Como a falta de diversidade política compromete a produção de conhecimento

“Without contraries is no progression”– William Blake

homogen

Em anos recentes, a pesquisa acadêmica em psicologia social tem enfrentado uma série de episódios embaraçosos, envolvendo falhas de replicação, fraudes e resultados inflados. A gravidade da situação levou a Society for Personality and Social Psychology a convocar uma força-tarefa, que prescreveu uma lista de recomendações para a “boa prática científica”. Um importante aspecto, contudo, teria sido negligenciado: a falta de diversidade política no meio. Com fulcro nisso, Duarte et al. (2015), em um polêmico target article publicado ano passado pela Behavioral and Brain Sciences, atestaram: falta diversidade política na psicologia, e especialmente na psicologia social, e a validade e a confiabilidade das pesquisas na área seriam aprimoradas mediante a promoção de tal diversidade.

Como poucas, a publicação repercutiu muito na mídia de ampla circulação[1]. Escrito por seis pesquisadores (cinco psicólogos sociais e uma socióloga), de grupos de pesquisa distintos, o texto inicia revisando dados sobre inclinações político-partidárias reportadas por acadêmicos de Psicologia. Todos os resultados listados mostram uma progressiva diminuição da diversidade ao longo do tempo. A distinção mais relevante nesse contexto seria entre liberais e conservadores (em suas acepções estadunidenses[2]), no espectro político, e, em termos partidários, entre democratas e republicanos: “O campo está se deslocando para a esquerda, a proporção de liberais em relação a conservadores é agora maior do que 10:1, e quase não há estudantes conservadores” (Duarte et al., 2015, p. 4).

Os autores arrolaram razões, fundamentadas em estudos prévios, pelas quais essa suposta homogeneização seria preocupante. Uma delas se refere ao modo como a interferência de dados valores (no caso, valores liberais-progressistas) poderia comprometer resultados de pesquisa: “Valores tornam-se incorporados quando declarações de valor ou reivindicações ideológicas são erroneamente tratadas como verdade objetiva, e desvios observados dessa verdade são tratados como erros” (p. 4, itálicos adicionados). Outra razão seria a concentração sobre tópicos que reiteram uma narrativa progressista, enquanto tópicos que a contestam passam a ser deliberadamente evitados. Adicionalmente, atitudes negativas direcionadas a adversários políticos descaracterizariam seus traços e atributos, em pesquisas sobre características distintivas de grupos políticos.

Promover a diversidade de pontos de vista políticos é a alternativa apontada para a resolução desses problemas. Uma das justificativas para tanto relaciona-se à reconhecida impossibilidade de neutralidade. Pesquisas acerca do chamado viés de confirmação demonstram a tendência em sempre se buscar por evidências que confirmem crenças prévias. Se, por um lado, não haveria como erradicar totalmente tal viés, por outro lado, “poderíamos diversificar o campo até que os vieses de pontos de vista individuais comecem a cancelar uns aos outros” (p. 8). Outra justificativa se baseia na constatação de que a diversidade interfere na coesão grupal, o que seria desejável, pois tal coesão muitas vezes se revela disfuncional, levando “comunidades a sacrificar o ceticismo científico em nome de fazer avançar uma agenda política” (p. 8).

Os autores prosseguem avaliando motivos pelos quais há tão poucos não-progressistas na área de psicologia social – a exemplo do que nomeiam como clima hostil e da discriminação enfrentada –, e chegam a reproduzir um relato dramático de assédio moral na academia. Em seguida, listam estratégias pontuais que poderiam ser adotadas por organizações, por professores e por demais acadêmicos, em vias de reverter o atual quadro, diversificando politicamente o meio e, assim, evitando problemas decorrentes da não-diversidade. Convém observar que todos os seis pesquisadores declaram não se identificar com uma tradição conservadora. O compromisso com a defesa da diversidade política não deveria ser prerrogativa de um ou outro grupo específico, mas um compromisso assumido por qualquer que, reconhecendo os efeitos da ausência de diversidade política, preze pela validade e confiabilidade da pesquisa acadêmica, seja qual for a sua orientação política pessoal.

Há, por certo, pontos a serem questionados: um deles poderia ser sobre o quanto a tradicional distinção “liberal vs. conservador” não seria per se uma simplificação contraproducente, ela própria ainda cerceadora da diversidade ao negligenciar posições alternativas, como centrista, libertário, socialista, anarquista, e tantas outras. Apesar disso, se é verdade que alguma diversidade é melhor do que diversidade nenhuma, persiste o mérito do estudo em lançar luz sobre os problemas decorrentes da pouca variedade de pontos de vista políticos, que embora no caso em questão se refiram a uma predominância liberal-progressista, poderiam ser extrapolados a contextos diversos, em que o viés hegemônico seja outro.

Finalmente, dado que este é um boletim behaviorista, nos perguntemos: o que nós, behavioristas, poderíamos aprender com isso tudo? Sendo uma área com limitada tradição de pesquisa sobre questões sociais, especialmente em comparação à esfera básica e de aplicação a problemas individuais, a probabilidade de reproduzirmos equívocos já verificados em disciplinas que tradicionalmente lidam com temas sociais é muito grande. Como nós, behavioristas, lidamos com a diversidade política? Atentar à discussão corrente na psicologia social, evidenciada por Duarte et al. (2015), pode ensinar lições providenciais para todos nós.

Leia o artigo original na íntegra, que juntamente com réplicas de vários especialistas, e a tréplica dos autores, pode ser acessado por aqui: https://www.cambridge.org/core/journals/behavioral-and-brain-sciences/article/political-diversity-will-improve-social-psychological-science-1/A54AD4878AED1AFC8BA6AF54A890149F

Referência: 

Duarte, J. L., Crawford, J. T., Stern, C., Haidt, J., Jussim, L., & Tetlock, P. E. (2015). Political diversity will improve social psychological science. Behavioral and Brain Sciences, 38, 1-13.

Fonte da imagem: http://randomiza.com.br/dia-mundial-do-rock/

Postado por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

 

[1] Exemplos de menções ao estudo de Duarte et al. (2015): The New Yorker: http://www.newyorker.com/science/maria-konnikova/social-psychology-biased-republicansScientific American: http://www.scientificamerican.com/article/is-social-science-politically-biased/Quartz: http://qz.com/503328/social-psychologists-are-almost-all-liberals-and-its-really-hurting-the-field/Bloomberg: https://www.bloomberg.com/view/articles/2015-11-16/why-social-scientists-increasingly-look-liberalThe New York Times: http://www.nytimes.com/2015/10/31/opinion/academias-rejection-of-diversity.html.

[2] Talvez o equivalente mais adequado ao termo “liberal”, na acepção estadunidense, seja algo como “progressista”, dado que o liberal norte-americano historicamente oscila entre tradições como o liberalismo social, a social-democracia e demais tendências lá consideradas “à esquerda”, ao passo que o conservative se identificaria com tradições mais comumente consideradas “à direita”.

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One thought on “Como a falta de diversidade política compromete a produção de conhecimento

  1. Achei o texto de extrema relevância. Fica evidente, para mim, o quanto nosso repertório é vago em política, debates e até mesmo em conhecer seus diferentes paradigmas. Certamente quando temos contato com a diversidade isso amplifica nossas chances até mesmo no quesito resolução de problemas, conforme apresentado pela literatura. Creio que falte muito o esclarecimento de o que é política, sua função é diferentes propostas, ao menos não me lembro de ter estudado isso se não na faculdade. Espero que como behavioristas possamos divulgar a importância disso tudo, o artigo já foi um primeiro passo, parabéns.

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