Uma relação interessante: Os meios de comunicação de massa e os consumidores de notícias

djenane

Em tempos de questionamentos quanto à influência dos grandes e poucos conglomerados de produção e propagação de notícias (grande mídia) sobre os comportamentos das pessoas em relação à atual conjuntura social e política brasileira, deparei-me com o artigo de Wilhite e Houmanfar (2015), no qual realizam uma análise dos meios de comunicação de massa e seus efeitos sobre a cultura norte-americana, trazendo elementos que poderiam subsidiar a compreensão, por analogia, da realidade brasileira.

            Utilizou-se um referencial interdisciplinar para compreender aspectos importantes sobre como a mídia, através dos comportamentos das pessoas que elaboram e divulgam os produtos jornalísticos (com destaque para notícias em telejornais, no rádio e na imprensa), pode influenciar o comportamento dos consumidores destes produtos jornalísticos, tanto no sentido dos comportamentos verbais nos quais os consumidores se engajam (por exemplo, o que se fala sobre um tema) quanto determinando práticas culturais[i] (por exemplo, várias pessoas assistindo, recorrentemente, a um telejornal que veicula notícias tendenciosas). O produto acumulado de certa prática cultural pode resultar num problema social se produzir prejuízos ao meio-ambiente, à cultura, ou aos indivíduos.

Objetivista ou advocatório são duas categorias gerais de classificação do modo como o conteúdo das notícias e de artigos jornalísticos pode ser apresentado, de acordo com a literatura sobre comunicação e jornalismo de massa. Em linhas gerais, numa notícia apresentada de acordo com um quadro de referência objetivista, os dois lados de uma questão são apresentados produzindo equilíbrio no relato, prevalece a apresentação de evidências ou informações baseadas em evidências e o leitor é encorajado a elaborar suas próprias conclusões. Por outro lado, no modo advocatório, apresenta-se um único lado de uma questão, há inclusão de opiniões e informação anedótica em vez de evidências, e de conclusões em vez de argumentos.

Tanto a literatura dos meios de comunicação de massa quanto a analítico-comportamental apontam para o efeito do modo como uma notícia é apresentada sobre o comportamento dos consumidores das notícias. A propagação de notícias com informações baseadas em evidências, ligadas a um enquadre objetivista, é considerada mínima nos produtos jornalísticos produzidos pela grande mídia, sendo as notícias enviesadas as mais comuns. Como há indícios de que o consumidor médio dos meios de comunicação de massa, nos EUA, não esteja qualificado para realizar análises sofisticadas das notícias, considerando, por exemplo, o contexto ou as questões de fundo envolvidas, a propagação de notícias enviesadas torna-se particularmente preocupante.

Análises em diferentes níveis foram realizadas. No nível de análise da metacontingência[ii], caracterizada por um todo coeso de relações entre eventos ambientais e comportamentais, em que práticas culturais podem ser selecionadas (Wilhite & Houmanfar, 2015), encontramos intrincadas relações entre três processos seletivos: um de produção do produto agregado, realizado no contexto organizacional; outro de entrada em contato e de ação em relação ao produto agregado, realizado pelos consumidores; e o terceiro em que os comportamentos dos consumidores retroagem sobre o nível organizacional (ver Wilhite & Houmanfar, 2015, pp. 95-96).

