Cooperar primeiro, falar depois?

melina

Você sabia que a aprendizagem e o comportamento tem sido o foco das pesquisas mais recentes sobre evolução?

Para entender o papel da aprendizagem e do comportamento ao longo do processo evolutivo, é preciso pensar a evolução de uma forma multidimensional, que vai além dos genes, e inclui mecanismos epigenéticos, ontogenéticos, evolução simbólica e o impacto do comportamento sobre o ambiente estável.

Processos epigenéticos como metilação de DNA e acetilação de histonas parecem ser os pontos chaves em relação aos processos biológicos envolvidos na regulação dos efeitos de longo prazo da aprendizagem. Por exemplo, camundongos que passaram por um processo de inativação, em laboratório, de “genes da aprendizagem”, quando inseridos em ambientes enriquecidos, mostraram mudanças epigenéticas em seus organismos que os levaram a aprender uma serie de comportamentos a despeito da deficiência genética inicial.

Um comportamento aprendido pode criar uma mudança ambiental de longo prazo, o que altera, por sua vez, os efeitos de seleção daquele ambiente. Um exemplo disso foi o desenvolvimento de tolerância à lactose em humanos adultos, que co-evoluiu com a habilidade aprendida de domesticar animais produtores de leite. Pesquisas mais recentes na área de biologia evolucionista indicam que a aprendizagem foi justamente a responsável pelo conhecido surgimento de muitas novas espécies, ocorrido no período Cambriano (520-540 milhões de anos atrás).

Pensando sob esta perspectiva evolucionista, os pesquisadores Steven Hayes e Brandon Sanford, da Universidade de Nevada, fizeram uma revisão na qual defendem como o comportamento simbólico pode ser uma adaptação evolucionária recente. Para os autores, esta adaptação dependeu da aprendizagem operante e de processos envolvidos no comportamento social estabelecidos previamente, que requeriam espécies altamente cooperativas para que fossem selecionados.

Para Skinner (1981), o comportamento verbal foi possível quando a musculatura vocal dos humanos ficou sob controle operante. Comportando-se verbalmente, os indivíduos puderam cooperar mais entre si. Em outras palavras, a cooperação foi resultado da evolução da comunidade verbal. Esta ideia vai ao encontro do que alguns evolucionistas chamam de “os três Cs” da evolução humana: cognição, cultura e cooperação. Entretanto, alguns evolucionistas argumentam que a cooperação veio primeiro, e então tornou possível “os outros Cs”.

A cooperação e o desenvolvimento da linguagem podem ser observados juntos na seguinte cena (muito comum entre bebês crescendo e um adulto próximo): um ouvinte humano (o adulto) escuta um falante (o bebê) dizer alguma coisa enquanto não consegue alcançar algum objeto; a ação provável desse ouvinte, no caso dele ter acesso ao tal objeto, será entregá-lo para o falante. Em outras palavras, podemos dizer que a ação do falante é reforçada pelo comportamento cooperativo do ouvinte ao entregar-lhe o objeto requerido. Isso significa que em um contexto de altos níveis de cooperação, qualquer vocalização característica na presença de um objeto desejado seria provável de ser reforçada. Sem altos níveis de cooperação, contudo, isso não seria possível.

Se assumirmos que a cooperação veio primeiro, nós podemos explorar o grau no qual a cooperação e outros comportamentos impactaram o contexto evolutivo no qual os processos de aprendizagem operante poderiam produzir a linguagem humana. A linguagem como compreendida pela RFT (Teoria das Molduras Relacionais) prevê “molduras de coordenação” reguladas por dicas estabelecidas socialmente. Uma vez que a capacidade relacionar diferentes estímulos por meio de “relações de coordenação” tenha se tornado uma habilidade comum no grupo, relações de equivalência compõem um conjunto formado por outros tipos de relações (comparação, oposição, hierarquia, etc) necessárias à linguagem. Um grupo com apenas poucos ouvintes e falantes competentes teria uma vantagem na competição com outros grupos em função da extensão verbal que a cooperação provê para essas habilidades. Dessa forma é possível argumentar que apenas comunidades cooperativas poderiam se tornar comunidades verbais.

O fato de a cooperação e a alteridade parecerem ter existido em hominídeos, do sucesso adaptativo de espécies eussociais, tais como a humana (por exemplo, ainda que as formigas – insetos eussociais – representem apenas 2% do total de espécies de insetos, elas compõem mais da metade da biomassa de insetos), reúnem evidências de que esses fenômenos podem ter estabelecido o cenário para que a linguagem se desenvolvesse. Essa análise é baseada na habilidade de ver o papel do falante do ponto de vista do ouvinte (e vice e versa) como parte de um ato cooperativo. Em função do enorme aumento da variação proporcionada pela linguagem nos grupos cooperativos, práticas culturais puderam ser selecionadas e expandidas de forma bem-sucedida.

Quer saber mais?

Hayes, S. C., Sanford, B. T. (2014). Cooperation came first: evolution and human cognition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 101(1), 112–129.

Melina Vaz- Doutoranda do Programa de Psicobiologia-USP/RP, e cada vez com mais evidências para acreditar que a cooperação realmente muda nossas vidas.

Fonte da imagem: http://zonaretiro.com/wp-content/fotos/2015/09/pinilla-valle-neanderthales.png

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