“Estudo ensina crianças com autismo a mentir”. Pode isso, Arnaldo?

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O título deste post pode até parecer uma matéria do “Sensacionalista”, mas não é. Muito provavelmente, ao lê-lo, você pode ter pensado algo como: “Isso é sério? Por que pesquisadores ensinariam crianças com autismo a mentir, dado que este tipo de comportamento é, claramente, socialmente não aceitável?”.

Bem, você está parcialmente correto(a) por pensar assim. Mentir, na maioria dos casos, é considerado como um comportamento problema e não se pode negar as possíveis consequências negativas ocasionadas por uma mentira. No entanto, em nossas interações sociais, perceberemos que existem algumas situações em que mentir pode ser considerado como um comportamento socialmente apropriado, por exemplo, quando mentimos para guardar o segredo de alguém ou para evitar que uma festa surpresa seja descoberta.

Também é socialmente aceitável mentir em situações nas quais queremos evitar que alguma pessoa querida se magoe, por exemplo, quando uma amiga pede nossa opinião sobre seu novo (e não atrativo) corte de cabelo ou sobre a roupa (que não lhe caiu muito bem) para ir a uma festa. A forma como respondemos nesses casos geralmente envolve: 1) uma avaliação da aparência da pessoa, 2) uma predição de como a pessoa se sentirá ao dizermos a verdade e 3) a predição das consequências para a pessoa ao dizer a verdade ou ao mentir (deixar que um amigo vá mal vestido a uma entrevista de emprego, por exemplo, pode ter consequências mais prejudiciais do que “ferir seus sentimentos” ao dizer a verdade sobre seu look).

Sendo assim, podemos considerar que dizer mentiras socialmente apropriadas é uma habilidade complexa que envolve repertórios de discriminação condicional e de linguagem bastante refinados e, por esta razão, é de se esperar que indivíduos com autismo possam apresentar algumas dificuldades em entender e em dizer tais tipos de mentiras. Foi justamente por esta razão que Ryan Bergstron e seus colaboradores desenvolveram um estudo que teve por objetivo ensinar crianças com autismo a dizerem mentiras socialmente apropriadas em dois tipos de situações: 1) quando ganhavam um presente de que não gostavam e 2) quando a aparência de uma pessoa era mudada para uma forma não atrativa.

Foram selecionadas três crianças de cinco a nove anos que, de acordo com seus pais, costumavam emitir “opiniões sinceras” que frequentemente eram interpretadas como rudes por outras pessoas (por exemplo, perguntar “Por que você está vestindo uma camisa de menina? ” ao ver um homem usando uma camiseta cor de rosa).  Como mencionamos anteriormente, no presente estudo, as crianças foram expostas a dois tipos de situações sociais em que mentir poderia ser considerado socialmente apropriado. Na primeira delas, um adulto dava uma caixa de presente para a criança (que podia conter um item que a criança já tinha ou algo que ela não gostava) e perguntava “O que você acha? ”. Na segunda situação, por sua vez, a aparência de um adulto era mudada de uma maneira que a criança não gostava (mudanças de penteado, uso de chapéus, sapatos ou acessórios “esquisitos” e maquiagens chamativas). Nesta situação, o adulto chegava perto da criança, expressava satisfação com seu visual dizendo, por exemplo, “Olhe só o meu lindo chapéu novo! ” e perguntava “O que você acha?”.

Para registrar as respostas das crianças, os pesquisadores desenvolveram um “sistema de pontuação” que serviu para “classificar” o repertório de dizer mentiras socialmente apropriadas dos participantes diante das duas situações apresentadas, ao longo de todas as etapas do estudo. Por exemplo, para ter uma resposta classificada como de 3 pontos, o participante deveria dizer uma mentira expressando aprovação (“Eu gostei”), usando “tom sincero” (falar em um tom de voz alto e não monótono) e sorrindo.  Para receber 2 pontos, o participante deveria dizer uma mentira expressando aprovação usando tom sincero ou sorrindo (mas não ambos). Já para receber 1 ponto, a criança precisava mentir expressando apenas aprovação (mas sem precisar sorrir ou usar tom sincero). Quando a criança falhava em expressar aprovação, independentemente do tom de voz ou da expressão facial, sua resposta era pontuada como zero.

Os pesquisadores observaram que, antes de qualquer tipo de intervenção, as crianças não foram capazes de dizer mentiras quando expostas a tentativas que apresentavam os dois tipos de situações e receberam pontuação zero em todas as tentativas (exceto para um participante, que durante a linha de base já foi capaz de mentir nas situações em que recebia os presentes que não gostava). Em seguida, realizou-se a intervenção, que consistiu no uso, em conjunto, de estratégias bastante conhecidas em Análise Aplicada do Comportamento como regras que descreviam a situação, role-playing (modelação) e feebacks de correção.

Por exemplo, nas sessões de intervenção para a situação de receber um presente de que a criança não gostava, o terapeuta dizia: “Algumas vezes você poderá receber um presente de que você não goste ou que você já tenha e você não irá gostar de tal presente. É muito legal da parte da pessoa te dar esse presente e você não quer deixá-la chateada, então, apesar de você não estar feliz com o presente, você deve sorrir e dizer alguma coisa legal como “Obrigada, eu gostei! ”. Depois de apresentar a regra, o terapeuta iniciava uma oportunidade de role-playing, na qual apresentava o presente e dizia: “Olhe, eu tenho um presente para você”. Depois que a criança o abria, o terapeuta perguntava: “O que você achou? ”.

Respostas corretas (ou seja, mentiras socialmente apropriadas de 3 pontos) emitidas dentro de 3 segundos, eram consequenciadas com elogio. Caso nenhuma resposta ocorresse nesse período, o terapeuta retomava a regra e dava um modelo de resposta correta. Se, por outro lado, a criança emitisse uma resposta de 1 ou 2 pontos, o terapeuta elogiava e dava um feeback com relação aos aspectos que ficaram faltando (por exemplo: “Muito bem! Mas lembre-se de que você precisa sorrir”).  Assim que a criança recebia pontuação máxima em três sessões consecutivas, as regras e o role-playing eram removidos e os experimentadores passavam a apresentar apenas o feedback contingente às repostas incorretas.

Os resultados indicaram que todas as crianças aprenderam, rapidamente, a dizer mentiras socialmente apropriadas, em ambas as situações, com respostas que continham todos os critérios especificados neste estudo (aprovação, tom de voz e expressão facial). Mais importante do que isso, o procedimento mostrou-se eficaz em produzir generalização de tal repertório para outras situações que não foram diretamente treinadas, ou seja, as crianças foram capazes de dizer mentiras socialmente apropriadas para outras pessoas e com relação a outros estímulos que não aqueles usados durante a etapa de ensino, demonstrando a possibilidade de se ensinar repertórios verbais complexos, por meio de estratégias comportamentais, para crianças com autismo.

Bem, após ler este nosso post na íntegra, esperamos que o título já não pareça mais uma matéria do “Sensacionalista”. Sinta-se bastante à vontade para nos dizer sua opinião “verdadeira” sobre o que achou deste estudo (ou sobre o post).

 

Quer saber mais?

 

Bergstrom, R., Najdowski, A.C., Alvarado, M.,& Tarbox, J. (2016). Teaching children with autism to tell socially appropriate lies. Journal of Applied Behavior Analysis, 49, 1-6.

 

Escrito por Mariéle Diniz Cortez. Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.