Quais características estão envolvidas nos diversos tipos de preconceito?

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Pesquisadores identificam mais uma variável preditora do preconceito generalizado.

Não é de hoje que os pesquisadores tentam entender o que é necessário para diminuir o preconceito. Inúmeros estudos já foram realizados, na tentativa de identificar, por exemplo, tipos de personalidade que estão correlacionados com diferentes tipos de preconceito. Uma questão que aparece, nesse contexto, é a busca por variáveis que, diferentemente da personalidade, podem ser diretamente manipuladas em intervenções com o intuito de reduzir o preconceito.

Isso foi exatamente o que Michael Levin e seus colegas buscaram identificar. Apesar de saber que diferentes tipos de preconceito demandam aspectos específicos para uma intervenção, há também pesquisas mostrando que muitos indivíduos demonstram atitudes negativas para uma série de grupos, o que é chamado de preconceito generalizado. Foi sobre este aspecto que Levin e seus colegas focalizaram seu estudo.  Eles identificaram que a flexibilidade (ou inflexibilidade) psicológica, a empatia (compreensão e compaixão pelos outros) e a tomada de perspectiva (capacidade de se colocar no lugar do outro) predisseram, de maneira independente e com significância estatística, o preconceito generalizado.

Seiscentos e quatro estudantes responderam a um conjunto de questionários de autorrelato, que foram utilizados para avaliar o preconceito com relação à afro-americanos, pessoas obesas, mulheres, homens gays, e abuso de substâncias. Também foram utilizados questionários para identificar o grau de inflexibilidade psicológica, empatia, tomada de perspectiva e ainda, rigidez cognitiva (grau de preferência por estruturas mais simples), personalidade autoritária e preferência por hierarquia social. Todos esses dados foram ainda articulados com características demográficas dos participantes, como raça/etnia, gênero, índice de massa corporal e orientação sexual. Além dos resultados já relatados, os pesquisadores verificaram que uma maior inflexibilidade psicológica, uma menor flexibilidade psicológica, uma maior dificuldade em adotar a perspectiva dos outros e um menor nível de empatia foram todos relacionados a um maior preconceito generalizado. Além disso, a combinação entre duas variáveis, a saber, ser menos flexível e menos empático foi preditora de um maior preconceito generalizado, maior e além de todos os preditores analisados sozinhos.

O desenvolvimento de empatia e a tomada de perspectiva já tinham sido relacionados à diminuição do preconceito em outros estudos, mas sozinhos, não eram capazes dar conta das variações no preconceito generalizado. Talvez uma das maiores contribuições deste estudo foi identificar outra variável que tem um papel importante na diminuição do preconceito: a flexibilidade psicológica, que é a capacidade de se comportar de maneira flexível independentemente das experiências internas que podem surgir, como medo, falta de confiança, ressentimento, etc.

Indivíduos com inflexibilidade psicológica, por outro lado, tendem a responder às experiências com comportamentos de evitação, ou o que os autores chamam de “fusão cognitiva”, que ocorre, por exemplo, quando um indivíduo age de acordo com uma crença preconceituosa, apesar de isso ir contra seus valores pessoais. O que é importante aqui, é que intervenções têm demonstrado que a inflexibilidade psicológica é potencialmente manipulável, e que tal manipulação já conseguiu reduzir preconceito com relação à doença mental em um estudo. E quais são as implicações disso?

Primeiro, como as variáveis identificadas são diretamente manipuláveis, elas podem ser utilizadas, em estudos futuros, como partes de uma intervenção para vários tipos de preconceito. Segundo, apesar de a empatia e a tomada de perspectiva serem, ambas, importantes na diminuição do preconceito, elas podem não ser suficientes em algumas situações, tais como quando o indivíduo tem sentimentos e/ou pensamentos negativos intensos. Nesses casos, pode ser importante que o indivíduo tenha flexibilidade para lidar com isso, de modo a não emitir comportamentos de evitação, característicos da inflexibilidade psicológica. O que falta saber é como, exatamente, a inflexibilidade psicológica contribui para o aumento do preconceito. E você, que também se preocupa com os efeitos negativos advindos do preconceito, o que achou desses resultados? Na posição de pesquisador, você faria que tipo de intervenção utilizando os dados encontrados no presente estudo?

 

O texto: Levin, M. E., Luoma, J. B., Vilardaga, R., Lillis, J., Nobles, R., & Hayes, S. C. (2016). Examining the role of psychological inflexibility, perspective taking, and empathic concern in generalized prejudice. Journal of Applied Social Psychology, 46, p. 180-191.

 

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista FAPESP.

 

Créditos da Imagem: http://www.shutterstock.com/pic-211072021/stock-photo-prejudice-concept-word-cloud-background.html

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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