Assim, por exemplo, diante de uma pauta com as histórias disponíveis para serem noticiadas (evento antecedente), um diretor de jornalismo de uma organização da mídia convoca os editores de jornalismo e arte/fotografia, por exemplo, e comunica a pauta (comportamento). Os editores, conjuntamente, decidem sobre as histórias que serão noticiadas (comportamentos sociais entrelaçados[iii]); a decisão é o evento consequente para o comportamento do diretor e, também, o evento antecedente para os comportamentos dos chefes de reportagem, jornalistas e revisores atuarem (indicando o entrelaçamento de vários comportamentos). Chefes de reportagem, jornalistas e revisores são comunicados da pauta definida e realizam uma série de ações (pesquisas, entrevistas, leituras, escritas) que, depois de alguns outros desdobramentos, produzirão a notícia pronta para ser veiculada (o produto agregado resultante). Os consumidores, ao escolherem que noticiário televisivo assistir, ou que jornal comprar, produzem dados de consumo que são computados e analisados pelos líderes das organizações de mídia. Esse feedback torna-se elemento capaz de influenciar a tomada de decisões dos líderes das organizações de mídia, assim como afetar a produção de regras organizacionais, que podem levar a um produto agregado modificado.

Num outro nível de análise, em que se busca mostrar possíveis efeitos dos comportamentos dos consumidores sobre a tomada de decisões pelo pessoal da mídia, há a interação entre metacontingência e macrocontingência[iv]. Por um lado, temos a organização de mídia, com suas regras, tendências, comportamentos sociais entrelaçados; o produto agregado (a notícia) e os comportamentos dos consumidores; e o feedback dos consumidores retroagindo sobre a organização (metacontingência). Por outro, temos os comportamentos não entrelaçados dos consumidores de notícias produzindo um resultado acumulado comum, os índices de audiência (macrocontingência), que afetam as decisões do pessoal da mídia e podem levar a um produto agregado modificado (por exemplo, um outro enquadre na apresentação das notícias). Assim, num dos casos analisados, uma organização que adotava, inicialmente, um enquadre mais objetivista, modificou-o, rapidamente, para advocatório com viés republicano. Em outro caso, uma organização que adotava, inicialmente, um enquadre mais objetivista, modificou-o, em poucos anos, para advocatório democrata. Neste segundo caso, eventos ocasionais de difusão de notícias de caráter advocatório-democrata foram selecionados pelos consumidores com sua audiência e o resultado acumulado da ação dos consumidores (aumento na audiência), funcionou como um feedback para os líderes da empresa, além de fatores correlatos (aumento nas receitas), podem ter produzido mudanças nas regras organizacionais (orientações dos líderes quanto ao que valorizar na produção da notícia) e nos comportamentos sociais entrelaçados (tomada de decisão coletiva) do pessoal daquela organização, que culminaram na apresentação de um produto agregado final modificado (o novo enquadre, com viés democrata, das notícias). Segundo Wilhite e Haumanfar (2015),

 

existe uma relação entre o aumento de crenças político-partidárias entre o público americano e o aumento no estilo de jornalismo advocatório, em particular nas redes de notícias a cabo, e as pessoas que consomem esses produtos de notícias tendenciosas são também aquelas que votam para eleger os representantes políticos (p. 105),

 

o que ilustra parte dos efeitos danosos do tipo de jornalismo advocatório (potencial problema social), principalmente quando concentrado nas mãos de poucas organizações produtoras e difusoras de notícias, como mencionamos anteriormente. Entendo que seja de interesse geral que o enquadre objetivista prevaleça, pois permite aos consumidores de notícias engajarem-se em comportamentos verbais e não verbais de forma mais autônoma (os próprios consumidores analisam os argumentos e chegam a conclusões) e sob controle de variáveis relevantes (fatos, evidências, argumentos baseados em evidências) para os temas em questão.

Visando reduzir o tipo de influência tendenciosa descrito pelo jornalismo advocatório e seus efeitos perniciosos, e indo além das pesquisas mais tradicionais no campo da relação entre os produtos jornalísticos e os comportamentos dos consumidores, as autoras consideraram o contexto da metacontingência para indicar pontos de intervenção capazes de produzir mudanças no modo como o pessoal que trabalha na grande mídia seleciona e apresenta os conteúdos noticiados.

