“Afaste-se” dos pensamentos indesejáveis e acabe com a ansiedade.

jao

Hoje nosso post tratará de um assunto muito sério: os transtornos de ansiedade. Os transtornos de ansiedade estão entre os transtornos mais prevalentes nas sociedades ocidentais. Os tipos mais comuns são síndrome do pânico, as fobias e o transtorno obsessivo compulsivo. Esses transtornos têm seu início, muitas vezes, com uma experiência “desagradável”, que desse momento em diante passa a ser evitada. Por configurar uma situação de esquiva, os comportamentos que proporcionam alívio ou evitação dessa experiência aversiva são negativamente reforçados. Esse comportamento é chamado de esquiva experiencial. Algumas vezes, após a aprendizagem dessa resposta, esse comportamento pode se estender para contextos em que o condicionamento não ocorreu de forma direta.

A Teoria das Molduras Relacionais (RFT ou Relational Frame Theory, em inglês), uma interpretação comportamental moderna da cognição e linguagem humana, permite compreender como esse tipo de responder é eliciado ou mesmo como essas respostas de esquiva são aprendidas – ainda que na ausência de um condicionamento direto. A transformação de função é a chave desta explicação. Uma vez que os estímulos sejam relacionados, é possível que estímulos anteriormente “inofensivos” possam vir a eliciar respondentes “desagradáveis”, ou mesmo evocar estas respostas de esquiva, ainda que não haja uma contingência aversiva de fato em vigor no momento em que essa resposta é emitida. Neste caso, esta resposta de esquiva, muitas vezes, é emitida diante de estímulos que não a evocavam.  Isso acontece porque a partir do estabelecimento de relações arbitrárias derivadas, esses estímulos adquiriram a mesma função que os eventos que as evocavam originalmente.

É muito importante compreender, e explicar de maneira precisa, como esses comportamentos indesejáveis são aprendidos. Contudo, mais importante do que compreendê-los, é importante descobrir maneiras de como tratá-los! Como a Análise do Comportamento pode auxiliar as pessoas que desenvolvem esses tipos de transtornos? Esse é exatamente o foco deste texto, descrever um experimento realizado para avaliar a eficácia de uma intervenção muito utilizada atualmente em terapia.

Carmen Luciano e colaboradores (2014), replicaram um procedimento, que pode ser considerado um modelo experimental para transtornos de ansiedade. A vantagem desse tipo de modelo é que ele permite investigar a ansiedade mesmo em pessoas que não desenvolveram esse transtorno.

Nesse estudo foram ensinadas duas redes relacionais, ou seja, os participantes aprenderam a relacionar dois grupos diferentes de estímulos (figuras sem sentido) como funcionalmente similares aos outros membros do grupo. Em um dos grupos, duas dessas figuras eram pareadas a um choque (incômodo, mas não doloroso). Os participantes aprenderam que, ao pressionar uma tecla no computador quando estes estímulos estivessem presentes, eles evitariam o choque. Logo observou-se que eles passaram a emitir essa resposta não somente frente aos estímulos que anteriormente antecediam o choque, como também a todo o grupo de estímulos considerados similares a esses.

Aí vocês podem me perguntar, e qual a relação disso com a ansiedade? Nesse modelo experimental, os participantes produziam essa resposta (pressionar a letra Q, por exemplo) e evitavam o choque, o que provavelmente produzia alívio (Ufa, não vou tomar esse choquinho chato!). Por reforço negativo essas respostas foram mantidas. Contudo, nas etapas seguintes do experimento nem todos os estímulos (mesmo os que antecederam choque anteriormente) sinalizariam novamente um choque, e, mesmo assim, os participantes respondiam a todos os estímulos evitando algo que poderia nem ocorrer. Esse tipo de responder imita as respostas de um paciente ansioso, que se comporta para evitar eventos que, muitas vezes, não tem uma relação de contingência com este comportamento de esquiva. E justamente estas respostas que tornam a vida das pessoas ansiosas muito difícil.

O que fazer agora que os participantes estavam se comportando ansiosamente? Neste estudo, foi investigada a eficácia de uma técnica muito utilizada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): a Desfusão Cognitiva. A desfusão consiste em alterar o controle de estímulos (funções) exercido por um determinado evento encoberto e assim alterar a relação dos clientes com eles. Em uma explicação grosseira, essa técnica permite que o cliente aprenda a se afastar não ficando absorvido nessas experiências privadas. Por exemplo, um pai pode pensar “sou um fracasso”, e se identificar com isso (como se ele estivesse fundido a esse pensamento) e isso pode afetar seu comportamento. A prática da desfusão serve justamente para afastar esse pensamento, sendo possível observá-los de uma perspectiva diferente. Um exemplo dessa tarefa seria imaginar esse tipo de ideia como sendo um objeto, como algo que visivelmente é separado de nós, e assim tentar então, “desfundir” esses estímulos encobertos. Assim passariam a ser vistos a partir desse momento como algo extra, e não uma característica intrínseca, possibilitando uma mudança de suas funções.

O protocolo empregado para diminuir esse responder ansioso criado em laboratório consistia em um exercício breve. De forma resumida, inicialmente foi pedido que o participante imaginasse um dos estímulos que antecediam o choque. Em seguida, que imaginasse esses estímulos desenhados em um papel. Por fim, que ele se imaginasse colocando esse papel em seu bolso. Além do grupo que realizou essa tarefa, haviam dois grupos controle, que faziam tarefas diferentes nessa fase e permitiram uma comparação com esse protocolo de Aceitação/Desfusão.

O que aconteceu foi surpreendente!!! Enquanto nos grupos controle de 10 indivíduos, somente 4 pararam de emitir as respostas ansiosas, no grupo com o protocolo de Desfusão NENHUM participante emitiu sequer nenhuma resposta de esquiva. Um grande sucesso considerando uma atividade tão pontual! A técnica de Desfusão representou uma ferramenta muito promissora para o tratamento de pacientes, principalmente para os casos em que procedimentos mais tradicionais de exposição tendam a falhar. Maiores investigações, certamente, são necessárias. A possibilidade de empregar modelos experimentais para essas questões tão delicadas, como transtornos psicológicos, é um campo ainda pouco explorado. É imprescindível que desenvolvamos novas técnicas para lidar com esses tipos de transtornos verbalmente estabelecidos, que permitam ao indivíduo uma interação mais adequada com o ambiente.

 

Para saber mais:

Luciano, C. Valdivia-Salas, S. Ruiz, F., Rodriguez-Valverde, M., Barnes-Holmes, D., Dougher, M. J., López-Lopez, J., Barnes-Holmes, Y. & Gutierrez-Martinez, O. (2014) Effects of an acceptance/defusion intervention on experimentally induced generalized avoidance: a laboratory demonstration. Journal of the Experimental Analysis of Behavior. 101,94-111.

 

Texto escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, professor voluntário e pesquisador associado no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

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