Você sabe o quanto come? Aprendendo a estimar melhor o tamanho das porções de alimentos

Este trabalho mostra que é possível ensinar pessoas a estimarem com maior precisão o tamanho das porções de alimentos utilizando a equivalência de estímulos.

silvana

Você já deve, em algum momento, ter ouvido alguém dizer a seguinte frase “Não sei por que engordo… não como muito…”. Pois é, estimar a quantidade de alimentos que se ingere não parece ser algo tão trivial, e tem sido considerado um grande fator, além dos já conhecidos, que podem levar a problemas de obesidade.

Se alguém pedisse para você, por exemplo, colocar ¼, ½ ou 1 xícara de cereal em um prato, será que conseguiria acertar a quantidade sem ter esta medida? É bem provável que não! O interesse nesta questão fez com que Lisa Trucil e colaboradores (Caldwell University) realizassem uma pesquisa para investigar se o uso de um treino de equivalência ajudaria estudantes a estimarem com mais precisão o tamanho de porções de alimentos.

A base do estudo foi o EBI (Equivalence Based-Instruction) que é o mesmo procedimento adotado em pesquisas de equivalência de estímulos. Eles utilizaram copos de medidas com ¼, ½ e 1 porção de alimentos não perecíveis que variavam em cores, tamanhos e formatos diferentes (estímulos A); pratos com estas porções de alimentos (estímulos B); e materiais que representavam cada uma destas quantidades, tais como bola de golfe, de tênis e de beisebol (estímulos C). O procedimento consistia em ensinar as relações AB e AC e verificar a emergência das relações não treinadas BA / CA e BC / CB. Complicou?? Vamos dar um exemplo: o experimentador apresentava como amostra um copo de medida com ½ porção de algum alimento (por ex. feijão preto). Como comparações eram expostos três pratos com ¼, ½ e 1 porção do alimento e era dito ao participante “combine”. Ele deveria levar a amostra para junto da comparação correta e recebia feedback quando acertava ou errava. Isto era feito com as três medidas. Depois testava-se, ou seja, sem dar dicas de acerto ou erro, se ele conseguia fazer o inverso (escolher o copo de medida correto diante do prato). O mesmo procedimento foi realizado utilizando os copos de medida como modelo e estímulos representativos (bolas) como comparações. Ao final, o participante deveria ser capaz de escolher o tamanho de bola correto (golfe, tênis ou beisebol)  diante do prato com a porção de alimento correspondente (¼,½, 1) e vice-versa, mesmo sem ter sido ensinado diretamente.

Será que este tipo de treino melhorou a estimativa? Bem, para saber isto, foram medidas as estimativas do tamanho das porções de cada participante com todos os alimentos do experimento.  Apresentava-se uma embalagem original do alimento e era solicitado que ele colocasse uma porção (¼, ½ ou 1) em um prato. Então calculava-se o valor de desvio de estimativa média. Estas medidas eram feitas antes do treino (linha de base), após o treino, numa fase de generalização (utilizando alimentos não usados no treino, mas semelhantes) e fase de manutenção (após 1 e 2 semanas do teste de generalização). Importante: o participante não tinha acesso ao peso da balança e não recebia nenhum feedback.

Como era de se prever, todos os participantes da pesquisa estavam estimando com maior acurácia o tamanho das porções após o treino, mesmo na fase de generalização e manutenção. Agora, será que podemos atribuir esta melhora ao fato do copo de medida, o prato e a bola com o tamanho correspondente à porção passarem a fazer parte da mesma classe e se tornarem equivalentes? Vamos pensar um pouco sobre isto. A equivalência de estímulos se refere a como podemos formar relações totalmente arbitrárias entre estímulos, e parte-se do princípio de que estes não possuem nenhuma característica em comum. Nesta pesquisa, apesar dos estímulos usados serem aparentemente diferentes, a quantidade em questão era a mesma nos três grupos. É claro que isto não inviabiliza, nem torna o trabalho menos interessante, entretanto, é bem provável que estes resultados poderiam ser alcançados somente por meio de um treino de discriminação de porções, por exemplo. Aliás, este seria um ponto interessante para se investigar em pesquisas futuras, não acha? Mãos à obra!

Quer mais detalhes? Leia:

Trucil, M. L., Vladesco, J. C., Reeve, K. F., DeBar, R. M. & Schnell, L. K. (2015). Improving portion-Size estimation using Equivalence-Based Instruction. The Psychological Record, 65(4), 761-770.

 

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

 

Créditos da imagem 1: http://nutricaoeforma.com/piramide-alimentar/

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