Como as práticas dos consumidores retroagem sobre o meio organizacional e suas regras afetam as decisões do pessoal da mídia e os produtos agregados decorrentes, produzir mudanças nestas práticas é um caminho possível de ser tentado, ainda que difícil de ser executado. Outra possiblidade de intervenção é atuar sobre os comportamentos dos líderes organizacionais, oferecendo, por exemplo, reconhecimento social para a adoção do enquadre objetivista ou mesmo incentivos fiscais para o fomento de práticas organizacionais ligadas à produção de notícias baseadas em evidências. É possível também intervir no meio cultural, mais amplamente, através da elaboração e implantação de leis de fomento à adoção do enquadre objetivista, ou de prescrição de multas por adoção do enquadre advocatório.

A produção de notícias compostas por informações unilaterais e carentes de evidências ou fatos pode trazer prejuízos sociais. O estudo de Wilhite e Haumanfar (2015) aponta para o potencial das análises comportamentais para compreender e enfrentar tais problemas a partir da análise da realidade norte-americana. E aqui no Brasil, será que encontraríamos a mesma relação entre a defesa de certas crenças e o enquadre jornalístico advocatório? Que papel as variáveis histórico-culturais desempenham neste contexto? Tendo feito uma apresentação rudimentar do modelo proposto por Wilhite e Haumanfar (2015), deixo para o leitor a tarefa de realizar a analogia proposta na introdução deste texto e a de elaborar suas conclusões.

 

Quer saber mais? Leia:

Wilhite, C.J., & Houmanfar, R. (2015). Mass News Media and American Culture: An Interdisciplinary Approach. Behavior and Social Issues, 24, 88-110.

 

Postado por: Djenane Brasil da Conceição, Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

 

[i] Práticas culturais envolvem a realização repetida de comportamentos semelhantes, na forma ou nos resultados produzidos por sua prática, por um grande número de pessoas (Malott & Glenn, 2006, parafraseadas por Wilhite & Houmanfar, 2015, p. 95). Exemplos seriam: o altear as sobrancelhas quando se cruza o olhar com o de outra pessoa, ou andar de bicicleta no trajeto casa-trabalho, que reduz a emissão de gases poluentes.

[ii] Wilhite e Houmanfar (2015) adotam uma conceituação de metacontigência bastante recente, que incorpora reformulações anteriormente realizadas sobre o conceito original proposto por Gleen na década de 1980, e propõem alguns ajustes.

[iii] Comportamentos sociais entrelaçados, sócio-IBs, e comportamentos entrelaçados, IBs, são os termos utilizado por Houmanfar, Rodrigues e Ward, em 2010, para substituir o termo contingências sociais entrelaçadas, IBCs, da definição de metacontingência de Glenn e Mallot, de 2004, argumentando que comportamentos são selecionados e não contingências. Segundo Glenn e Mallot (2004, citados por  Wilhite & Houmanfar, 2015), define-se metacontigência como “contingências comportamentais entrelaçadas (IBCs), seu produto agregado e seu sistema receptor” (p. 95).

[iv]Macrocontingência descreve a relação entre comportamentos recorrentes e semelhantes de várias pessoas, que não constituem um todo coeso, e o produto acumulado destes comportamentos (Wilhite & Houmanfar, 2015, p. 96).

 

Fonte da imagem: http://www.theverge.com/2015/10/25/9457247/the-simpsons-al-jean-interview

 

O paradigma de equivalência de estímulos precisa de ajustes?

equiv-diagram

O paradigma de equivalência de estímulos é um dos modelos mais bem consolidados da Análise do Comportamento, pois ele oferece critérios operacionais para que seja verificado se um conjunto de relações condicionais explicitamente treinadas são reflexivas, simétricas e transitivas. Ou seja, após serem treinadas as seguintes relações:

  • Se A então B
  • Se B então C

As relações poderão ser reflexivas:

  • Se A então A
  • Se B então B
  • Se C então C

As relações poderão ser simétricas:

  • Se B então A
  • Se C então B

E as relações poderão ser transitivas:

  • Se A então C
  • Se C então A

O As propriedades reflexivas, simétricas e transitivas são testadas em extinção. Isso significa que as respostas às relações reflexivas, simétricas e transitivas não produzem as consequências diferenciais que haviam fortalecido o responder durante o treino. Por este motivo, é dito essas novas relações são “emergentes”.

