Determinando os efeitos das fofocas

fofoca

O ambiente social humano é composto por uma série de elementos que facilitam a comunicação e a coesão entre indivíduos pertencentes a um determinado grupo e entre indivíduos de grupos diferentes. Nesse contexto dinâmico, os sinais mais úteis são as expressões faciais que permitem reconhecer os estados psicológicos aparentes: faces que expressam raiva sugerem alta probabilidade de engajamento em atitudes agressivas e faces expressando alegria sugerem alta probabilidade de atitudes gregárias, por exemplo. Expressões faciais neutras são usualmente consideradas como destituídas de significado um significado especial, especialmente quando as vimos em pessoas que nos são desconhecidas. Entretanto, será que a nossa reação é neutra diante dessas faces neutras de completos desconhecidos.

Eric Anderson, juntamente com sua equipe de pesquisadores da Northeastern University (Estados Unidos da América), conduziu uma pesquisa cujo objetivo era determinar os efeitos de diferentes tipos de fofocas sobre o significado de diferentes faces humanas com expressões neutras e sem função comunicativa aparente. O procedimento consistiu em parear[1] três diferentes faces expressando neutralidade (Face 1, Face 2 e Face 3) a três tipos de fofocas (Fofoca 1, Fofoca 2 e Fofoca 3). A Fofoca 1 retratava uma atitude social potencialmente negativa (“atirou uma cadeira num colega de classe”); a Fofoca 2 relatava uma atitude social potencialmente positiva (“ajudou uma idosa na loja”); e a Fofoca 3 relatava uma atitude social neutra (“ao caminhar pela rua ultrapassou um rapaz”). Participantes de outro grupo também foram expostos a pareamentos face-fofoca. Essas fofocas também tinham algum conteúdo emocional negativo, positivo e neutro. A Fofoca 4 relatava uma experiência potencialmente aversiva (“teve um dente obturado”), a Fofoca 5 relatava uma experiência potencialmente positiva (“sentiu o calor dos raios de sol”), e a Fofoca 6 relatava uma experiência emocionalmente irrelevante (“fechou as cortinas da sala”). Assim, o primeiro grupo foi exposto aos pareamentos Face 1/Fofoca 1, Face 2/Fofoca 2 e Face 3/Fofoca 3; e os pareamentos para o segundo grupo foram Face 1/Fofoca 4, Face 2/Fofoca 5 e Face 3/Fofoca 6.

Os participantes foram expostos por quatro vezes a cada um dos pareamentos possíveis. Em seguida, um tipo de binóculo foi acoplado aos seus rostos. Esse aparelho isolava completamente o campo visual do olho esquerdo do campo visual do olho direito. Assim, um estímulo apresentado à direita seria visualizado com o olho esquerdo, enquanto o olho direito enxergava um estímulo à esquerda. Os dois estímulos diferentes eram apresentados simultaneamente em cada tentativa: uma das faces neutras e a figura de uma casa. Esse binóculo foi utilizado durante a fase de testes que verificaram como os participantes reagiriam a cada uma das faces neutras pareadas com os diferentes tipos de fofoca. Dois estímulos diferentes eram apresentados simultaneamente em cada tentativa: uma das faces neutras e a figura de uma casa. Quando esses estímulos saíam do campo de visão os participantes deveriam registrar o tempo que a face permaneceu visível apertando um botão. Havia outro botão que servia para registrar o tempo de visualização da figura da casa. O registro de pressão aos botões serviu para fazer uma estimativa do tempo que cada um dos estímulos foi visualizado durante essa fase do experimento.

Esperava-se que os participantes de ambos os grupos relatassem terem visto a face neutra pareada com fofocas negativas por mais tempo do que as faces neutras pareadas com as fofocas positivas ou neutras. Esse resultado indicaria que o conteúdo negativo da fofoca teria aumentado a saliência dessa face neutra, por isso os participantes prestariam mais atenção à ela do que às demais faces.

A hipótese inicial dos autores foi confirmada: todos os participantes do primeiro grupo relataram terem visualizado a Face 1 por mais tempo do que a Face 2 e a Face 3. Já as estimativas de tempo de visualização da Face 1, Face 2 e Face 3 entre os participantes do outro grupo foram idênticas às estimativas do tempo de visualização da figura da casa. Esses resultados mostram que o efeito depende um tipo específico de fofoca: aquela que descreve o suposto modo de se comportar de um desconhecido comportamento de um desconhecido. Descrever o relato de um conteúdo emocional potencialmente negativo como obturar um dente ou pisar em um prego enferrujado não causaria o efeito obtido entre os participantes expostos ao pareamento Face 1/Fofoca 1.

Esses resultados mostram que, em certas circunstâncias, certos tipos de fofoca alterarão radicalmente a forma como reagimos a uma face expressando neutralidade. Mais do que isso: os efeitos da fofoca são obtidos precisamente a partir de fofocas com conteúdos negativos e que façam referência a atitudes que poderiam ter exposto outras pessoas em risco no passado (por exemplo, atirar a cadeira em um colega de classe).

Os autores do estudo aqui discutido propuseram uma explicação cognitivista para esses achados. Para eles as pessoas agem desse modo, pois a fofoca é um mecanismo de aprendizagem que envolve nossos processos de “cognição social”. Porém, é importante admitir a possibilidade de que tal efeito seja resultado de um processo comportamental mais básico chamado transformação de função. Segundo Dymond e Rehfeldt (2000) esse processo diz respeito à maneira como a função natural de um estímulo é substituída pela função arbitrária de outro estímulo. Assim, o significado neutro de uma face expressando neutralidade poderia passar a ser negativo graças às funções arbitrárias exercidas por um tipo de fofoca. A validade dessa interpretação depende da condução de alguns experimentos que permitam verificar se os mesmos efeitos aconteceriam num nível comportamental mais básico. Saibam mais lendo o estudo original, o texto de Dymond e Rehfeldt (2000) e aguardando pelos próximos experimentos conduzidos em nosso laboratório!

 

Referências:

Dymond, S; & Rehfeldt, R. A. (2000). Understanding Complex Behavior: The Trasformation of Stimulus Functions. The Behavior Analyst, 23, 239-254.

Anderson, E.; Siegel, E. H.; Bliss-Moreau, E.; & Barret, L. B. (2011). The Visual Impact of Gossip. Science. 322, 1446-1448.

 

Marcelo V. Silveira é doutorando no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano. Bolsista FAPESP.

[1] Tanto o verbo “parear” quanto o substantivo “pareamento” foram utilizados aqui por conveniência e designam as características formais do procedimento utilizado por Anderson e colaboradores, sem referência direta ao condicionamento pavloviano.

 

Fonte da imagem: https://www.google.com.br/search?q=gossip&safe=off&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwidgojaiKPLAhXKk5AKHRpTDIoQ_AUIBygB#imgrc=7fqgcIsYwvcFZM%3A

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