Um modelo de aplicação de atividades de geração de renda como estratégia de intervenção sobre o uso abusivo de drogas

sabrina 

O uso de substâncias psicoativas é uma prática comum na sociedade. Isso inclui o cafezinho, sem o qual você não se sente pronto para enfrentar as tarefas cotidianas, e outras, lícitas ou ilícitas, classificadas como drogas de abuso. Este tema gera muitos debates e divide opiniões sobre aspectos relacionados à proibição do comércio de algumas substâncias e às implicações de diferentes modelos de intervenção, para os casos em que o seu consumo torna-se um problema de saúde. Não obstante a relevância do debate, hoje vamos centrar nossa discussão na proposta de análise experimental de uma estratégia de intervenção ao uso abusivo de drogas.

O uso abusivo de drogas está relacionado a danos à saúde, causados em decorrência da ação direta das substâncias no organismo, que podem ser agravados por uma maior tendência ao engajamento em comportamentos de risco, relacionados à vivência de situações de violência e a maior vulnerabilidade ao contágio de doenças infectocontagiosas (devido ao compartilhamento de objetos como seringas, agulhas e cachimbos). Essa é uma questão de saúde pública complexa, em relação à qual a implementação de intervenções efetivas requer a análise de aspectos de ordem fisiológica e social, além de idiossincrasias decorrentes da história de vida dos sujeitos.

Dentre as possibilidades de intervenção existentes, vamos abordar aqui a proposta das terapias de substituição ou manutenção, cujo o princípio básico é reduzir os malefícios causados pelo uso abusivo de uma droga por meio do consumo controlado de uma substancia da mesma classe farmacológica, porém, em boas condições de higiene e em dosagem estabelecida por um profissional de saúde. Um exemplo disso, são os programas de substituição por metadona (um opióide sintético) para usuários de opióides (como a heroína), presentes nos Estado Unidos e em países europeus. Os defensores desse método afirmam que seus benefícios estão ligados à inibição dos sintomas de abstinência e, consequentemente, à redução da probabilidade do uso da droga ilícita e da emissão de comportamentos de risco. Isto facilita o engajamento em atividades cotidianas, como trabalho e a inclusão comunitária dos sujeitos.

No entanto, em muitos casos, participantes de programas de substituição por metadona, eventualmente, continuam fazendo uso de heroína e outras drogas, como a cocaína. Considerando este fato, um grupo de pesquisadores  realizou um estudo no qual um dos objetivos foi investigar se uma atividade de geração de renda poderia atuar como reforçador para a participação em programas de terapia de substituição por metadona, e para a supressão do consumo das referidas substâncias durante o período de tratamento.

Para tanto, os pesquisadores contaram com a participação de 33 voluntários, maiores de 18 anos, com baixo nível socioeconômico. Todos os participantes atendiam aos critérios do DSM IV para o diagnóstico de dependência de opióides e pouco mais da metade também recebeu o diagnóstico de adição à cocaína. Durante todo o estudo, os participantes realizaram exames toxicológicos periódicos, que foram usados como parâmetros para a avaliação dos resultados. Na primeira fase, os mesmos tinham a possibilidade de permanecer até quatro horas por dia em um ambiente onde poderiam realizar atividades por meio de computadores e receber um pagamento equivalente a oito dólares por hora de trabalho, em vales trocáveis por bens e serviços. Esse valor poderia ainda sofrer o acréscimo de dois dólares por hora a depender do desempenho dos participantes nas atividades propostas. Essa fase durou um mês e durante esse período, os participantes foram incentivados a se inscreverem em programas de terapia de substituição por metadona.

Aqueles que concordaram em aderir à terapia de substituição, foram encaminhados para a segunda fase do estudo, na qual a participação na atividade de geração de renda dependia da continuidade do tratamento. Essa fase durou três semanas. Após esse período de tempo, foi iniciada a terceira fase, em que foi estabelecida uma contingência para a abstinência de opióides. Caso os exames indicassem um resultado positivo para o consumo das referidas substâncias, os participantes teriam seus ganhos reduzidos (de oito para um dólar por hora), porém, esse valor era gradativamente acrescido à medida que fossem observados resultados negativos nos exames toxicológicos. Após três semanas, foi iniciada a quarta e última fase do estudo, com duração semelhante à anterior, em que foi implementada uma contingência de abstinência de cocaína. Nessa condição, para manter o valor integral do pagamento, os participantes deveriam suspender o uso de cocaína, além dos opióides (com exceção da metadona, empregada no tratamento).

Posteriormente, os pesquisadores analisaram os resultados dos exames toxicológicos realizados em cada fase do estudo e observaram que na segunda fase, após o início da terapia de substituição por metadona, houve um pequeno aumento no número de resultados negativos para o consumo de opióides e cocaína. A partir da inserção da contingência de abstinência de opióides, foi observado um aumento significativo de amostras negativas para o consumo desse tipo de substância e também, um pequeno aumento na proporção de resultados negativos para o uso de cocaína, que passou a ter um valor mais expressivo após o estabelecimento da contingência de sua abstinência.

Esses resultados indicam que atividades de geração de renda podem ser empregadas como reforçadoras para adesão a intervenções, por pessoas que fazem uso abusivo de drogas. Isto é  particularmente apropriado para aquelas que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, uma vez que tal condição pode atuar como operação motivacional, neste contexto. Além disso, podemos considerar também que o trabalho pode, paralelamente, ter proporcionado acesso a outros reforçadores sociais para os participantes, como a aprovação de pessoas de seu convívio.

Bem, como discutimos anteriormente, este é um tema complexo que requer a consideração de diversas variáveis. A adoção de atividades laborais nesse ou em outro modelo exigirá a análise do contexto e avaliação de seus efeitos.  E neste sentido, uma perspectiva experimental de análise certamente tem muito a contribuir!

 

Quer saber mais? Confira o artigo:

Holtyn, A., Koffarnus, M. N., DeFulio, A., Sigursson. S. O., Strain, E. C. Schwartz, R. P., Silverman, K. (2014). Employment-Based Abstinence Reinforcement Promotes Opiate and Cocaine Abstinence in Out-of-Treatment Injection Drug Users.  Journal of Applied Behavior Analysis, 47, p. 681– 693.

 

Fonte da imagem:  http://www.novagne.com.br/ha-vagas-a-reinvencao-das-grandes-empresas/

 

Escrito por Sabrina Campos Dias Pedrosa, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.

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