O termo “emergente” descreve especificamente as possíveis extensões comportamentais que podem derivar de uma história de reforçamento. Ademais, a emergência dessas propriedades serve para indicar o estabelecimento de classes de equivalência. Mas será que as relações reflexivas, simétricas e transitivas são os únicos tipos possíveis de comportamentos emergentes que resultam do estabelecimento de classes de equivalência? Para Carol Pilgrim (e outros antes dela) a resposta é não.

Em um artigo recentemente publicado no European Journal of Behavior Analysis, a pesquisadora listou uma série de estudos que comprovaram a existência de relações emergentes que são claramente produtos da formação de classes de equivalência, mas que não podem ser descritos em termos de reflexividade, simetria e transitividade. Curiosamente, casos como esses são bastante comuns na literatura da área desde o estudo seminal publicado por Murray Sidman em 1971, mas têm ganhado pouca atenção dos pesquisadores desde então.

Uma situação onde esses outros tipos de desempenhos emergentes são observados decorre de treinos nos quais um reforçador X1 é empregado para estabelecer as relações condicionais A1B1 e B1C1 e o reforçador X2 é empregado para estabelecer as relações condicionais A2B2 e B2C2. Nessas condições pode ser possível observar que, além das relações reflexivas (A1A1, B1B1, C1C1, A2A2, B2C2 e C2C2), simétricas (B1A1, B2A2, C1B1 e C2B2) e transitivas (A1C1, C1A1, A2C2 e C2A2), um participante será capaz de relacionar a imagem de X1 aos estímulos A1, B1 e C1 (X1A1, X1B1, X1C1, A1X1, B1X1 e C1X1) e a imagem de X2 aos estímulos A2, B2 e C2 (X2A2, X2B2, X2C2, A2X2, B2X2 e C2X2). É evidente que esses desempenhos que envolvem X1 e X2 entram na categoria de relações “emergentes”. Estas, porém, são impossíveis de serem descritas como sendo relações reflexivas, simétricas e transitivas, porque estão para além das relações entre estímulos antecedentes.

Então, haveria alguma coisa errada com esses critérios? Devemos excluí-los de nossas pesquisas?

Na realidade, não. Esses critérios operacionais, segundo Pilgrim, foram bastante importantes para a consolidação da área e ainda são as ferramentas mais seguras para diferenciar qualitativamente os desempenhos que decorrem da formação de classes de equivalência de outros tipos de desempenhos que são modelados por outros tipos de histórias de reforçamento. Porém, perseverar na busca pela emergência de relações reflexivas, simétricas e transitivas seria insistir em captar apenas uma pequena parte de um fenômeno que tem se mostrado mais amplo. A solução para este problema não é nova, de tal modo que a pesquisadora retomou algumas considerações que há muitos anos haviam sido feitas por Murray Sidman. Segue alguns dos pontos levantados por Sidman, com os quais Pilgrim parece concordar integralmente:

  • Reflexividade, simetria e transitividade são apenas nomes que foram arbitrariamente atribuídos a alguns tipos de relações emergentes.
  • Relações reflexivas, simétricas e transitivas são desempenhos que resultam da formação de classes de equivalência e não são classes de equivalência propriamente ditas.

