Como ensinar crianças com déficits intelectuais a identificar e evitar situações de abuso sexual?

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O abuso sexual infantil é uma triste realidade ainda muito presente. A luta contra este tipo de violência apresenta grandes desafios e um deles é o fato de muitas crianças não relatarem esses abusos. Isso pode ocorrer por diversas razões, como vergonha, a vítima ter medo de ser culpabilizada, ou por sofrer ameaças. Existem ainda situações em que a criança não é capaz de identificar a ocorrência do abuso e muitos abusadores podem se aproveitar desse fato. Apesar de acontecerem nos mais diferentes contextos e com mais variadas populações, algumas populações correm maior risco de sofrer esse tipo de violência. Em um estudo epidemiológico realizado em 2000, Sullivan e Knutson identificaram que crianças com déficits intelectuais têm seis vezes mais chances de sofrerem abuso sexual. Essa população raramente recebe orientações a respeito de sexualidade e, em geral, apresentam déficits de habilidades sociais, com maior dificuldade de comunicação.

Foi pensando nisso que a pesquisadora Yu-Ri Kim, da Ewha Womans University, em Seul, desenvolveu um programa que se mostrou bastante eficaz para ensinar crianças com déficit intelectual a identificar possíveis comportamentos de abuso e como proceder nessas situações. Participaram três crianças com déficits intelectuais leves ou moderados, que apresentavam habilidades de comunicação mínimas o suficiente para estabelecer conversas simples. O treinamento aconteceu individualmente com cada criança, em casa ou na escola.

A primeira parte do programa consistia em ensinar para as crianças, utilizando figuras do corpo humano, sobre as partes do corpo, quais partes era íntimas e que elas eram donas de seus corpos. Na segunda parte, as crianças eram ensinadas a diferenciar entre situações normais e de risco, de forma a procederem da melhor maneira diante de um risco de abuso sexual. As situações de risco a serem identificadas foram: pedidos para retirar a roupa, pedido de beijo e tentativas de tocar partes íntimas das crianças. Os comportamentos ensinados para se esquivarem de situações de risco foram: recusar os pedidos inapropriados, sair do local e contar para um adulto. Esse treino foi feito primeiramente  por meio de cartões que mostravam historinhas onde crianças encontravam outras pessoas em situações normais ou de risco. Era discutido com as crianças quais eram as situações normais e quais eram as de risco, e como proceder nas de risco. Na sessão seguinte, a criança era indagada sobre como proceder em diferentes situações. Isso era feito em uma situação lúdica de faz de conta. Os comportamentos adequados diante das situações eram reforçados e os não adequados eram corrigidos. Por último, situações de role play, ou seja, que simulavam situações reais, também foram usadas para continuar o treino.

Todas as crianças aprenderam a se comportar adequadamente nas situações, assim como a identificar quando uma situação era normal ou uma provável situação de risco para abuso sexual. Por último, a experimentadora arranjou situações de teste em que pessoas que faziam parte do estudo, mas que as crianças não conheciam, se aproximavam das crianças em lugares diferentes, simulando situações de risco. Enquanto isso a experimentadora ficava escondida, observando a reação da criança. Isso foi feito logo após o treino e também dez semanas depois. Caso as crianças não recusassem o pedido, a pessoa inventava uma desculpa e se retirava do lugar, evitando assim qualquer tipo de contato. A boa notícia é que as crianças se comportaram de maneira adequada nesses testes, ou seja, recusaram o pedido, deixaram o local e contaram para um adulto!

Esse assunto, por mais que seja uma grande preocupação de todos, ainda é um grande tabu. É essencial que mais pesquisas sejam realizadas e que informações sobre procedimentos eficazes sejam amplamente divulgadas, para que esses procedimentos possam continuar a serem testados e adaptados para diferentes realidades. O artigo original descreve com maior detalhe o procedimento, então vale a pena dar uma olhada!!!

 

Gostou da pesquisa e quer ter mais informações? Confira o artigo:

Kim, Y. (2016). Evaluation of a sexual abuse prevention program for children with intellectual disabilities. Behavioral Interventions, 31, 195-209.

 

Fonte da imagem: http://www.boavidaonline.com.br

Postado por Natalia M. Aggio. Professora da Universidade Federal de São Carlos.

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