Identificação do câncer de pele e controle de estímulos

melanoma

Pesquisadores investigam uma nova proposta para identificar o câncer de pele

Câncer. Certamente esta palavra não nos traz boas emoções, certo? De qualquer modo, aqui trataremos sobre um tipo especial de câncer, mas não menos perigoso, o câncer de pele. O tipo mais grave de câncer é o melanoma cutâneo. Este tipo de câncer origina-se nos melanócitos (células produtoras de melanina[1]) e tem predominância em adultos brancos. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a estimativa de novos casos de melanoma em nosso país, em 2016, é de 5.670 casos, sendo 3.000 deles em homens e 2.670 em mulheres. Entretanto, o melanoma apresenta grande chance de cura se identificado precocemente, enquanto que a identificação tardia pode levar à morte. Tem-se então, como forma mais eficaz de prevenção, o exame realizado pelo próprio paciente e que pode levar à identificação precoce das caraterísticas do melanoma. O autoexame[2] procura identificar características sintomáticas pela observação de alterações da forma e cor das manchas na pele.

Um estudo disponível no periódico The Analysis of Verbal Behavior mostrou que ler (comportamento verbal textual) sobre as consequências aversivas de um melanoma influencia a precisão das identificações dos graus de lesões em fotos. Este resultado foi conveniente em mostrar condições de ensino de discriminações sutis, análogas ao processo educacional de um autoexame. Nesse estudo, os participantes deveriam identificar diferentes padrões de manchas de pele. Os estímulos (fotos de manchas de pele) foram criados por meio de um software que alterava gradualmente as imagens em um contínuo entre menor e maior severidade de melanoma, de maneira a formar várias imagens diferentes. Uma dessas imagens foi escolhida como a “imagem original” para servir de padrão durante as fases experimentais. Tal estímulo foi escolhido por apresentar um padrão equilibrado entre as características sintomáticas e assintomáticas em uma mancha de pele, e por ser classificado como o estímulo número 50 dos 99 gerados.

Todos os participantes selecionados eram caucasianos[3], adultos, de ambos os sexos e sem histórico de melanoma em suas famílias. Eles também não conheciam pessoas com tal enfermidade. Os 139 participantes foram divididos em quatro grupos (três experimentais e um controle) e a coleta foi realizada pela internet. Antes de realizar as tarefas experimentais, três grupos receberam a mesma instrução sobre as características sintomáticas do melanoma, por exemplo: mancha com formato assimétrico, bordas irregulares, variação na cor e diâmetro. Ademais, na mesma instrução era descrito que o melanoma é altamente mortal, caso não seja identificado precocemente. Essa descrição tinha por objetivo estabelecer um estímulo contextual verbal indicando a gravidade deste tipo de câncer. A diferença entre cada grupo experimental foi a ordem de visualização dos estímulos ao longo do estudo. Em contrapartida, o grupo controle recebeu apenas a instrução de que o estudo seria sobre percepção visual.

Durante a fase de familiarização do experimento, cada participante deveria olhar para as fotos das manchas que gradativamente se transformavam de menor severidade até maior severidade. A ordem de visualização dos estímulos era diferente para cada grupo. Posteriormente, um treino de discriminação foi realizado para estabelecer o padrão de resposta esperado no estudo. Diante da “imagem original” e das outras gradações de imagens, era apresentado outro estímulo de comparação. Neste momento, duas opções de respostas eram possíveis: “Igual a imagem original?” e “Diferente da imagem original?”. Os participantes deveriam selecionar apenas uma pergunta, e recebiam consequência pelas escolhas corretas e incorretas.

A última fase experimental foi um teste de generalização, no qual uma nova instrução informava que os acertos ou erros não seriam mais informados. Durante o teste de generalização obteve-se resultados interessantes: os grupos expostos ao contexto verbal (ler a instrução) sobre o melanoma apresentaram maior discriminação das manchas mais sintomáticas, porém não foi apenas a descrição verbal que produziu estas respostas, e, sim, o múltiplo controle entre a informação fornecida sobre o melanoma e o treino prévio de estímulos com diferentes graus de sintomas. De forma geral, os achados revelam ser promissor utilizar a “verbalização das consequências de um câncer” no ensino de identificações de lesões cancerígenas, o que indica interações entre os temas de controle de estímulos e de comportamento verbal. Os resultados deste estudo, além de apresentar novos procedimentos para se estudar controle de estímulos, abrem possibilidades para replicações em futuros experimentos. Sente-se inspirado para iniciá-las, caro leitor?

 

Quer saber mais?

Critchfield, T. S., & Reed, D. D. (2016). Does Hearing About Cancer Influence Stimulus Control? An Exploratory Study of Verbal Modulation of Stimulus Generalization. The Analysis of Verbal Behavior32, 46-59.

 

Link para um vídeo que mostra como o software empregado no estudo produzia as imagens: https://www.youtube.com/watch?v=MTVdk5QOv5M

 

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos.

[1] Substância que determina a coloração da pele.

[2]  O autoexame favorece a percepção de possíveis alterações na pele que podem sinalizar um melanoma, mas não substituir a consulta médica. Sempre é necessária uma avaliação com um médico para obter um diagnóstico preciso e seguro.

[3]  Grupo étnico-racial caracterizado, em certo grau, pelo fenótipo claro da pele. Segundo os autores do estudo, essa população foi escolhida em função da alta taxa demográfica de brancos e caucasianos no campus universitário. Além disso, a maioria dos casos de melanoma ocorre em pessoas de pele clara.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s