Mas o acúmulo de dados tem mostrado que as relações de equivalência podem envolver todas as unidades comportamentais que são interligadas no âmbito de contingências de reforçamento. Para dar maiores esclarecimentos, precisaremos destrinchar um pouco mais as características de um treino hipotético com os reforçadores X1 e X2 que foi apresentado acima:

As relações A1B1 e B1C1 estabelecem ocasião para que as respostas produzam o reforçador X1, não X2. Paralelamente, as relações A2B2 e B2C2 estabelecem ocasião para que as respostas produzam o reforçador X2, não X1. Essas relações são contingências porque os reforçadores não serão apresentados se uma resposta não ocorrer, ou se resposta for emitida diante das relações A1B2 ou B1C2. Agora repare que, relações reflexivas, simétricas, transitivas e ainda outras relações emergentes envolvendo as imagens de X1 e X2 são combinações entre as unidades comportamentais que compuseram cada uma das contingências de reforço. Isso leva a concluir que as relações de equivalência se originam no âmbito dessas contingências e envolvem as unidades comportamentais que as compõem. Tal conclusão é importante não somente porque ela assenta o processo de formação de classes de equivalência em princípios comportamentais, mas também porque dela é possível concluir que quaisquer pares emergentes envolvendo as unidades comportamentais que participam de uma contingência de reforço são resultados do processo de formação de classes de equivalência.

Para concluir, a questão discutida no artigo de Carol Pilgrim não é nova na área. Mas, no presente cenário, os dados de pesquisas recentes têm mostrado sistematicamente a existência de desempenhos emergentes que resultam da formação de classes de equivalência, mas que não podem ser classificados nos termos de reflexividade, simetria e transitividade. É possível que dados de novos estudos tornem ainda mais evidente a validade e utilidade de uma definição mais ampla do fenômeno.

 

Leia o texto na íntegra para conhecer a discussão e os novos dados:

 

Pilgrim, C. (2016). Considering definitions of stimulus equivalence. European Journal of Behavior Analysis, 17(1), 105-114. doi: 10.1080/15021149.2016.1156312

 

Fonte da imagem: http://acelab.qwriting.qc.cuny.edu/research/equivalence-based-instruction/

 

Escrito por Marcelo V. Silveira

Pós-Doutorando

Bolsista PNPD-CNPq

Verdade ou consequência? Um doce pelo seu pensamento!

melina

Será que mentir é uma tarefa simples? Você acha que toda criança é sempre sincera? Você já se perguntou quando começamos a mentir?

Vou começar o post de hoje com uma breve historinha…

Certa vez eu estava fazendo um estudo com uma menininha de uns 3 anos. Ela estava sentada no meu colo enquanto eu lia um livro infantil para ela. Eu senti um cheiro estranho num dado momento, mas eu não podia parar de ler (iria acabar com o procedimento… tudo pela Ciência!). Assim que terminamos a leitura, eu perguntei para ela: “Você usa fralda, Lori?”. Ela, muito orgulhosa, me respondeu: “Não, eu sou uma mocinha! Eu não uso mais fralda”. Daí eu perguntei (já sabendo a resposta, por motivos tragicômicos e óbvios): “E você fez xixi?”, e ela respondeu, sem pestanejar: ”Fiz”. E a vida seguiu feliz (para alguns…).

 

Por que será que nossa amiguinha não mentiu nesta ocasião? Não falou que havia um “acidente”, ou algo do gênero, imaginando que eu poderia ficar chateada com a situação? Você já reparou que parece que crianças muito pequenas não conseguem mentir? Por que será que isso acontece? Será isso mais uma evidência a favor daquela famosa frase de Rousseau: “o homem nasce bom, a sociedade o corrompe”?

 

Para começarmos a pensar sobre isso é preciso considerar que mentir não é um comportamento simples. Mentir envolve uma série de habilidades, incluindo ser capaz de imaginar/prever o que seu interlocutor gostaria de ouvir numa determinada ocasião. Em outras palavras, o que seria adequado dizer, tomando a perspectiva do outro, ao invés da sua própria. Esse tipo de capacidade, de se comportar de acordo com o que o outro espera de você, é um campo de estudo chamado “Teoria da Mente” (ToM- Theory of Mind, em inglês).

