based Abstinence Reinforcement Promotes Opiate and Cocaine Abstinence in Out-of-Treatment Injection Drug Users.  Journal of Applied Behavior Analysis, 47, p. 681– 693.

 

Fonte da imagem:  http://www.novagne.com.br/ha-vagas-a-reinvencao-das-grandes-empresas/

 

Escrito por Sabrina Campos Dias Pedrosa, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.