 

Dentro deste campo, um grupo de pesquisadores chineses investigaram como um treinamento de ToM pode fazer com que crianças, tão sinceras quanto a nossa amiguinha da história, começassem a mentir. O que eles fizeram? Recrutaram cerca de 40 crianças de 3 anos e as dividiram em dois grupos: um experimental e um controle. Todas elas passaram pela seguinte tarefa, que se parece com um jogo: Havia dois jogadores, dois copos e um doce. O doce era escondido em um dos copos por um dos jogadores, sem o outro ver. Se o outro jogador descobrisse em qual dos copos estava o doce, era o ganhador, e podia ficar com o doce. Caso contrário, o primeiro jogador que seria o ganhador e ficaria com o doce. Neste contexto, a criança sempre era o jogador que escondia o doce, e o experimentador, o outro jogador que deveria adivinhar em qual copo ele estava. Entretanto, antes de escolher o copo, o experimentador perguntava para a criança em qual copo o doce estava. O que vocês imaginam que as crianças respondiam??? Se você pensou que elas falavam a verdade, acertou! Antes do treinamento, todas elas respondiam a verdade, em todas as 10 tentativas, e consequentemente, ficavam sem os doces.

 

Após essa tarefa inicial, que foi feita com todas as crianças, os grupos experimental e controle começaram a ser introduzidos em suas respectivas tarefas. O grupo experimental foi submetido a um treinamento de ToM, que consistia em realizar tarefas de falsa crença com a apresentação de feedbacks. Nesse tipo de tarefa é apresentada para a criança, por exemplo, uma caixa de giz de cera, e daí pergunta-se o que ela pensa que tem ali dentro. Mostra-se que o conteúdo da caixa é qualquer outro que não seja o sugerido pela embalagem (velinhas de aniversário, por exemplo), então, pergunta-se para a criança:

  1. a) se alguém que não tinha visto o que havia dentro da caixa saberia o que estava ali dentro;
  2. b) o que ela tinha respondido originalmente, antes da caixa ser aberta;
  3. c) o que alguém, que não tinha visto o conteúdo da caixa, iria pensar que havia ali dentro.

A criança deveria responder adequadamente à essas três perguntas, e para cada resposta correta, o experimentador apresentava um feedback como: “Muito bem. Antes de abrir a caixa ele pensava que havia giz de cera dentro dela”. E para cada resposta incorreta, dizia algo como: “Não, você não está certo(a). Antes de abrir a caixa ele pensava que havia giz de cera dentro dela”.

 

O grupo controle era submetido a tarefas piagetianas de conservação. Por exemplo, quando se coloca a mesma quantidade de um líquido em dois recipientes iguais, e pergunta-se para a criança qual dos dois tem mais. Ela responde que são iguais. Daí, na frente da criança você troca um dos recipientes por um mais fino e comprido, despeja o líquido neste novo recipiente, e pergunta novamente para a criança, qual dos dois recipientes têm mais líquido, e desta vez ela responde que há mais nesse segundo recipiente. Os pesquisadores acreditavam que tarefas desse gênero envolvem conceitos físicos, e portanto, não deveriam afetar comportamentos que envolvam habilidades sociais, por isso eram as tarefas do grupo controle.

 

Depois de seis dias consecutivos com esses diferentes treinos, todas as crianças voltaram a realizar o primeiro jogo, com os copos e o doce. E daí o resultado muito legal: as crianças que foram submetidas ao treinamento de ToM começaram a mentir! E esse efeito foi persistente por vários dias jogando o mesmo jogo, e mesmo 25 dias após a última sessão. As crianças do grupo controle aprenderam a mentir só depois de várias rodadas do jogo, e mentiram menos que as do grupo experimental.

 

Mas por que mentir pode ser considerado legal? O primeiro ponto é que mentir pode ser um comportamento adequado em algumas ocasiões (como quando você ganha um presente que você não gosta, e não quer chatear a pessoa que te deu). Segundo que, como nós vimos, ser capaz de falar uma mentira indica o desenvolvimento das habilidades sociais e verbais da criança, significa que ela é capaz de entender as similaridades e as diferenças entre sua própria perspectiva e a perspectiva do seu interlocutor. E, respondendo à pergunta do título, os pesquisadores de desenvolvimento apontam que em torno dos 4 anos de idade as crianças começam a desenvolver naturalmente essas habilidades, e começam a ser capazes de mentir.

 

Por fim, é importante ressaltar que a Teoria da Mente tem sido associada, tipicamente, com o desenvolvimento de comportamentos pró-sociais, de interações interpessoais e de popularidade entre pares, e que essas habilidades pró-sociais reduziriam a tendência das crianças de mentirem indiscriminadamente, uma vez que a mentira não é tipicamente associada como um comportamento pró-social. Entretanto, estudos como este nos mostram que quando o assunto é comportamento social, as coisas não são tão simples assim, e que a Teoria da Mente pode, sim, estar muito relacionada com o desenvolvimento de comportamentos complexos como é o de mentir.

O que você achou desse estudo? Ficou curioso? Leia o original e vamos discutir! 🙂

 

Ding, X. P, Wellman, H. M., Wang, Y., Fu, G., & Lee, K. (2015). Theory-of-Mind Training Causes Honest Young Children to Lie. Psychological Science, 2, 1-10.

 

Fonte da imagem: http://psychtutor.weebly.com/special-educational-needs.html

 

Postado por Melina Vaz, bióloga, aprendendo a ser psicóloga sem treinamento de ToM, doutoranda do Programa de Psicobiologia da USP, e interessada em mentiras sinceras.

Diga-me o que pensas e te direi o que hás aprendido

Pesquisadores encontram forma rápida e fácil de avaliar a história de vida de um indivíduo

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Você, que estuda análise do comportamento, já deve ter ouvido uma porção de vezes que “temos que analisar a história de vida dos indivíduos” para entender suas escolhas, problemas e comportamentos de maneira geral. Apesar de concordar com isso, parece impossível conhecer, de fato, a história de vida de um indivíduo (com exceção, talvez, de animais criados em laboratório desde o nascimento).

Isso não significa que não podemos fazer análises funcionais úteis e que se apliquem à vida de um indivíduo, mas sim que precisamos encontrar formas efetivas de inferir histórias de reforçamento que nos auxiliem a realizar análises mais precisas e, portanto, aumentar a probabilidade de poder modificar um comportamento quando desejado e/ou necessário. Pensando nisso, Aoife Cartwright e seus colegas, de três universidades da Irlanda (Maynooth University, University of Essex e National University of Ireland) planejaram um experimento com o intuito de avaliar a presença de relações verbais “naturais” (ou seja, não estabelecidas experimentalmente) relativas à estereótipos de gênero em estudantes da Universidade de Maynooth.

Para isso, a autora e seus colegas utilizaram uma modificação de um instrumento chamado FAST (Function Acquisition Speed Test), que se baseia na taxa de aquisição de respostas consistentes ou não com a história de vida presumida de um indivíduo. Por exemplo, na cultura brasileira, de maneira geral, estudos têm mostrado que aprendemos estereótipos de gênero relativos ao que seria apropriado às mulheres, como ser carinhosa, gentil e emocional.  Do mesmo modo, aprendemos que homens devem ser dominantes, não-emocionais e competitivos. Assim, relacionar a palavra “mulher” com “emocional” seria uma resposta consistente com nossa história de vida, ao passo que relacioná-la com a palavra “competitiva” seria considerado inconsistente.

Sem utilizar instruções, este instrumento modela a resposta dos participantes ao reforçar respostas consideradas consistentes com a história de vida em um bloco, e inconsistentes em outro bloco, de modo que a diferença na taxa de aquisição de respostas seja um indicador da história de vida do participante.

Com relação ao estudo, os 30 participantes recrutados (15 mulheres e 15 homens) respondiam inicialmente a dois questionários de autorrelato, um sobre sexismo e misoginia (repulsa às mulheres e/ou ao que é considerado feminino), e o outro sobre heteronormatividade (padrão de sexualidade compulsório que dita que a heterossexualidade é a única orientação sexual saudável e, portanto, marginaliza outras expressões de gênero e orientações sexuais). Em seguida, o FAST era aplicado: os participantes eram expostos a um bloco de tentativas de prática, com estímulos considerados neutros, para aprender a realizar a tarefa. Depois, realizavam dois blocos de teste, sendo reforçados (“correto”) sempre que apertarem um botão específico diante das palavras “homem” ou “masculino” com as palavras “dominante”, “não-emocional”, “competitivo” e “agressivo” nas tentativas consideradas consistentes com os estereótipos de gênero, o mesmo ocorrendo com as palavras “mulher” ou “feminino” e os traços “carinhosa”, “gentil”, “emocional” e “bitchy¹”. No bloco de tentativas inconsistente com os estereótipos de gênero, respostas relacionando “homem” e “masculino” com os traços considerados femininos eram reforçadas, assim como as tentativas relacionando “mulher” e “feminino” com os traços considerados masculinos. Respostas consideradas incorretas (e.g. relacionar “mulher” com “agressivo” em um bloco consistente com os estereótipos de gênero) também eram consequenciadas com a mensagem “errado”, assim como a ausência de resposta após de 3 segundos do início de uma tentativa.

Por fim, os participantes realizavam outro instrumento, chamado de IAT (Implicit Association Test), que funciona de maneira semelhante ao FAST (ou seja, os participantes respondem de maneira consistente com a história de vida presumida em alguns blocos, e inconsistente em outros), mas são instruídos a responder de determinada forma (e rapidamente às relações), e a consequenciação ocorre somente após a emissão de respostas incorretas, de modo que o participante tem que responder como instruído para seguir para a próxima tentativa. Este instrumento tem sido utilizado na literatura há anos, e foi utilizado no experimento como forma de corroborar os resultados do FAST.

Os resultados mostraram que, de fato, 29 dos 30 participantes mostraram uma taxa mais rápida de aprendizagem de respostas consistentes com os estereótipos de gênero, com relação às respostas inconsistentes com tais estereótipos. O IAT confirmou estes resultados, mostrando que 27 dos 28 que completaram o instrumento também apresentaram menores latências de resposta nas tentativas consistentes com os estereótipos de gênero do que nas tentativas inconsistentes.

Os dados do instrumento de autorrelato não se correlacionaram com o IAT e o FAST: nos dois questionários, os participantes relatavam níveis inferiores de sexismo e de heteronormatividade. Entretanto, pesquisas mostram que as correlações tendem a ocorrer com temas que não sejam socialmente sensíveis, como preconceitos, opiniões políticas e religião.

Em resumo, essa pesquisa foi a primeira a mostrar a utilidade do FAST para o estudo de relações verbais pré-experimentais, especialmente porque este instrumento é fácil de se utilizar e de rápida aplicação (menos de 5 minutos!). Falta analisar, por exemplo, se este instrumento prediz discriminação verbal ou física. Ficou interessado?

 

¹ adjetivo utilizado para descrever um indivíduo que faz prontamente comentários maliciosos e maldosos.

 

O estudo: Cartwright, A., Roche, B., Gogarty, M., O’Reilly, & Stewart, I. (2016). Using a modified Function Acquisition Speed Test (FAST) for assessing implicit gender stereotypes. The Psychological Record, 66, 223-233.

 

Fonte da imagem: http://www.thebakerorange.com/news/2015/oct/27/downfall-gender-stereotypes/

 

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.